O caminho errado (de novo)
“Como
as pessoas chegaram a essas conclusões? Você entenderá que o
grande mal do mundo não é a miséria, nem a guerra: é a
interpretação de texto.” --- D. Coimbra, Uma
história do mundo (p.
220).
"Onde
está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor deste
século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?"
---
1 Coríntios
1:20.
Zero Hora,18 de
Abril de 2014, p. 2, David Coimbra, "O sal da terra" [1]
--- ou, um breve tratado para hipertensos.
'Sejais
o sal da terra' é o que ouve, mas 'Sal demais faz mal a saúde' é
o que entende no lugar o comentarista leigo sobre Mateus 5:13-14.
O leigo não acredita nas
escrituras, mas já não pode deixar de buscar uma forma de moral que
substitua a religião. Uma forma, no entanto, mais moderada, livre
dos excessos dogmáticos de outrora. Mesmo o historiador como Arnold
Toynbee sabia que o homem não podia viver sem religião, por isso
seria inevitável que o que quer que se opusesse a ela deveria a
substituir e não a destruir. Explorar o lado filosófico das
religiões e extrair daí uma moral convencional, uma moral de regras
universais, naturalmente aceita por todos, pareceu sempre muito mais
razoável para o leigo, que faz do seu "não julgamento"
profissão de fé. Já há tempos tenho a impressão de que esse
termo é um equivalente, num outro mundo possível, ao princípio da
própria torpeza, a qual passa, com essa nova moral, a ser tolerada
como padrão mesmo de normalidade. Esse é o "leigo", que
interpreta as passagens bíblicas reduzindo-as a alguma ciência, sem ter conseguido ainda dominar a capacidade da boa leitura.
O
sal de má qualidade na região do Mar Morto, misturado a sulfato de
cálcio se chama gipsita (Ca(SO4)), era usado na época de
Jesus para marcar caminhos, em contraste ao "sal" da terra,
contraste entre a fé que se conduz no caminho da Verdade e o caminho
consensual ou utilitário. Afinal de contas, parece que o inferno
pode ser atenuado, isto é, pavimentado com ternura, e cheio de boas
intenções e benevolência, como o sal pode ser substituído por uma variação de enxofre que passa como se sal fosse --- até, pelo
menos, ele começar a comer as sandálias dos transeuntes. A
ambigüidade do 'equívoco' cometido por David carrega o sinal
de desvio que extravia da verdade quando justamente pretende
instruir; talvez sob o efeito daquela loucura divina que Paulo
referiu como superior à sabedoria. Essa loucura parece que deu uma
volta na sabedoria que David alardeia como coisa mais sensata, e
enquanto se defendia do medo, não se viu perseguido, como fazem
aqueles “sombras” com as pessoas desavisadas nas ruas, e acabou
imitado sem que o tivesse notado. Fazer do testemunho da verdade,
para além dos discursos, referido na metáfora do "sal da
terra", um caminho consensual, bem, este é o objetivo da moral
leiga --- ironicamente, um sal de enxofre.
O
que o "leigo" quer é atenuar a lei moral numa moral civil,
uma moral consensual, essa mão leve ao salgar que busca uma
"medida" das coisas que poderia, com a sabedoria racional
da boa proporção, um substituto das grandes religiões. Mas o
"caminho do meio" da Nova Era é, afinal de contas, apenas
um modo de errar da verdade. Agora, muitos de nós não dirão
abertamente, mas pensarão como Pilatos: "Mas o que é a
verdade?" A verdade é uma função da evidência, dizia um
cientista político no século passado (os milagres), e é aquilo que você sabe
perfeitamente bem, mas talvez mais importante, e para efeito moral,
aquilo que quando você encontra, não nega ou dissimula por
conveniências. A verdade é lenta --- "Veritas filia temporis",
dizia Tomás de Aquino ---, nela somos o que somos, inclinados a ela
hesitamos, cuidadosos, reflexivos, dá para se tornar um bom leitor
lendo com alguma reverência a Bíblia. A verdade de Pilatos é a do
estado romano, aquilo que ao poder convinha como medida para atender
a uns quantos --- à exceção descarada da própria verdade.
Em
"O sal da terra", David Coimbra adverte a quem o lê, antes
de tudo, do risco das religiões como o seu dogmatismo moral, com o
que ele quer dizer essa mania que a religião organizada tem de
estabelecer interdições sobre certos assuntos e ser taxativa sobre
outros. Ora, um sábio não é taxativo, ele é vago e pacífico...
(ou, pelo menos, a imagem cinematográfica dele o é). David tem medo
das religiões, ainda que não consiga dar uma única demonstração
de que seja capaz de compreendê-las, nem naquele esforço inicial.
Mas não quero fazer parecer que alguém que jamais quis saber, nem
buscou em nenhum sentido, em verdade, devesse a qualquer um de seus
leitores esse "início" de algo que lhe é alienígena. Não
há nenhuma busca em David. Ele teme também as ideologias, ao lado
das religiões, porque estas têm pela fé cega o cutelo do
julgamento do bem e do mal, fundamento do seu "dogmatismo".
Que é o mesmo que dizer que há valores positivos pelos quais uma
tradição deva proteger e até lutar para defendê-los. Além do mais, têm também sempre algum mistério para justificar obscuramente esse fundamento. Não; David está esclarecido pelo espírito do seu tempo, e por este espírito nos dá a saber que há uma sabedoria em todas as
religiões, uma que, bem ao modo das simplificações dos clássicos do MEC, atalha o que cada religião em particular obscurece ao seu modo. Assim se pode distinguir entre uma raiz pura e seus
corruptores e entre a sabedoria dos caminhos bem marcados e a
escuridão da fé. A sabedoria de Deus é loucura para os homens, mas
para David a loucura de Deus foi psicanalisada por Freud, que no fundo
do inconsciente reprimido encontrou um povo favorável a acreditar em
peças de propaganda de místicos do cajado oco. O medo, como se sabe
popularmente, no entanto, não é bom conselheiro; e o medo da
superstição pode acabar por conduzir, antecipando o mal, a outro tipo de superstição,
a superstição de que a verdade é tão plana quanto o cotidiano e o
tempo presente, de uma claridade, a despeito de artificial, ou justamente por isso, mais cheia de luz do que qualquer treva passada,
que já mal se distingue o semblante de qualquer homem, quando então
sobram só caricaturas. Todos já parecendo muito taciturnos e
embuçados em hábitos certamente "medievais".
A
chave do horror civil, de uma época muito mais polida que qualquer
outra tenha sido, vem de uma dogmática moral maniqueísta no
alinhamento entre as palavras "fé", "dogma" e
"religião". "Horror! Horror!" Fecha-se rápido o
silogismo de que pelas religiões, crepusculares e morais, matam e
morrem --- imaginem só, os santos! Eles morrem "em nome de...".
São radicais, mesmo quando não matam! Porque eles reforçam a força
que justifica o sacrifício. E aqui a sabedoria de J.C. tem
necessariamente que encontrar a sua loucura, que há certo tempo o
filho do homem não poderia negar mais que desconhecesse que acabaria
morrendo pela boca. Foi um mestre moral doidivanas. Mas algumas
coisas ficam mais claras no fim do texto de David, ou o que ele e
essa época frívola entende por religião, a tal de
"espiritualidade". Essa coisa sentida, e meramente sentida,
quer encontrar num estado emocional atenuado o guiamento moral.
Julgar é o único pecado! Chesterton disse, certa vez, que a
"tolerância" é o que sobra quando se perde de vista todos
os valores. Uma superficialidade que aparece quando o bem e o mal são
apagados (bem como seu fundamento misterioso). Sem a perspectiva (sim, é uma perspectiva) do bem e do
mal, sobra um sistema de valores postiços que se faz sobrepor
àqueles, ou equivalentes emocionais. O sentimentalismo reconhece a
fraqueza e a carência como valores em si. Por isso o tom de voz é o
primeiro a ser controlado, é o nó na garganta que combina com o
terno moral com que o hábito social reconhece como aceitável. Pelas
palavras de Marta Medeiros, um vestuário de hábitos civis está
cortado por uma estética moral que racionaliza a dureza do
julgamento para certa "elegância moral". O sentimentalismo
faz da moralidade coisa de consumidores capazes de comprá-la, é um
fetiche de espíritos pobres.
"Não
oponhais resistência ao mal, e se alguém te bate na face,
oferece-lhe também a outra..." --- porque que mérito há
em amar o justo, ou amar a quem o ama? O bem e o mal objetivos são a
condição do Sermão da Montanha, a paixão do Cristo é a condição
do Sermão. A verdade, para a qual Pilatos lava as mãos, para o
perspectivismo conveniente ao estado romano, aquela verdade é
deixada morrer. Não se faz ali um julgamento do bem e do mal, mas um
ajuste de interesses, paga-se à civilidade, à moralidade civil, à
legalidade, embusteiras e hipócritas: são umas e outras equilíbrios
só um pouco distantes da Verdade. Para David, o amor cristão é um
tipo de "não vale a pena" ao estilo budista da Nova Era,
gira em torno do próprio umbigo de modo que ignorância e iluminação
ficam atenuadas e indistintas num tipo moderno de quietismo. Mas o
caminho do meio é só um jeito de errar com alguma elegância.
A
lisonja da "profundidade" ao Sermão da Montanha, de David,
não passa do reflexo de céu de um espelho d'água: o sentimento de
comoção ante um pai que chora por um filho reflete o amor
instintivo, justamente o que a passagem que chama o homem de "sal
da terra" valoriza no sentido oposto e contra o sentimentalismo
que ali se encontra. O publicano, tão baixo entre os judeus da
época, também ama o filho ferido. 'Então no que tu te distingues
deste?' O ímpio também ama os que o amam. David quer ver na
passagem em que Jesus diz aos presentes "Sois o sal da terra...
e a luz do mundo" apenas aquilo que o homem é conforme aquele
sentimento compassivo que é humano, sem ser cristão. Em Uma
história do mundo, David Coimbra fez uma interpretação da
história em base psicológica e materialista, o que levou a uma
leitura dos textos sagrados como efeito direto, raso e rasteiro,
dessa dupla base. Aqui, novamente, David não fez outra coisa ao
falar de Jesus Cristo, nas suas palavras, como "um dos mais
revolucionários filósofos morais" da história (um "homem de esquerda"?). Mas fosse
só isso, perder-se-ia quando muito na tradição rabínica, ao ponto
mais longe que um erudito judeu mais liberal poderia ir, em
concordância com a tradição que os Evangelhos revalidam e não
diferente desta. David não quer perder de todo a beleza de
reconhecer J.C., e depois de passar uma rasteira nele, coloca-o, de
si mesmo, num posto que lhe parece bem alto, o de sábio. Sabedoria e
não santidade, como ele mesmo trata de explicar querendo fazer com
isso parecer mais sensato o Sermão da Montanha. O homem é capaz do
bem e do mal, como poderia ser este a luz do mundo? É nesse ponto
que o Sermão faz sentido, pois são os apóstolos na Fé e na
Verdade que são a luz do mundo, não o homem, não o julgamento que
media, no meio do caminho, entre perspectivas distintas. A
tolerância, quando ao lado da Verdade, absolve Barrabás.
Mas
David já havia esclarecido que não estava tratando do "Jesus
cristão", ...como se houvesse outro! --- outro pelo qual se
pudesse, colocando-o no centro dos Evangelhos, reinterpretá-los. Mas
essa dogmática revolucionária não é nova, ela reconhece em Jesus,
quando muito, esse filósofo moral cuja mensagem fica mais sensata modificando-a no que parece misteriosa. Melhor reconhecer só uma profundidade poética e fingir que ela passou desapercebida. Essa declaração patética é um fetiche intelectual,
e tende já aqui a rebaixar Jesus de sábio a "filósofo
inovador", que, sem inventar nada, deve quer dizer outra coisa. Mais um homem espirituoso, capaz de frases de profundidades ociosas,
tão ociosas quanto segredos ainda não desvendados por outros
evangelhos de um modernismos pseudo-epígrafo.
O "sábio" que se produz hoje em dia não passa
de um frasista (aprovado pelo MEC). Daí porque toda a "mensagem" de Jesus é
mais palatável quando mais insossa: os exageros da culinária
cristã, qualquer coisa além nas frases em João, são a insensatez
de uma época obscura. David tem o instinto armado contra as
ideologias que o ativismo revolucionário advertiu outrora e o
desconhecimento técnico de que essa ideologia está sempre
disfarçada para que possa ser adotada --- como, por exemplo, quando
esta faz Jesus parecer um sábio no lugar de Deus. O bom leitor lê a
“ideologia” do livro quando o lê, e não a sua própria, seja
lá qual for. O Jesus não-cristão é um dogma original anticristão e
uma liberdade de entendimento que parece bem mais aceitável à
ciência mais obscura de todas, a ciência da interpretação de
textos. Em vez de ler em busca de entendimento, os Evangelhos são
explicados à luz dessa ciência sem fronteiras claras que quer poder
compreender Shakespeare antes de lê-lo. David tem razão ao sentir
medo destas coisas --- se os fantasmas não existirem, quem os vê
não deixa de estar assombrado.
E,
por fim, o rogar piedoso de David ao bem do menino é em vão, roga
ao nada, a Ninguém. Não tem a quem rogar, pede o bem do menino como
um ato interno, que reflete o mal que ele rejeita, como qualquer um
de nós. O ato de David de "rogar" é meramente estético
--- é o chiste da "elegância moral" que só tem o fim de
embelezamento pessoal. David pede o bem como um autista se balança
para suportar o mundo de sofrimento exterior, que sua "sensibilidade"
sentida exige. ...Vós sois o sal da terra, a luz do mundo, mas se o
sal ficar insosso, com que o temperarão? Não há mais temperos, o
próprio gosto já parece um barbarismo. O sal de gipsita é sal
atenuado, não é bem sal, e nem serve como sal; não é um tempero
de verdade, nem um conservante de verdade, como qualquer coisa que
não é bem de verdade, é outra coisa. Esse caminho é o caminho
mesquinho do sentimentalismo leigo, da moral "sentida",
predominante em nossos dias, é um substituto da religião
verdadeira. É, portanto, um descaminho da verdade, mas um descaminho
só pode ser o que é porque tem a aparência de caminho: caminho
alargado, pavimentado e levemente inclinado... para baixo. Já ouvi
essa história antes.
*
David
Coimbra reproduz no texto “O sal da terra”, como já havia feito
no seu livro Uma história do mundo, o argumento do “Livro
verde” criticado por C.S. Lewis em A abolição do homem,
mas num movimento adiante, quando já deixa aparecer um sistema de
valores substitutos àquele tradicional. A base dessa substituição,
e que fundamenta a sua interpretação das passagens bíblicas
citadas, é a mesma do “Livro verde”: relativismo, utilitarismo,
hedonismo, e para certo verniz moral a partir de uma base amoral,
surgem, como em Marta Medeiros (v. “O verniz 'espiritual' daestultice supersticiosa”), sentimentos
benignos que se faz passar por “valores” objetivos e capazes de
constituir uma moral civil, substitutos da religião. Como advertiu C. S. Lewis, a sociedade que aceitar estes valores está fadada a desaparecer, pálida e vazia, indo da burrice à loucura.
Notas
1.
“O sal da terra”

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