O verniz "espiritual" da estultice supersticiosa
Em
artigo recente, Martha Medeiros elegeu seus valores superiores,
gentileza, tolerância, respeito, “elegância moral”,
honestidade, paciência, troca, afetividade e desapego de mágoas e
rancores, com os quais ela fundamenta uma verdadeira espiritualidade,
pondo de lado as tradições das grandes religiões e todos os
grandes sábios e alguns milagres, de lambuja.
1. O
super-realismo de Martha Medeiros em “O sobrenatural e o real”1
é um tosco lençol que cobre algo que não toca o chão. A expressão do cotidiano vinda do homem da mídia é uma média
ordinária, da boca dos quais se ouve a repetição da moda. O que
restringe as reflexões sobre o cotidiano a um mingau de verossímil
consenso com a consistência de uma substância social pegajosa: o politicamente correto.
Palavras que referem nenúfares e efemérides de polidez como se
fossem valor objetivo, que, mesmo que sem conexão com o real, pois
soando benigno, pareçam aceitáveis à sensibilidade. E já então
quando os sábios se tornaram eles mesmos supérfluos diante da
revolução na cobertura de prédios de classe média-alta, quando
já parece natural que estes andares sejam os verdadeiros fundamentos
do edifício todo. Sobrenatural é crer que as palavras possam se
referir a alguma coisa mais que para a persuasão de nós mesmos,
então a antiga manipulação dos “pecados” e “penitências”
já não engana mais a ninguém --- não engana mais a Martha. Mas
não podendo acreditar em valores objetivos, não lhe resta já muita
coisa senão substituir a função da disciplina religiosa por um
simulacro de virtude social constituído no seu todo por maneirismos
e mesuras, e por uma mortificação histérica na forma da polidez e
da tolerância.
Com um corte
assombroso na herança de todas as tradições religiosas, de todas
as grandes religiões, Martha Medeiros permitiu se convencer, com
aquele poder de persuasão que é o fundamento do “real” em seu
artigo, que a função das religiões é completamente supérflua.
Mandamentos, templos, rituais, ou mesmo Deus, do ponto de vista do
homem privilegiado da sociedade contemporânea, morando na cobertura
à beira-mar, não lhe parecem, dessas alturas, dotados de qualquer
existência ou neles qualquer “utilidade”. E olha que se deve ter
uma boa vista de lá. Tudo é opcional, porque tudo isso serve
apenas para nos persuadir de uma ética que é universal, qualquer um
pode reconhecê-la através da máxima: “Não faz o mal ao próximo
que não queiras para ti”. Desapercebido está, no entanto, a
premissa de que uma vez o mal feito --- já que não se considerou
seriamente a abolição do mal no mundo ---, podes esperar que o
mesmo te ocorra agora como uma questão de justiça. Duas facas no
pescoço fazem dois homens dóceis. Isso nunca funcionou desse jeito,
mas nas reflexões de Martha Medeiros ela (ênfase importante!) se
convenceu de que um “olho por olho” mantém quatro. Quem
afinal de contas não se convenceria de que com a faca no pescoço eu
deveria deslizar a minha menos gentilmente pela do vizinho? O
problema é que, invariavelmente, uma situação dessas acaba com
duas gargantas cortadas, quatro olhos perdidos e uma geração de
revides. Justiça e amor não são concorrentes, a troca de um pelo
outro não é irrelevante. A inversão de uma assimetria cria
injustiça, o tipo de injustiça que só o amor restituiu. Como isso
poderia ser supérfluo?
2. No alto das catedrais há sempre um punhado de gárgulas, elas podem, simbolicamente,
ser uma última ameaça do mundo para quem ali queira entrar, ou um
aviso para não entrar sem convicção; seja o que for, seja nos
antagonizando com um mundo competitivo e consumista, ou permeados de
uma noção sentimental de “espiritualidade”, o templo é onde
Martha busca um nada transcendente “sossego
espiritual”
--- a antiga “mortificação”2.
Essa estrovenga é uma heresia católica e uma receita Quaker. Como
heresia católica se chama Quietismo, um modo pelo qual através da
passiva contemplação se busca uma união perfeita
com "Deus", que chega a rejeitar qualquer salvação ou mesmo a noção
de pecado como desnecessários para o caminho verdadeiro que é o da
vida
interior.
Na receita Quaker, não passa, com mais razão, de um pouco nutritivo
mingau sentimental. É um efeito conhecido da época das luzes, que
os homens da idade da razão tenham defendido as palavras que
expressavam suas aspirações como se fossem mais razoáveis que a
noção de verdade. No exato momento em que se defendia a razão,
essa hubris
rendeu uma rematada frivolidade no uso das palavras e uma acachapante
ingenuidade de que o que soa bom deve
mesmo ser bom.
A verdade é uma
força pouco polida para um sentimentalista que elegeu a etiqueta
cortesã como “espiritualidade”. O que mais poderia advir de uma
“união” com Deus (ou na sua negação mística) senão, de algum
modo, uma equivalência com Ele, agora feita em qualquer coisa mais
universal que reside em nós e que podemos buscar ali quando nossa
alma contempla a paz de um regato ou os sons da natureza --- ou a
vista de uma cobertura à beira-mar. Assim cheio de
sentimentos benignos, o encontro do cético com (a negação de) Deus
faz dele um “perfeito”. E nessa condição, a uma união
sem pecados com o que antes alto e agora já mais baixo, parece estar ao
alcance, porém mais abstrato, mais universal , como um espírito do
tempo que se pode encontrar (e anunciar a todos) com ar de coisa que
ninguém negaria pelo mero efeito agradável das palavras. O
sentimentalista tem na face a luz dos tolos e está marcado por uma
incapacidade atávica que lhe esclarece que a razão está no óbvio
e no simples. A rejeição da transcendência releva que toda
a complexidade da metafísica complicava a visão da mais plana
realidade. O sentimentalismo achata e poli a rude verdade para tirar
dela algum lustro difuso de benignidade, que permite ao
sentimentalista revestir a sua vaidade de um ouropel de virtudes.
Pecado e penitência, para seres iluminados pela exposição de um
jornal de circulação que cobre todo o território da Província,
que eles próprios escrevem, são coisa menor. Mas a
negligência com o pecado faz se perder o fundamento da consciência
reflexiva que é o que falta à Martha no exato momento em que diz se utilizar dela. Reflexão que é uma racionalização, uma justificativa dada
no sofá de alguma altura social. Daí também a espontaneidade sem
vergonha ou receio no que diz. E, afinal de contas, todo mundo sabe
que a vergonha pode causar disfunções psicológicas no tipo de
homem urbano contemporâneo. Estas pessoas podem --- imagine! ---
ficar infelizes!
Diz Martha:
“Rituais são igualmente belos e podem confirmar nossas melhores
intenções perante a vida (mas sem plateia também podemos
confirmá-las, você sabe).” Ao ir à igreja, e a igreja é
cheia de rituais, ou quase só isso, espero que todos me vejam lá
sôfrego, tão bela alma, a minha, e para confirmar as minhas
melhores intenções... Não, não eu, tenho horror a isso; rezar em
público é um sofrimento no meio de pessoas tão desiguais. Mas
imagine agora alguém tentando “confirmar” suas “melhores
intenções” em silêncio, na solidão do pé da cama
refletindo mantras de benignidade, ou calculando o que fizemos em
caridade material. Nada de uma confissão diante da certeza de um
observador onisciente, mas “perante a vida” --- seja lá o
que isto queira dizer. Tem boas intenções quem tem ações
equivalentes que as demonstrem, seria isto? Mas Martha fala de
rituais que o podem confirmar a nós, não de obras. Não há nada
que corresponda a uma confirmação de nossas boas intenções em
rituais. Sobra a segunda via, a de que nossas melhores intenções
podem se autojustificar no exercício de senti-las pelo uso de
palavras adequadas. A exceção de que você possa fazer um relato de
suas boas ações, obras materiais, caridade material real, ainda
assim estas facilmente se tornam num exercício de caridade
calculado, que desse modo permite que alguém ganhe um milhão de
dólares de modo mais ou menos desonesto e depois faça caridade,
quando já muito lhe sobra. Inaugura-se, assim, o ato ritual similar ao de
Pilatos, mas no caso o ato de lavar as mãos é substituído pelo de
lavar a cara, um ritual, sem dúvida, para aqueles atos anteriores,
atos de cara deslavada. É quando a caridade e as maneiras tem o
valor de uma purificação pessoal e de um ritual de iniciação! Só
quando o sacrifício é real, e quando estamos completamente dentro
da situação, podemos exercer nossas melhores intenções. A
caridade pode perfeitamente ser feita desde fora da situação real e
é o que geralmente acontece. Não é quando você tem dez pães,
ceder um deles, mas quando você tem apenas um e tem que dividi-lo.
Mas talvez essa perspectiva não faça sentido desde o ponto de vista
de alguém que não pensa em sua alma perante Deus, mas no bem
material do próximo. Para as melhores intenções de Martha
Medeiros, o ideal seria o de uma sistema social que distribuísse
equitativamente a caridade sem que a sequer a percebêssemos. O bem
difuso e universal emanado dos melhores sentimentos encarnados numa instituição humana. A “caridade”
é, então, uma função social numa sociedade onde sobram recursos.
O sentimentalista que fala em nome da razão não percebe o peso das
palavras, e nem onde o sistema de caridade material que defende leva
quando ele se torna o valor da sociedade. Seus belos egos, no
entanto, estão preservados.
3.
“Intermediários” como Jesus ou o Papa, Buda ou um monge,
Maomé ou um dervixe, são, para Martha, tipos de laranjas.
Eles servem como figuras que despertam mais fácil a nossa
sensibilidade para o marketing das nossas boas intenções. Nos convencemos delas buscando-as dentro de nós mesmos ou as calculamos do nosso carnê de caridades. Então aqueles
garotos-propaganda de nossas melhores intenções nos lembram, num
ritual de anamnese, extraindo de nós a humildade necessária
para impedir de nos tornarmos tiranos. Martha está um pouco
desatualizada dos eventos do último século, apesar de eu não
duvidar que ela tenha uma larga experiência de leitura. Talvez,
apenas, essa experiência tenha a aridez de um deserto de areia ou a
frivolidade de um jardim geométrico. É impossível não
lembrar de seus amigos L. F. Veríssimo, que defendeu alhures “a
nobre idéia da comunidade” (européia), e David Coimbra, com o
que são, para ele, os “pensamentos elevados” do
socialismo. Representantes, enquanto falam (completamente fora da
situação real), das melhores intenções reproduzem aquela terrível
simplificação dos utopistas que, se fazendo de luzeiros no caminho da virtude, reconhecem estas primeiro em si mesmos, mas que a modéstia desvia para atributos naturais universais nos homens. Assim, com as melhores intenções, a sociedade poderia se converter em
uma máquina de caridade impessoal. Mas as palavras nunca expressam
exatamente o sentimento que está por traz das melhores intenções,
assim como seus efeitos concretos, o que faz certamente que algo que
as corrija possa sempre ser acrescentado.
Um pensamento
assim, para abranger o máximo bem, invariavelmente gerou a tiraria,
começando com as superstições mais fantasiosas nas cabeças
enfeitiçadas pela noção perfeitamente razoável a esta mentalidade
de que o que parece animar o tempo e o espaço aja assim quando uma
conspiração favorável de palavras se alinha na mentalidade
coletiva e consensual. Coisa lá que poderia ser feita projetando um
modelo de sociedade esboçada no alto de uma cobertura, bem, bem, bem
distante do chão no qual os mestres da sabedoria tradicional
encontraram, ao longo de milênios, na luz da meditação verdadeira,
um tesouro que a nossa sociedade guardou para que o formador de
opinião ordinário nos desaconselhasse pelo excesso de palavras que
negam a quieta vida interior em sua contemplação passiva, elevada de andares acima, do silêncio natural e da mística dos
grandes espaços da arquitetura de um Oscar Niemeyer. O asceta da
cobertura de vista para o mar não se deixa seduzir pelos tesouros
que a humanidade guardou, mas os substitui pelas abundâncias ocas e sua estética das harmonias úteis.
4. A solução
reside em nós, a livre-opção quando nenhuma opção livre pode
mais existir. Bastaria adotar o “não causar mal” para que uma
pequena revolução alterasse significativamente a face do mundo.
Mas, se fosse obedecido... É simples, como a “nobre
idéia da comunidade”, como a defendeu Veríssimo, e mesmo que
seja inexeqüível, como diz David Coimbra, é superior... A
explicação desse chiste está em Eric Hoffer, True believer,
sobre aqueles tão egoístas que não podendo suportar as derrotas de
seus egos (talvez aumentada devido a exposição midiática),
dedicam-se a causas superiores e inatingíveis, onde estas belas
almas de coberturas nunca serão testadas pela culpa. Martha sabe que
é utopia demais. É inexeqüível! Vai falhar, repete a seu modo David Coimbra. Mas, de novo,
reitera-se o irracional, “se fosse aplicada...”. A
obviedade e a simplificação plana não são valores objetivos, mas
de uma metafísica (que é a negação da metafísica e) que para não
perder-se no vácuo do obscuro pelo mais obscuro, já teve seu
fundamento reconhecido outrora numa “harmonia universal”, justificação
de todos os sentimentos superiores (...de cobertura).
O ato de vontade
pelo qual se optaria pelo inexeqüível --- um inegável ato de fé
num valor universal plano de benignidade sentimental --- não ocorre, e talvez não
possa ocorrer, senão como efeito de alguma altura social. A opção
pelo bem (entenda-se “não causar sofrimento”), no entanto, não
existe, ela não ocorre; e isso se dá assim porque o comportamento
humano refuga a “solução
simples”,
que não comove a ninguém, não convence qualquer editor de jornal,
nem tem aquele poder “suficientemente
bombástico” que a propaganda nos disciplina para coisas bem menos importantes.3
Os valores de Martha valem apenas a certa altura da ascensão social,
quando então passam a ter alguma
utilidade. O que move os sentimentos do homem --- quando ele ainda
não pode ser tocado pelos melhores sentimentos, ou estar em certos
cumes sociais --- é o poder, a competitividade, a vingança, as
necessidades, eis para o enfado de um leitor já um pouco
envelhecido, o diapasão que soa o mantra da ideologia da nata
pensante no charco provinciano de Porto Alegre. Não há maior sinal
de provincianismo que a adoção elegante do cosmopolitismo como uma
miscelânea de doutrinas “consagradas”, por ordinárias que sejam,
que hoje sedam parte da população alfabetizada. O fundamento humano
pode ser reduzido à psicologia aplicada e a esta sua subdisciplina
mais nobre, a ciência do marketing.
Assim, não apenas os rituais e os templos deixam de ser úteis, eles
são substituídos pela visão interior e pela disciplina da
persuasão de certos gestos e maneiras da língua civilizada; os
rituais tornaram-se campanhas de “conscientização” das massas,
que repetem valores nas palavras sem qualquer experiência real deles. A psicologia aplicada desdenhará do pecado e da culpa
como efeitos de superfície de um neurótico reprimido. A liberdade de escolha,
fundada no livre-arbítrio, é uma superstição que, uma vez negada,
permite e requer o controle ativo das emoções humanas, exceto
talvez as desse tipo de ascese do cidadãos de cobertura cuja
simplicidade é um tipo de pureza que eles adquiriram olhando para
dentro de si mesmos. Talvez porque, como se confessa Martha, a
abundância já não permite muito mais ambição, quando do pouco
que ainda se necessite seja apenas a manutenção de sua condição
atual.
Ora, por que não
optar pelas soluções simples, pelas ainda mais simples?
Ansiolíticos e hipnóticos! Mas talvez estes também sejam
“laranjas”, e como Buda e Jesus, dispensáveis. Pessoas educadas
e alfabetizadas, até um certo nível, podem optar pelo adestramento
mental que controla seus impulsos, ainda que na abundância, e ainda
que, dessa forma, domem um rato numa roda de arames. Para essa árdua
tarefa Martha cita os seus valores, que ela disciplinou dentro de si:
gentileza, tolerância, honestidade, paciência, troca, afetividade,
e no elenco de valores de Martha a sua última aquisição, a
“elegância moral”. Termo que ela encontrou “outro
dia”, anotou e adotou, não sei se para algum tipo de exercício
ritual ou como um adereço à etiqueta palaciana numa corte de
civilidade à la Luiz XV. O ouropel
palaciano de Martha incluem o brilho de palavras de bijuteria.
“Gratidão”, “troca” e “afetividade” são palavras
escolhidas pelo sentimento que despertam, não porque tragam valores
concretos à conduta prática. São expressões de afeição, isto é,
demonstrações públicas de se estar envernizado com o tom da moda.
“Honestidade” é o corolário de valores anteriores, é uma
reputação e um dever, mas
sabe-se lá o que quer dizer isso para alguém que não encontrou
fora de si, nas linhagem das grandes tradições religiosas e da sabedoria secular o que reconhece como superior, e talvez um pouco além
disso, qualquer valor que ela não pudesse encontrar numa reflexão
interior. A “honestidade” de Martha é uma caixa de intenções
sem qualquer virtude real capaz de sustentá-la --- de onde viria então a
confiabilidade de suas reflexões? Sempre, é claro, é possível
recorrer à própria torpeza para afirmar as suas
convicções e respeitar as dos demais. “Paciência” é outro
dever,
pelo menos para um adulto; mas aqui já parece uma qualidade derivada
da admissão temporária dos açodamentos alheios, uma altivez nossa.
Além do mais, “paciência” não é um valor como a temperança,
que diz respeito de nós e antes para com nós mesmos, menos que a
uma conduta social. “Afetividade” é só um jeito de modular o
tom da voz ou os gestos, maneirosos, para certo efeito a alguma
benignidade sentimental. Aí então temos essa fantasmagoria patética
que se denomina “tolerância”, o exercício da virtude antiga sem
os valores equivalentes como norte. Em contraste lhe falta as
fundamentais coragem e
verdade, e
o sacrifício sem
o qual nada se alcança de valor, pelos quais se obtém aqueles
outros. E
estes realmente faltam em Martha. Não consigo, pelo que ela escreve,
imaginar por que lembraria de algo assim. Se trocar todos estes
valores de verniz pela noção de longanimidade,
temos todas as qualidades citadas por Martha, mais a magnanimidade
cujo contrário é a mesquinhez.
Pois é o que se vê com mais clareza em Martha, ao dedicar-se a
instruir num jornal de grande circulação pálidas noções de
sentimentos benignos e um afetado comportamento cívico enquanto
desfaz todos os homens santos, as grandes religiões, filósofos e
cientistas verdadeiros, que não são exceção quando se tratava de
buscar a verdade (ou, a certo tempo, o que a modernidade alterou em
parte). Como a gratidão
pode ser encaixada aqui, ou a tal da “troca”? Nem a humildade se
pode achar aqui, nem qualquer coisa derivada; pode-se dizer que no máximo
encontra-se um esboço de modéstia por efeito ou reflexo. Se estes
valores estão ausentes quando se busca, se não estão presentes na
solidão, se não estão presentes aí, nesse momento em que o
espírito se guia a si mesmo, é porque não passam de palavras
sentimentais, que já ganharam pelo seu valor “afetivo” o brilho
de alguma razão, ou do que se deve persuadir para não escapar ao
bom tom.
O que Martha elege
na ausência de valores verdadeiros são as primícias de uma ética
social, mas ainda menos que isso, uma “etiqueta” social. Algo
assim pode ser adquirido em qualquer momento da vida, mas não o
levará a nenhum lugar especial, ou a ascender socialmente --- antes
pelo contrário: o que se pode adotar antes e melhor na abundância.
O maneirismo da etiqueta social nada tem a ver com qualquer tradição
que a tenha legado, como aqueles valores que o hábito sedimentou
pela experiência efetiva. O hábito desses valores são agora
reavaliados por reflexões que se vem fazendo nas horas vagas, e já
parecem da cobertura com vista para o mar de um sobrenatural
fora de moda. A formalidade da religião oficial, ou dos valores
morais, bloqueiam nossa capacidade natural de reconhecer com o
feeling apurado a luz interior de uma ética universal. Na
falta de uma opção verdadeira, parece que Martha conseguiu pelo
menos, como lhe parece útil, que seus valores tivessem
o poder da solução mais simples: ansiolíticos e hipnóticos não
químicos. Quietismo civil.
A espiritualidade
para Martha é apenas o adestramento dos sentimentos (mas ela pode
não saber disso), que podem ser alcançado com a prática fútil da
oração, ou que serve para pouco menos que isso. Curioso que se
comece refletindo sobre a superfluidade das religiões como
prestidigitação hipnótica e se acabe por substituir Deus pelo que
Ele nunca foi, como um bode-expiatório que em vez de nos
limpar os pecados, realiza qualquer coisa semelhante à ação de um
ansiolítico. E isto para se propor uma disciplina dos sentimentos
que cumpriria melhor essa função. Ora, como alguém pode assumir
suas responsabilidades se sequer as percebe? Os valores de Martha
fazem esse trabalho, são os seus valores mais altos, ao mesmo tempo
os menos exigentes, ou tão exigentes quanto a representação de um
papel social num baile de máscaras; podem ser exercidos como
virtudes, mas desde que soem bem para um número de pessoas
suficientemente grande para serem percebidos sob certo consenso.
Valores ocos, ouropel social; artifícios de uma estética
moral que aspira se tornar uma ética social. Tal estética rende um
fingimento histriônico
colateral que se pode observar, sem desdouro profissional, nos
senhores Ayres Brito e Luiz Roberto Barroso --- também encontrada,
não por acaso, em expoentes espíritas ---; algumas vezes
exemplificado pelo tom piegas de ultraje exaltado de uma Maria do
Rosário (compare-se ela com seu antípoda, Jair Bolsonaro, tão
desprezado pelo opinador ordinário da mídia, mesmo quando fala a
verdade).
5. A frivolidade
de um código de mesuras parece que pode dar caráter e ser a marca
da personalidade de quem a este se dedica --- como em um ritual, sem
dúvida ---, produzindo aquela mortificação aparente como se
observa também nos espíritas, semelhante. O pensamento utópico de
uma ética científica que confira à sociedade uma ordem ideal não
é novo. Mas a sua possibilidade é completamente fantástica, um
artigo de fé não apenas em algo remoto, mas verdadeiramente
irracional. O esforço para torná-lo racional, e levado ao bom tom
da razão sentimental, faz de uma ética social a aspiração, assim
que possível, de uma disciplina científica do comportamento humano
para algo mais perfeito. Como escreveu o filósofo Stanley Rosen a
respeito, com exatidão: “No
geral, o Iluminismo tentou substituir aquilo que podemos chamar de
metafísica do absoluto pela absoluta certeza de soluções efetivas
para problemas práticos”4.
É o fim de uma ética social, segundo William H. Whyte, no clássico
The
organization man (p.
12):
“Superficialmente,
[uma ética social] parece dedicada a problemas práticos para a
organização da vida... Mas é a promessa de longo prazo que anima
seus seguidores, pois esta contém as técnicas para a visão de uma
harmonia
acessível
e alcançável”.
O mais curioso é que uma ética social não precisa ser aplicada em
larga escala, pois ela se organiza de modo relativamente espontâneo
para substituir a ordem que as religiões antes representavam com seu
sistema de valores5,
já tão sistemática e amplamente desprestigiados pelo formador de
opinião ordinário. Efeito de uma cultura inteira que, não
conseguindo mais falar de Deus, passa a explicar os problemas da vida
prática como a aquisição de um comportamento padrão que
garantiria a harmonia social num bravíssimo ato novo de fé.
A visão de mundo
de Martha pretende a substituição do sobrenatural por uma
superstição, organizar a vida humana sobre um padrão de
comportamento superior quando qualquer ordem superior já não é
possível. O resultado lógico, que tende então a se concretizar na
história, é apenas o controle científico daquela vontade que
deveria ter optado pela “elegância moral”, mas que não o faz
por não se deixar convencer de simplicidades sem apelos. Lembremos,
são a avidez, a disputa, a trama humanas a base da sociedade
natural, como animais não domesticados. O sentimentalismo dos
valores interiores de Martha são a pátina que recobre o lento e
progressivo caminho da sociedade para uma ética social científica
plena. Nunca foi outra coisa. Como se sabe, os deuses enlouquece
antes aqueles a quem querem destruir.
Mas a pérola mais
rara dessa etiqueta social e seu símbolo máximo, a mais alta
responsabilidade do homem da cobertura, é a tolerância, esse
mantra desapercebido que elegeu a hipocrisia como nobreza de
comportamento sem os valores equivalentes aos da virtude. Estultice
assim faz pensar se a leitura não é algo realmente danoso para
mentes exaustas pela abundância. Notável por ofício, Martha faz
da profissão o palanque da defesa do que ainda sente como
necessidade, a manutenção de sua paz interior. A filosofia de vida
de Martha Mederios tem as palavras como úteis para o exercício de
superioridade que todos poderão alcançar quando se mudarem para uma
cobertura à beira-mar. “Levar vantagem” é um traço bem
conhecido do brasileiro, que se tornou uma autocrítica sem lá
grande efeito, já que as palavras também apresentam a pátina do
sentimentalismo que as atenua até algum tipo de simulação
metafórica que desvia tudo para a galhofa. Vantagem é sinônimo do
oportunismo que toma para si a sorte sem querer
perder ou fazer sacrifício por quaisquer valores. Mas morrer pela
defesa da paz interior não favorece algo que vá muito além da mera
ironia.
A razão do antigo
bom senso se torna uma racionalização num exercício de estética
moral, de criação de uma moralidade nas palvras, sem as rudezas do
pecado, da culpa ou da reflexão de penitência. No lugar colocou-se
a noção de “responsabilidade”, esta associada à espontaneidade
e à “autonomia” de um adulto livre. Liberdade guiada por
nenhum valor, mas pajeada por um sem número de palavras benignas. O
que quer que se queira dizer com “espiritual” não passa de uma
imitação grosseira da religião verdadeira, que cria o ambiente
mimético ao de uma metafísica através de expressões sentimentais,
meramente alusivas de um comportamento moral e que já não passa de etiqueta social. A constelação de benignidades de Martha é de
valores que não sustentam, valores superficiais e só para efeito de
beleza pública. É nessa planície do suficiente ou do desnecessário
parcimonioso que Martha reconhece a realidade que desdenha do
sobrenatural. Faltou-lhe a reverência pela realidade que os antigos
reconheciam como sustentada por um fundamento divino, até para não
se permitir recriar o irracional numa superstição social. A atenção
àquele fundamento é resultado de verdadeira reverência pelo real,
que permite a atenção contemplativa e a humildade verdadeiras, tudo
em Martha afundado em uma terrível carência, mesquinhez atroz e de
simplória ignorância.
*
Sabe o que tem o
poder de mudar uma pessoa e o mundo, Martha? Não é o verniz de um sentimento,
mas, se você já teve uma criança de dois anos brincando ao seu
lado e perdido algum tempo observando-a, em silêncio, imaginar que
uma delas tenha sido, de algum modo, o próprio Deus "disfarçado"
atrás do nariz escorrendo. Isso muda o mundo, Martha. O resto, é
latão amarelado.
Notas:
2
No caso, refere-se ao sentimento de perda de prestígio (social) e
(portanto) ou auto-estima, sentimento de humilhação, também em
relação à sociedade, do que se deduz que a manutenção dessa
aparência seja um esforço de adequação a maneiras codificadas
socialmente, mas (por exclusão do contrário) nenhum valor real.
3
Se Martha e David Coimbra tivessem sido irmãos univitelinos suas
convicções não teriam sido mais semelhantes.
5
“Ninguém
diz, 'Eu acredito na Ética Social', e embora muito subscreveriam
sinceramente as idéias separadas que a constituem, estas idéias
ainda tem de ser postas juntas numa síntese final harmoniosa. Mas a
unidade está ali”
--- The
organization man,
p. 11.
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**
O
sobrenatural e o real
Martha
Medeiros | Zero Hora, 24 de dezembro de 2013
Há
algum tempo venho pensando na função das religiões, e a cada
reflexão me convenço de que não precisamos de templos, rituais,
mandamentos, pecados, penitências e de intermediários falando em
nome dos deuses – e nem de deuses precisamos. É tudo opcional. O
que precisamos está dentro de nós.Templos são belos e podem ser
úteis na busca por sossego espiritual, já que costumam ser
silenciosos (a natureza também pode cumprir essa função, diga-se).
Rituais são igualmente belos e podem confirmar nossas melhores
intenções perante a vida (mas sem plateia também podemos
confirmá-las, você sabe). Pecados e penitências, eu pulo. São
manipulações que só servem para gerar culpa. Intermediários? É
bonito contar com a figura de um pai, seja real ou simbólico, e
nesse sentido a figura do Papa, de um Buda, de um monge ou de
qualquer pessoa de carne e osso com um projeto pacificador pode
cumprir a função de extrair de nós a humildade necessária para
não virarmos uns tiranos. Quanto aos mandamentos, bastaria um só,
um único, que, se fosse obedecido, solucionaria boa parte dos
problemas do mundo: “Não faça aos outros o que não gostaria que
fizessem a ti”. Há muitas versões da mesma frase, mas essa vem
sem metáfora, desembalada e pronta para usar.Já pensou se ela fosse
aplicada na política? No universo corporativo? Eu sei, é utopia
demais, mas se fosse aplicada ao menos nas nossas relações
cotidianas, já faríamos uma revolução. Pena que ela apresente uma
solução simples, e as pessoas rechaçam o simples. O simples não
gera comoção, não dá pauta, não é suficientemente bombástico.
A encrenca, a dificuldade, o jogo de poder, a competitividade,
a vingança, isso tudo, sim, torna a vida menos monótona. Se as
coisas derem certo, qual é a graça? Do que iremos nos queixar? Eu,
que adoro uma vida mansa, sou totalmente partidária do simples, do
óbvio, do fácil, do comum – dentro do que ambiciono, eles me
servem muito bem. Minha religiosidade é desenvolvida através de
valores que não dependem de representatividade formal, constituída
e sacra. Gentileza, tolerância, respeito, elegância moral (ouvi
essa expressão outro dia e adotei), honestidade, paciência, troca,
afetividade e desapego de mágoas e rancores: disso tudo provém a
verdadeira espiritualidade transmitida de pai para filho, de avós
para netos, de amigos para amigos, sem necessidade de carteirinha de
adesão a qualquer igreja. Neste Natal (e amanhã, e depois de
amanhã...), reze, é um conforto para a alma. Ou não reze, se não
possui o hábito. Não vai fazer diferença nenhuma para o mundo. O
que faz diferença para o mundo é como você se comporta com os
outros, não com Deus. Deus, muitas vezes, serve apenas para
transferir responsabilidades. Assuma a sua, e amém: estaremos todos
em paz.
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Jornalista. Escritora. | Fonte: ZH online, 24/12/2013 | Imagem na
internet.

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