O canibal bulímico e a lei psicológica da projeção leninista da própria torpeza
Ou
também, como ler a história reduzindo-a a encadeamentos
lógicos a partir de resumos jornalisticos para ver no que se
omite pela concisão o salto fantástico de uma
conspiração que sabota a nossa utopia e nos ameaça
com o risco de trazer de volta a lembrança velada pelo
silêncio dos traidores.
---
Como ler jornais – 4 ---
O
mais velho e histórico assentamento americano de colonos
europeus nos Estados Unidos se chamou Jamestown,
às margens do rio James, sob reinado homônimo e sob as
vistas dos índios Powhatans.
Em artigo de Duda Teixeira, na Veja,
uma
cadeia lógica abusiva atribui
atos de canibalismo ao comunismo, uma mácula certamente à
memória do comunismo e um non
sequitur do
encadeamento lógico reacionário, segundo a crítica
de Juremir Machado em “O
canibalismo comunista da Veja” (24.05.13) , no Correio do
Povo.
A
acusação de Juremir, que encontrou no caso uma bela
oportunidade de desmascarar a Veja confirmando os adjetivos que de tão
prolíficos já não podem ser senão o eco de um julgamento prévio: charlatanismo,
pseudociência, estupidez, rigidez lógica, ridículo,
besteirol, galhofa, sensacionalismo, e, por fim (cuspindo para cima),
orientação ideológica. Muito adjetivos para um
artigo tão curto. Ao que parece, os adjetivos querem encontrar
uma confirmação no artigo, aquilo que na história
são hipóteses explicativas que se jogam sobre os fatos
para se confirmar com o testemunho constrangido destes.
Quando
uma cadeia lógica é muito longa, quando essa cadeia é
uma dedução de eventos históricos, as
circunstâncias devem poder convencer qualquer um sério a
atenuar os extremos do silogismo como causa e efeito mesmo para um
caso bem localizado como havido em Jamestown. Mas, se é assim,
do inverso se deve estar igualmente advertido: de uma narrativa
histórica não se pode tirar encadeamentos lógicos
rigorosos. Agora, ainda menos de um artigo de jornal ou revista, que
resume da narrativa histórica a nuances de alguma relevância
para a vida humana atual --- um tipo de uniformitarismo que tende a
ver no passado o que nos parece importante hoje.
Juremir
trocará o jornalismo da Veja pelo jornalismo do
“Vejamos”, para em seguida não trazer nada que não
seja seu próprio espectro de cores, agora mais justificado
desde que vê no artigo da Veja o traço grosseiro
da ideologia que ele descreverá melhor. E sem economizar luzes, carrega na intensidades das cores, vai do ultraje à infâmia, e enfim ao histrionismo que, já confiante, deixa
solta a própria torpeza para atribuir a textos históricos
(e menos que isso, jornalísticos) o encadeamento lógico
extraído de um resumo. De um compacto artigo de revista,
Juremir analisa reducionistamente
o artigo em uma cadeia lógica ofensiva de tão rígida,
para acusar Teixeira de tê-lo feito antes. O nexo causal de
Juremir é rígido por que ele não chegou à
semântica, limitando-se à "lógica". Duda
Teixeira coloca em destaque a odiosa ideologia que Juremir denuncia
no título “Os ossos do comunismo” e na chamada que
afirma que o sistema de produção coletivo ineficiente
produziu a penúria que acabou em canibalismo. Os termos dessa
conclusão em Teixeira são “deu
no que deu”
e “se não
fosse”, para se
referir ao sistema imposto pela Cia da Virgínia, que preferiu
o sistema coletivo de produção, como o de uma
cooperativa arrendada, por temor a uma súbita autonomia e
independência dos colonos do outro lado do Atlântico.
Explica-se com mais força o ultraje de Juremir, pois sua
lógica tem a Veja
como premissa maior de tudo que os comunistas atribuíam à
maçonaria e aos judeus por sua catástrofe, seus
horrores e olheiras.
Simplesmente,
a conclusão de que o suposto proto-comunismo da primeira
colônia americana, que levou a sua população de
cerca de 200 assentados a morrer em cerca de 80% no inverno de
1609-10, e antes disso ao canibalismo, como descobriram pela evidência
forense inscrita na testa de uma jovem de 14 anos, não é
de Teixeira, nem da Veja, é dos historiadores citados pelo
artigo. Aparentemente, Juremir não deu conta disso.
A
crítica de Juremir está quase completamente
“fundamentada” sobre a forma tosca dos resumos de jornais
e artigos de revistas. Só o título “Os
ossos do socialismo”, na verdade um elogio que Teixeira
presta a essa ideologia, ao compará-lo a Jamestown, é
que sugere qualquer coisa digna da crítica hiperbólica
de Juremir ao artigo. A visão “desmistificadora”
de Juremir, intoxicado da rigorosa lógica alheia, desvelou a
conspiração da “estupidez” do ponto de
vista da própria torpeza. Juremir, no final, sai com o
sarcasmo de que o comunismo comedor de criancinhas está
finalmente provado, mais cabalmente pois que “agora é
científico” --- segundo a ciência de Teixeira que
Juremir chamou de charlatanismo. Ou terá ele se referido aos
historiadores? Não ficou claro. Na verdade não fica
claro nem mesmo se Juremir percebeu que as teses do artigo são
dos historiadores.
Mas
um pouco mais incompreensível é sugerir alguma dúvida
sobre a prova científica de que o regime coletivo de produção
é um fracasso e leva à penúria, que é
coisa já há muito uma verdade histórica que
ninguém discute serialmente. (Talvez o pessoal do PT, com o
tipo de seriedade de que fala Juremir.) Ninguém que sabe que
não pode defender o comunismo, ainda que usando termos tolos
como “reacionário”, defenderia algo assim, que
seria como que se desdizer no mesmo parágrafo o que recém
se acabara de dizer --- ou, ao introduzir duas conclusões
antagônicas na mesma cadeia causal necessária. Mas, de
fato, para um marxista isso não seria lá algo que se
pudesse dizer que é uma contradição.
A reportagem faz
uma relação direta entre comunismo e penúria,
relação que pode estar errada para o caso de Jamestown,
é, no entanto, verdadeira para os casos de Sistemas coletivos
de produção (i.e., onde a iniciativa individual é
mais e mais suprimida). Exceto, é claro, ao sistema
escravagistas, como observou sem perceber a ironia o socialista
utópico Richard Owen.
O uso do termo
“reacionário” é grandemente pouco
auspicioso da capacidade cognitiva de um jornalista. E a miséria
se confirma, mas de revés. Não é que Juremir
quase que tem razão na sua conclusão maior? Que saiba,
e só sei de ouvir dizer, ele já teria acertado uma
outra --- não sei se essa seria uma hipotética segunda
vez. Se ele acerta, infelizmente seria pelas razões erradas.
(Ô gente complicada.)
Tentando,
sem muito esforço, encontrar por que Teixeira tira conclusões
que não estão em outros periódicos, vê-se,
como dá a fonte, ser a hipótese de alguns
historiadores. Tem que ler melhor que Jurandir para perceber que essa
hipótese pode ter mais fundamento do que parece pelo que pode
ser afirmado num artigo de jornal. O jornalista da Veja
resume assim: “Se
não fosse o sistema de produção fracassado, a
situação dificilmente teria chegado a esse ponto”.
É uma tese. Juremir acerta e erra; a “inflexão”
do texto supervaloriza (?) um aspecto, dado pelo historiador George
Percy. O “charlatanismo”, se há algum, não
é de Teixeira, menos ainda da Veja,
como o considera Juremir, talvez por conveniência ou inversão
histérica. Outra coisa, muito verossímil:
“O coletivismo
fora implantado pela Companhia da Virgínia, empresa
responsável pela empreitada em Jamestown, por temor
de que, se os colonos tivessem sua própria terra
do outro lado do Atlântico, deixariam de enviar o
que produziam para Londres”.
É tão verossímil esse medo que ele antecipa
profeticamente a “revolução” americana; e
que, além disso, com mais razão poder-se-ia afirmar que
o controle dos meios de produção causou a tragédia.
Mas estas coisas escapam a Juremires. É pedir demais que
Juremir acredite que a
disposição de espírito dos homens mude quando se
lhes impõem os meios de produção? Mas Marx
acreditava nisso! Tanto acreditava que queria libertar o homem do
trabalho “alienado” opressor. A utopia erra também,
por outro lado, porque o trabalho meramente por dever exterior aliena
igualmente. O tipo humano soviético está bem
documentado pelos soviéticos exilados no primeiro caso; os do
segundo caso estão exemplificados pelas comunidades utópicas
ao longo da história, muitas tentadas na América.
O
texto da Veja, assinado por Duda Teixeira, pode, no máximo,
dar ênfase a um aspecto da crise do primeiro assentamento
americano como causa maior da penúria, ainda assim não
da antropofagia, como diz Juremir. Mas não foi isso que está
dito. A lógica de Juremir usa muito de relações
causais metonímicas, toma um sentido de um aspecto ou parte
pelo todo e conclui triunfalmente --- aquilo que ele chamou de
“segurança dos tolos encantados”.
“A
decisão”,
conclui Teixeira pelas palavras de alguns historiadores, “despertou
os traços hoje bem conhecidos do capitalismo americano: o
empreendedorismo e a aptidão para a competição”.
--- A imprecisão está no “despertou”, que é
um figuração para aquilo que o historiador concluirá
ser a observação das circunstâncias que
historicamente mostraram que seriam, sobre o homem americano, os seus
traços positivos. Como causa, é meramente figurativo,
não tem valor científico. Mas eu não sei se o
historiador seguiria esse raciocínio linear que Juremir
atribui a Teixeira. Diz Juremir:
“A
cadeia estabelecida é imperativa: o coletivismo levou à
preguiça, que levou à improdutividade, que levou à
fome, que levou ao canibalismo”.
Essa simplificação da “conclusão
reducionista”
do artigo é um ponto de vista de Juremir, fruto de seu
particular modo cognitivo de ser (em palavras exatas). Isso sempre
acontece quando o cara em vez de querer saber a verdade, corre para a
refutação da “inflexão” ideológica
do outro, acabando apenas por deformação igual e de
sentido contrário --- quando não, Freud explica,
simplesmente projetando no adversário as suas graves
limitações de leitura.
O
coletivismo leva à massificação e à
mediação da ação humana por símbolos
exteriores (p. ex.,o sentido abstrato de grupo, ou como a confiança
na ajuda exterior --- coisa que pode ser reconhecida também na
fé ou sujeição a um sistema de produção
coletivo); a improdutividade levar à fome e ao canibalismo é
verdadeiro para casos extremos, o comunismo é, sim, o melhor
exemplo disso. Juremir já fizera uma boa descrição
da penúria de Cuba, quando lá esteve, e rejeita a
experiência comunista soviética, só que não
sabe por quê. “A
saída viria com a propriedade privada”,
faz graça da simplificação que é, de
novo, de sua lavra --- mas não. A saída veio
com a propriedade privada, não “viria”. É o
que Juremir chamou de “estúpido” --- os fatos, no
caso. De novo, diz Juremir: “Todos
os demais aspectos de adaptação e de conjuntura são
desconsiderados”.
Não tenho essa certeza.
Vamos
ajudar Juremir. As circunstâncias --- a “conjuntura”
de Juremir ---, ao contrário do que leu o guapo, estão
lá, pois diz o artigo: “Findo
o comércio, começaram as hostilidades.
'Os índios sitiaram o forte. Ninguém podia sair para
conseguir alimentos'”, segundo o historiador William
Kelso.
O inverno de 1609-10, como está observado, levou a uma
condição extrema, cerca de 80%, segundo a reportagens
reproduzida
no Los
Angeles Times,
“Os
tempos de penúria trouxeram uma convergência tripla de
desastres: pouca provisão, sítio dos Powhatans,
isolamento de ajuda externa”.
Nessas circunstâncias, não foi o regime coletivo de
produção que gerou o possível ato de
canibalismo, mas os historiadores não negam que o sistema de
produção deles não permitia reservas nem anuais,
sem ajuda externa.
“Para
a pragmática [!] revista Veja,
no coletivismo, entre trabalhar e comer seus semelhantes, as pessoas
escolhem a segunda opção”. Não,
Juremir; com um sistema onde eles eram tão somente peças,
que não trabalhavam para si mesmos, nenhum fruto colhiam do
próprio trabalho. O modo de trabalho durou alguns anos, até
parecer a uns quantos algo que se poderiam negligenciar indolentemente
o que jamais se tornava um fruto mais maduro na divisão dos
lucros da Cia da Virgínia.
Cada
um pode enfocar o que entende ser o ponto central de aspectos
concorrentes: a real penúria produzida pelo comunismo
científico --- do qual o caso de Jamestown pode ser um mal
exemplo ---; ou a conclusão mágica de que esse fracasso
levou ao capitalismo. Fracassos não geram sociedade melhores
--- isso é um conceito místico do marxismo, o da
“crise”. (Essa noção é já um
traço da mentalidade brasileira, qualquer um a reconhece como
correta.) O exemplo de Jamestown poderia estar mais para as
comunidades protestantes como tantas que se tentaram por lá,
pequenas e conservadoras. Muitas das quais deram certo, até
onde podem em certo isolamento, como os
anabatistas Amish, americanos, e os Vyg, na Rússia, que
existiram por longevos 150 anos. Não parece ser nem esse o
caso de Jamestown, mesmo quando colocado ao lado dos mais notáveis
fracassos de comunidades socialistas utópicas.
Juremir
afasta qualquer chance de poder estar defendendo o comunismo. Difícil
é de entender por que alguém diria algo assim; difícil
igualmente é entender por que alguém faria uma
advertência a um artigo que faz essa relação,
como acabou me chamando a atenção ter sido feito,
supostamente coisa que o artigo de Juremir teria desmascarado. O
comunismo acabou com toda a “conjuntura”, Ucrânia
e China
viveram verdadeira catástrofe de penúria pelo Sistema
de produção coletivista --- isto é, alguém
organizando o sistema de produção, administrando-o de
modo que a iniciativa individual é quase anulada. Assim
resumirá a dialética historiográfica de Juremir no caso
de Jamestown:
“Um
colono comeu a esposa grávida. Veja, enfim, descobriu a origem
da expressão “comunista comedor de criancinha”. Na
verdade, encontrou algo mais grave, o comunista comedor de feto. Sem
contar que Duda Teixeira chegou ao elo perdido, a origem sempre
procurada do capitalismo, o estalo: “Foi essa mudança,
nascida do trauma de um inverno em que colonos caíram na
selvageria que permitiu aos Estados Unidos se tornar o maior gerador
de riqueza do planeta e o berço do capitalismo moderno”.
O capitalismo nada mais é que uma reação ao
canibalismo comunista. Agora é científico.”
Na
verdade, esse foi apenas um sinal profético, já que o
canibalismo produzido pelo comunismo só mais tarde ganhou a
lúgubre fama que a propaganda contraditou, desacreditou, como
faria também para a ciência comunista: na China entre
1958 e 1962, e na Ucrânia, no inverno de 1932-33, quando o
governo soviético instalou pôsters com os dizeres:
“Comer as suas crianças é um ato de barbárie”.
Juremir não apenas não sabe porque disse “Longe
de mim defender o comunismo”, como desconhece também os
meios do charlatanismo soviético que nele já são
mentalidade.
Também
se relata a indolência para o trabalho dos colonos, mas a
preguiça pode ter sido, com mais chance de ser verdadeiro,
fruto da confiança na ajuda externa, que naquele ano faltou.
Mas, olha que curioso, a diferença entre um verdadeiro sistema
de produção coletiva para aquele de Jamestown é
que no primeiro o sistema de produção é imposto
de fora, pode dar certo ou errado (sempre deu errado, de novo, exceto
em regimes escravagistas); enquanto no caso dos colonos à
margem do Rio James, foi a confiança na ajuda externa que os
pôs à mercê daquele inverno e dos índios.
As conclusões de Duda Teixeira, que para Juremir não
passam de charlatanismo ideológico, são o
resultado de uma cabeça que pensa por metonímias --- é
claro que, para a economia psicológica de quem apostou demais
na mentalidade de esquerda, e já não pode perder. Resta
o “surplus” da projeção no outro da própria
torpeza. Assim Juremir disfarça, afirmando que não há
relação direta do “coletivismo” algo tão
específico quanto o canibalismo. Nem se dá ao trabalho
de distinguir entre “coletivismo”, os meios coletivos de
produção, isto é, nas mãos de alguém,
do comunismo como ideologia. As refutações de Juremir
são grosseiros desvio semântico trocando palavras não
para não perceber a tensão polêmica da narrativa
histórica, mas porque não vê nenhuma tensão
pode até mesmo usar sinônimos por homófonos.
“Não
fosse grosseiro, eu diria: é a coisa mais idiota que li”
--- arremata Juremir.
Tudo
aqui se explica por um encadeamento causal psicológico bem
rígido. Há uma máxima leninista que é uma
lei cega do pensamento de esquerda: “Xingue-os [adversários]
do que você é; acuse-os do que você faz”.
Nunca falha.
*
A
conclusão dos historiadores pode até ser falsa para o
caso de Jamestown, mas realmente não é o que se pode
concluir para a penúria extrema que o comunismo sempre se
mostrou altamente capaz de produzir. Juremir parece que quer rejeitar
o comunismo e limpá-lo de uma referência que nem de
longe é uma mera especulação, nem mesmo para
Jamestown, quanto mais para o coletivismo universal que prega, ainda
hoje, o comunismo. Se há aí uma cultura coletivista, é
porque também há uma mentalidade coletivista, a qual,
simbolicamente, habituou-se a canibalizar ex-comunistas para
sobreviver. “Longe de mim defender o comunismo”, diz
Juremir. Canibalismo bulímico, bem a propósito da
inversão revolucionária e da psicologia histérica
que joga sobre o outro os seus horrores. Vomita o passado, como um
tipo de Cronos, para dizer que não comeu, e volta a comer. É
monstro pior.
O
símbolo da penúria de Jamestown deveria ser vista hoje
na miséria brasileira, que tem vários pontos de
coincidência funesta com o espírito e as circunstâncias
que levaram à Rússia para o comunismo, a pseudociência,
a fé no futuro como destino, a falta de cultura verdadeira, a
idéia de revolução, o marxismo, a filosofia
“crítica” (i.e., marxismo difamatório, sorrateiro
e sabotador), o caráter do homem, fraco, dissimulado,
oportunista, massificado, relativista, solene, e, é claro, com
essa mentalidade que permeia as caraminholas de Juremir e de quem o
lê.
Alguns
links:

Nenhum comentário:
Postar um comentário