Alien: a Ira de Deus e o Diabo
---
Uma sinopse de Prometheus
(2012), a origem de
Alien ---
“As
trevas ocultam-se no centro da luz, e aquele que quiser com
arrogância ir além de Deus... fica mergulhado nas
trevas” --- Jacob Böehme, Theosophische
Wercke
(1682).
“Where
the mild gods are absent, the Other Gods are not unrepresented”
--- Lovecraft, A procura de Kadath (1927).
“Wer
mit Ungeheuern kämpft, mag zusehn, dass er nicht dabei zum
Ungeheuer wird. Und wenn du lange in einen Abgrund blickst, blickt
der Abgrund auch in dich hinein.” --- W. F. Nietzsche, Para
além do bem e do mal
(1886: IV, §146).
Um
nem tão sutil ceticismo no início do filme pode ser uma
pista do que está por trás das associações
que se desencadeiam na imaginação de Spaihts &
Lindelof e do Sr
Ridley Scott: “Você escolhe
no que quer acreditar”,
que foi para o autor da frase, o pai da mocinha, “Elizabeth
Shaw”, a resposta confusa e simplória diante do horror
do ebola. Quase sem querer, acaba fazendo um paralelo fundamental
para o filme sobre o niilismo que especula sobre as origens e que
acaba encontrando, porque mais nada poderia encontrar, o impulso
amoral da vida. Numa variação de um tema bem moderno, a
morte se torna um tipo de festim onde o poder da vida se alastra em
um movimento abslutamente livre e incontido.
A força da vida que há no câncer, incontida,
parece que está também no ebola, incontida; na peste
medieval, incontida; e no alien... Por trás da força
criativa da vida há uma força de transformação
que cria e destrói incontidamente.
A empresa WEYLAND
CORP tem como slogan “Construindo Mundos Melhores”, o que
permite uma referência cruzada com o espírito criativo
do nosso deus astronauta, os pálidos “engenheiros”,
nos fazendo à sua imagem e semelhança... Supostamente,
se é que o queria. Mas por que o faria? O fim do filme
pergunta isso retoricamente para ir buscar a resposta provavelmente
na seqüência. A criação de novos mundos
melhores parece que sempre sofre de alguma senilidade precoce, já
que mesmo no longínquo futuro, como no passado original, o que
se pretende é ainda uma “terraformação”,
a velha casa, a velha ordem. “Shaw” a propósito é
o nome famoso do escritor Bernad Shaw, um entusiasta de boa fé
e proponente de mundos melhores, não obstante os mesmos meios
precários nas mãos de deuses imperfeitos. A ideologia
de Bernard Shaw nunca prescindiu verdadeiramente de uma boa dose de
destruição revolucionária para a plena
realização do seu “melhor” possível.
Bernard, no entanto, está mais bem representado no papel de
Peter Weyland e de David,
pois tem do primeiro o sonho do poder de Deus e o cinismo do último
no que se refere a sua amoralidade quantos aos meios.
Nave-mãe
nos primórdios Arqueanos da terra deixa o “deus
astronauta” branquela para se sacrificar pelo surgimento da
vida.
Nosso deus
astronauta num momento de liberdade poética do filme, MORRE
num ritual científico de autodestruição
molecular para se tornar uma névoa de DNA toticompatível
com qualquer forma de vida, e, ao que parece, fonte mesmo da própria
vida. Não ficou claro se essa origem resultaria no homem desde
as espécies simples, portanto havendo uma codificação
de evolução positiva e progressiva até chegar ao
homem --- o mais provável ---; ou se somos uma coisa
imprevista, que, tão semelhante ao deus astronauta, vendo o
que fez, resolveu desfazer o que um dia havia começado. A
formação astronômica remota registrada na arte
rupestre em várias partes do mundo aparece como um sinal do
deus astronauta, pelo qual o encontraríamos. De qualquer
sorte, a tentativa de representar “Deus” como um
astronauta parece que se encontrou com os inevitáveis
paradoxos ao baixá-lo ao nível das intenções,
propósitos, objetivos humanos, isto é, à nossa
imagem e semelhança. Como qualquer representação,
a imperfeição acabou concebendo um deus que cria a vida
inteligente para que esta o contemple; ou, numa versão
sugerida em Prometheus, para que a vida, de alguma forma,
sirva a deus como um campo cultivado no seu tempo de colheita. Parece
que deuses inferiores acabam sempre se irando quando encarnam como
representações confinadas no espaço-tempo
ficando ao nosso alcance. Prometeu, assim como Adão, quis crer
que o Céu era um pouco mais baixo do que é, e acabou
encontrando uma samsara circular que se tornou em sua penitência
perene. Mas, se erguer-se à altura de Deus é perigoso,
tentar derrubá-lo não parece nem diferente, nem menos
perigoso. O que parece é que, no caso, deus derrubado do Céu
como astronauta perdeu o controle sobre a criação e
resolveu encerrá-la... --- em vez de expulsar o homem de onde
parece nem ele poderia sair ---; antes, e para isso, “deus”
resolveu criar uma forma de arma biológica, um parasita
infestante, um alien, para terminar com a aventura humana na
terra, e assim (lembrar dos meios precários) plagiando Homer
Simpson naquele episódio onde ele compra uma serpente para
combater uma infestação de ratos, um lagarto para
combater a infestação de serpentes, e então,
numa série do mesmo, mangustos para pegar os lagartos, etc.,
ou qualquer coisa assim. Quando David pergunta cético à
senhorita Shaw no momento em que ela havia pedido de volta o seu
crucifixo, se depois de tudo ela ainda acreditava em Deus,
compreender as patetadas do deus astronauta evitaria ter feito a
pergunta, já que explica muita coisa.
O
deus astronauta de Prometheus nem tentou uma espécie
humana obediente, reslveu logo a engenharia genética, conforme
a imagem de sua “natureza”.
Em Alien, “o
8º passageiro”, o protagonista tem a natureza biológica,
atributo da criação do próprio deus, de ser
mutante funcional com o que quer que parasite. “À imagem
e semelhança” ganha aí um sentido bastante
peculiar, já que parece que deus tem essa propriedade,
bem como, também por ela, um inimigo mortal! É, sem
dúvida, uma construção de um deus gnóstico,
que possui o bem e o mal em igual proporção. Caberia,
de novo, a nós optar pelo bem, mas sem que o próprio
deus pareça que o possa de um modo claro. Quando Shaw recoloca
o crucifixo, Deus volta a ser transcendente, e o deus astronauta nada
mais que um deus caído devorado por um titã.
Seja
lá algum tipo de deus criador de mundos o Sr Weyland,
ou um semeador ao modo do deus astronauta, o criador parece que só
nos teria feito para que o servíssemos. Essa sentença
já atribuída a um deus transcendente tem valor somente
a um analfabeto funcional ou a um ateu, cujo lema é “pouco
importa”. Eu, de mim, acho os ateus interessantíssimos,
e a estupidez digna de coisa a ser investigada. Outra referência
cruzada eloqüente é que tanto deus, como foi encontrado
pela primeira vez, quanto o androide David perderam a cabeça
pela mesma razão, buscando exercer algum controle sobre a
força primitiva da vida. David, ao buscar para o Sr Weyland
o poder da vida; o deus astronauta, ao manipular o poder da vida para
destruir. Um, ao buscar o seu criador; o outro, ao fugir de sua
criação. David ao ir ao encontro de quem criou quem o
criou; deus, ao manipular o poder da criação, que o
“criou”. Seja de que modo for, o paradoxo da Queda do
paraíso está aqui também, sempre; ascender à
condição de Deus, ou ir buscá-lo, derrubando-o
dentro do mundo, tem o mesmo efeito. Deus não nos fez para que
o servíssemos; apenas não podemos nos servir dele.
Talvez
nenhuma imagem seja como esta, ao representar o andróide (não
o homem) frente a uma árvore à
imagem
da árvore do conhecimento de “deus”, da vida e da
morte. Árvore de ramos em rede complexa, fazendo sistema,
última metáfora seguindo as pegadas da tradição
mística Ocidental, para representar uma experiência viva
de Deus.
Aqui deus é
um pouco Satan, um anjo mau que se voltou contra o homem como um
monstro de cinismo, indiferença, aberração e
paradoxo, um deus caído. Na busca pelo poder da vida, diante
de “deus”, David poderia ter pedido uma alma ao Mágico
de Oz, afinal de contas o cinismo sempre acaba num certo patético
piegas quando pretender alcançar um valor forte e verdadeiro;
pouco depois, ainda sem alma, perdeu também a cabeça.
Ora, parece que deus já não gostava mesmo muito do
homem, porque gostaria da cópia da cópia? Na rusga
criada, parece que deus resolveu, definitivamente, dar cabo da nossa
singela espécie. Mas também aqui o julgamento moral de
deus permanecerá um mistério.
David,
o Pinóquio cético, símbolo da ironia cínica
que reflete a condição humana sem Deus e sob o
princípio do experimentalismo prometéico: uma cabeça
pensante ao nível do chão.
As experiências
de deus correm em paralelo com as que pretende o vetusto Weyland,
levadas a cabo por David, com menos escrúpulos. Weyland busca
pelo poder da vida, como uma forma de salvar-se da morte, o que
pareceu do ponto de vista do deus alienígena, algo
completamente desimportante. Ele demonstrou isso depois, sequer
parando nem por um momento para matá-lo; bateu-lhe com David,
como quem espana uma mosca. Em seguida se dirige pressuroso para
fazer o mesmo, com outro tipo de David, sobre toda a espécie
humana. David, o andróide, tem com seu criador, em paralelo ao
que Alien tem com o seu, nosso deus astronauta, a marca de à
imagem e semelhança. Enquanto deus criou a forma de vida
que era para ser a morte da humanidade, o andróide David quis
saber até onde iria o “elixir da vida” quando se
entra em contato diretamente com ele. Migrando do ceticismo ao
cinismo mais radical, David fez “Charlie Holloway”,
namorado de Shaw, dizer se para conhecer os meios de Deus iria até
onde fosse necessário, o qual concordou, dando assim a David a
justificativa para fazer o mesmo, com ele. Imitando como um sátiro
demoníaco o ato da criação, David, num momento
de sarcasmo homicida, dá a “poção da vida”
a Holloway, que passa a sofrer com delírios, confusão
sensorial e, por fim, borbulha feito um purulento cadáver que
entende rápido que não vão lhe deixar entrar na
Prometheus de volta. Acaba como tantos hereges, que beberam nas águas
da experiência mística de Deus mais do que deviam e
acabaram indo para a fogueira. No caso, uma experiência
científica que continha no cadinho da poção da
vida uma igual dose da destruição da morte. Uma das
frases fortes do filme é justamente essa: “Às
vezes para criar é preciso destruir”. Lema
revolucionário por excelência, de que são adictos
os piores oportunistas das horas ruins.
A crise cria! É
o que realmente não pode ser, mas sempre há a pedra que
sobra, que terminada a igreja acaba na parede do motel. O DNA na
natureza se degrada, ele precisa estar protegido de alguma forma, nem
que seja dentro de um cristal protéico como no vírus.
Sem essa proteção, a qual o DNA determina dentro de uma
continuidade de sua própria existência como organismo
vivo, ele perece; nela, permanece e se diversifica. Porém, em
si mesmo, ele não tem o princípio da vida como o filme
o mostra. O DNA não é causa de si mesmo.
Fragmento
de DNA que se desfaz e refaz num processo de destruição
e criação, para começar a formar as primeiras
células.
A partir de
1:04:00 o filme mostra todas aquelas cenas que qualquer diretor com
senso do ridículo deixa para serem vistas no menu dos Extras:
Cenas Excluídas. O que o diretor tem contra geólogos
afinal de contas? Pelo menos o papel de bobo ficou com o biólogo.
O aparecimento de um zumbi indestrutível em posição
aracnídea como endemoniado de outro filme deve servir apenas
para nos fazer perguntar por que existe o mau editor no mundo de
Hollywood. Bem, mas nada que supere a cirurgia abdominal grampeada
que tira o bebê alien da barriga de Shaw para ver ela em
seguida correr, pular e lutar contra o deus astronauta fazendo uma
cara de dor lancinante. Lembrando bem, Sigourney Weaver teve um filho
no Alien: Ressurection (1997) que tinha a capacidade ardilosa
que o andróide David mostra em Prometheus, depois de
começar como um almofadinha de corredor de nave espacial New
Age (cena do aposento de “Vickers”, a Boa Charlize
Theron). Nada que espante, o caminho do caráter malicioso é
esse mesmo para qualquer um. No final de Ressurection, o alien
filho de Weaver estende a mão para ela sorrateiramente, com
olhos de gato de botas, para pegá-la. Por um instante mamãe
Weaver se comove, depois o aspira pelo buraco na escotilha do módulo
de carga isolado.
Talvez nenhuma
imagem seja como esta, ao representar o andróide (não o
homem) frente ao jardim das delícias do conhecimento de “deus”
(não o Deus), que é, ainda assim, o único deus
que o homem pode conhecer sem perder a cabeça. Que o “Jardim”
se pareça com a INTERNET parece que nos lembra de que somos
maiores que o deus inventado, em comparação a nós
mesmos, que não fomos criador por nós, mas David.
O Sr
Weyland frente a deus parecia muito
interessado em falar de seus problemas, mas o velho
se viu no meio de uma saraivada de perguntas mais rápidas e
jovens, como a de Shaw: “Pergunte de
onde eles vieram!” Não, diz
alguém, “Pergunte o que são
aquelas coisas”, complemento,
em forma de paiol de armamentos. Prometheus
altera os casulos para cápsulas de projéteis com aliens
dentro, sem a intenção de lançá-los
ar-terra, mas em distribuí-los simplesmente, que o efeito será
o inevitável. Claro que o pensamento ficcional pára aí
para evitar cair na lógica do maior come o menor como a
concebe uma solução aceitável Homer Simpson.
Pára, mas não explica, por que, afinal de contas, o
homem foi criado? Deitado, já quase sem respirar, Weyland
conclui: “Não há nada...”.
David, sarcástico, diz “Eu sei...
Faça boa viagem”.
Paiol
de Alines encontrado por David.
Mas certamente
David não percebeu que estava sendo sarcástico; talvez
tenha interpretado a situação, como costumava fazer,
por uma das suas frases de cinema. Parece mais correto, no entanto,
concluir que Weyland, interessado mais em si mesmo, tenha visto na
sua própria morte a falta de sentido mais ampla. David, como
lembraram a ele durante o filme, parece que não poderia
concluir noutro sentido: “Sim, eu sei”, disse ele.
O homem é o “humanóide” de deus, como David
o humanóide do homem. Alien, a ira de deus! Nessa lógica,
o cinismo indiferente, que até o deus astronauta padece, é
o diabo. Por trás da força criativa da vida há
uma força de transformação que cria e destrói
incontidamente. Mesmo deus está submetido a ela, ainda que a
possa controlar até certo ponto, e desajeitadamente, como
aprendiz de mágico que acaba enfeitiçado por imperícia.
O deus de Alien é
um deus hegeliano, como é hegeliana a estratégia de
limpeza racial de Homer Simpson; em ambos as transformações
genéticas são supervenientes e se transcendem,
assimilando a fase anterior numa mediação contínua
do ciclo anterior em algo novo. “Alien” é o
símbolo encarnado da força de transformação
que progride num processo contínuo de autonegação,
e a própria negação é negada, mas sua
“soma” em síntese permanece um todo num outro
nível, superior. A vida não exclui a morte, não
se mantém livre da destruição; ela suporte a
morte e na morte mantém o que ela é, seu ser. Só
chega à sua verdade quando se encontra em completa destruição!
O deus gnóstico de Alien é a “força da
vida”, força superior ao próprio deus. Essa força
só é o que é em face desse negativo que habita
nesse poder. E este habitar junto é o poder mágico
que converte o negativo no ser.
O cinema tem uma
capacidade realmente poderosa de mostrar, muito por uma simples
associação de idéias (quase ao acaso) as coisas
como elas estão circulando no mundo real. Em Prometheus
o tema da vida na terra e da origem do homem se mistura muito
apropriadamente a uma época permeada por “desconstrucionismos”
que quer nos fazer crer, este Zeitgeits, que podemos criar a
nossa própria realidade ao mesmo tempo em que se difunde a
noção de que a crise, a destruição, a
revolução precisa encontrar um turning point
para colocar antes a alavanca de Arquimedes, para girar o mundo de
ponta-cabeça. A solução apocalíptica do
mundo é uma renovação; a morte, uma libertação.
O ser é um deixar de ser, é ser outra coisa, é
fluxo que tem algum princípio de mudança (x
= >>i) paradoxalmente superior ao princípio de
identidade (x = i). Superior ou anterior, a mudança não
pode ser pensada, tem aquele atributo divino que é mistério...
ou finge que o tem. Sua natureza é a dos titãs e a do
atrito entre os seres; é a corrupção que vira
entropia sem poder explicar o que é o sentido positivo da vida
que, negando-a, nela habita. Em outras palavras, é o deixar de
ser sem deixar de ser, é o sorriso sardônico de um
embusteiro e, também e portanto, um princípio cínico,
e é o diabo.
Uma cultura que
escolhe o seu Deus porque imagina que cada um pode acreditar no que
quiser, não deixará de viver sob esse deus, e ao
contemplá-lo e buscá-lo, tornar-se, de algum modo, à
sua imagem e semelhança.
Nota crítica
Nenhum
review influenciou este que voz fala, portanto, seguem apenas algumas
notas críticas da crítica do filme. As sinopses e reviews,
de cá do equador e de acolá, tem um tom muito trivial, e só para
não dizer que não comparei esta sinopse com a crítica, o que se
segue é meramente uma vistoria do que se acha mais fácil por aí.
Elizabeth
Shaw, de fé católica e crucifixa em volta do pescoço, é uma
protagonista mais alienígena em Hollywood que o próprio alien,
segundo Christopher Orr, do The Atlantic. Ao contrário do que
pensa Orr, no entanto, não há qualquer “confusão categórica”
entre sua fé e a busca pela origem extraterrestre da vida humana, já
que sua teoria é, ainda assim, apenas uma teoria; assim também,
buscar a verdade não lhe é uma coisa interdita. Nem devemos
esquecer que filmes dessa natureza não são sistemas fechados, e que
as alusões as quais ele faz referência, sejam meramente “referencia
culturais”, como parece ser uma tendência, ao que parece, das
escolas de cinema ao falar sobre elementos históricos e científicos
passados e atuais como coisas soltas que ilustram apenas os filmes.
Nessas referências estão as premissas das fontes e a experiência
humana que as deu origem. A aventura trata de um deus existente que
semeia a vida na terra, mas sua fonte é o imanentismo que pretende
que, assim tendo sido, ou ocorrido espontaneamente (abiogênese),
reflete toda a história humana guiada ora por uma busca vaidosa, ora
por pelo desespero, ora pela esperança e pela fé, etc., o que muda
significativamente a natureza da aventura humana e suas
justificativas. Ausente, portanto Deus, alma, providência, destino,
eternidade, sem que se tenha respondido a vida e o homem.
Há
quem tenha dito tratar-se de um “libelo feminista”, ainda que
menos que os filmes anteriores, com Sigourney Weaver. Li mesmo uma
referência sobre como se livrar de uma gravidez indesejável de
forma limpa e prática. Ora, crítica com a mentalidade do Sr
“Holloway”, que só por acaso é o “caminho para o vazio” em
paralelo ao fundamento do filme. No homem, a revolta de Prometeu está
em paralelo com a destruição da espécie humana pelos deuses. Bem,
parece mesmo que os símbolos, os mais arquetípicos, tem a
capacidade de desencadear conseqüências, nem que de início apenas
simbólicas, profeticamente simbólicas, mesmo quando os autores não
compartilham intencionalmente com isso.
Na
eventualidade de uma continuação imaginar poder criar um engenheiro
supremo, vamos acabar em algum tipo de ridículo, já começando a se
afastar demais do sucesso estético e filosófico dos dois primeiros
filmes. Teríamos a parábola do mais simplório, quando perguntado
se acreditava em Deus responde que não, que acredita “em algo
muito maior”. Ou, sem mudar muito o tom, voltar à tática do
mangusto de Homes Simpson.
O
Paraíso perdido de John Milton (1608-1674) parece ser mesmo uma das
fontes mais importantes de Prometheus,
assim como William
Blake (1757-1827) e H. P. Lovecraft (1890-1937) --- ver a crítica do
The Atlantic, de Govindini Murty, “Decoding
the Cultural Influences in 'Prometheus,' From Lovecraft to 'Halo'”.
Em Blake e Milton os temas das heresias gnósticas como aparecem em
Jacob Böehme (1575-1624), os temas das heresias valentinianas,
nas quais há deuses que são entidades cósmicas,
metafísicas,
Quadro
do artigo do The Atlantic, da Srta Murty, com 23 fontes
“culturais” (algumas forçadas) do filme
Prometheus.
hierarquias
de deuses estranhos e ignotos. Talvez esse seja a raiz primitiva e
longínqua como Os Antigos de H. P. Lovecraft, do centro criativo de
Prometheus. A fonte mais insuspeita, estranha e ignota. É
sobretudo, por estas fontes, que se entende o tema da Queda do homem
como a Queda de Lúcifer e do Homem, como a perda de uma condição
original que deverá ou poderá ser recuperada sem a intervenção de
Deus. Mas aqui o homem espiritual (pneumático) dá lugar ao
homem materialista (hylico), pois a imanência de “Deus”
não traz qualquer fundamento para a esperança. É esse elemento
“alien” de Hollywood, o cristianismo, que como um quadro de
Escher de volta bem aberta permitirá que o filme se projete
para fora, e que seja esta sua transcendência, quando “Deus”
já não está mais no céu, mas caído num lugar qualquer aterrador
do cosmos. A queda de “Deus”, ou a “ascensão” do homem até
“Deus”, confunde-se, como na heresia gnóstica, a corrupção da
natureza superior numa força negativa, que cria a vida e a destrói
com completa e total indiferença.
Em
Prometheus
– Review (03 Junho 2012), Philip French, do The
Observer, escreve
que as versões anteriores (1979), mais cerebrais, tem em comparação
com Prometheus uma
guinada mística. A força dramática dos trillers
anteriores, com uma queda no Ressurection,
não existe em
Prometheus,
que tem mais de cômico e místico o que nos outros filmes é
suspense e horror. Mas é mais correto trocar “místico” por
“espiritual” (para lembrar os movimentos espiritualistas,
não espíritas, do século XIX), pois o que move o filme não é a
busca pelos “engenheiros”, mas a
força primeva da vida
(élan vital),
está no poder metafísico do poder
original de vida, que
o próprio “Deus” estaria ele mesmo, na sua versão de Engenheiro
da espécie humana, a ela submetido.
A
aventura destemida da espécie humana no universo vazio coube melhor
no filme ao Sr “Holloway”, enquanto se compara, queira ou
não ter tido essa intenção, com o frio e malicioso (v.g.,
puramente lógico) David: “Não há nada no deserto, e nenhum
homem precisa de nada” (frase de Laurence da Arábia,
visto 62 mil vezes por David e um dos filmes preferidos de Ridley
Scott). Coube a Elizabeth Shaw ser o contraponto menos crédulo dessa
fé pelo nada em Prometheus.
A
trilogia de Alien tem, talvez como todo horror naturalista
moderno, inspiração primeira na obra de H. P. Lovecraft. O
monstrengo infame “Cthulhu”, que criou uma mitologia moderna, é
uma figura satânica que imita a queda do homem que invoca o nada
infinito vivo no lugar de Deus.
Como
muitas imagens do diabo, Cthulhu, de Lovecraft, é uma síntese
bizarra de animais, bípede, uma força cósmica
perdido (ou “adormecido”) no espaço, nos sonhos,
na metafísica, nos símbolos, em todos estes, como um
predador mimetizado na inefabilidade do infinito.
Como muitas
imagens do diabo, Cthulhu, de Lovecraft, é uma síntese
bizarra de animais, bípede, uma força cósmica
perdida (ou “adormecida”) no espaço, nos sonhos,
na metafísica, nos símbolos, em todos estes, como um
predador mimetizado na inefabilidade do infinito.
Apêndices
Depois de
instruir a imaginação a respeitar a lógica que
ela deve seguir com uma dialética exploratória, sem
poder evitar algum esoterismo ao escrever, uma imagem é capaz
de resumir como nada consegue melhor, e nada melhor que a arte
bizarra que se produziu da experiência niilista de uma época
e seu sonho de uma redenção maldita. (As fontes das
imagens me são desconhecidas, mas estão na internet.)
A-1.
Fundamento filosófico de Prometheus (e
isso não é exatamente um chiste cômico),
da filosofia de Hegel, aprendiz
de ocultista, em estado puro, mostrando o élan vital
(que, quando puro, tem tentáculos), o “princípio
primevo de vida” como uma força que cria e destrói
incontidamente, confundindo-se com qualquer coisa negativa na síntese
entre o ser e o não-ser --- sempre igual a si mesma.
A-2.
A “massa negra” (proté hyle), como só
por acaso (de providência simbólica) aparece no ritual
de sacrifício do deus astronauta, na qual “habita”
a força incontida da vida, mas também como força
incontida o virulento ebola, o cego câncer, o horror da Peste
Negra, o metamórfico alien, que um demiurgo
libertou como aprendiz alquímico e caído novo (para ser
devorado). [Arte de Matt Dickson]
A-3.
Um medonho câncer com pernas. A força da vida é
amoral, e leva tanto à vida quanto à morte; como no
mimetismo, quando às vezes a força vital se disfarça
de vida, para destruir.
A-4.
O primeiro alien como abominação, saído da obra
de H. P. Lovecraft, à imagem do Deus desconhecido, é
isomorfo do passado mais primitivo e do universo infinito que
horrorizou Pascal, do infinito cósmico e infinito
estranhamento que se confunde com o Nada vivo, como ele só
pode ser representado, como aberração e experiência
infernal.
A-5.
Fundamento semelhante se encontra em Altered
States (1980),
no qual o protagonista tenta reproduzir uma experiência
“mística” extrema de regressão. Sob o uso
de drogas ou em câmaras de isolamento sensorial, a experiência
o leva a se metamorfosear pela memória filogenética da
espécie humana, chegando no fim à vida mais primitiva,
à massa amorfa, a prima
mater alquímica,
o poder de Deus, o caos criativo, cobiçado por aqueles que,
como Lúcifer, só encontraram uma irremediável
queda no recôndito escuro e lúgubre Nada.
A-6.
O ocultismo de invocadores de símbolos está no
fundamento de alguns “elementos culturais” no cinema,
como aqui em Prometheus --- elementos culturais que se
manifestaram antes no mundo real e só por isso são
“elementos culturais”. O lugar de Deus, como lembra
Lovecraft, nunca fica desocupado. Quando se destrói o culto do
deus amoroso, é a presença de outros deuses e
não a ausências destes que tomará lugar. Talvez
poucas vezes um aforisma se aplicou tão perfeitamente como
aqui:
“Quando
você olha muito tempo para dentro do abismo, o abismo olha de
volta para dentro de você”
---
Nietzsche.














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