Dez questões à-toa: "pelo direito de não perguntar"
“Hoje,
as pessoas de fé religiosa são na maioria livres-pensadores.
Levados para a margem de uma cultura na qual a ciência
reclama autoridade sobre todo o conhecimento humano, eles aprenderam
a cultivar a capacidade para a dúvida. Em contraste, os
crentes seculares --- adotando rapidamente a sabedoria convencional
do seu tempo --- estão agarrados a dogmas mal examinados.”
--- John
Gray, Straw Dogs – thoughts on humans and others
animals; p. xi.
(Contra o ateísmo)
O
vídeo “Dez
questões que todo cristão inteligente deveria
responder” é
uma destas demonstrações daquela máxima kantiana
que confundiu a confiança diligente com a fé na própria
torpeza: sapere aude.
Deus não se calou, como se quer sempre dizer a respeito da
modernidade --- se bem que é até compreensível
---, o homem é que tampou os ouvidos. Chamou-se a esta surdez
tagarela, “razão”. É bem verdade que há
um modo Zen
da razão livre que se orgulha silenciosamente de ser o efeito
austero de se ter, a si mesma, desde o início como coisa
superior; e de onde parte, como um deus
disciplinador, explanativa do mundo sublunar aos seu pequeninos
habitantes.
Essa
surdez tagarela, que mais tarde não raro ocorrerá sob
a algaravia do caótico do pós-modernismo --- o paroxismo
histérico da própria razão emancipada ---, levou
o filósofo australiano Stanley Rosen a dizer de Jacques
Derrida aquele que não consegue ver, nem pode ficar em
silêncio; pela superabundância da interpretação
desconstrucionista que nega a precedência da evidência.
Razão pela qual a escrita ganha a patente de Hefesto da
sociedade humana. Sem evidência (ou, sem a perspectiva da
evidência), isto é, sem fundamento, a razão
emancipada nos rendeu o irracionalismo técnico, a Ouroboro
carnívora que devora o Ser negando-o mesmo à luz da
própria razão que Ele fundamenta.
Minhas razões
pessoais por estas questões, sem ter treinamento particular em
apologética, é a da curiosidade vigorosa pela
convicção alheia no momento em que ela se incumbe de
ser porta-voz da racionalidade e combatente na guerra contra a
superstição da religião. Vestido do elmo de uma
cândida ignorância para o que se quer por “razão
superior”, é o que basta e, parece-me, suficiente para
devolver a luz do sol à boca de cena do mundo, mais forte que
a luz da razão artificial desse teatro de sombras. Pensei que
se tratava de coisa que o senso comum poderia dar conta, e me incumbi
assim mesmo, com a autonomia precária que algumas horas de
ócio conferem a alguém.
Um
ateu é um “sem-Deus”, mas isso diz pouco ou nada
de essencial sobre o ateísmo; além de ser uma categoria
ampla demais. Em termos práticos,
do que se tem por efeito do que alguém tem como uma condição
existencial, interessa a todos a força social e o que ela
demandará sob o seu símbolo, além de uma
escolha meramente pessoal. Retirado Deus de cena, é um
consenso no mundo inteligente que coisa equivalente, na silhueta,
toma-lhe o lugar na sua ausência. Se o ateu “leigo”
(i.e., agnóstico) é um sem-Deus,
o ateu militante é um contra-Deus;
mas uma e outra espécie desse gênero têm daquela
natureza que a dialética dos contrários esclarece sobre
a oposição aparente, as duas cabeças de um só
ser mitológico que nos joga de um lado para outro até a
completa confusão, ou até tomarmos parte de um lado sem
saber que ajudamos assim também ao outro. Portanto, a
distinção discreta entre ativismo ateu e quietismo
niilista (ataraxia) --- ou a afetação de
civilidade do laicismo --- não faz, de fato, muita
diferença, porque em ambos vige o paradoxal princípio
heurístico de não perguntar. Atacar Deus ou
negar atenção ao que pode haver de superior é já
ter assumido ser um súdito imoderado da moderação
estupefaciente[1]. Deste rende o princípio hermenêutico
desconstrucionista que fundamenta (lá ao seu modo “autônomo”)
a razão tagarela que se ergue no vôo estático de
um Ícaro --- ou, no exemplo mais forte de fatos recentes, no
paradoxo 477, o vôo da Air France que em 2009 pensando estar
voando caia “suavemente” no meio do Atlântico.
Se sabe que no
Direito alguém pode se recusar a fornecer provas contra si
mesmo, o que não obstante não se aplica ao testemunho
que a evidência flagrante fornece[2], sem já poder
evitar certo constrangimento, quando a escrita, a oralidade efêmera
e até mesmo o silêncio do corpo e das coisas dá
de si in actu sem que se tenha pedido por isso. Negado pela
filosofia da produção de textos, ei-la plenamente
presente a evidência, sem que se possa desviar os olhos, ou
não, pelo menos, sem um custo alto. O histrionismo da
tagarelice desconstrucionista é uma afetação de
caráter antes de ser uma técnica sofista; e é um
sofisticado[3] flamboyant que dentro de um arcabouço em arcos
encontra, proporcional ao espaço interno, prova mais forte do
vazio metafísico. Daí, talvez,
encontre em Ícaro um modelo digno de ser seguido, já
que há tanto vazio metafísico a ponto mesmo dele
escapar e negar a evidência exterior, anterior até mesmo
às delongadas conferências de filósofos, porque
não voar solto no ar das mutações do ser? Se
aprendêssemos a bater asas nesse meio rarefeito, se pudéssemos
conhecer as leis gerais que regem a aerodinâmica no nada!
Ícaro
cai do seu vôo onde as leis da aerodinâmica mudam muito
rápido; se ver de perto, a evidência do vôo do
mito de Ícaro era de cera desde o começo. Ícaro
é um vôo de imaginação[4].
Também
pela via negativa se pode criar a evidência de algo que não
pode não estar ou ter estado presente.
A ciência forense deve muito à produção de
provas que negam que algo possa ter sido, para não ter dúvida
que tenha sido de algum outro modo. Juristas já se referiram à
prova como “ponto de gravidade”, “pedra de
toque”, “ponto luminoso” (de luz própria),
etc., sem que jamais se tenha questionado, no mar revolto do
relativismo, que a gravidade que dá lastro na existência
para o nosso julgamento seja apenas um nenúfar metafísico
na superfície da língua[5].
Quando o princípio
da própria torpeza é confundido com autonomia, a pessoa
pode pensar que o seu testemunho cause, por força do
arrazoado, um efeito maior que o da evidência.
A intuição produzida por um arrazoado é a mais
das vezes mero efeito de persuasão --- no caso, e antes, de
autopersuasão. Na sombra dessa persuasão involuntária,
contra a qual a inteligência nada pode, porquanto falte, habita
a torpeza silenciosa que falseia. Esse tipo de ação
persuasiva (ou hábito) não é de natureza
retórica, mas psicológica: não se trata de
condução da atenção ou de ilusão,
mas de alucinação. A esse respeito, reconhecendo no
liberalismo[6] --- um dos nomes do ateísmo leigo
--- uma síndrome, escreve cientista político e
ex-militante socialista James Burnham:
“Os
liberais diferem, ou podem diferir, entre si, na aplicação,
tempo, método ou outros detalhes, mas estas diferenças
acabam dentro de um mesmo conjunto de idéias básicas,
crenças, princípios, metas, sentimentos e valores. Isso
não quer dizer que todo liberal é consciente de suas
características comuns; pelo contrário, para a maioria
dos liberais os elementos de suas convicções lhes
passam tão naturais e automaticamente quanto seu pulso ou
respiração” (Suicide
of the West,
p. 37).
A
certeza do ateu militante vem do efeito falseante da própria
torpeza, que ignorando as premissas não-racionais da
investigação racional, só então,
num segundo momento, vira debate de arrazoados. A certeza do ateu,
ativista ou quietista, não está fundamentada no
empirismo científico ou na força preferencial da razão,
mas numa estética sentimental que jaze sedimentada num nível
subliminar. Uma fantasia estética, isto é, uma
ideologia, um tipo de superstição! Dessa estética,
a “coragem” de acreditar na realidade a despeito do pior,
que mais que amedrontar, retira-nos a esperança, é a
marca do ateísmo ativista. Na dialética do
pessimismo/otimismo, esperança/desesperança, se
aceitará mais facilmente que a esperança e o otimismo
são entorpecentes e alienantes, e o pessimismo e a
desesperança os sinais do realismo e da coragem de ver as
coisas com elas são. Mas essa dialética não
permite estes maniqueísmos, ambos os tipos são amiúde
entorpecentes e alienantes. Os primeiros colapsam na fé
positiva do otimismo e se tornam
incapazes de ver a tensão
real entre o que é benigno e o que é temível. A
solução desse tipo de sentimentalismo travestido de
razão são símbolos de harmonia, equidade,
tolerância, moderação, etc., confundidos e
tornados indistintos da palavra “razão”. Os
últimos colapsam na negação cética e não
raro cínica, para quem o pior é o meio verdadeiro de
ação humana (ou, ao que tende inevitavelmente e ao oportunismo), que já só podem ver essa
condição e agir apenas segundo ela, não raro
caindo num solipsismo crítico.
A técnica a qual falta fundamento acaba levando a quem se detém
nela a perder com ela a necessidades de fundamentos. No caso do
discurso, a omitir as premissas, como se ignora uma infestação
parasita até que esta possa agir e provocar efeitos. Coisa lá
diabólica, não tem intenção clara ou
agente consciente reconhecível, não pelo menos
individualmente, ou não, por certo, desse mundo. Um dos seus
efeitos, por defesa eficiente, é justamente passar
desapercebido. Assim, ao ponto de a própria evidência
ser questionada à “luz” da razão, da razão
dos arrazoados. A luz artificial tem uma propriedade temível,
a de criar um teatro de sombras em tudo que ela não está
incidindo diretamente. Se fosse possível comparar, a luz da
evidência é uma “luz própria”, de
cada coisa; a “luz da razão”, a direção
da explanação que, sem a faculdade complementar e
anterior da intuição da evidência, torna-se no
mero tagarelar hipnótico de persuasão, ou em qualquer coisa como na feitiçaria que vira dano cognitivo (alucinatório).
A
negação do ser rendeu à imaginação
mais leveza, mas também menos autonomia de vôo.
Paradoxalmente, a autonomia real da certeza
metafísica de um fundamento,
que a evidência testemunha, está concebida com autonomia
equivalente na imaginação desviante do
desconstrucionismo e do ateísmo. Tudo foi feito para vôos
mais altos, mas o que então se chama “voar” não
passa de uma queda quando as referências já não
podem ser percebidas, e cair e voar, subir ou descer já não
são sentidos com a mínima diferença. As
tendências naturais são, no caso, mais fortes. Dir-se-á,
por fim, num último desvario, que ainda assim, por um
instante, libertou-se de todos os grilhões o audaz que cai.
Um esforço
não muito dispendioso de atenção mostra que há
dois tipos de ateus, o “militante” e o “leigo”.
O leigo é aquele que não ensina nenhuma religião
(exceto talvez a cidadania), nem que Deus
exista; e, sobretudo, não fará perguntas sobre isso,
por entender que as respostas possíveis são vãs
e sem efeito. “Entender” é aqui só uma
figura de linguagem, porque se trata, de fato, da síndrome que
descreve James Burnham e que para um John Gray não difere da
superstição de um consenso que pensa ter uma visão
mais racional do mundo. As convicções do ateu decorrem
de uma incapacidade, de uma limitação cognitiva; e uma
limitação cognitiva faz um tipo humano. Mas não
se trata antes de uma incapacidade para a fé, menos que isso,
de uma incapacidade mesmo para os procedimentos heurísticos da
ciência. É o resultado dessa limitação que
marca o tipo ateu, nas suas duas faces: a astenia do caráter
associada ao quietismo leigo, e o cinismo trágico do
tipo militante. O militante ateu é um ativista, ele
distribuirá panfletos, iniciará campanhas de
propaganda, denunciará a intransigência e a superstição,
e buscará positivar no direito tudo que se encontre em disputa
na sociedade albergando os movimentos de “liberação”
(v. nota 6) sob o princípio da laicidade. O princípio
da laicidade é o argumento da própria torpeza feito em
princípio angular do Direito. Ninguém invocará a
própria torpeza como sensatez, por certo reflexo de singeleza --- confundindo
o singelo à simplicidade de boa razão, ao bom senso
---, não se trata disso; mas não sabendo os distinguir
permite ao argumento simplório passar por sensatez e maior
razão. Ao qual, então, acostuma-se a assim
reconhecê-lo.
Não surpreende, portanto, que desse ponto
o ateu passe ao próximo, ao invés da dúvida, a
certeza que dispensa o fundamento das premissas para crer com fé
ardorosa no efeito das suas próprias palavras.
As
questões do vídeo, exemplos dessa ladainha leiga ou
militante, estarão aqui abaixo, aos poucos, parodiadas e respondidas de algum modo:
Questão
1 à-toa: Da restituição da virgindade metafísica:
“Por
que Deus não cura os amputados?”
Questão
2 à-toa: Fora com
os parasitas! (Uma preocupação para os ateus?):
"Por
que há tantas pessoas morrendo de fome no mundo hoje?”
Questão
3 à-toa: A revolta dos
“inocentes”:
“Por
que Deus ordena a morte de pessoas inocentes?”
Questão
4: Por que só existem tolos
defendendo a ciência na mídia?
“Por
que há tantas besteiras científicas na Bíblia?”
Questão
5 à-toa: Liberdade é
escravidão!
“Por
que Deus se inclina tanto para promover a escravidão na Bíblia?”
Questão
6 à-toa: O
bem hedonista:
“Por
que coisas más ocorrem a pessoas boas?”
Questão
7 à-toa: A crítica da
evidência:
“Por
que nenhum dos milagres de Jesus Cristo deixou alguma evidência?”
Questão
8 à-toa: A casa assombrada do ateísmo:
“Como
explicar que Jesus nunca tenha aparecido de fato para você”
Questão
9 à-toa: O princípio hermenêutico da própria torpeza:
“Por
que Jesus quer que comamos sua carne e bebamos o seu sangue?”
Questão
10 à-toa: As mulheres, o grande
mistério do universo:
“Por
que o número de divórcios entre cristãos é o mesmo que entre não
cristãos?”
Notas
1.
Um exemplo esclarecedor dos efeitos do agnosticismo e da ataraxia
epicurista (v. artigo “Emil Cioran: pessimismo, contradições e
apatia”, de Rodrigo Gurgel, 20 de Fev de 2012, no Mídia Sem
Máscara), pode ser contemplado na declaração de Maria do Rosário
recente [a respeito da intervenção na Síria]:
“Nós
[governo e ministros ligados ao apelo dos direitos humanos] somos
[enfaticamente] contra o uso da violência, seja a que pretende armar
os rebeldes na Síria, seja a do governo de Bashar Al-Assad. Queremos
a diplomacia como marca da política desse século”.
No
caso, o pacifismo radical, que já servira de artifício jogado sobre
os ombros dos países ocidentais pelos soviéticos, para que aqueles
não agissem, assume aqui que o ponto de conversa com o governo sírio
será depois dele ter esmagado parte de seu próprio povo. A mesma
lógica poderia ter evitado a Segunda Guerra com um simples acordo
com Hitler.
2.
Se bem que esse parece ser um princípio do direito americano que por
aqui se perdeu em algum momento.
3.
A etimologia de “sofisticado” vem de sophistikos,
sophistes,
com o sentido antigo de “adulterar”.
4.
“Strauss
afirmou certa vez, com razão, que a não ser que o pensamento seja
regulado pelo mundo do senso comum do nosso dia-a-dia, ele logo se
torna indiscernível da imaginação”
(Staley Rosen, Hermeneutics
as politics;
3).
5.
É bem verdade que Carlo Ginsburg tentou algo assim em Il
giudice e la storico
(1991).
6.
O
tipo “liberal”, ou o Liberalismo como conjunto de idéias
básicas, crenças, metas, sentimentos e valores, que modelam o
caráter, são, de fato, aqueles do humanismo ateu, descrito pelo
padre Henry de Lubac em O
drama do humanismo ateu
(1944). Sua metafísica é uma antropologia, não raro com tons
místicos indisfarçados. Sua profissão de fé é a do materialismo
antropológico, o relativismo utilitário, (a estética) da harmonia
equilibrada com o meio, que especulou sobre o tema do panteísmo e do
holismo flertando com o místico. As demandas do liberalismo (numa de
suas faces, segundo John Gray) --- a forma política do humanismo
ateu --- são as demandas de “liberação” para com o dever dos
valores morais (a maioria com fonte na religião, sobretudo no
cristianismo). Mas fica por aí, porque a partir daí a distinção
com o marxismo, no seu amplo leque de correntes (tão “contraditório”
internamente quanto as curvas sinuosas de um rio meandrante que,
ainda assim, deságua no mar), como programa de subversão dos
valores tradicionais, fica completamente indistinto do liberalismo. A
distinção estava bem clara, hoje menos, nos irmãos siameses
PSDB/PT. Nos Estados Unidos, a distinção é uma distinção interna
do partido Democrata, no poder hoje sua face mais radical. A
social-democracia do primeiro é um socialismo reformista lento e
abrangente, a ponto de transformar, não distinto do segundo, toda
percepção social nas principais preocupações políticas,
econômicas, morais, e com estética típica do tipo liberal; o
segundo, o partido socialista revolucionário, dos “trabalhistas”,
e não apenas reformador, leva um pouco mais longe as reformas
tipicamente liberais, visando não apenas eleições livres, como
particularização na legislação das veleidades pessoais com outro
fim. É ainda pela “razão” de que pequenas modificações
difusas, porém abrangentes, podem mudar a face do mundo em alguma
coisa no horizonte do possível mais maleável a quem pretende um
mundo sempre um pouco melhor: messianismo disfarçado de camuflado
esoterismo social. As “liberações” de uma das faces do
Liberalismo desejam não apenas liberação moral, mas moral
passa a ser o que é liberado conforme a vontade pessoal --- no mesmo
sentido ainda, não apenas democracia, mas “democracia radical”
---; não apenas justiça, mas igualdade por ação positiva do
estado e o estado não apenas com garantidor da ordem legal, mas como
tutor da vida civil.
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