setembro 05, 2014

O conflito como método

Para ilustrar o caso recente de caça às bruxas racistas que vitimou uma menina por ter pronunciado a palavra "macaco", e que recebeu de parte da mídia uma reação histérica de "horror" e "nojo", gerando um clima de ódio e ameaças como poucas vezes se viu.

"Esfregando sal na ferida", de Tammy Bruce, em 'The New Thought Police: inside the lefts's assault on free speech and free minds' (p. 98):

"Durante os meus dias de ativista feminista, a coisa mais perturbadora que eu ouvi sobre as feministas era que nós "deveríamos esfregar sal na ferida" se quiséssemos fazer progressos. "Esfregar sal na ferida" significa manter viva a dor da nossa base popular. Isso pode assumir muitas formas, mas antes de tudo essa estratégia envolve distorcer todas e quaisquer relações humanas colocando-as sob a marca da violência contra as mulheres, contra negros, gays, ou quaisquer outros grupos que sejam nosso 'filão'. Se o acontecimento do dia nos dá um exemplo real do que queremos, ele deve ser explorado --- e se ele não dá, então um caso parecido deve ser inventado para lembrar nossas bases populares de sua vitimização.
E ninguém esfrega sal na ferida como [o célebre ativista americano dos direitos civis dos negros] Jesse Jackson. Em 19 de Setembro de 1999, durante um jogo de futebol escolar em Decatur, Illinois, começou uma briga entre os torcedores nas arquibancadas. Os funcionários da escola expulsaram do local vários estudantes que participaram da briga. Jesse Jackson imediatamente correu até Decatur, uma cidade de trabalhadores que se gabava de sua agricultura, suas 500 companhias na lista da revista Fortune, e pelo fato de Abraham Lincoln ter exercido a advocacia por lá. Reconhecendo que seria difícil mesmo para ele associar as ações da escola a racismo --- mesmo que os estudantes expulsos fossem todos negros ---, Jackson admitiu que não se tratava de fato de uma questão racial, mas, em suas palavras, de uma questão de "justiça" ['fairness']. Não obstante isso, seus protestos acabaram em marchas com milhares de pessoas cantando "We Shall Overcome" [Venceremos!], reminiscentes da luta pelos direitos civis na década de 60. Durante a estadia de Jackson em Decatur, as tensões raciais cresceram a tal ponto que, temendo violência, três escolas foram fechadas por vários dias.
Este caso foi a demonstração final de cinismo de um líder dos "direitos civis" que de tão desesperado para esfregar sal na ferida, chegou a apoiar um grupo de jovens mentido em simples pancadaria em um jogo de futebol para alcançar seus objetivos. Jackson não negou que a briga ocorreu ou que os jovens que ele apoiou participaram da briga. Por que, afinal de contas, então, ele levou o fato à condição de uma marcha pelos direitos civis? "Foi uma briga feia em um jogo de futebol, sem sangue, sem armas, sem tiros, nem facadas", explicou Jackson. "Nada tão brutal quanto uma briga de 'hockey' ou uma briga na NBA". Este é, aparentemente, o novo patamar para o projeto na luta pelos direitos civis. [Lembrar aqui que os "Civil-Rights", os direitos civis, assumem, para atualizar demandas (táticas), na nossa época, o gênero maior dos "Human Rights"].
Mas é realmente assim que os negros americanos percebem sua luta --- defendendo jovens que representam aquilo que não chegou a ocorrer? Certamente não penso que seja. Mas num mundo onde o espectro do racismo atual está empalidecendo, essa tática consegue duas coias. Primeiro, com notícias de cobertura nacional, reforça nos negros a idéia de que eles estão sob ataque; segundo, diz aos brancos que seu racismo está vivo. Isso esfrega sal em duas feridas, feridas que se deixadas pra lá, seriam capazes de se curar sozinhas.
Um episódio como esse joga luz sobre por que é tão importante à nova Polícia do Pensamento que as pessoas não se sintam confortáveis discutindo estas questões. Que é, afinal, a coisa politicamente correta a se dizer se alguém o questiona sobre o incidente? Bem, você certamente sabe o que não deveria dizer --- que os garotos mereceram ser expulsos.  O que, no entanto, teria indicado que você é um "insensível" à situação "complicada" dos jovens negros. Talvez você pensasse isso a respeito de si mesmo. O código verbal polido é tão arraigado em nossa pisque, que nós tendemos a acusar a nós mesmos caso passe por nossas cabeças algo que parecesse "errado". Mas se falássemos honestamente sobre o que ocorreu, cada um de nós poderia descobrir que não estamos sozinhos em nossas opiniões e poderíamos concluir, depois de tudo, que não somos de fato racistas."

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