março 03, 2013

O Diabo contra a hipocrisia

Hipocrisia é o tributo que o vício presta à virtude
Depois das palavras corajosas de Bento XVI na sua despedida, é de se esperar que suas alegações e sua opção pela transparência propiciem ao Vaticano uma oportunidade para passar a limpo hipocrisias históricas”. --- Destaque do editorial de ZH de 28 de Fevereiro de 2013.
Com essa chamada no editorial, no reconhecível estilo do comentário político do programa “Atualidade” (Rádio Gaúcha), a Zero Hora faz recorrer à Igreja Católica seus pecados inconfessos, querendo com isso que, como a transparência, eles venham à tona para --- num tipo de psicanálise progressista --- por algum expediente, reformar a Igreja e a fé em algo, digamos assim, muito mais “humano”. (A ideologia humanista tem sua explanação num artigo ao lado do editorial nesse mesmo dia, sob o título “Simplesmente, humanos”)
Diz o editorial:
Provavelmente, o sucessor de Bento XVI tenha que administrar polêmicas recorrentes, como o fim do celibato obrigatório, o acesso de mulheres ao sacerdócio, o uso de preservativo, a união entre homossexuais e as experiências médicas com células-tronco [embrionárias --- hoje já quase o completamente desnecessário, em vista do sucesso no uso de células-tronco adultas ---], entre outros que contam com a oposição radical do Vaticano.”
E conclui:
[O conservador Bento XVI] deixa como legado final uma tênue abertura para a modernização da Igreja.”
(Eis o seu mérito, ao que parece.)
Uma coisa seguida da outra faz recorrer novamente à “hipocrisia” da igreja, que o editorial enuncia como coisa arqui-sabida. Então, se a hipocrisia pode ser psicanalisada, se pode ser trazida à tona como confissão, cabe agora, segundo os iluminados formadores de opinião de editorial, e até para remover a odiosa hipocrisia, aceitar os pecados como “condições humanas” (a revolução de um mundo de ponta-cabeça, afinal, só poderia dar no mesmo); não de sua falibilidade, mas de sua natureza ordinária, algo tão próximo das heresias medievais que só não dá para reconhecer melhor porque a cabeça mediana vê mais do que rápido algo não tolerado pelo período como coisa obviamente cheia de virtudes, ainda que não soubesse dizê-lo, o quê ou de que modo. Isto é, tornar o hábito vicioso em novo hábito, num processo civilizatório todo novo. Assim, a frase final postula uma acusação cheia de esperanças de renovação. (Gostaria de saber de que alto degrau fala o senhor editorialista). Então aquele lugar da mais alta reverência é, na verdade, outro lugar apenas do baixo mundo onde a ganância, o ardil financeiro, a ânsia por poder e a sacanagem estão tão presentes quanto se deveria esperar que estivessem em qualquer outro lugar. A hipocrisia, como se vê, é um pecado pior que o vício, para o nosso ilustrado editorialista.
Libertada dessa sombra recalcada e reacionária, para algo muito mais humano, até demasiado humano, agora a igreja pode tratar de considerar, desde o ponto de vista de seus pecados inconfessos, o pecado mundano como coisa cuja compaixão e perdão devem se transformar em obsequiosa tolerância, que deverá se manifestar na reforma da igreja e da moral natural para contemplar a substância do pecado mesma como sacerdócio muito mais realista, porque uma verdade empírica. Isto é, o perdão cristão se transforma em liberalidade ao pecado. Ora, quem poderia pecar ao entregar-se ao desejo que o Deus Todo-Poderoso e onipresente não poderia estar negligente? Assim, e desde então, o perdão caridoso cristalizar-se-á legal e moralmente nos códigos da dogmática como comportamento legítimo e de foro íntimo; e sendo o respeito ao foro íntimo moral em si mesmo.
Assim... Negar-se à hipocrisia significa agora promover abertamente os mesmos vícios que vexavam a conduta da igreja, mas agora já com o salvo-conduto para aqueles que trabalharam, conspirando e deformando desde dentro a igreja para dessa crise artificial tirar uma igreja muito mais viciada e pecaminosa, porém, então já com a salvaguarda do consenso, incluindo aqueles dos nossos editorialistas. Afinal de contas, espantam-se eles, a igreja não evoluiu com o mundo, mas ficou parada no tempo, no tempo de Deus.
Sanar as hipocrisias, assim, é abraçar o vício que agora, num mundo muito mais ilustrado pela sabedoria da Razão, faz abranger a todos um perdão igualitário prévio. O afluxo laico --- chamaram-no “lobby” --- ilustra o Cristo, a moral da igreja então passa a ser a moral do humanismo ateu, e isto pedido pelos formadores de opinião de editoriais, para uma igreja mais “moderna”.
Aqueles que acreditam que religião é apenas formas vazias da necessidade humana que um John Gray não consegue negar ao homem, mas se resigna, já não poderiam tratar ela de outra forma, e quando pedem que se reforme, já não podem deixar de ajudar os piores diabos a deixá-la do jeito mesmo que seus inimigos sempre quiseram vê-la, à sua imagem e semelhança.

Nenhum comentário: