novembro 25, 2012

Alien: a Ira de Deus e o Diabo

  --- Uma sinopse de Prometheus (2012), a origem de Alien ---
As trevas ocultam-se no centro da luz, e aquele que quiser com arrogância ir além de Deus... fica mergulhado nas trevas” --- Jacob Böehme, Theosophische Wercke (1682).
Where the mild gods are absent, the Other Gods are not unrepresented” --- Lovecraft, A procura de Kadath (1927).
Wer mit Ungeheuern kämpft, mag zusehn, dass er nicht dabei zum Ungeheuer wird. Und wenn du lange in einen Abgrund blickst, blickt der Abgrund auch in dich hinein.” --- W. F. Nietzsche, Para além do bem e do mal (1886: IV, §146).
Um nem tão sutil ceticismo no início do filme pode ser uma pista do que está por trás das associações que se desencadeiam na imaginação de Spaihts & Lindelof e do Sr Ridley Scott: “Você escolhe no que quer acreditar”, que foi para o autor da frase, o pai da mocinha, “Elizabeth Shaw”, a resposta confusa e simplória diante do horror do ebola. Quase sem querer, acaba fazendo um paralelo fundamental para o filme sobre o niilismo que especula sobre as origens e que acaba encontrando, porque mais nada poderia encontrar, o impulso amoral da vida. Numa variação de um tema bem moderno, a morte se torna um tipo de festim onde o poder da vida se alastra em um movimento abslutamente livre e incontido. A força da vida que há no câncer, incontida, parece que está também no ebola, incontida; na peste medieval, incontida; e no alien... Por trás da força criativa da vida há uma força de transformação que cria e destrói incontidamente.
A empresa WEYLAND CORP tem como slogan “Construindo Mundos Melhores”, o que permite uma referência cruzada com o espírito criativo do nosso deus astronauta, os pálidos “engenheiros”, nos fazendo à sua imagem e semelhança... Supostamente, se é que o queria. Mas por que o faria? O fim do filme pergunta isso retoricamente para ir buscar a resposta provavelmente na seqüência. A criação de novos mundos melhores parece que sempre sofre de alguma senilidade precoce, já que mesmo no longínquo futuro, como no passado original, o que se pretende é ainda uma “terraformação”, a velha casa, a velha ordem. “Shaw” a propósito é o nome famoso do escritor Bernad Shaw, um entusiasta de boa fé e proponente de mundos melhores, não obstante os mesmos meios precários nas mãos de deuses imperfeitos. A ideologia de Bernard Shaw nunca prescindiu verdadeiramente de uma boa dose de destruição revolucionária para a plena realização do seu “melhor” possível. Bernard, no entanto, está mais bem representado no papel de Peter Weyland e de David, pois tem do primeiro o sonho do poder de Deus e o cinismo do último no que se refere a sua amoralidade quantos aos meios.

Nave-mãe nos primórdios Arqueanos da terra deixa o “deus astronauta” branquela para se sacrificar pelo surgimento da vida.
Nosso deus astronauta num momento de liberdade poética do filme, MORRE num ritual científico de autodestruição molecular para se tornar uma névoa de DNA toticompatível com qualquer forma de vida, e, ao que parece, fonte mesmo da própria vida. Não ficou claro se essa origem resultaria no homem desde as espécies simples, portanto havendo uma codificação de evolução positiva e progressiva até chegar ao homem --- o mais provável ---; ou se somos uma coisa imprevista, que, tão semelhante ao deus astronauta, vendo o que fez, resolveu desfazer o que um dia havia começado. A formação astronômica remota registrada na arte rupestre em várias partes do mundo aparece como um sinal do deus astronauta, pelo qual o encontraríamos. De qualquer sorte, a tentativa de representar “Deus” como um astronauta parece que se encontrou com os inevitáveis paradoxos ao baixá-lo ao nível das intenções, propósitos, objetivos humanos, isto é, à nossa imagem e semelhança. Como qualquer representação, a imperfeição acabou concebendo um deus que cria a vida inteligente para que esta o contemple; ou, numa versão sugerida em Prometheus, para que a vida, de alguma forma, sirva a deus como um campo cultivado no seu tempo de colheita. Parece que deuses inferiores acabam sempre se irando quando encarnam como representações confinadas no espaço-tempo ficando ao nosso alcance. Prometeu, assim como Adão, quis crer que o Céu era um pouco mais baixo do que é, e acabou encontrando uma samsara circular que se tornou em sua penitência perene. Mas, se erguer-se à altura de Deus é perigoso, tentar derrubá-lo não parece nem diferente, nem menos perigoso. O que parece é que, no caso, deus derrubado do Céu como astronauta perdeu o controle sobre a criação e resolveu encerrá-la... --- em vez de expulsar o homem de onde parece nem ele poderia sair ---; antes, e para isso, “deus” resolveu criar uma forma de arma biológica, um parasita infestante, um alien, para terminar com a aventura humana na terra, e assim (lembrar dos meios precários) plagiando Homer Simpson naquele episódio onde ele compra uma serpente para combater uma infestação de ratos, um lagarto para combater a infestação de serpentes, e então, numa série do mesmo, mangustos para pegar os lagartos, etc., ou qualquer coisa assim. Quando David pergunta cético à senhorita Shaw no momento em que ela havia pedido de volta o seu crucifixo, se depois de tudo ela ainda acreditava em Deus, compreender as patetadas do deus astronauta evitaria ter feito a pergunta, já que explica muita coisa.

O deus astronauta de Prometheus nem tentou uma espécie humana obediente, reslveu logo a engenharia genética, conforme a imagem de sua “natureza”.
Em Alien, “o 8º passageiro”, o protagonista tem a natureza biológica, atributo da criação do próprio deus, de ser mutante funcional com o que quer que parasite. “À imagem e semelhança” ganha aí um sentido bastante peculiar, já que parece que deus tem essa propriedade, bem como, também por ela, um inimigo mortal! É, sem dúvida, uma construção de um deus gnóstico, que possui o bem e o mal em igual proporção. Caberia, de novo, a nós optar pelo bem, mas sem que o próprio deus pareça que o possa de um modo claro. Quando Shaw recoloca o crucifixo, Deus volta a ser transcendente, e o deus astronauta nada mais que um deus caído devorado por um titã.
Seja lá algum tipo de deus criador de mundos o Sr Weyland, ou um semeador ao modo do deus astronauta, o criador parece que só nos teria feito para que o servíssemos. Essa sentença já atribuída a um deus transcendente tem valor somente a um analfabeto funcional ou a um ateu, cujo lema é “pouco importa”. Eu, de mim, acho os ateus interessantíssimos, e a estupidez digna de coisa a ser investigada. Outra referência cruzada eloqüente é que tanto deus, como foi encontrado pela primeira vez, quanto o androide David perderam a cabeça pela mesma razão, buscando exercer algum controle sobre a força primitiva da vida. David, ao buscar para o Sr Weyland o poder da vida; o deus astronauta, ao manipular o poder da vida para destruir. Um, ao buscar o seu criador; o outro, ao fugir de sua criação. David ao ir ao encontro de quem criou quem o criou; deus, ao manipular o poder da criação, que o “criou”. Seja de que modo for, o paradoxo da Queda do paraíso está aqui também, sempre; ascender à condição de Deus, ou ir buscá-lo, derrubando-o dentro do mundo, tem o mesmo efeito. Deus não nos fez para que o servíssemos; apenas não podemos nos servir dele.
Talvez nenhuma imagem seja como esta, ao representar o andróide (não o homem) frente a uma árvore à imagem da árvore do conhecimento de “deus”, da vida e da morte. Árvore de ramos em rede complexa, fazendo sistema, última metáfora seguindo as pegadas da tradição mística Ocidental, para representar uma experiência viva de Deus.
Aqui deus é um pouco Satan, um anjo mau que se voltou contra o homem como um monstro de cinismo, indiferença, aberração e paradoxo, um deus caído. Na busca pelo poder da vida, diante de “deus”, David poderia ter pedido uma alma ao Mágico de Oz, afinal de contas o cinismo sempre acaba num certo patético piegas quando pretender alcançar um valor forte e verdadeiro; pouco depois, ainda sem alma, perdeu também a cabeça. Ora, parece que deus já não gostava mesmo muito do homem, porque gostaria da cópia da cópia? Na rusga criada, parece que deus resolveu, definitivamente, dar cabo da nossa singela espécie. Mas também aqui o julgamento moral de deus permanecerá um mistério.
David, o Pinóquio cético, símbolo da ironia cínica que reflete a condição humana sem Deus e sob o princípio do experimentalismo prometéico: uma cabeça pensante ao nível do chão.
As experiências de deus correm em paralelo com as que pretende o vetusto Weyland, levadas a cabo por David, com menos escrúpulos. Weyland busca pelo poder da vida, como uma forma de salvar-se da morte, o que pareceu do ponto de vista do deus alienígena, algo completamente desimportante. Ele demonstrou isso depois, sequer parando nem por um momento para matá-lo; bateu-lhe com David, como quem espana uma mosca. Em seguida se dirige pressuroso para fazer o mesmo, com outro tipo de David, sobre toda a espécie humana. David, o andróide, tem com seu criador, em paralelo ao que Alien tem com o seu, nosso deus astronauta, a marca de à imagem e semelhança. Enquanto deus criou a forma de vida que era para ser a morte da humanidade, o andróide David quis saber até onde iria o “elixir da vida” quando se entra em contato diretamente com ele. Migrando do ceticismo ao cinismo mais radical, David fez “Charlie Holloway”, namorado de Shaw, dizer se para conhecer os meios de Deus iria até onde fosse necessário, o qual concordou, dando assim a David a justificativa para fazer o mesmo, com ele. Imitando como um sátiro demoníaco o ato da criação, David, num momento de sarcasmo homicida, dá a “poção da vida” a Holloway, que passa a sofrer com delírios, confusão sensorial e, por fim, borbulha feito um purulento cadáver que entende rápido que não vão lhe deixar entrar na Prometheus de volta. Acaba como tantos hereges, que beberam nas águas da experiência mística de Deus mais do que deviam e acabaram indo para a fogueira. No caso, uma experiência científica que continha no cadinho da poção da vida uma igual dose da destruição da morte. Uma das frases fortes do filme é justamente essa: “Às vezes para criar é preciso destruir”. Lema revolucionário por excelência, de que são adictos os piores oportunistas das horas ruins.
A crise cria! É o que realmente não pode ser, mas sempre há a pedra que sobra, que terminada a igreja acaba na parede do motel. O DNA na natureza se degrada, ele precisa estar protegido de alguma forma, nem que seja dentro de um cristal protéico como no vírus. Sem essa proteção, a qual o DNA determina dentro de uma continuidade de sua própria existência como organismo vivo, ele perece; nela, permanece e se diversifica. Porém, em si mesmo, ele não tem o princípio da vida como o filme o mostra. O DNA não é causa de si mesmo.
Fragmento de DNA que se desfaz e refaz num processo de destruição e criação, para começar a formar as primeiras células.
A partir de 1:04:00 o filme mostra todas aquelas cenas que qualquer diretor com senso do ridículo deixa para serem vistas no menu dos Extras: Cenas Excluídas. O que o diretor tem contra geólogos afinal de contas? Pelo menos o papel de bobo ficou com o biólogo. O aparecimento de um zumbi indestrutível em posição aracnídea como endemoniado de outro filme deve servir apenas para nos fazer perguntar por que existe o mau editor no mundo de Hollywood. Bem, mas nada que supere a cirurgia abdominal grampeada que tira o bebê alien da barriga de Shaw para ver ela em seguida correr, pular e lutar contra o deus astronauta fazendo uma cara de dor lancinante. Lembrando bem, Sigourney Weaver teve um filho no Alien: Ressurection (1997) que tinha a capacidade ardilosa que o andróide David mostra em Prometheus, depois de começar como um almofadinha de corredor de nave espacial New Age (cena do aposento de “Vickers”, a Boa Charlize Theron). Nada que espante, o caminho do caráter malicioso é esse mesmo para qualquer um. No final de Ressurection, o alien filho de Weaver estende a mão para ela sorrateiramente, com olhos de gato de botas, para pegá-la. Por um instante mamãe Weaver se comove, depois o aspira pelo buraco na escotilha do módulo de carga isolado.
Talvez nenhuma imagem seja como esta, ao representar o andróide (não o homem) frente ao jardim das delícias do conhecimento de “deus” (não o Deus), que é, ainda assim, o único deus que o homem pode conhecer sem perder a cabeça. Que o “Jardim” se pareça com a INTERNET parece que nos lembra de que somos maiores que o deus inventado, em comparação a nós mesmos, que não fomos criador por nós, mas David.
O Sr Weyland frente a deus parecia muito interessado em falar de seus problemas, mas o velho se viu no meio de uma saraivada de perguntas mais rápidas e jovens, como a de Shaw: “Pergunte de onde eles vieram!” Não, diz alguém, “Pergunte o que são aquelas coisas”, complemento, em forma de paiol de armamentos. Prometheus altera os casulos para cápsulas de projéteis com aliens dentro, sem a intenção de lançá-los ar-terra, mas em distribuí-los simplesmente, que o efeito será o inevitável. Claro que o pensamento ficcional pára aí para evitar cair na lógica do maior come o menor como a concebe uma solução aceitável Homer Simpson. Pára, mas não explica, por que, afinal de contas, o homem foi criado? Deitado, já quase sem respirar, Weyland conclui: “Não há nada...”. David, sarcástico, diz “Eu sei... Faça boa viagem”.
Paiol de Alines encontrado por David.
Mas certamente David não percebeu que estava sendo sarcástico; talvez tenha interpretado a situação, como costumava fazer, por uma das suas frases de cinema. Parece mais correto, no entanto, concluir que Weyland, interessado mais em si mesmo, tenha visto na sua própria morte a falta de sentido mais ampla. David, como lembraram a ele durante o filme, parece que não poderia concluir noutro sentido: “Sim, eu sei”, disse ele. O homem é o “humanóide” de deus, como David o humanóide do homem. Alien, a ira de deus! Nessa lógica, o cinismo indiferente, que até o deus astronauta padece, é o diabo. Por trás da força criativa da vida há uma força de transformação que cria e destrói incontidamente. Mesmo deus está submetido a ela, ainda que a possa controlar até certo ponto, e desajeitadamente, como aprendiz de mágico que acaba enfeitiçado por imperícia.
O deus de Alien é um deus hegeliano, como é hegeliana a estratégia de limpeza racial de Homer Simpson; em ambos as transformações genéticas são supervenientes e se transcendem, assimilando a fase anterior numa mediação contínua do ciclo anterior em algo novo. “Alien” é o símbolo encarnado da força de transformação que progride num processo contínuo de autonegação, e a própria negação é negada, mas sua “soma” em síntese permanece um todo num outro nível, superior. A vida não exclui a morte, não se mantém livre da destruição; ela suporte a morte e na morte mantém o que ela é, seu ser. Só chega à sua verdade quando se encontra em completa destruição! O deus gnóstico de Alien é a “força da vida”, força superior ao próprio deus. Essa força só é o que é em face desse negativo que habita nesse poder. E este habitar junto é o poder mágico que converte o negativo no ser.
O cinema tem uma capacidade realmente poderosa de mostrar, muito por uma simples associação de idéias (quase ao acaso) as coisas como elas estão circulando no mundo real. Em Prometheus o tema da vida na terra e da origem do homem se mistura muito apropriadamente a uma época permeada por “desconstrucionismos” que quer nos fazer crer, este Zeitgeits, que podemos criar a nossa própria realidade ao mesmo tempo em que se difunde a noção de que a crise, a destruição, a revolução precisa encontrar um turning point para colocar antes a alavanca de Arquimedes, para girar o mundo de ponta-cabeça. A solução apocalíptica do mundo é uma renovação; a morte, uma libertação. O ser é um deixar de ser, é ser outra coisa, é fluxo que tem algum princípio de mudança (x = >>i) paradoxalmente superior ao princípio de identidade (x = i). Superior ou anterior, a mudança não pode ser pensada, tem aquele atributo divino que é mistério... ou finge que o tem. Sua natureza é a dos titãs e a do atrito entre os seres; é a corrupção que vira entropia sem poder explicar o que é o sentido positivo da vida que, negando-a, nela habita. Em outras palavras, é o deixar de ser sem deixar de ser, é o sorriso sardônico de um embusteiro e, também e portanto, um princípio cínico, e é o diabo.
Uma cultura que escolhe o seu Deus porque imagina que cada um pode acreditar no que quiser, não deixará de viver sob esse deus, e ao contemplá-lo e buscá-lo, tornar-se, de algum modo, à sua imagem e semelhança. 
 
Nota crítica
Nenhum review influenciou este que voz fala, portanto, seguem apenas algumas notas críticas da crítica do filme. As sinopses e reviews, de cá do equador e de acolá, tem um tom muito trivial, e só para não dizer que não comparei esta sinopse com a crítica, o que se segue é meramente uma vistoria do que se acha mais fácil por aí.
Elizabeth Shaw, de fé católica e crucifixa em volta do pescoço, é uma protagonista mais alienígena em Hollywood que o próprio alien, segundo Christopher Orr, do The Atlantic. Ao contrário do que pensa Orr, no entanto, não há qualquer “confusão categórica” entre sua fé e a busca pela origem extraterrestre da vida humana, já que sua teoria é, ainda assim, apenas uma teoria; assim também, buscar a verdade não lhe é uma coisa interdita. Nem devemos esquecer que filmes dessa natureza não são sistemas fechados, e que as alusões as quais ele faz referência, sejam meramente “referencia culturais”, como parece ser uma tendência, ao que parece, das escolas de cinema ao falar sobre elementos históricos e científicos passados e atuais como coisas soltas que ilustram apenas os filmes. Nessas referências estão as premissas das fontes e a experiência humana que as deu origem. A aventura trata de um deus existente que semeia a vida na terra, mas sua fonte é o imanentismo que pretende que, assim tendo sido, ou ocorrido espontaneamente (abiogênese), reflete toda a história humana guiada ora por uma busca vaidosa, ora por pelo desespero, ora pela esperança e pela fé, etc., o que muda significativamente a natureza da aventura humana e suas justificativas. Ausente, portanto Deus, alma, providência, destino, eternidade, sem que se tenha respondido a vida e o homem.
Há quem tenha dito tratar-se de um “libelo feminista”, ainda que menos que os filmes anteriores, com Sigourney Weaver. Li mesmo uma referência sobre como se livrar de uma gravidez indesejável de forma limpa e prática. Ora, crítica com a mentalidade do Sr “Holloway”, que só por acaso é o “caminho para o vazio” em paralelo ao fundamento do filme. No homem, a revolta de Prometeu está em paralelo com a destruição da espécie humana pelos deuses. Bem, parece mesmo que os símbolos, os mais arquetípicos, tem a capacidade de desencadear conseqüências, nem que de início apenas simbólicas, profeticamente simbólicas, mesmo quando os autores não compartilham intencionalmente com isso.
Na eventualidade de uma continuação imaginar poder criar um engenheiro supremo, vamos acabar em algum tipo de ridículo, já começando a se afastar demais do sucesso estético e filosófico dos dois primeiros filmes. Teríamos a parábola do mais simplório, quando perguntado se acreditava em Deus responde que não, que acredita “em algo muito maior”. Ou, sem mudar muito o tom, voltar à tática do mangusto de Homes Simpson.
O Paraíso perdido de John Milton (1608-1674) parece ser mesmo uma das fontes mais importantes de Prometheus, assim como William Blake (1757-1827) e H. P. Lovecraft (1890-1937) --- ver a crítica do The Atlantic, de Govindini Murty, “Decoding the Cultural Influences in 'Prometheus,' From Lovecraft to 'Halo'”. Em Blake e Milton os temas das heresias gnósticas como aparecem em Jacob Böehme (1575-1624), os temas das heresias valentinianas, nas quais há deuses que são entidades cósmicas, metafísicas,
Quadro do artigo do The Atlantic, da Srta Murty, com 23 fontes “culturais” (algumas forçadas) do filme Prometheus.
hierarquias de deuses estranhos e ignotos. Talvez esse seja a raiz primitiva e longínqua como Os Antigos de H. P. Lovecraft, do centro criativo de Prometheus. A fonte mais insuspeita, estranha e ignota. É sobretudo, por estas fontes, que se entende o tema da Queda do homem como a Queda de Lúcifer e do Homem, como a perda de uma condição original que deverá ou poderá ser recuperada sem a intervenção de Deus. Mas aqui o homem espiritual (pneumático) dá lugar ao homem materialista (hylico), pois a imanência de “Deus” não traz qualquer fundamento para a esperança. É esse elemento “alien” de Hollywood, o cristianismo, que como um quadro de Escher de volta bem aberta permitirá que o filme se projete para fora, e que seja esta sua transcendência, quando “Deus” já não está mais no céu, mas caído num lugar qualquer aterrador do cosmos. A queda de “Deus”, ou a “ascensão” do homem até “Deus”, confunde-se, como na heresia gnóstica, a corrupção da natureza superior numa força negativa, que cria a vida e a destrói com completa e total indiferença.
Em Prometheus – Review (03 Junho 2012), Philip French, do The Observer, escreve que as versões anteriores (1979), mais cerebrais, tem em comparação com Prometheus uma guinada mística. A força dramática dos trillers anteriores, com uma queda no Ressurection, não existe em Prometheus, que tem mais de cômico e místico o que nos outros filmes é suspense e horror. Mas é mais correto trocar “místico” por “espiritual” (para lembrar os movimentos espiritualistas, não espíritas, do século XIX), pois o que move o filme não é a busca pelos “engenheiros”, mas a força primeva da vida (élan vital), está no poder metafísico do poder original de vida, que o próprio “Deus” estaria ele mesmo, na sua versão de Engenheiro da espécie humana, a ela submetido.
A aventura destemida da espécie humana no universo vazio coube melhor no filme ao Sr “Holloway”, enquanto se compara, queira ou não ter tido essa intenção, com o frio e malicioso (v.g., puramente lógico) David: “Não há nada no deserto, e nenhum homem precisa de nada” (frase de Laurence da Arábia, visto 62 mil vezes por David e um dos filmes preferidos de Ridley Scott). Coube a Elizabeth Shaw ser o contraponto menos crédulo dessa fé pelo nada em Prometheus.
A trilogia de Alien tem, talvez como todo horror naturalista moderno, inspiração primeira na obra de H. P. Lovecraft. O monstrengo infame “Cthulhu”, que criou uma mitologia moderna, é uma figura satânica que imita a queda do homem que invoca o nada infinito vivo no lugar de Deus.
Como muitas imagens do diabo, Cthulhu, de Lovecraft, é uma síntese bizarra de animais, bípede, uma força cósmica perdido (ou “adormecido”) no espaço, nos sonhos, na metafísica, nos símbolos, em todos estes, como um predador mimetizado na inefabilidade do infinito.
Como muitas imagens do diabo, Cthulhu, de Lovecraft, é uma síntese bizarra de animais, bípede, uma força cósmica perdida (ou “adormecida”) no espaço, nos sonhos, na metafísica, nos símbolos, em todos estes, como um predador mimetizado na inefabilidade do infinito.


Apêndices
Depois de instruir a imaginação a respeitar a lógica que ela deve seguir com uma dialética exploratória, sem poder evitar algum esoterismo ao escrever, uma imagem é capaz de resumir como nada consegue melhor, e nada melhor que a arte bizarra que se produziu da experiência niilista de uma época e seu sonho de uma redenção maldita. (As fontes das imagens me são desconhecidas, mas estão na internet.)

A-1. Fundamento filosófico de Prometheus (e isso não é exatamente um chiste cômico), da filosofia de Hegel, aprendiz de ocultista, em estado puro, mostrando o élan vital (que, quando puro, tem tentáculos), o “princípio primevo de vida” como uma força que cria e destrói incontidamente, confundindo-se com qualquer coisa negativa na síntese entre o ser e o não-ser --- sempre igual a si mesma.

A-2. A “massa negra” (proté hyle), como só por acaso (de providência simbólica) aparece no ritual de sacrifício do deus astronauta, na qual “habita” a força incontida da vida, mas também como força incontida o virulento ebola, o cego câncer, o horror da Peste Negra, o metamórfico alien, que um demiurgo libertou como aprendiz alquímico e caído novo (para ser devorado). [Arte de Matt Dickson]

A-3. Um medonho câncer com pernas. A força da vida é amoral, e leva tanto à vida quanto à morte; como no mimetismo, quando às vezes a força vital se disfarça de vida, para destruir.

A-4. O primeiro alien como abominação, saído da obra de H. P. Lovecraft, à imagem do Deus desconhecido, é isomorfo do passado mais primitivo e do universo infinito que horrorizou Pascal, do infinito cósmico e infinito estranhamento que se confunde com o Nada vivo, como ele só pode ser representado, como aberração e experiência infernal.

A-5. Fundamento semelhante se encontra em Altered States (1980), no qual o protagonista tenta reproduzir uma experiência “mística” extrema de regressão. Sob o uso de drogas ou em câmaras de isolamento sensorial, a experiência o leva a se metamorfosear pela memória filogenética da espécie humana, chegando no fim à vida mais primitiva, à massa amorfa, a prima mater alquímica, o poder de Deus, o caos criativo, cobiçado por aqueles que, como Lúcifer, só encontraram uma irremediável queda no recôndito escuro e lúgubre Nada.

A-6. O ocultismo de invocadores de símbolos está no fundamento de alguns “elementos culturais” no cinema, como aqui em Prometheus --- elementos culturais que se manifestaram antes no mundo real e só por isso são “elementos culturais”. O lugar de Deus, como lembra Lovecraft, nunca fica desocupado. Quando se destrói o culto do deus amoroso, é a presença de outros deuses e não a ausências destes que tomará lugar. Talvez poucas vezes um aforisma se aplicou tão perfeitamente como aqui:
Quando você olha muito tempo para dentro do abismo, o abismo olha de volta para dentro de você
--- Nietzsche.


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