outubro 28, 2012

Voltas estranhas e inversões

Com pretexto em “Desconstruindo Huxley” (You Tube) sobre as voltas estranhas do pensamento rebelde.
Em “Admirável mundo novo” (AMN), Bernard Marx é especialista em hipnopedia; não o protagonista, que é o Selvagem. Dia destes, alguém tentando interpretar num jornal local “1984”, de Orwell, dizia que enquanto houver diferenças de classes e opressão dos trabalhadores, estaríamos expostos aos riscos de “1984”. Assim, exatamente no momento em que o autor do artigo descrevia os riscos daquela sociedade controlada, mostrava que estava completamente dentro dela e do AMN, repetindo lemas hipnopédicos --- aqueles que repetidos 62 mil vezes fazem uma verdade. De novo, é Marx o especialista em hipnopedia. Expressões como "crise do capitalismo", "consumismo", "elitista" "desconstruir", são expressões hipnopédicas, elementos doutrinários na propaganda que sai de redutos esquerdistas, redutos do que querem construir "o Sistema" como ele nunca existiu sem imperfeições. E estes "diferentões", Malcom X, Martin Luther King, Che Guevara (!), Jesus Cristo (que comparação!), Betinho (!), Panteras Negras... estavam completamente envolvidos com a revolução que só pode começar produzindo o clima emocional que dizendo ser crítica convoca à adesão de uma maioria. É um fato monótono que as rebeliões produzem sistemas ainda mais tirânicos do que aqueles que elas denunciavam.
Outro exemplo (vou chocar a muitos) é a música “Another brick in the wall”, Pink Floyd, de videoclipe famoso; o sistema que torna os alunos em homens-massa não é a educação, mas o sistema libertário que começou a ser aplicado com técnicas dignas da mais improvável engenharia social a partir dos anos 30 em várias partes o mundo. A cena da rebelião das crianças quebrando as classes é que as transforma em escravos. Se alguém quiser inutilizar a muitos, basta promover estas idéias de revolução e elas deixarão de alcançar o nível de poder resistir à propaganda. No começo do videoclipe, o professor ridiculariza os poemas, que só com uma boa educação se é capaz de ler e perceber a dramaticidade condenada e excluído no AMN.
O símbolo melhor de uma juventude que cresceu repetindo slogans marxistas é essa exclamação de Bernard Marx (o heterônimo do Karl famoso) em AMN: ""Ford! Como eu os odeio!" (III). Até para dizer que os odeia ele repete a interjeição do fundador daquele mundo, "O, Ford"! Muitos farão isso. A obra de Huxley (coisa não rara na arte) tem marcante o efeito dos quadros de Escher: os personagens refletem eles mesmos, historicamente, criticando o sistema/máquina (establishment) que eles ajudaram a criar. Como nos quadros de Escher, as "voltas estranhas" (Hoftadter) mais abertas deveriam pôr advertido o leitor de que ele talvez possa fazer parte do quadro todo.
As revoluções sempre resultaram em uns controlando maximamente a outros; o símbolo do rebelde está no começo da Revolução Francesa e Russa, está nos Demônios de Dostoyevky. As crises, ao contrário do que o marxismo prega (mesmo quando ele aparece sob o símbolo Paz-e-Amor), não são a oportunidade para a mudança, mas antes abrem espaço para os piores oportunistas.
O "consumismo" existe e torna o homem um sujeito oco e fútil; mas de modo nenhum ele está confundido com o capitalismo, que permite que algo como a internet exista. É a cultura materialista e hedonista, que Huxley denuncia, que está hoje completamente albergada na pena de autores de esquerda, que gera o consumismo e que possibilta o controle maciço, como ele pode existir fora das teorias conspiratórias --- obra desta arte mais do que velha ---, convidando, seduzindo a uma maioria a aderir. Aí as coisas começam a ficar confusas de novo, mas nem tanto: quando o consumismo de uns poucos não é o suficiente, aqueles que não podem consumir são assistidos pelo estado para entrarem no sistema e começar a consumir. Voltas estranhas... É um fato monótono que as rebeliões produzem sistemas ainda mais tirânicos do que aqueles que elas denunciavam. Nesse assunto, o neófito é pego pela boca, quando brande lemas de resistência que saem da propaganda dos próprios criadores de sistemas.

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