abril 28, 2012

Questão 1 à-toa: Da restituição da virgindade metafísica

A Verdade é mais estranha que a Ficção; é que a Ficção está obrigada a se ater às possibilidades --- a Verdade não”.
--- Mark Twain

Por que Deus não cura aos amputados?
Se você fez um curso acadêmico, seja lá onde foi, salvo se tenha dado muita sorte (ou se acostumado mais do que rápido), deve ter visto uma certa quantidade de irracionalidade que só pode ser ignorada pelo temor do mestre que invocou, naquele instante em que você iria fazer uma observação constrangedora, o princípio racionalíssimo da simples autoridade. Obviamente, omitiremos os departamentos das humanas para continuar aceitando o que o narrador do vídeo nos diz.
Na minha experiência de quase uma década na universidade brasileira (talvez não o melhor exemplo), as lacunas no princípio de formalidade da teoria eram geralmente preenchidas por sua vez com a “autoridade” do prático --- geralmente ele um bolsista de uma área que nada tinha a ver com a arte racionalíssima da engenharia do negócio. Se a fé é irracional, uma falaciosa premissa oculta do narrador, explica por que um prático resolva a quarta casa decimal depois da vírgula segundo certo tino que se lhe atribui dotado para uma decisão mais exata --- ou, no caso, de fato, indiferente ---, ao que parecia mera arbitrariedade.
Há outro princípio racionalíssimo na universidade, que tem na austera formalidade da formatação de relatórios científicos por honoráveis editores de texto o respeito de todos. Mas é inegável que alguns procedimentos, pelo seu rigor técnico, guiam pela impessoalidade qualquer mente supersticiosa a resultados perfeitamente sóbrios. E pela sobriedade da retidão da linearidade, a tomar a credulidade por razão exata. Como, no entanto, a austeridade científica do procedimento técnico possa se tornar no reconhecimento de julgamento crítico de uma pessoa que até então serviu como um macaco apto a descascar uma banana, é já mais difícil de explicar. Mas certamente não será necessário recorrer à fé --- nem que se tenha que negar isso se início!
Se você tem algum trabalho de responsabilidade, e ignorando para fins de formalidade científica o que se disse acima, você pode perfeitamente tirar de sua experiência a razão de um procedimento eficiente para algum fim previsto conforme a natureza das coisas dá sem ocultar muito de si mesma. Que isso gere alguma confiança --- nunca fé! --- que o mundo mais real é sempre de algum modo planamente racional, pressupõe que racional quer dizer coisa capaz de ser posta dentro de um procedimento tão complexo quanto possa caber no horizonte da onisciência que um bolsista alcança observando um rato num laboratório --- mas cujas pretensões, diga-se sem mais, não são poucas. É este o fundamento de nossa ilimitada confiança --- nunca fé --- no princípio superior da perfeita razoabilidade.
Seja lá como for, os deístas resolveram esse impasse professando crer num Deus artifex --- o prático que sabe, por fim, como tudo deve funcionar no caso de alguma coisa parecer irracional ---, ao qual podemos invocar junto ao princípio de formalidade dos formulários padrão que dão algum sentido para além do que possa ter falhado por aqui. Ainda mais, prometendo-nos algo perfeitamente aceitável ou invocando humilíssimos as nossas limitações, sem que nessas limitações se encontrem, para efeito de autocrítica, com algo que justamente nos indique certo limite à razão, de modo então porquanto tenhamos que decidir de qualquer modo --- como pedindo a ajuda do prático num ensaio de engenharia a um bolsista do direito. 
Existem técnicas perfeitamente racionais que, no entanto, darão perfeitamente errado, mas você só saberá disso (mas nem sempre) quando vir o resultado. A ciência tem inúmeras histórias de arcabouços especulativos que foram admitidos a certa época o fim do erro e da precariedade, ainda assim, depois de muito desmentido --- e das "crises" paradigmáticas, como as chamam ---, resta inexplicável a crença automática num sentido do progresso científico catapultado pelo erro dos anúncios anteriores. Ninguém admitiria aceitar que procedimentos racionais perfeitamente coerentes pudessem dar sempre em resultados, digamos assim, verdadeiros, justificando-os por serem assim lá ao seu modo todo particular; e que para fins práticos apenas é que devêssemos considerá-los falhos. Certamente o fim certo de um procedimento é a verdade desse procedimento, cego como a natureza o dotou. Exatidão e Verdade mantêm de qualquer forma sempre uma respeitável independência. É o que dá para dizer do que às vezes é “errar na mosca”.
Se a razão é assim um procedimento de formalidade que pessoas normais e inteligentes podem seguir, deveriam fazê-lo apenas quando e para os fins tão restritos quanto se os estabeleceu, sobre casos inquiridos e de modo nenhum invocá-los para justificar qualquer outra coisa, omitindo-se tomar por eles uma refutação da fé ou do próprio homem. Ou, essa arte arrogante que monta o espantalho da credulidade para refutar uma faculdade cognitiva.
Você consegue usar a razão que o conduz na sua vida profissional para pensar a sua fé?” pergunta o vídeo no início. Nossas decisões diárias são tão sujeitas a irracionalismos que antes seria prova do contrário. Ora, por uma mera sensação de ordem prática que nem Kant conseguiu resolver para lá da mera arbitrariedade, o ateu tira o sentido do que é “racional”. Ou, não exatamente o “sentido”, mas o sentimento --- pois a razão do ateu é uma sensação emocional estetizada que tem o implícito desapercebido dos símbolos de harmonia, equilíbrio, equivalência, etc., que moldam seu mundo mais racional. Rebaixando o céu a um procedimento cirúrgico, o ateu militante usa a sensação ignorante de que tudo é racional, quando se pode dispor de uma boa explicação para tudo, o que não deveria fugir de sua própria censura sobre as “racionalizações”. O racionalismo do ateísmo, e já não é de hoje, não passa de um tipo de superstição; e superstição, não incomum, associada à conjuração, à magia, ao cabalismo, etc.: uma gnose, mas que se recusa a conhecer. Afinal de contas, “a certeza de que não há nenhuma salvação é um tipo de salvação; de fato, é já salvação” --- Emil Cioran.
Se há mesmo um número respeitável de médicos que acreditam que Deus cura doentes diariamente, por que Ele não cura aqueles que rezam por suas pernas amputadas? Faltou dizer, supondo que alguém o peça. Desconheço quem tenha pedido isso algum dia, mas já dá para imaginar possível pelo milagre de que alguém, querendo-se honesto, desafie a que se o faça, previsivelmente para não ser atendido, comprovando por efeito acachapante o que se quer dizer e de lambuja, siga-se que Deus --- que não responde à essa excentricidade --- não exista.
Tomás de Aquino dirá que nem mesmo Deus pode restabelecer a virgindade perdida de uma donzela. Mas, de novo, se você não pode vencer alguém, tente convencê-lo de que ele está derrotado, é um truque que se não funciona muito bem com Deus, causa uma certa confusão que tem lá os seus resultados não de todo negligenciáveis. Mas São Tomás parece que não lembra que Jesus Cristo curou a “mão seca” de um homem, num milagre parecido ao apelo do ateu, ou ao paralítico, que deve ter sofrido de alguma restituição física verdadeira. De qualquer forma, se a donzela, que já não é, voltou a sê-lo, a não ser que Deus apague também o seu desvirtuamento do próprio tempo, de ter alguma vez ocorrido, o que é a razão da intervenção milagrosa --- e é provável que não possa ser apenas isto, mas ir um pouco além ---, e porque deveria fazê-lo também da memória de todos e de sua prória, parece que, de fato, nesse ponto São Tomás tem razão, e razão mais forte, para afirmá-lo. Mas estes procedimentos parecem repulsivos a nós que se os atribua ou peça a Deus.
A questão quer dizer que Deus, ao permitir algo, no curso do tempo, deveria, por um simples pedido, desfazer algo já ocorrido, é só um modo de dizer no pequeno o que num quadro grande equivale à pergunta mais fundamental que esta --- tentar enfiar na cabeça de Deus que ele está derrotado ---, que tenta Deus pedindo-lhe que deixe ser Deus para provar que é Deus. Deveria eu rezar para que Deus me trouxesse à vida assim que eu morresse, sendo este o sentido de ser redimido dos pecados e, por razão mais forte, não outro? Ou, deveria Deus não apenas redimir nossos pecados, mas fazer com que eles jamais tivessem acontecido? Deus, para um ateu, se existe, não pode passar de um manipulador previsível.
Me passa pela cabeça que Deus seja infinito na sua bondade, mas um tanto racional para com o mal no mundo, tanto que geralmente repete que há --- vejam que injustiça! --- consequências para os atos maus (Êxodo 34:7). Extensão desta diabrura em forma de curiosidade é aquela que se pergunta por que Deus permite que o mal ocorra a pessoas boas. Mas, ora, e sobre quem mais poderia ocorrer o mal? Se ocorresse apenas ao ímpio, chamar-se-ia não mal e sim justiça. Mas o efeito, dificilmente previsível, de tudo que alteraria na ordem do mundo, gera uma destas absurdidades paradoxais que levariam à extinção da possibilidade do mal e, com ele, do livrer-arbítrio. Não haveria como não transformar o homem num bizarro animal dotado de razão e a razão já sem se poder distinguir muito do mero instinto ou do comportamento dos insetos sociais. Homens completamente iguais uns aos outros, porque não haveria o mal, nem a liberdade, nem nenhuma escolha verdadeira e toda a aventura humana já narrada teria podido existir algum dia; a qual, então, ter-se-ia resumido a um paraíso medonho de uma raça pálida e piegas. A própria questão de uma sociedade mais perfeita só faz sentido num fundo de imperfeição, que é, de algum modo e em algum grau, sentida como sofrimento. O mundo mais perfeito é, portanto, de aspiração frustrada, qualquer que seja a perfeição dessa sociedade. A busca pelo prazer é uma fuga do último prazer que então já começa a parecer desconfortável aos que se acostumaram com ele. Não é à-toa que em Admirável mundo novo o Administrador esclarece, para controlar aquela distopia artificial, que a idéia de felicidade está relacionada à satisfação prontamente de todos os instintos, associado ao estímulo permanente destes mesmos instintos (--- alguma semelhança com as campanhas pelo uso de anticoncepcionais e preservativos, e em seguida do aborto, ao mesmo tempo em que se estimula o sexo livre?). Uma população dedicada à “harmonia” em um mundo maximamente controlado tem de, necessariamente, ser reduzida a um cálculo ponderado de reação e estímulo. Só uma população inferior poderia suportar um mundo sempre mais perfeito. Os ancestrais dessa população, são hoje justamente os que sonham mais ardorosamente com um mundo mais e mais perfeito, e aqueles que já o vivem, maximamente, como indivíduos que se satisfazem.
O pior de tudo é, além do mais, que esse mal pode, sim, atingir pessoas inconscientes dele. Suprema injustiça para algumas pessoas muito boas --- segundo seu próprio julgamento ---; ou, para aqueles que julgam que não há culpa, porque não há livre-arbítrio, de modo que qualquer deslise de comportamento deveria receber o devido tratamento pelo sistema de saúde público; ou o infortúnio mortal, compensado por méritos havidos ou parcelamento ascético doravante. O perdão divino feito bônus num tipo de procedimento financeiro onde o valor moral da ação humana pode ser convertido a moedas de troca. Mas Deus parece que não pensou em nada disso. Difícil, além do mais, seria explicar como pessoas assim inconscientes do mal alheio fossem muito diferentes, ou de outro modo diferentes, para o mal que elas próprias seriam agentes. Outras compensações assombram; quando o ateu malicioso parece ter desistido de voltar contra Deus qualquer diferença deste mundo para com um muito mais perfeito, vemos uma troca de tática, e o mesmo reaparece como um esforço pela máxima difusão de igualdade por ações afirmativas que individualmente parecem o próprio bom senso permeado de compaixão. Ocorreu-me que uma campanha do grupo gaúcho RBS recentemente tinha a chamada que dizia: “O que você acha que um deficiente intelectual gostaria de ouvir? 'Sim, você pode trabalhar na nossa empresa!'” e qualquer coisa como “exija de sua empresa seus direitos de ser incluído”. As cotas para negros chegaram a 30% em algumas universidades, ao mesmo tempo que se estimula o sentimento de rancor racial e, por efeito, sua contraparte; a defesa de gays e lésbicas como pessoas especiais, que precisam ter privilégios legais, vem acompanha de campanhas feitas por estes grupos para emporcalhar a igreja e subverter o padrão da maioria exigindo desta deferência pelo que os distinguem dos demais; ou o expurgo de terras a ocupação de índios romanceados por poesia piegas. As compensações artificiais que impõem no pequeno à luz de uma sociedade (algum dia) maximamente justa, perdem facilmente a noção do absurdo que produzem no conjunto, mesmo quando individualmente nos parecem o extrato mesmo do bom senso.
Vamos dizer assim, voltando ao assunto, que Jesus curou a uns quantos, como Lázaro e a mão seca de um homem, e pior, no sábado! E fez horrorizarem-se aqueles como aos ateu militante, e não antes pelo milagre, senão pela ousadia inacreditável de ir contra as mais antigas e conhecidas tradições sociais do seu povo. Porque é do que se trata a razão atéia: mero hábito; o padrão uniformitário do consenso. Não é, afinal de contas, apenas a fé que cega, parece que a sóbria razão prática e habitual também o faz. E parece que o faz mais que mais profundamente que o inefável do numinoso que nos assombra de vez em quando. Que lembre, a despeito de a Verdade ter, no Cristo, realizado o incrível de modo insuspeito mesmo na ficção, o mesmo Jesus explicou didaticamente que os milagres não tinham a função de curar as pessoas quando elas quisessem ou servir de sistema de resgate em caso de inundações. Ter o Cristo pedido pela fé aos que o seguiam, e não ao desejo de serem curados, à benevolência ou à tolerância, igualmente, é que não o torna um curandeiro carismático. A coisa fica, para o cristão, toda mais --- nas palavras do ateu militante --- “irracional” então.
Por este “irracionalismo” --- cuja petição de princípio faz a razão medir a realidade, invertendo aquele adágio de Marc Twain --- , um C. S. Lewis reconhece à inaturalidade tão diferente do panteísmo ou da física newtoniana; pois é justamente o que há de imprevisível e idiossincrática da revelação cristã, “a experiência forte de viril da realidade que não foi criada por nós, nem, de fato, para nós, mas que nos golpeia o rosto”. Ou Chesterton, ao ouvir que o cristianismo não passava de uma fábula, respondeu dizendo que se tratava exatamente disso: nas estórias do que um homem sensato faria num mundo de loucura, aí encontramos essa sinuosidade obstinada e dramática da fé cristã, uma mensagem que é mais real que a realidade --- e por isso mesmo, muito pouco racional.
As causas que levam a que alguém possa perder uma perna é a mesma que leva a que alguém possa pensar como um ateu e ainda querer que seja razão superior. Vantagem ao perneta, que não tem a mesma facilidade para acreditar que com uma perna a menos isto o habilite a caminhar com mais leveza, por tocar, quem sabe, menos vezes no chão. Infortunadamente, não dá para dizer o mesmo do ateu militante. Assim, a reivindicação --- de investida recente --- de grupos ateus por “igualdade” e “não discriminação” parece que estão em perfeita sintonia com as campanhas também recentes pela inclusão dos deficientes intelectuais. A máxima comunista “de cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades”, que prevê um mundo igualitário, desceu confiante à amorfose anárquica da sociedade sob outra máxima: “de todos a cada um, indistintamente, de cada um como qualquer outro”. Se a frase resultou esdrúxula, o que ela realiza pretendendo a igualdade, não será menos.
Como a “mente” de Deus é uma coisa um tanto insondável para os últimos procedimentos racionais da ciência moderna, às vezes as respostas de Deus podem não parecer exatamente... lineares. Digamos assim, que equações diferenciais metafísicas existam... O que é para Deus linear é, para nós, nem tanto. Saberíeis por aquela máxima “Deus escreve certo por linhas tortas”. Pedisse eu para que jamais houvesse perdido a perna, teria sido eu antes um bom cristão, ou tornei-me apenas um indignado cliente de Deus após o evento sinistro? De onde vem que se deva pedir a Deus algo assim, pedido que é, de fato, acusação! Ou, está aí o ponto: quando, afinal de contas, deveria eu parar de pedir pelos meus membros, antes de começar, digamos ao sétimo desejo de restituição, decidir que, enfim, Deus não é infinitamente bom e isso seja já contradição suficiente para negar infinitamente o que eu perdi apenas em parte?
Meu plano de saúde, em outra ocasião, cuidou de questões menores, de muita ajuda, quando de uma pequena cirurgia reconstitutiva do joelho, mesmo que tenha feito o contrato justamente pelo incidente. Eu sou um cliente por necessidade de meu plano de saúde. Quantas vezes, depois disso, percebi que erros nossos potencialmente perigosos estiveram cobertos por bem mais que a minha capacidade de controle pudesse dar conta. Digo-o não para provar que Deus nos cuide, mas que querer que ele nos cuide nos traz a consciência de toda a gravidade de que alguns momentos de desatenção podem ameaçar-nos de um modo que nenhum cálculo permite antecipar.
Se eu rezasse para que Deus me protegesse e, por algum lampejo de lucidez eu atentasse na estrada evitando um acidente que (imprevistamente) teria me dilacerado uma das pernas, eu não o atribuiria a Deus para muito mais longe que a reflexão de que pedir para que me cuide desse-me a lucidez de refletir sobre meus riscos atuais diminuindo-os, assim, no futuro. Mas, temerosamente --- arriscando importunar ao Senhor ---, indo mais além, supor se Deus pode nos lembrar contra o próprio sentido do tempo, já é coisa que não poderíamos descartar se quisermos continuar acreditando nos milagres do Cristo citados aqui pouco antes --- e, pelo menos, no que tange à cura física ---, para em seguida ter que levar seriamente em conta a lição de São Tomás. Assim, se Deus o fizesse, impedindo-nos de perder a perna, fá-lo-ia antes não ao modo de um esquecimento retroativo de algo de fato ocorrido, junto da restituição do mal havido, mas de uma ordem das coisas que antecipando o mal, o evita ou desvia? Por que Deus atenderia a um pedido que exigisse que ele permitisse ao demônio contingente do mal para arrancar-nos uma perna e em seguida, (e só em seguida) restaurá-la, pareceria mais o exibicionismo de um poder, atendendo prontamente ao Diabo, antes que coisa lá ao modo de Deus. Atender ao diabo certamente não deve ter outro fim, além do mais, que esculhambar não apenas com a obra divina, mas com o próprio Deus, desde baixo, desde a inversão de tudo por desvio malicioso. Servir a esse propósito desviante é o que faz o séquito conduzido que adota o mal como princípio de reforma do mundo.
Se Deus nos protege pessoalmente, isso só faz sentido --- racionalmente, para efeito do princípio de formalidade de um cristão --- se supormos que haja algo que não tenhamos confiado a Deus ainda (e que, então, havia-Lhe escapado), de modo que precisássemos invocá-Lo para que se realizasse. Doutro modo, Deus já sabe o quanto nos deve proteção ou os limites de nossa vida, senão de todo, que nos deu certa liberdade a isso por meio de e conforme certas tendências naturais --- é o que devemos aceitar --- antes mesmo que quaisquer previsões que pudéssemos fazer chegassem a alcançar um grau de previsibilidade útil. Ora, que no fim desse esforço de amor próprio acabemos por pedir pela nossa vida, já seria uma pequena traição para com Jesus Cristo --- segundo o princípio de formalidade que se apresenta a um cristão.
De qualquer forma, a questão agora não é saber por que Deus não nos permite escapar de todo o mal, no qual o ateu militante encontra onde quer que pareça haver qualquer contradição à infinita bondade de Deus um argumento que lhe sugere então algo que não deveria ter faltado a nós se Deus, é claro, realmente existisse. A crítica que visa denunciar o mundo atual comparado a um mundo futuro sempre melhor é a perseguição que pretende evitar o pôr do sol numa jornada sem fim para oeste.
Apontar o dedo contra tudo que se diga, buscando compreender, que não tome o mundo com a "simplicidade" de um raciocínio linear, claro e distinto, de racionalizações muito esquisitas é um modo de limitar toda a realidade e Deus para caber dentro de um procedimento científico perfeitamente impessoal, talvez tão impessoal quanto as “caixas de Skinner”, e, obviamente, negá-los a por razão mais forte. E por não admitir, com o ateu ladino, você está tentando fugir --- ...da armadilha --- com uma racionalização qualquer? A auto-referência do ateu militante não é uma malícia, é uma condição estruturante da alma do ateu militante --- isto é, claro, se é que ele tem uma. (A recusa dela, afinal de contas, pode perdê-la.) Para evitar acusações de irracionalismo, digamos que a detecção da alma não seja feita por plasmógrafos metafísicos, mas pela unidade que haja quando Deus não cumpre a restituição em nós do que quer que seja ao modo de como consideramos poder ser o caso para restituir não apenas a virgindade de uma donzela, mas também a sua reputação perante toda a comunidade ao custo de esquecimento e alienação[1]: isto é, pela unidade de nossa alma, pelo conhecimento de nossos atos conscientes, pelo conhecimento confrontados com o real e (talvez antes), na solidão de nosso quarto, sós, perante Deus.
A solução mais razoável para que Deus nos proteja do pior dano físico seria ele deter o mal antes de acontecer, ou cair no círculo infernal que restitui um malefício a custa da unidade de consciência e de nossa alma. Só o demônio pensaria em algo assim; pensaria em algo assim para que alguns pensassem-no para destruir a fé, essa capacidade cognitiva que tem por suas superstições mais persistentes a Verdade e a Realidade, mesmo quando esta, à luz de Marc Twain, acontece de modo irracional, imprevista e singular. Sabiam os gregos antigos, os quais começaram o que viria a se tornar essa fé cega da Deusa Razão da ciência moderna, que a verdadeira ciência jamais começaria questionando a natureza da realidade negando-a de início aquilo que a nós se revela como a evidência real, do modo mesmo como ela se apresenta, e isto claramente contra a espectativa simplória do ateísmo de que a razão seja, invertendo tudo, a medida da própria realidade [2]. 
Objeções a se negar ao ateu uma alma podem ser dirimidas questionando o seu fundamento sem fundamento, a razão. Se a alma é um procedimento racional da máquina humana, passível de mera descrição de fragmentos de consciência que giram em torno de um centro vazio, talvez assim seja por uma opção e recusa de que seja de outro modo. Já que à consciência se nega de pronto a vontade livre, que parece que não faz parte dela ou, que não há vontade livre, mas o cálculo difícil de um acidentado mecanismo de tendências que levam à arbitrariedade. É curioso como a vontade, da qual bom funcionamento pode ser a própria fé austera, pode criar, por uma função específica sua, a condição humana para a danação da alma ou para sua formação; porque a existência da alma deve refletir a consciência humana na sua melhor condição, ou a sua perda e a sua sujeição. O homem, quando descrê de Deus, pode fragmentar a sua alma e danar-se; e pode ocorrer que a condição da formação da alma, por processo natural --- daquela natureza humana de que tratava há pouco ---, seja uma função da fé. Talvez não seja nada muito longe disso. A realização de parte do aparato cognitivo tipicamente humano pode ser justamente a faculdade integrada da vontade livre que reconhece a Deus. Mas isso está para um ateu, que não admite a consciência para lá da libido mascarada de racionalizações, ou isto à vontade livre, desde o início excluído por razão mais forte --- Ateus militantes: pelo direito de não perguntar! 
Exclua-se o que há de distintivo no homem, e voilà, sobra necessidade e circunstância. Mas se fizer parte do homem que ele assuma pela vontade um Deus transcendente, quiçá um pouco mais, o próprio Bem, então passará às cegas o ateu, conduzindo a uma maioria para as sombras.
Pedir para que uma perna se regenere não é nem um pouco equivalente a pedir algo que ainda pode acontecer e está dentro do universo do possível natural --- ou, sem, pelo menos, ou por analogia, algo que esteja ainda coerente com a vontade de Deus ---, mesmo ainda que inacreditável, como o disse melhor Marc Twain. Mais inacreditável, ainda que perfeitamente racional, é o embuste de pedir para que se creia num poder mágico para, vendo-o falhar, negar a Deus que não atende a caprichos e a acusadores dissimulados. O ateu militante mostra ter uma visão preconceituosa do que é a realidade e supersticiosa em relação à razão.
A despeito disto tudo, o vídeo ateu acha legítimo que a oração, que não deva poder nada, seja capaz de pedir algo impossível (que talvez possa significar apenas o simplesmente inconveniente aos olhos de Deus); ou, que se possa crer que ao não ressuscitarem todos, esse argumento possa parecer mais válido para uma maioria que não voltará. Reforçado assim o público do ateu militante, é do mesmo modo que a cura do câncer não é impossível, nem mesmo, em alguns casos desacreditados pelos médicos; mesmo assim, o que ocorre não é algo mágico, mas, ainda assim, cuja explicação racional do ocorrido não pode ser dada melhor do que o faz o fato de que isso tenha se passado exatamente assim. E que, de novo, assim sendo, o tal fato dotado de nenhuma razão (explanável) pareça a um ateu que possa ter alguma explicação perfeitamente... “razoável” é já uma liberdade que o próprio ateu militante diria ser uma mera evasiva e uma “racionalização”. É a falsidade para fins de sombra, para onde se evade com um sorriso confiante e citando Wittgenstein, de que o silêncio é o refúgio da verdade, quando se é pego no embuste.
Por que pede o ateu ao cristão que creia no impossível, contrário à vontade de Deus, está numa razão maliciosa direta com a de tentar a Deus a Se mostrar tão fraco quanto sua recusa a isto o quer tornar tornar impotente. Pergunta que os ateus compulsaram do demônio para tirar a fé de uma maioria. Não vê nisso intenção consciente ao pacto com o demônio o ateu militante, obviamente; mas por seus efeitos, o lado que assume o ateu nesse jogo entre o bem e o mal não lhe dá muita escolha. As máquinas de momentuum de revolução estável são conhecidas por serem bastante sensíveis a forças externas, como os objetos no espaço a preservar a força aplicada deslocando-se sem perdas. Pois a tautologia ou o looping da razão cria efeito semelhante: quando se apoia num giro que acaba sendo a consciência por procuração de um sentimento anônimo de desamparo nesse mundo, ao qual nos vem acudir com um contrato de alívio neste mundo. Justamente, isto, o que se atribui à religião quando se a toma por artifício supersticioso perante o medo da morte ou do dano físico.
A idéia esposada por Antoine-François Momoro (1756-1794) de rezar missas em Notre Dame à “Deusa Razão” segue dessa racionalidade que se põe superior a tudo, que chegará em lugar menos instruído à coisa mais grotesca, e exatamente quando se pretende mais racional, dá no contrário --- na mais ridícula idolatria. Quando aquele outro, contrário a Deus, é desmascarado, sendo sua natureza, ainda assim, de Deus, ruboriza-se, para ser seu rubor imediatamente ocultado por uma camada de pó de arroz que torna toda essa pantomima ainda mais grosseira; e, por algum outro milagre digno de crer cegamente, que pareça assim mais verissímil por esse verniz de pálido disfarce que chamam razão, é já o que se pode fazer num palco montado para que Deus justamente não apareça.
O que realmente não faz sentido é acusar que se negar a usar a razão conduza à racionalização de uma justificativa. Certo pela culatra! O apelo à razão em si é apenas uma racionalização em looping auto-referente --- isto é: arbitrariedade crédula, cuja crendice, com outro nome, chama-se ideologia e superstição. E, ora, a epistemologia de uma ideologia é uma estética. Onde está sua premissa, nem o ateu sabe, que a estética é uma premissa subliminar, o lapso de consciência e de linguagem: é o discurso que fala pela tua boca, sendo que tu, de ti mesmo, não dizes nada. Concordar com o vídeo seria mais racional que qualquer racionalização que mostrasse o truque malicioso por trás da pergunta!
O apelo de racionalidade do vídeo ateu é um apelo para a vanglória do homem, que se emancipe de Deus. Chama-se a essa emancipação, dando o seu nome verdadeiro, Queda. Mas imagino que ao ateu a Queda só possa se referir à queda do perneta, ao chamar por Deus, que não o atende. E pelo efeito dessa baixa graça escapar entre risos, de ser pego na impostura. Deus também parece que é insensível aos clamores piegas do ateu militante, quando ele pede ad absurdum por um mundo sem sofrimento, ou quando tenta a Deus para a todo momento colocar o tempo de pernas para o ar, para mostrar ao seu bel-prazer, não sem ironia, que é, de fato, Deus. Um deus-sabujo, um deus de coleira, preso pela guia de demandas diabólicas. Um deus que atende prontamente, e, portanto, que caso atendesse, ao atender, deixaria de ser Deus.
É uma marca-diagnóstico das coisas demoníacas pedir para não ser atendido e concluir por isto que não há Quem atenda; e caso fosse atendido, instantaneamente, deixaria de ser Aquilo que o ateu acusa Deus não ser.
Nota
1. Nesse assunto estou completamente em desacordo com o ponto de vista que tem Umbero Eco, que diz em Os limites da interpretação, 2.1.1. O Modus, que Deus estaria impedido de alterar a ordem temporal do havido --- querendo estar compulsando essa noção dos gregos ---, e que, portanto, não poderia justamente violar o princípio lógico do modus ponens, pensando colocar em cheque o princípio de identidade (PI, A=A, i) ao fazer disso uma contradição que arriscaria a existência do próprio Deus. Eco consegue dizer que o PI é uma invenção da civilização grega ao mesmo tempo que é o modo como ele coloca em cheque os poderes de Deus de um modo que Deus estaria à mercê do tempo, ou do que o tempo exige, logicamente (lógica desligada da ontologia), porquanto de uma cultura que elegeu a lógica a partir de sua necessidade de ordem sequencial da racionalidade linear. Eco usa justamente dessa linearidade lógica e ingênua, que atribui aos gregos, para acusá-los (!) de racionalidade, ao mesmo tempo que que faz notar neles os cultos ao deslisamento mágico-mítico de sentido do hermetismo. Acusação que Sócrates, na base da fundação da civilização, é testemunho do contrário, mas que Eco não se demora em ignorar.
2. Curioso que essa inversão tenha no Idealismo Alemão sido reconhecido em parte como a própria definição de "idealismo".

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