junho 06, 2011

Epilepsia petista e convulsão social

*
Prestidigitadores e feiticeiros
Uma discreta nota dos jornais de há alguns dias é uma daquelas pedras de toque para entender a diferença, hoje borrada, entre Direita e Esquerda. José Eduardo Dutra, do PT, foi afastado da presidência do partido ao ser diagnosticado como “epiléptico”, Ao que parece, por ter paradoxalmente reconhecido em si mesmo o traço mental que é premissa para a admissão ao Partido dos Trabalhadores.
Há muito que a Direita é associada às oligarquias, às elites, aos poderes legais e ao empresariado a estes associado. Renan Calheiros disse à época das vacas-nenúfares em notas frias que o processo que moviam contra ele no Senado era esquizofrênico. Pois, ora!, se a realidade não podia aceitar vacas que não há, isso não lhe diz respeito, que tudo continua, como ele pode demonstrar ouvindo uma música de elevador apascentadora, na mais perfeita normalidade.
As antigas “direitas” são oligarquias endêmicas em cada região brasileira, como não se desconhece e é o que se pode dizer que “todo mundo sabe que...” sem a nuance de ironia (ou estupidez) que a expressão traz sempre consigo. Como outros “cabras-águias” da sintaxe popular de há uns cem anos atrás, de notável fama e invejados, os quais Monteiro Lobato reconheceu com aguçado tino sociológico serem os empreendedores civilizadores desta terra. O grileiro tem o sentido realista de que os papéis públicos são peças de ficção e muito antes de Hollywood ter inventado os efeitos especiais, e de Obama tê-los levado para uma peça de teatro rocambolesca inferior, o rábula-alquimista já fazia as suas prestidigitações ante as quais a realidade duvida de si mesma.
A Direita tem por faculdade marcante a prestidigitação, para fazer os “transcendentais” da burocracia e da ordem civil se confundirem, e enquanto todos prestam atenção nas mãos, perdem a coisa mesma. É vantagem sempre da Direita: ela acredita na realidade. Ninguém duvida, no entanto, que o que ocorreu na frente de seus olhos seja um mero truque da complexidade que escapa à ingenuidade e à boa fé. A Esquerda, por sua vez, tem pela realidade uma forte desconfiança, e se a prestidigitação é a arte magna da Direita, a feitiçaria e os sortilégios são os recursos destas almas sinistras.
Num, a ênfase parece estar num realismo cínico, na manipulação da atenção do espectador, para alguma vantagem; no outro, nalguma correspondência com a realidade, por alguma sombra de alma, o que parece revelar ao homem de esquerda o lugar de um segredo que pode ser conjurado para abrir o mundo a outra realidade (de um “em si sempre mais aquém). A Direita é o artifício, a Esquerda uma sintaxe mística e arte evocatória. Se as duas coisas se juntam, temos o pior tipo de malfeitor, capaz de iludir a todos enquanto mãos ágeis modificam a ordem das coisas esperando que da desordem que os beneficia antes --- quer dizer, agora --- surja uma sociedade melhor no futuro para todos.
Da própria definição de “extrema-direita” que faz a esquerda, o uso da “força”, o “ódio” e o “racismo” habituais não estão presentes no caso de Renan, mas a força econômica, a plutocracia e a retórica do clichê performático, é tal o teatro que desmente as provas da falsificação como se ungido pela mais pura ingenuidade --- ou, pela simples dificuldade de se articular uma resposta retoricamente forte perante a complexidade da artimanha. É onde a direita e a esquerda se confundem, pois esse traço de caráter (a falta dele, no caso) que se encontra com luz de reflexo asinino na face de Lula quando ele desconversa sobre o mensalão, ou na singeleza ingênua de Renan Calheiros, quando ele se surpreende com as inconsistências entre as suas notas fiscais e a realidade, é isto a forja de um homem imaculado e sem pecados enquanto a atenção possa passar pelo processo de sublimação e decantação alquímica do caráter. Substituto moderno da confissão cristã e do reconhecimento do pecado. Não é à toa que ambos acabam juntos numa base de governo amigada e toda justa.
O meio de corrupção, para ambos, ser a máquina estatal e a iniciativa privada que já é tão grande que não pode não estar muito próxima do estado brasileiro, é de um tipo híbrido outro de ser que se conjuga para confusão nossa nos opostos habituais. É nesse sentido que a esquerda se mostra anfíbia --- ou quando a terra e a água se misturam e sublimam para decantar no fundo da retorta o segredo de outra realidade.
*
Perda do senso de realidade e convulsão social
A direita acusa a realidade de esquizofrenia quando lhe pegam declarando vacas-nenúfares para que, enquanto as olham, leves e passageiras, perdem-se na floresta burocrática e fisiológica. A esquerda, esta por seu turno, tem esse curioso efeito da linguagem politicamente correta que ameniza a afetação patológica com o nome cabrito de foco irritativo cerebral idiopático” para parecer análise o que é mero delírio. Bem que gostaria de ter encontrado algum esclarecimento sobre o assunto, mas na falta disso, que o nome parece ter sido inventado para analiticamente não dizer do que se trata, nem criar qualquer analogia que pudesse fazer ver que o comportamento da esquerda não tem lá da prestidigitação da direita, passando logo, para enquanto a denuncia já a superar à mais pura alucinação.
A Esquerda abusa da manipulação do politicamente correto, que é pouco menos que uma alucinação, enquanto a direita leva o clichê a um ato performático de (fingida) ingenuidade que só pode terminar dizendo que a realidade não é, afinal de contas, tão ingênua como se faz passar.
Pois, bem; por “cerebral” não vejo como identificar outra coisa que um eufemismo, já que nenhum termo técnico psiquiátrico usaria o termo sinônimo de mente para designar que se trata de afecção psiquiátrica no dedão do pé. Que me lembre (muito por alto), “irritativo” quer dizer disfuncional, vá lá: “foco” disfuncional, então, que dá em algo como um “evento disfuncional”, de causa desconhecida no cérebro (onde mais seria?), já que “idiopatia” quer indicar espontâneo, isto é, que tem causas obscuras (!) ou desconhecidas.
Engraçado; os homens de esquerda sofrem disso ao longo de toda a vida e historicamente é quando os sintomas da moléstia se mostram mais plenamente realizados, também onde, por efeito, se observa aquilo que está ausente em Dutra, a “convulsão”: tentar um mundo que jamais deu certo, concluindo que, por certo, não fora outrora o mundo agora tentado, pois que era perfeito, para voltar a trabalhar por ele como ele deveria ter sido. É uma lógica fechada na sua alucinação mais recalcitrante que pretende que o que nunca fora nem em pequena escala, deva ser tentado ainda para o mundo todo; e só se dão conta de que esse tipo de pensamento é patológico quando a mente que o aplica --- o que se quer dizer com o termo “cerebral” no palavrório psicológico --- desliza usar a mesma mentalidade para realizar as mais simples tarefas cotidianas.
De fato, a falta da convulsão não é ausência, mas o sinal de outra natureza: a alucinação pessoal precede a convulsão social.
Outro termo que sugere familiaridade para causas desconhecidas, logo, nada familiares, é “epilepsia”. É um tipo de termo coringa, que é do hábito das medicinas se valer com grande flexibilidade eufemística para designar a perda de funcionalidade mental ao ponto de se babar no carpete. O nosso garotão aqui, o foco irritativo cerebral idiopático”, quer dizer então, “perda sem causa nem explicação da capacidade de discernimento da realidade”. Função de realidade é o aquele termo que Freud jamais teira cunhado caso tivesse nas mãos apenas pacientes de esquerda. Ninguém irá negar que o problema dos homem de direita seja o deslocamento da realidade, mas, pelo contrário, um excessivo apego à realidade eficiente, junto a uma atitude cínica para com o que a realidade não lhes impôs como obstáculo.
Se os homens de esquerda falsificam a realidade, acertando o rigor no discurso ideológico, a direita acerta a realidade manipulando a simbologia algébrica da burocracia estatal.
Se Renan Calheiros falsificando papéis altera a realidade (o “rábula-alquimista” de Monteiro Lobato), senão isto a pô-la acamada, a fé na disciplina econômica e na lógica da esquerda geralmente é muito rigorosa para sempre produzir resultados que mostram que os princípios de engenharia social de que se valem são menos científicos que as mágicas prestidigitações da direita. Não é por outro motivo que Monteiro Lobato reconheceu no desonesto grileiro um papel “civilizador” --- isto é, que realiza um mundo, pondo-o em progresso, a despeito de sua intenção principal ser o progresso próprio.
Os “pensamentos elevados” da esquerda, nas palavras de David Coimbra, são sempre muito mais elevados do que se está disposto a reconhece, que deambulam longe no futuro quando já se está propenso a aceitar que a democracia é meramente um nível de civilidade do qual já ninguém ousaria divergir. É por este motivos que a desfaçatez absoluta, a mentira compulsiva e a defesa inacreditável do indefensável ganham espaço num cenário político cada vez mais ensandecido, pois uma vez que se adote a defesa do inacreditável e do intolerável, a reação a altura só pode sair de fora do padrão de polidez sendo por isto imediatamente merecedora da denúncia de intolerância e truculência, ao que todos aderem mais do que rápido.
A realidade nas meras palavras! O rigor dos princípios sociológicos da esquerda projeta no futuro um mundo perfeito que dá, curiosamente, num aumento dos aprendizes de alquimista conduzidos pelos gurus ocultistas da esquerda. Por que antes do exercício da Grande Arte é preciso acreditar que o segredo está sempre mais fundo, que ele é sempre mais íntimo, senão para os inciados. É quando começa a experimentação na prática do imponderável que leva à vertigem. Então já não dá para atribuir ao reino de faz de conta da direita esse efeito.
O estado socialista conjurado por ritos mágicos produz o reino da prestidigitação social. A burocracia e as chicanas são a sua linguagem. A Grande Obra nesse mundo mágico é que nele a palavra pronunciada, que é sortilégio, funciona como profecia; um cético moderno chamaria de “engenharia social”. Mas esse mundo não passa de uma Matrix sonhada, uma matriz hipnopédica, toda feita em laboratório --- mas aí, já aí, ai de quem não ver a roupa do Rei Nu.
Palavras mágicas tornam-se o recurso mais realista, porque a própria racionalidade é já um tipo de mistificação: “Em pleno século XXI...” alude um progresso sonhado por futuristas do século XIX; mas já não é possível se admitir que não seja de todo evidente esse consenso altamente improvável do que se supõe simploriamente. O caso recente da campanha pelo desarmamento, de José Eduardo Cardoso, que surdamente leva adiante esse iluminado programa que ignora que desde que se vem recolhendo armas o número de assassinatos passou de 48 mil ao ano para além do simbólico 50 mil de fato. Não é outra a epilepsia que sofre Maria do Rosário, que pretende que o aborto seja um direito da mulher, excluir um parasita que a suga e produz estrias e celulite. Ou Lula e sua fórmula triádica: ultraja-se e manda apurar, duvida e relativiza e, por fim, nega veementemente. Ou ainda quando Tarso Genro, Ministro da Justiça, desmente todos os tribunais, por aqui e d'além-mar com conjecturas ultrajadas. O mesmo de novo, quando estatuído o código de ética do PT, e de plena posse de seu direito polêmico à opinião, são expulsos sumariamente os petistas que abertamente condenaram o aborto, enquanto Delúbio, pouco depois de expulso pelo mensalão, é readmitido. Ato justificado pela mais nobre piedade a alguém que se equiparou a um condenado perpétuo, mas que nobremente jamais negou “a causa”.
Pouco ainda se disse sobre a segunda realidade habitual a essa “epilepsia”. Terem homologado a reserva indígena de Raposa Serra do Sol de forma contínua, expulsando os moradores brancos pela delirante natureza do "bom selvagem" em harmonia com a floresta, para em seguida ouvirmos dos investimentos de uma barragem e uma pequena hidroelétrica local. Afinal de contas, as vastas áreas necessárias a alma natural do índio não dispensa o televisor e o freezer. Estas coisas parecem provar que a realidade, como se referira a ela Renan Calheiros, tem de fato tabiques de racionalidade diferencial: isto é, está esquizofrênica. Ou ainda e de novo a defesa da “tolerância” universal com medidas racistas de fato, o combate ao turismo sexual e a discriminação (i.e., que a nota) de gênero em menores de idade por critério de opção que elas não podem fazer por definição legal.
A disfunção esta pode assim ser chamada “epiléptica” quando ocorre no nosso quarto; quando ocorre dentro de um partido político ou no governo, ou numa sociedade inteira, ganha o nome genérico de Socialismo.
Diferente do ministro da justiça, Dutra mostra que tem lapsos de sanidade, a ponto mesmo de poder perceber que se tratava de uma disfunção por ele mesmo. O mesmo jamais aconteceu com Lula e nem por isso (ou justamente por isso) ele sentiu, em qualquer tempo, a necessidade de entregar o cargo. O pessoal por aqui parece que não se dá conta de que o foco irritativo idiopático já há muito tornou-se epidêmico e que é já quase padrão de normalidade.
Claro, talvez as funções que os nossos governantes sinistros representam, sob a nossa Constituição cidadã laica e futurista (i.e., "teleológica"), talvez realmente mais necessitassem destas disfunções do que delas se ressentissem. O que tirou Dutra do comando petista não foi a “epilepsia”, mas tê-la inadvertidamente notado em si mesmo.


Nenhum comentário: