fevereiro 17, 2011

Permissão para divergir!

In yonder Village named Morality, there dwells a Gentleman whose name is Legality, a very judicious man, and a man of very good name, that has skill to help men... [I]f he should not be at home himself, he hath a pretty young man to his Son, whose name is Civility, that can do it (to speak on) as well as the old Gentleman himself...
--- “Mr. Worldly Wiseman” in Pilgrim's Progress.
...therefore, Mr. World Wiseman is an alien, and Mr. Legality a cheat; and for his son Civility, notwithstandinghis simpering looks, he is but a hypocrite and cannot help thee.”
--- “Evangelist” in Pilgrim's Progress.

John Fricke
(Levemente adaptado)
Wake Forest jogou uma partida de basquete muitos anos atrás, em Duke. Eu trabalhava nesse jogo que recebeu estudantes locais, os quais, em uníssono, entoaram com palavras inteiras elogios desgraciosos às faltas que lhes pareciam absurdas. Um funcionário informou ao treinador Kike Krzyzewski, de Duke, que seu time corria o risco de receber uma falta técnica se seus fãs não parassem de usar aquelas palavras. O treinador pegou o microfone e pediu ao estádio que não repetisse aquelas palavras de novo. Poucos minutos depois houve uma falta discutível contra Duke e os estudantes imediatamente entoaram em uníssono: “Permissão para divergir!” Muito esperto.
Impedir o uso de expressões através de ameaças pode até funcionar, mas apenas se a punição que se ameaça é real. Desde que a esquerda não pode proibir a livre expressão diretamente, optam por buscar caminhos secundários para isso.
Alguns destes caminhos envolvem usar agências governamentais, como a esquerda tenta fazer com a Comissão Federal de Comunicações (FCC), por exemplo, para limitar a livre expressão e a opinião no rádio. Uma tentativa da esquerda é forçar as rádios locais a programar seu tempo para “refletir a comunidade” [1]. É dizer, p. ex., forçar a KFI em Los Angeles a deixar de ser uma rádio predominantemente conservadora e forçá-la a oferecer uma visão mais liberal. Uma tentativa de reviver pela porta dos fundos a Fairness Doctrine [2]. Agora, não imagino que a esquerda vá adiante com essa tentativa, porque ela é problemática de muitos modos.
Mas então o que fará a esquerda se isso não vingar através do legislativo ou de sanções judiciais ou diretamente pelo poder governamental para silenciar as vozes que divergem de sua ortodoxia? Bem, fará o que faz melhor sempre. Demonizar. A esquerda é extremamento boa nisso. Tão boa que ela consegue demonizar usando linguagem agradável, não apenas não-ofensiva, mas francamente, bem... civilizada.
Certamente a esquerda continuará, como sempre, a usar armas retóricas, os “-istas” e “-fóbicos para ameaçar aqueles que discordam dela. Não pouparão de rotular os conservadores de “racistas, sexistas, homofóbicos”, etc.. A esquerda não vê nenhum problema em empunhar aquelas palavras incendiárias desde que a esquerda julga tais palavras, “civilizadas”. Estas palavras não são, de fato, civilizadas, mas desde que a esquerda se coloca com naturalidade como árbitra de nossos hábitos linguísticos, pode definir as regras a medida que as usa.
Isso nos traz a uma nova tática; usar armas retóricas leves. Eles estão esperando pelo mínimo pretexto para usar novas armas, para usá-las em todo seu poder e glória pela causa. Tão ansiosos que chegam a usar o evento terrível de 6 mortos e inúmeros outros feridos na tentativa de assassinato de Tucson, recentemente, para trazer a arma ao jogo. Não importa que a esquerda tenha escolhido ser tão estupidamente incivilizada quanto um partido político pode chegar a ser ao difamar tão prontamente, isso não é um problema para eles. Não, não, de modo nenhum é a civilidade da linguagem em geral o problema do discurso político.
A liberdade de expressão civil é desejável porque ela nos permite ter um discurso político verdadeiramente honesto. E a esquerda fará as regras que definirão o discurso público; todos terão de aderir àquelas regras ou submeter-se a rótulos e ataques por recusar-se a seguir sob seus termos (de novo, não por uma ação incivilizada da esquerda, desde que os fins justificam os meios). As regras serão simples. Você não pode usar qualquer tipo de “palavras de ataque” contra um político. É isto! Soa racional e esperto. De qualquer foma, você sabe no que constituem as “palavras de ataque”? Se não, permita-me ajudá-lo com uma breve lista da linguagem aprovada.
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Palavras de ataque”
  • Socialista – palavra usada unicamente para falsamente manchar a reputação de um oponente ao sugerir que ele faz parte de uma conspiração de mulheres para transformar a sociedade numa grande orgia sem pais, sem propriedade e sem os execráveis ricos.
  • Marxista – pior que “socialista”, é usada geralmente apenas para infamar de uma militância irascível de assédio a toda ordem social ocidental que gerou toda a desigualdade no mundo, além de gerar aquela riqueza que pode ser cobiçada, tentando o homem e, vez por outra, caluniar os que relembram com certa nostalgia, senão respeito, a Josef Stalin.
  • Traidor ou também (atos de) Lesa-pátria – usado(s) apenas para infamar o oponente como sendo aquilo que já não se tem mais como saber o que é num contexto laicizado, onde o estado é a coletividade concreta e representante mais do que legítimo para aplacar todos os anseios da “pátria”; o termo passou a ser meramente figurativo de uma comunidade de interesses laica e humanista (isto é: leiga).
  • Imigrante ilegal, ou simplesmente “ilegal” ou Alienpessoa desprivilegiada do qual sua humanidade passou à clandestinidade quando, ao entrar ilegalmente em um outro país, não goza de sua natureza humana que não está coberta pela constituição daquela país.
  • Patriota” – palavra usada apenas como ardil para criar o contraste de um oponente, ao sugerir que alguém tem mais amor ao país que qualquer outro.
  • Terrorista” – uma palavra usada para marginalizar indivíduos ou grupos de indivíduos, com ódio, mesmo aqueles --- ou apesar deles --- que se envolvem em atos de terrorismo.
  • Deus”, “Jesus”, “Bíblia”, etc. – uso de abstrações metafísicas que sugerem uma força moral superior e uma verdade definitiva para oprimir pessoas pelas razões mais torpes.
  • América” – usado quando se quer dar um sentido de unidade e valor a uma nação que não seria por acaso culpada pelos piores crimes contra a humanidade.
  • Alvo”, “Batalha”, “Luta”, et al. – linguagem de guerra que faz apologia da violência ao sugerir ataques brutais e extermínio, exceto quando usada para designar palavras de ataque --- que não seria o caso para a esquerda nunca de usá-la tão impiamente.
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Palavras de defesa de não-agressão”
As palavras que seguem são palavras aprovadas de não-agressão, de defesa e descritivas do comportamento não aprovado:
  • Racista”a) termo descritivo usado para proteger as minorias étnicas e raciais de injustiças cometidas por pessoas intolerantes; mesmo sendo sempre atribuída falsamente; b) [variação de justa defesa] atribuída a qualquer um que pretenda falar a verdade por meios incivilizados [i.e., a verdade] e ou pouco polidos em nome de alguma tradição secular, estudo sério ou credo revelado contra o supremamente igualitário liberalismo laicista e contra a moralidade civil.
  • Homofóbicoa) termo meramente descritivo usado para proteger as minorias sexuais da discriminação --- cai geralmente na categoria da ofensa “racista”; b) dirigido a qualquer um por alusão negativa ou tom de voz de desagrado pela respeitabilíssima opção de gênero ou fantasia de outra natureza, seja lá qual as inúmeras formas de amor, entre todas --- todas!
  • Islamofóbico” – termo usado para proteger as minorias religiosas islâmicas de qualquer precaução ou expediente difamatório que porventura estas minorias pratiquem em suas próprias nações ou quando atribuído a células de resistência civil de modo que isto venha a servir de desculpa para nós não praticarmos nossos mais altos ideais cristãos.
  • Terrorismo” [palavra de justa defesa] – a) denuncia denúncias diversificatórias, lorotas, boatos, balelas indignas e incivilizadas as quais usam para atingir pela gratuidade do pior que pretendem estar denunciando; b) disposição ultrajante de quem pretende dizer falsamente a verdade a qualquer custo, por exemplo, ao custo da civilidade no discurso público.
  • Sexista” – termo que protege as minorias de gênero, transformistas, “papéis sociais”, mutação, fantasia, bem como qualquer outra “forma de amor” --- todas! --- que criem uma minoria sem que essa seja reconhecida imediatamente na sua dignidade humana.
  • Tolerância” – termo meigo e decente, distintivo dos mais nobres espíritos, o grande lubrificante social para evitar a discriminação de qualquer tipo, instrumento, portanto, do mais vasto igualitarismo (tão perseguido por todos nós...).
  • Intolerante” – de modo nenhum é uma palavra de ataque; usada para defender a tolerância de todos os pontos de vista, exceto, é claro, aqueles que que a tolerância não pode tolerar.
  • Xenofóbico” – usado para mostrar que a nação de todos os homens e mulheres e crianças do mundo é a Humanidade e que qualquer um longe dessa “pátria” é um alienado da sua condição humana, intolerantemente alcunhados por racistas, sexistas, homofóbicos e islamofóbicos como pessoas indignas de terem todos os seus direitos reconhecidos igualitariamente e da proteção legal na sua condição particular de minoria ultrajada.
  • Direitos Humanos– condição inalienável de natureza jurídica que é já a natureza humana mesma, pela qual se busca o igualitarismo onde essa perfeição pode haver, e, portanto, na realidade.
  • Radicais” – termo usado para designar pessoas mentalmente perturbadas, que não adotam o tom de voz consensual aprovado por este léxico, e que vão contra a condição esclarecida por fatos apresentados sempre pela mídia.
  • Fundamentalistas” – jogando um pouco de luz na trava medieval, o termo esclarece o comportamento do outro lado, que não adere, como renitente antagonista da tolerância e que se mantém na oposição a despeito das luzes laicas já terem mostrado que a verdade é apenas útil. (V. as odiosas palavras de ataque “Deus, Jesus, Bíblia” acima.)
  • Boatos”, “factoides”, “baixarias”a) geralmente termos empregados casados e com uma ou duas repetições em tom ultrajado, numa justíssima medida, os quais demonstram de forma cabal o que eles aludem vagamente (por desnecessário descrever o óbvio); b) cabe a qualquer verdade muito dura que vem sendo declarada fora do horizonte linguístico politicamente correto, de modo civilizado e moralmente polido --- o que é sempre o mais inaceitável, daí legítimo o seu uso, que já demonstra do que se trata.
  • Direitistas” (“a direita” ou “o conservadorismo”) – designa a posição reacionária ou a visão estagnada, violenta e repressiva desde um ponto de vista liberalista e progressista --- o óbvio ao qual ninguém negaria --- contra o racismo, o sexismo, a homofobia e o islamofascismo.
E, finalmente, “Civilidade”. – Civilidade não é um termo de ataque; por certo que não. É, como se sabe, laica. Se um censor ergue-se pela civilidade, isto não pode deixar de ser uma boa coisa no final das contas. A esquerda nos inquirirá a antes censurar-nos a nós mesmos, assim podemos continuar perseguindo a civilidade. A esquerda fará a sua parte no discurso público concordando em não usar as palavras de ataque listadas acima. Eis no que se tem uma limpa e honorável conformidade. O certo, só por acaso, é que é livre o uso de palavras de não-agressão como se desejar, desde que elas sigam as regras do uso correto. Estas regras simples dizem que você deve seguir a lógico e a verdade. Lógica e verdade demandam que todas as palavras de não-ataque nunca sejam usadas impropriamente enquanto armas injustas ou falsas contra qualquer minoria, porque as minorias nunca são culpadas por nada descrito nas palavras de não-ataque. Usar palavras de não-ataque para descrever as minorias, mesmo quando se aplicam, é em si mesmo um ataque. Verdade para todos os casos, exceto aqueles onde a minoria é o problema.
Assim, numa tentativa de sermos civilizados em nosso discurso público, apelo às pessoas decentes da esquerda a repelir o uso que se vem fazendo destes termos. Mas falo especialmente para nós do outro lado, que quando pressionados a aderir a estes termos simulando a mais alta “civilidade” ou a aderir às regras que nos dizem que devemos seguir, ora: “Permitam-nos divergir!
Notas
1. É ao que se tem um tendência também por aqui, de estimular as rádios locais ao mesmo tempo em que se cria obstáculos às rádios regulares.
2. Fairness Doctrine é uma política americana de fim dos anos 40 que pretendia balancear no rádio assuntos polêmicos, obrigando que as rádios fizessem refletir lados polêmicos.

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"We Beg to Differ", de John Fricke. In: American Thinker, 14 de janeiro de 2011.

John Fricke é um apresentador de rádio e televisão e comentarista conservador americano. Seu website é www.johnfricke.pedia.com.

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