dezembro 04, 2010

O mapa da xenofobia de classe

Olha, gente! Esse Polêmica, como tantos outros, será um programa de alto nível, em que as verdades e até as mentiras serão ditas todas civilizadamente.” --- Lauro Quadros abrindo o programa Polêmica de 03 de Dezembro de 2010, Rádio Gaúcha.
Sabem que as atitudes de Jesus nos interpelam, questionam e incomodam. Sua opção pelos pobres, a crítica à ganância dos ricos, a exigência de amar os inimigos, são no mínimo desconfortáveis para uma sociedade centrada no sonho da opulência, canonizadora da apropriação privada da riqueza e prenhe de ódio frente aos adversários”. --- Frei Betto, “O Evangelho segundo Barrabás” (25.04.06).
índice

(Um estudo de caso sobre a propaganda da “luta de classes” e de sua apologética e fins.)

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Igualando desiguais: para construir a verdade
Quando alguém lhe pede para “saber perder”, ou o inverso, “saber ganhar”, pode ficar implícito um apelo à adesão ao lado vencedor ou ao conformismo. A adesão, por exemplo, às propostas in progress do 3º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3). A ideia de que possa haver oposição num momento posterior a ter se chegado a um vitorioso nas urnas, a isto se faz parecer a grosseria de um mau perdedor.
Quer se fazer passar a arena política pela mera disputa de poder, o melhor contexto para a desconversa, daí qualquer manifestação oposta ao discurso de concordância com o resultado das eleições ser acusado de soar a lamentações e ressentimentos pelo fracasso de ter tido acesso ao poder ao invés do outro. Mas nada disso diz respeito à defesa política dos temas que pretendiam ter movido o eleitor a eleger um ou outro. O convite nada democrático é um sub-reptício apelo de adesão ao resultado das eleições, ou o convite ao silêncio obsequioso. Como se a disputa fosse um mero plebiscito de quem conduzirá o país, de preferência com a unidade necessária para isto.
Que isto seja o entendimento da população, depõe contra ela, que tem pouco a ver com a condição da democracia atual no Brasil, que a recebeu pronta e dela mal sabe dispor; é o que não espanta. Mas que este sentido de democracia apareça nas análises de cientistas políticos e sociólogos, é sintomático de outra coisa.
Os exemplos dados foram os seguintes: (1) Tomado com derrotado, Fogaça (que concorria ao Estado do RS) foi duramente criticado por Pompeo de Matos, aliado seu de primeira hora; (2) Entre os vitoriosos, o PMDB tão logo soube que Dilma havia composto a equipe de transição apenas com membros do PT, foi logo cobrar-lhe a participação devida. Por estes exemplo, o programa Polêmica de Lauro Quadros, Rádio Gaúcha (RBS) --- “protagonista” neste blog dos descaminhos da “arte da polêmica” (a disciplina dos golpes baixos na arte da guerra) ---, tomou pares inequivalentes para com os que exemplificariam as duas crises: os que não sabem perder contra os que não sabem vencer:
ENQUETE: “Pompeo [de Matos] critica Fogaça, PMDB reclama de Dilma. É mais fácil saber perder (59%) saber ganhar (41%)”
De modo nenhum tratam os termos das crises internas do vencedor e do vencido de uma coisa ou de outra. Mas se os termos estão mal empregados, é porque talvez a questão do programa não fosse de fato esta, mas uma outra que talvez não se declara.
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Para marcar um Norte Verdadeiro no mapa da xenofobia
O controle do debate político é um cipoal de assuntos secundários que tem só uma finalidade: camuflar os reais pontos de interesse em órbitas que giram em torno de um aspecto odioso que se fez reconhecer como central. No caso se deu a “xenofobia” como explicação atribuída aos “descontentes”, “tucanos” (como se fosse), ligando-a safadamente ao “intolerante” eleitorado mais conservador.
Analistas do óbvio têm denunciado o uso do mapa da divisão do Brasil nestas eleições como maniqueísmo de “classe”, que, tão logo se veja frustrada com a vitória “do povão”, elites já feitas arreganham os dentes do racismo étnico.
O mapa dos estados coloridos em vermelho e azul pareceu uma divisão norte-sul --- é claro, os “sulistas” são os “brancos racistas”. Mas o fato é que se na geografia o mapa da xenofobia não existe, já o mesmo não se pode dizer da sua divisão. O mapa da divisão azul-vermelho é um mapa de “Secessão Civil”.
Aqueles que se arvoram “desconstruir” ingenuamente para facilitar a associação dessa divisão à pecha de “xenofobia” e “racismo” à oposição são os mesmos que querem a organização da sociedade civil apenas quando esta pleiteia sob as linhas reivindicatórias da esquerda a mesma feita pelos “movimentos sociais”.
Sempre que esse tipo de “analista” encontra um óbvio --- quando não os criam ---, logo se põe a “desconstruí-lo” com outros fins.
Preconceito” é uma de suas palavras preferidas, pois ela define a questão a favor do fingimento analítico exatamente quando já se está confiante o bastante para dar a impressão de que os termos da discussão já estão definidos, quando já se nota que ninguém fará as correções devidas. O termo “preconceito” funciona como um a “solda” nos termos da discussão.
A desconversação do mapa das eleições foi esposada como tema central no programa Polêmica, de Lauro Quadros, quando professores de sociologia e de ciências políticas compuseram um meio-ambiente consensual de desconversa tática. Pouco importando se não há, de fato --- e, de fato, é não pouco frequente o caso ---, a intenção nisto ou se o discurso já está interiorizado na alma do sujeito.
A questão do mapa é mais verdadeira quando se vê a realidade política e não o mapa das eleições. O PMDB de Sarney, Calheiros, Collor, antes (ambiguamente) Antônio Carlos Magalhães, e quase Jader Barbalho, são algumas das “oligarquias” políticas mais conhecidas naquele mapa, que são os mesmos tantos que são a maioria perene num Congresso de mil picaretas a espera sempre de um Ali-Babá da Silva imoralista.
Os currais eleitorais foram tomados de assalto pelo oligarca soviético. Isto, é claro, enquanto eles não puderem ser eliminados de todo. O objetivo, para “fazer mais”, é o poder sem intermediários. A nova oligarquia da soja é que freou o consenso absoluto, e apenas pelas dificuldades criadas por um governo que dá sinais mais que claros de adotar, tão logo quanto possa, o socialismo do século XXI.
O mapa nas eleições mostra a divisão da sociedade quase exatamente ao meio: 55,7 a 43,7 milhões. No mapa da secessão política é o da sociedade civil que se divide quase meio a meio em quase todos os estados para --- recusando-nos a crer em qualquer força carismática de Serra ---, opor-se ao governo membro do Foro de São Paulo por seu alinhamento político-ideológico e por seus escândalos. É claro, no entanto, que as pessoas capazes de julgar melhor seu voto são uma minorias ainda mais acanhada.
Os estados satélites do governo soviético, o “Líder Vermelho”, são uma referência aos estados satélites da ex-URSS --- as “minorias” étnicas ---, que foram “convidados” por Lênin a fazer parte da unidade soviética enquanto lhes vendia autonomias nacionais fingidas (korenizatsia). Lênin, antecipando os tempos, usou as mesmas técnicas de Lula para compor uma unidade nacional sob outra ideologia, completamente estranha aquela sociedade, gerando a expectativa de independência a todas as “micronações” étnicas que, ao som cordial de acesso ao diálogo, atenderam ao apelo do flautista de Kremlin. Hoje o mesmo, tentada de novo, como nunca eficiente --- que quando houve, fracassou ao pior.
É claro que havendo os estados, cada um deles, divididos ao meio, a divisão visual entre vermelhos e azuis é apenas simbólica. A divisão brasileira não é uma divisão de territórios, mas a divisão dos territórios é o símbolo de uma divisão civil.
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A atribuição odiosa
O assunto acima puxa a discussão, mas como dirá Lauro, “Daqui há pouco vamos começar a misturar...”. Mas do que se trata este “misturar”? Ei-lo:
O abre-alas com perdedores se acusando e vencedores tendo que se acomodar nas alianças feitas, passa --- com referência rápida a L.F. Veríssimo ter escrito sobre o mito de que o nordeste teria dado a vitória a Dilma (o panfleteiro de sempre) --- ao que para Lauro “tem essa questão ligada ao racismo”. É nesse momento que o tema do programa começa a aparecer qual é, invocando obscuras fontes de exageros verborrágicos.
Outra coisa igual às “teorias da conspiração” desmistificatórias, também da classe das lendas urbanas, há o apelo ao mais recente mito que circula na internet. O modo geral dessa tática indisfarçável é recortar a discussão de modo que, nos termos escolhidos se dê a explicação pelos quais se reconheceria os tais “preconceitos”.
O preconceito “racial” contra os nordestinos aparece quando aquela parte do eleitorado que baba raiva, descontentes com o resultado eleitoral e nem podendo reconhecê-lo um sucesso da democracia, passa a mostrar os dentes racistas para o norte-nordeste ao reconhecer a divisão geográfica dos votos concentrados a favor de Dilma lá próximo ao equador.
Assim, com o apelo a um desvirtuamento da “análise”, passam a refutar a ideia de que Dilma teria sido garantida pelos nordestinos e nortistas, ato contínuo fazem a ligação alienígena ao racismo, para o qual se tratará de dar exemplos extremados pinçados da internet.
O exemplo da professora universitária Verbena Córdula é lida como exemplo de uma “verdade inconveniente”:
A análises de Maiara, deixam fugir [o que] existe no Brasil inteiro, há racismo, homofobia, preconceitos homossexuais... [selecionando] Maiara disse o que muitos brasileiros dizem que não gostariam de dizer. Vivemos no mito de que o Brasil é o país da cordialidade...” [v.g., tapinhas nas costas].
Qualquer coisa como diz a professora Verbena é verificada numa sociedade que não tarda em falar mal do que quer que possa; daí que por exemplos extravagantes, colhidos de memória, qualquer coisa pode ser “demonstrada” e fazer parecer que se está pensando dizer algo que ninguém quer dizer --- se é que não por mera tática.
O sociólogo e “cientista político” Emil Sobottka dá peso ao ataque contra a “xenofobia” a qual reconhece como a explicação da recalcitrante rejeição à Dilma: “Vamos [então] à questão falsa, mítica, [de que] se não fosse o norte a Dilma não seria presidente”. O nordeste, de fato, não poderia dar a vitória a Serra sozinho, mas negá-lo como um centro forte de Lula, como quase não houve, salvo duas exceções, exemplos a favor de Serra, é também negar o que é certo.
Querer revelar a verdade oculta pela “mítica” racista, esta como fundamento da rejeição de metade do eleitorado, desvia e falsifica a análise das eleições de 2010.
A xenofobia vem então bem a calhar para tornar a análise uma desmistificação que põe para longe as condições reais da eleição e as razões da rejeição de metade da população, especialmente nos pontos mais consistentes. Mas a questão aqui é outra; não se o nordeste é na maior parte “curral eleitoral” de Lula (cujo critério é nenhum), mas o ataque à oposição desde exemplos escolhidos a dedo para vender a imagem de um extremismo ligado à luta de classes --- isto é, mero interesse de grupos.
A discussão continuou num tom de defesa aos nordestinos e de menosprezo aos “racistas” paulistas, que representariam para Sobottka o atraso oposto ao Brasil “moderno” (?).
O apelo de racismo arremata com um apelo à humanidade, à tolerância à diversidade que é só o que é aceitável quando tudo que as pessoas querem é ser reconhecidas como “gente”. Voight descreve, advertindo, a tendência que dá as caras em todo o mundo: “e assim correríamos o risco do retrocesso que ocorre no resto do mundo, na Europa, nos Estados Unidos, de que as pessoas estão perdendo o direito de serem pessoas...”.
Mas em nenhum momento Voight esclarece do que se trata esse “retrocesso” ao qual nos arriscamos, ou o que é o critério de “gente” associado àquele, que já ocorre nos Estados Unidos e na Europa. Não seria a heresia do surgimento de alguma oposição ao progressismo que desconversa seus verdadeiros fins? Assim, o principal exemplo de ódio contra os nordestinos, colhido no Twitter (!), permitiu aos debatedores inverterem a moeda e infamarem São Paulo de coisa equivalente que seu exemplo seletivo encontrou oportunamente. O exemplo infame colhido no Twitter ganhou uma resposta equivalente com o contrapondo que a luta de classe dispensa com a virulência de um “racismo” indisfarçável.
Mas a comparação entre estes dois ódios, o de classe e o de raça, seria verdadeira apenas se as fontes fossem equivalentes. Pois se não são, como não são, é apenas porque há muito que “cientistas políticos” e “sociólogos”, et caterva, nas universidades brasileiras têm um peso e confiabilidade igualdado ao das opiniões dadas nos meios de comunicação de massa.
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O ódio “racial” de classe marxista: xingue-os do que você é!
O que cheira mal por aqui não é o reino da Dinamarca, como veremos, mas a cantilena marxista hipnótica (de elevador) de ódio projetado no outro, da luta inexorável das classes sociais --- nem que as almas perturbadas tenham de criá-las para havê-las.
Diz então Lauro: “Essa questão … está ligada ao racismo...”, para em seguida ligar àquilo que se disse de fonte qualquer --- pinçado do caos da internet para melhor força de exemplo: “que o nordeste é que venceu para Dilma”. E complementa com o exemplo “daquela mulher [Maiara Petruso] que está sendo processada por dizer [que os nordestinos não são gente]”. Pronto, está criado o ambiente falsificado da discussão dos nossos professores universitários.
O programa Polêmica, não o de costume, traz à baila assuntos, menos que atuais, do momento, de interesse meramente secundário e por estes cria a demanda por uma defesa fingida do não-conflito, querendo --- ou já não podendo dar em outra coisa --- acertar na resistência da oposição. Tudo segundo aquela máxima do logro: “mistura astutamente o verdadeiro e o falso, passando a negar sistematicamente o verdadeiro, de modo que ninguém mais duvida do falso”. Há uma lei cega no coração de Lauro Quadros por esse aforismo, que é uma força autônoma nele.
Fazendo eco ao consenso da mesa, o “cientista político” André Marenco diz: “Retórica da intransigência, do rancor... o que fazer, se os pobres [estão ganhando poder aquisitivo?]”. Só o rancor permite um tal ultraje, que logo vira o paroxismo da soberba. A analítica superior aponta o erro crasso para poder parecer tão superior quanto pode produzir com a distância entre um palavrão e a superioridade fingida de análise: “Há muita arrogância e ignorância política”, diz Sobottka.
O clima no programa passa a escarnecer com ironia as preocupações da classe média alta relativas ao inchaço da própria classe média com o aumento do poder aquisitivo de uma parcela da sociedade que antes não tinham como. “[É que] Tem muita coisa nos shoppings... e nas universidades ... E os nossos filhos que tinham direito garantido? ...Pobres nas universidades públicas, onde vamos parar? [ironizam]...”. Lauro segue a cantilena: “[É,] tem gente indignada com essa [invasão]... Pobre com carro?! [E o trânsito está ficando péssimo, é o que pensam...]”.
Pelo ódio de “classe” se interpreta todos os conflitos para os marxistas, sejam eles ideólogos teóricos ou apenas “aculturados”. É da mentalidade revolucionária extrair de qualquer ação o “interesse” alheio oculto, a tomada de posição “partidária”, isto é, facciosa, o “ódio racial”, ataques cujas expressões se originam da oposição que fazem contra as detestáveis [odiosas] classes abastadas. E isto contra toda a ciência política do século 20. Mas não eram cientistas políticos que falavam há pouco?
Voight ou Marenco terminam citando que “Os períodos de grande mobilidade social são seguidos por movimentos equivalentes da retórica [reacionária] da intransigência...”. Depois que Voltaire e que os revolucionários jacobinos inventaram as lendas urbanas para atiçar o povo, para enlamear a Igreja Católica e prestar culto ao Deus leigo do deísmo, escapa-lhes que a fórmula poderia ser dita com mais verdade invertida: os períodos de movimentos de massas intransigentes de retórica radical de ódio são seguidos de reações que buscam restabelecer a ordem mínima, quando então, ao contrário do que querem, as crises abrem espaço não para boas oportunidades de mudanças, mas para os piores oportunistas.
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  A construção da hegemonia pela torpeza
José Serra ter dito quase imediatamente após os resultados, que se manteria na oposição, a reação foi por um “Já começou!” Ou, de novo, Léo Voigt: “Eu conheço pessoas que não sabem se relacionar sem o conflito; ou [isto já] é uma questão de método [então] ou é de saúde mental...”. Esperaria ele, imagino, encontrar a concordância que adere simplesmente, aos vencedores, como diriam estrategistas comunistas nos anos 60, “por um ato de supercidade moral”? (!) sem Sem ter como o que barganhar, o derrotado deve aderir, para, quem sabe, ainda receber algum agrado, ou, por obséquio, calar-se.
À violência dos “fundamentalistas”, dos “radicais”, dos “intolerantes”, atribuídos às pessoas contrárias ao aborto, juntam-se o “racismo” e o “conflito” como “método” infame de não-adesão --- e senão método, loucura. Léo Voigt, diretor do Instituto Vonpar, atribui quiçá à loucura a resistência ao consenso gramsciano e ao progresso acelerado ao laicismo.
Assim, a sabedoria de Deus é loucura para os homens, diz o apóstolo Paulo. Explica-se assim também a irracionalidade da fé, de que certas coisas, inacessíveis pela demonstração, cheguem a ser verdadeiras a despeito de não serem o produto de nenhum método. E se a loucura pode ter método, nenhum exemplo melhor é este de que a vida é aquilo que o ordenamento jurídico define sob a cúpula imóvel do agnosticismo míope: o fundamento metafísico do laicismo é a (própria) torpeza. Outrossim, a despeito da invenção desse mecanismo notável da tecnologia modernam, o ultrassom --- um auxiliar fantástico da fé na vida intrauterina ---, certas loucuras metódicas ainda assim preferem os conceitos abstratos claros e distintos do formalismo jurídico.
O esforço puritano de colocar a vida dentro de uma camisa de força conceitual elimina deste mundo imperfeito os erros de um criador que nega-nos o método de sua loucura. Não havendo este método, quem seria insensato de não aderir ao consenso leigo de um se nada sabemos, nada há? O conflito é a resposta dos irracionais contra esta verdade patente: a evidência de nossa torpeza, mas já, então, feita em método de construção da hegemonia social.
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A burla da apologia do não-conflito
Para Sobottka, o grande ponto da eleição de 2010 foi a rejeição do conflito. E Léo Voigt completou: “Está no DNA das pessoas...”. Lauro, como é habitual, deu outro exemplo do mesmo: “Está no DNA dos Estados Unidos... [Não há] diferença em quem ganha nos Estados Unidos [porque] está no DNA [deles]”.
Somos uma geração herdeira do 'confrontacionismo', [que] era o método [nos antigamente] pelo qual se construía a hegemonia... e o sucesso [...] do seu grupo, [que se dava, então] na derrota do outro grupo”, diz Voigt. Para ele o esforço de Tarso de aproximar os divergentes, é o que há de mais “atual”, permiti-los a “condição do diálogo”. E não será mesmo por isto que um leninista como Tarso evitaria o modus operandi do mestre.
O “conflito” e o “fanatismo” americanos prova-se pela revolução de independência, pela Guerra da Secessão e pela resistência ao pacifismo soviético, decerto! Além do mais, não ter aderido ao apelo de capitular voluntariamente como demonstração de superioridade moral, é o que gostariam os diabos. O oposto, por exemplo, do republicanismo laicista radical da França revolucionária, que negou-se ao conflito tão radicalmente que resolveu terminar com qualquer resistência pela guilhotina, e em nome da paz. Foi quando a loucura ganhou ares de método racional em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade, método que se convencionou, por consenso, chamar “democracia” --- isto é, a maioria simples decide levar à guilhotina a minoria simples. Justiça social igual somente foi alcançada pelo horror soviético e pelos exércitos de burocratas estatais do socialismo nazista.
Os tempos conspiram contra as pessoas que pensam assim [e agem] pelo confronto”, no sentido que discorre, por certo, refere-se Voigt ao “progresso” àquele futuro de onde os marxistas tiram de onde aderir cegamente aos seus superiores desconhecidos, para um mundo melhor algum dia possível. Mas desse mal Voight ficará livre somente no túmulo. Os demais geralmente preferem aquela sabedoria de não querer serem felizes demais por um lance de sorte que tem muito de loucura e pouco de método [1].
É o oposto do que pensa um dos mais influentes estrategistas organizadores de massas americano, o ultrapragmático Saul Alinsky: “Foi a higiene moral da classe média que fez do conflito e da controvérsia algo negativo e indesejável....”...
Consenso é a palavra-chave --- não se pode ofender nosso concidadão; assim, hoje, pessoas são demitidas dos meios de comunicação de massa por expressarem suas opiniões ou [por] serem “controversas”.”
Soou familiar? Ainda que a palavra mais conhecida por aqui e mais usada, no lugar daquela, seja “polêmica”. Tal como um “homem de ideias polêmicas”, um “assunto polêmico”, etc.. “Polêmico” é o limite do tolerável para uma imprensa fantoche de si mesma; qualquer coisa para além do polêmico será excluída ou silenciar-se-á de um modo tão profundo que é como se não existisse o que quer que se diga. Isto, muito antes de qualquer olhada mais séria sobre os méritos em questão.
Essa regra não vale, como é fácil perceber, para o agressivo discurso contra os “racistas”, contra os “fanáticos”, “terroristas”, “fundamentalistas”, “radicais” que meramente, por defender o que acreditam, foram identificados, com ódio, a expressões de ódio. Quem os acusa, com uma linguagem insultuosa superior, de soberba ultrajada, ombreia-se àqueles que Alinsky denuncia por um moralismo travestido de polidez civil. De longa data, um artifício para criar embaraçamento e levar a oposição a uma posição emasculada sob o politicamente correto.
A defesa do “não-conflito” é um convite safado para aderir, nada mais do que isto. Não seria preciso um estrategista ardiloso como Saul Alinski dizer o óbvio: “O conflito é o centro vivo de uma democracia”. Os revolucionários franceses exerceram essa lei cega como sumíssima prática da democracia radical. E quando veio o consenso, foi pelas mãos reacionárias de Napoleão. Desde então, parece que ficou, pragmaticamente, mais interessante para os pescoços dos revolucionários optar pelo reacionarismo tirano mais benevolente que a benevolência fraternal dos revolucionários.
A “construção da hegemonia” desde a sociedade civil precisa da modificação do senso comum e do senso de realidade, para fazer aderir a um consenso radical capaz de transformar a sociedade e o próprio homem num homem novo. Um homem cuja autonomia é plena e sem falhas quando ele aderir livre e espontaneamente ao consenso.
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A livre-adesão ao consenso radical
De novo, o apelo ao não-confronto quer dizer apenas “aderir”, incondicionalmente. Permitir a “condição do diálogo” é aquele looongo processo que se nos vai impondo enquanto consentimos abrindo mão de cada tema, ponto a ponto, aos quais pretenderíamos defender, até que nos sobra apenas, por polidez elegante aderir ao relativismo radical do consenso laicista. Se por acaso a vida ignora nossas convenções de diálogo democrático, pior para a vida.
O mundo imperfeito que se emende! O modus operandi do marxismo é um looping de atualização, mutatis mutandis, que vai dar na dialética das ações afirmativas do leninismo e no desconstrucionismo produzido pelo processo de reorganização da sociedade civil pelo método de Antônio Gramsci. É uma questão de ordem: percebeu-se que antes do mundo novo possível é preciso fabricar um novo homem que deseje esposar a ideia de um novo mundo e que a este esteja de tal modo adequado que já se confunda mesmo com uma tradição. O fundamento dessa tradição sendo não a experiência compartilhada, mas adoção através da engenharia social de filtros transcendentais para a cristalização diante desse novo homem da nova realidade.
Formar a grande unidade foi o desejo de todos os partidos de tendência fascista --- obviamente sem a pecha que a palavra carrega ---, que esperam que o poder deles esteja acima da lei, ou melhor, sendo consensualmente a vontade deles a própria força da lei. Estas manifestações poucas vezes assumem a forma descarada de dizê-lo, como o fez Fernando Marroni do PT-RS por ocasião da tentativa de 3º mandato de Lula: “Vou no posto de gasolina e um bombeiro me cobra: 'Deputado, agora vamos lá, vamos emplacar o Lula de novo!' Digo: Não pode, tem uma legislação que não permite”.
É claro que essa unidade é um requinte de totalitarismo como jamais se imaginou ser possível. Mas a mais das vezes, o que se tem visto é o esforço apenas discreto, sempre o mais eficiente, por comissões postiças, decretos despercebidos, legislações ambíguas, planos obscuros, palavras torcidas até gritarem o oposto do que querem dizer, atendendo às reivindicações dos movimentos sociais e de planos frankensteins como representações “legítimas” da vontade da sociedade civil. Pelo menos, senão na sua totalidade, aquela parcela que interessa ao “consenso radical” dos companheiros, é claro.
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Disfarçando o PT dos “radicais” que não votam mais no PT
Mal-disfarçadas distorções é só o que se tem disto que se chama “cientista político” que saíram das universidades brasileiras, com alguma visibilidade nos mass media. Nem é necessário descer ao nível de um “sociólogo”, que é um sinônimo deslavado de “marxista”.
Maria Isabel Noll, “cientista política”, diz: “O maior partido gaúcho é o anti-petismo”. É um fato observável, mas aqui travestido de estultice ou truque. Dizê-lo é deixar oculta a premissa sorrateira de que é efeito do comportamento de massa movida por baixas paixões, com o fundamento que nelas pode haver, para uma oposição, assim “intolerante”, irracionalmente --- anti-qualquer-coisa!
O “anti-” quer dizer, simplesmente, “contra algo” assim sem muitas razões para dar. Evita-se com isto dar nomes aos escândalos que assolaram o PT e que, para qualquer outro, teria significado ter sido banido da política pelo menos por alguns anos. Mas a consciência de classe (que aqui é para parecer algo superior à consciência individual) dos intelectuais “engajados” tratou de olvidar qualquer conteúdo comprometedor ao público. “O quê? Onde?...”. “Diziam que, mas...”, afasta com as mãos o pior para costurar remendos mais bem feitos que o tecido original.
Por aqueles que “mais ou menos tendem ao conflito, aí entra o [antagonismo ao] petismo”. Belo disfarce! É como se as torcidas organizadas tivessem ido à política, não é mesmo? Porque contra o PT só se tem “intransigência” e antagonismo “partidário”, ou --- agradam-se da comparação os desconversadores --- “esta nossa tradição no futebol que polariza-nos entre gremistas ou colorados, maragatos ou chimangos”. Alas, que há munição para a desonestidade técnica por aqui que não se termina.
Outra destas análises normalizadoras da realidade é dizer: “nas duas últimas eleições tentou-se evitar entrar no conflito PT/anti-PT em nome de um bem maior [!], [e] estas pessoas foram vitoriosas”. Quer dizer o guapo que se tentou “evitar” a polaridade entre um “uns e outros”, mas vejamos. Entre Brito, Tarso e Rigoto, venceu este último como azarão por insatisfação com aqueles; entre Yeda, Rigoto e Olívio, para tirar Olívio, houve votação maciça em Yeda, que entrou com Olívio e acabou o vencendo. Não se tentou “evitar a polarização”, portanto, mas o oposto, houve uma forte polarização com a formação de um polo que rejeitou fortemente o petismo de fato.
Taticamente, para recolocar o PT na disputa em condições razoáveis de conquistar mais que os 30% habituais que tem fixo no eleitorado gaúcho, Sobottka diz: “Alguns partido não notaram que esse momento passou...”. Mas para Maria Isabel Noll, Tarso ficou blindado...”, blindado do PT. Lênin e Trotsky se riam dos exasperados e dos truculentos dos quais os partidos revolucionários sempre se valeram com eficiência, para enquanto apontava os radicais, dar crédito aos “moderados”. No caso, Lênin. Papel que coube, de fato, e não nas intenções, ao PSDB nestas eleições: sparring.
Tarso tem experiência no pensamento do criador do recuo tático que foi o “capitalismo de estado” --- Vladimir Lênin (hoje, o PAC).
Sobottka continua a cantilena: “Não há mais essa polaridade... esse discurso não mobiliza mais...”. Os melhores frasistas e criadores de slogans sabem, desde Goebbels, que enunciar um desejo como fato é o primeiro passo que prepara as condições para que o segundo passo seja dado; aqui, no caso, criando a demanda imaginária nos mass media de que não há mais aquela fobia pela militância irascível e pelas “soberanias” ideológicas que tomam decisões olhando para o povo, agindo como se fosse a própria vontade do povo que este deve reconhecer de pronto. De novo, às vezes cola --- mas não cola por muito tempo.
Sobottka tem um repertório ultrajado digno do mais puro amor fingido pelas classes mais necessitadas: “Os nordestinos de São Paulo [teriam sido os] que fizeram Dilma vencer é [algo] tão tacanha, atrasado e [coisa lá] de um passado que queremos superar...”. Mas, afinal de contas, qual passado não queremos superar, “progressistas” como somos!
Quanto mais egoísta uma pessoa é, mais pungentes os seus desapontamentos [e daí, mais intensos seus ataques de ultraje]”, diz Eric Hoffer em True Believer (§38). Hoffer, com acuidade descreve brevemente esse tipo de ultrajado fingido que, “embora adotem uma fé de amor e humildade, não podem ser nem amáveis nem humildes”. “Os exageradamente egoístas, portanto, podem ser os mais persuasivos apóstolos do altruísmo”, fingindo.
Essas pessoas separam o excelente instrumento de seu egoísmo e colocam-no a serviço de alguma causa sagrada [“”]”. Em outras palavras, por haver uma discrepância entre esse egoísmo forte e algo que se equivalha e possa recebê-lo no ego, a humilhação do ego fraco se torna em “humildade”; e o egoísmo, num movimento de reviravolta, transforma-se em “altruísmo” --- que é o galardão que o ego recebe, não por algum valor intrínseco ou adquirido, mas, num jogo curioso de luzes (e um tanto abjeto), como reflexo ao defender os fracos e os necessitados, obtendo daí esse valor de incorrigível protetor dos pobres. O ultraje é assim tanto mais histriônico quanto mais frágil é a consistência do ego, quanto mais fingidos os seus valores, quanto mais pura é a bondade de quem assim a esposa, em tom “elevado”, para ser melhor que os demais.
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Consenso despótico
Sociólogos que não descrevem a sociedade, mas já partem para a engenharia da sociedade laica falam corrigindo os erros do presente em face do mundo vindouro melhor. Boa parte dessa engenharia de sociedades sub-reptícia é feita desde as palavras, com padronizações linguísticas artificias que trazem consigo linhas mestras de um logro premeditado.
Quando o repórter da Rádio Gaúcha, do grupo RBS, cometeu, por ocasião da morte do presidente polonês Lech Kaczynski, que o Solidariedade de Lech Walesa lutou contra um governo duro, um governo “de direita”, tratando-se do jugo soviético sobre aquele país, mostrou de pleno a força do vício linguístico produzido em parte pela incapacidade de discernimento histórico, de endemismo virulento por aqui, e em parte pela propaganda esquerdista, que fez os termos “direita”, “fascista” e “reacionário” denotarem violência, opressão, elitização.
Larry Anderson, em “The quietus of reason”, adverte o que na alta academia a ruminação dos filósofos “prepara o cenário de como as palavras serão usadas [estabelecendo um padrão] bem como do eventual abuso por intelectuais, educadores, políticos e, finalmente, pelo resto de nós”.
O apelo contra o “conflito”, contra a “polarização”, ao mesmo tempo que fustiga a oposição por ser oposição, convoca-a ao consenso polido do diálogo intransigente ao consenso. O acordo ao consenso deve evitar o esforço individual pelo entendimento, porque o consenso só pode ser perfeito quando fundado sobre algo que todos podem participar. A distorção da inefabilidade de Deus continua tendo o seu papel nessa metafísica dos fracos, para reunir o maior número de assim autodeclarados “homens”, na luta pelas suas liberdades. O que quer dizer, para todos aqueles cuja culpa é intolerável, quando confrontados com as consequências de seus atos. A bondade macaqueada do homem de esquerda permite aos fracos dedicarem-se às utilidades pragmáticas e até reverenciar a Deus com a sua torpeza e com o esquecimento. E se a vida não pode ser definida como Deus não pode ser conhecido, às forças progressistas laicas parece “conveniente”, pragmaticamente, definir nossa margem de ação moral pelo formalismo jurídico que nos apascente ao consenso.
Por razão do resultados da eleição, além do princípio radical da democracia das minorias mínimas, Napoleão virou o Consenso. Apela-se assim àquele unidade que homens palavrosos conclamam se valendo de termos “perfeccionistas”, sobre justiças mais justas, democracias ampliadas, ou desde os formalismos legais os purismos de justiça social cujo discurso militante, já interiorizado, tem o valor de uma consciência coletiva.
Eric Hoffer lembra que
um fato marcante é o homem de palavra militante, que 'sonda a ordem estabelecida até suas raízes para marcar sua falta de autoridade e de justiça', muitas vezes prepara o terreno não para uma sociedade de livres-pensadores, mas para uma sociedade coletiva que venera a absoluta unidade e a fé cega”.
Napoleão somos nós!, poderíamos parafrasear o despotismo de Robespierre ao Consenso pós-revolucionário dos nosso dias.
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O nome do jogo: a luta de classes sistemática
Lauro Quadros pondera que se a vitória da Dilma se devesse ao nordeste, como se poderia invalidar esse voto como parte legítima do Brasil? O voto maciço do nordeste em Dilma, e de quase metade de quase todos os demais estados, não parece vir de nenhum critério mais notável que a mera popularidade mágico-mítica de Lula --- mais até que o bolsa-família ---, e pela estabilidade que o conservadorismo maquiavélico do nosso povo o permite ficar alheio para votar em Lula a despeito de todos os escândalos, como nunca os houve em intensidade, natureza e amplidão, do mesmo modo que antes votavam nas oligarquias populistas regionais. Se hoje o voto do povo é legítimo, parece que se esquece que esse voto é do mesmo tipo que aquele a cabresto.
Para os nossos debatedores, não é esse o caso. Sobottka dirige a discussão para a luta de “classes” por “interesses” de cada um. As classes sociais pleiteiam cada ponto por interesse estratégico na construção da sua “hegemonia”.
É perigoso classificar as pessoas assim...”, mas não é perigoso o conhecido fanatismo marxista por fomentar a luta de classes sempre que a unidade das massas não feche com a vanguarda consciente do partido: “Aqueles que subiram defendem seus interesses, se a classe média ou se a elite vota não é interesse próprio, então é o que?”
Os ismos do iluminismo assediam a linguagem com uma veleidade que não se estingue nunca. As questões positivas nos casos do aborto, do inchamento da máquina pública, da liberdade de mercado ou da ingerência do poder público na economia pelo “estado empreendedor”, os apoios ideológicos da velha diabólica “ética das intenções” que vai do apoio de grupos de narcotraficantes “populares” às melhores relações com tiranetes socialistas ou islâmicos, ou com o comunismo chinês, entre uma plêiade de bizarrices iguais, nada disso sensibiliza os homens de Robespierre, para os quais o despotismo laicista é uma luta legítima contra os bastardos poderosos.
Hegemonia” quer dizer aqui que os meios de alcançá-la tornarão qualquer defesa de valores tradicionais em estratagemas de poder. Se o materialismo marxista derivou a cultura dos meios de produção, quando a maré voltou no pós-guerra a cultura passou a assumir o papel de luta desde dentro da sociedade civil como um reloaded do jogo cujo nome continua sendo “luta de classes”. Não espanta que a orientação do voto contra o aborto tenha se tornado em “estratégia da oposição”, em um lance de coisa alheia ao jogo da democracia --- e até o papa foi dito “interferir” na eleição brasileira porque defendeu os princípios perenes da Igreja Católica.
Sobottka define os termos: ou você os adota para a sua aculturação marxista, ou você será infamado por “anti-progressista” --- contrário aos progressos das “conquistas” dos “direitos” laicistas. “Retrocesso” quer dizer todos os defeitos que a sociedade mostrou ao longo dos tempos, quando contrastados com o futuro ao qual o progresso nos leva. Ao mesmo tempo, a aquisição de “direitos”, por ser inexequível, cria a “injustiça social”, isto desde que o que se conquistou no formalismo legal não vem podendo ser posto em prática como deverá ser no ponto de fuga do futuro para o qual nos dirigimos.
Então chegamos de novo à questão que move o debate. Para André Marenco, “Não foi o aborto [ou] a Erenice [que derrubou Dilma], [mas] o 'conflito distributivo' [de renda]”. Aí Lauro complementa: “Estes caras estão demais... é preciso colocar os pobres no seu lugar”. “Esse é o nome do jogo... Essa é a grande questão que aflora. … Pobre com carro, como pode?”, pensariam os que já tem.
A fala da moça de SP”, para Léo Voight, mostra “que vivemos um período cada vez mais difícil, em várias partes do mundo... Isso pode ser muito perigoso, pode dar em mais violência, nestas besteiras. Não estamos mais nos reconhecendo como gente”.
A repercussão da “fala da moça”, no Twitter, ganha proporções de xenofobia na boca de quem vê tudo como “luta de classes”. Pinçar do caldeirão das bruxas que é a internet os exemplos mais radicais, de fontes tão absurdamente insignificantes quanto o Twitter, pauta o debate público não com o “fato jornalístico” que a imprensa cultua (especialmente a imprensa gaúcha), mas, de fato, o que se vê é a criação de assuntos que seguem a regra das teorias conspiratórias: fazer a conexão das fontes mais variadas e de credibilidade as mais diferentes, para dar demanda a um assunto que jamais passaria de piada.
Estimular a luta de classes foi sempre este o objetivo. As expressões de ódio dirigidas aos que não aderem ao consenso é o efeito em negativo de um movimento perfeitamente simétrico do ódio de classe que se vale de exemplos insignificantes, que sempre os há, para poder justificar a sua própria atávica virulência aos indivíduos que reconhecem em alguns valores objetivos representarem a ordem mesma da realidade para a paz social, que existe, para os marxistas, tão somente nos slogan.
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Curral eleitoral é o dos outros
O nordeste mostrou uma diferença por estado na vitória de Dilma sempre de quase dois terços; igual só ocorreu em Roraima, onde Serra venceu por 66% a 33%, e no Acre, com vitória de Serra por 69% a 30%. Em Roraima, a aberração feita pelo governo Lula com a Rapoza Serra do Sol, com a cumplicidade romântica do STF e, especialmente, do seu poeta relator, Ayres Britto, parece ter feito toda a diferença. Mas no Acre, alguma insatisfação com o PT, a questão do aborto e, sabe lá, se as expectativas não são por algo mais parecido com a Bolívia que diferente dela.
Existem dois pontos a considerar, tomando esse mapa da Veja como base: 1º – O nordeste é, sim, a base forte do PT; 2º – no Brasil inteiro há uma parcela quase a metade nos estados onde Serra venceu que vota a meia em Lula (que é Dilma), e que não mostra rejeição ao PT.
Outras considerações: 3º – Ou o nordeste, que de pouco religioso não tem nada, não dá a mínima importância para os projetos petistas (o que não dá para crer), com a fé já se confundindo com a mera benevolência, ou 4º – simplesmente ignora na maioria o que seja o PT --- e para onde vai ---, enquanto vê seu desenvolvimento como coisa já adequada às suas expectativas, na visibilidade e na aparência de quem o faz ou mantém, como leva a pensar aquele falso conservadorismo do povo de que fala Maquiavel; que: pois se é assim que está, que assim permaneça. Mas isso é verdadeiro não só para o nordeste, mas para todo meio Brasil em cada estado onde Serra ganhou.
As questões morais, no Brasil, estão todas secundadas pelo “progresso”, um velho apelo tanto da esquerda quanto da “direita” --- o liberalismo social-democrata ---, querendo dizer aumento do poder aquisitivo ou serviço equivalente. Curiosamente, o cultivo dos valores da baixa burguesia que a esquerda tanto despreza.
Não há nenhum mapa de xenofobia, nem o mapa da xenofobia do Twitter, nem o da acusação de xenofobia de classe, que os professores universitários querem fazer parecer que há. Não há nenhum traço que seja odioso no povo humilde, nem qualquer incapacidade para discernir o bem e o mal.
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Por fim, o que se queria com a arte da polêmica
A finalidade do “jogo da democracia”:
    1. A manipulação da discussão para identificar a resistência da oposição à “xenofobia”;
    2. O ódio racial pode ser encontrado e “demonstrado” por exemplificação simples de um único caso extremo --- a técnica não é nova;
    3. O apelo à “tolerância” para evitar entrar no mérito das questões, desviando a atenção para uma condenação das formas “extremas”, que são exemplificadas, por sua vez, desde fontes insignificantes (2);
    4. A interpretação da vida política exclusivamente através dos estereótipos de linha marxista: “conflito de classes”, “xenofobia”[2], “construir hegemonia”, “conflito distributivo”, e que tais; além de agir polarizando qualquer assunto e admitindo tudo e qualquer coisa por politização --- às vezes, exatamente no momento em que se acusa outrem de polarização, partidarização, etc.;
    5. O apelo de “não conflito” é um apelo à unidade que os organizadores de movimentos de massa fazem sempre para conseguir aquela unidade indissolúvel na linha partido—governo—sociedade civil, como, por exemplo, para fazer passar muito por cima dos méritos o pleiteado no PNDH-3.
    6. A unidade do argumento entre o “ódio racial” --- viz. a “xenofobia” ---, associado ao “fanatismo religioso” que luta contra a liberação do aborto, ato contínuo, ligando a pecha ao conservadorismo;
    7. Tenta-se dizer que não há oposição, de fato, mas que se trata apenas, quaisquer que sejam os temas levantados, como o aborto, apenas um jogo oportunista de interesses (para lucro político);
Notas
1. Hamlet, ato II, cena II: “Happy in that we are not over-happy”.
2. Nos Estados Unidos a expressão muito usada a ponto de ter passado a denunciar um esquerdista nos anos 70 é “white racist” [“branco racista!”].


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