dezembro 24, 2010

Natal, só uma fábula?

9Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. 10E, acercando-se dele os discípulos, disseram-lhe: Por que lhes falas por parábolas? 11Ele, respondendo, disse-lhes: Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é dado; 12Porque àquele que tem, se dará, e terá em abundância; mas àquele que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado. 13Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não vêem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem...” --- Mateus 13.
A nossa primeira reação é de assombro, mas a segunda deveria ser um esforço para compreender.” --- Herbert Spindem.

Benjamin Wiker

Cerca de um século atrás, os materialistas-secularistas do momento escarneceram arrogantes o grande apologista cristão, G. K. Chesterton, declarando a ele que o cristianismo fora erigido sobre contos de fadas. A resposta de Chesterton, ainda mais arrogante, foi um “Sim; é isto, de fato!”

 

G.K. Chesterton
O que parece soar uma blasfêmia da parte de Chesterton é, na realidade, apenas o senso comum, porque como ele diz no seu Ortodoxia, “Um mundo de conto de fadas não é nada mais que o país ensolarado do senso comum” --- uma verdade obscurecida a nós porque hoje nossas mentes estão capturadas pelo credo materialista.
O que é o credo materialista? O materialismo moderno nega que tenhamos uma alma e nos reduz por isto meramente ao nosso corpo. Fazer assim, é assumir que todas as nossas ações são determinadas por forças físicas, e, portanto, negar que tenhamos a capacidade do livre arbítrio. Isso quer dizer ser irreal nossa experiência diária de livremente escolher esta ou aquela ação, e, fazendo assim, remove-se a possibilidade da ação moral. Isso reduz o amor e o ódio, a coragem e a covardia à química, e faz da aventura humana e da história humana padrões predeterminados fixados no início por leis naturais. E, finalmente, baseado na noção que o universo é uma grande máquina evolutiva autocontida e autodirigida, os materialistas declaram que os milagres são impossíveis e que Deus não existe.
Os contos de fadas não permitem este tipo de nonsense. Eles são feitos, de fato, do mesmo tipo de experiência que temos todos os dias, de fazer escolhas livres, e isto é o reconhecimento pelo senso comum da realidade da liberdade de escolha que refuta completamente o mito materialista.
Diferente do horror e da escuridão das estórias materialistas, os contos de fadas assumem a liberdade que nos cabe ao tomar este ou aquele caminho, para beijar ou não um sapo, destampar ou não uma garrafa com um gênio dentro, ao buscar por um castelo mágico ou desistir de perguntar por desesperança. Quer dizer, os contos de fatas assumem que a vida pode ser uma aventura, uma que na maior parte é determinada pelas nossas próprias escolhas [nos seus infortúnios ou favores e dons, ou na ausências destes, como nos comportamos, por quais outros valores compensamos nossas carências, ou quando reconhecemos que a má sorte pode ter nela uma recompensa inesperada;] determinada pelo que e como nós escolhemos, mais que predeterminados por reações químicas em nossos cérebros ou DNA.
  Livre-arbítrio.
Os contos de fadas, diferente do materialismo, permite-nos a moralidade e é o que os faz de longe os grandes recipientes da verdade.
Além do mais, estes contos inverossímeis permitem a mágica, neles maravilhas que estão para além do cálculo humano e fins ainda mais felizes que vão longe para além de todas as noções humanas de felicidade. Em qualquer tempo, em qualquer lugar, um grande poder manejado por um Ser superior pode surgir em nossa aventura e fazer tudo bem mais venturoso. Os contos de fadas, diferentes do mito materialista, permitem o miraculoso, e é justamente nisto que temos o que faz destas histórias serem mais acuradas sobre a realidade.
Como diz Chesterton em outro ponto, “Não é a terra que julga o céu, mas o céu que julga a terra”. Solzhenitsin, Dostoievsky, Servantes, Shakespeare, Robert Musil, Thomas Mann, seriam eles todos julgados pelo homem ordinário e pelas ruas? Ou, ainda pior, pelos órgão de mídia? Bem, poder-se-ia dizer ainda que a medida da justiça é um cálculo improvável, uma fé numa medida que há na matéria apenas imperfeitamente. Que sem o homem e sem sua possibilidade de escolher, a justiça é um equilíbrio cego e uma mandíbula [1].
Agora descobrimos o elo fraco no argumento do materialista, um que está enraizado em seu desejo secular para desfazer o mundo da religião. Ele tem assim construído sua visão do universo que, de modo a excluir Deus, deve destruir o homem. Ele remove Deus declarando que o universo é uma grande máquina governada não por Deus, mas pelas leis cegas da natureza. Estas leis cegas da natureza fazem de Deus desnecessário e do miraculoso impossível. É por isto que o espírito secular ama estas leis, adorando-as mesmo como se fossem deuses.
Estas mesmas leis, tão astutamente destinadas a eliminar Deus e Seu milagre, também fazem a mais característica ação humana impossível --- a liberdade de escolha ---, reduzindo os seres humanos a autômatos quimicamente determinados. Para um materialista mesquinho, minha decisão de ter algo em vez de qualquer outra coisa é tão (pouco) miraculosa quanto Jesus Cristo ressuscitando Lázaro da morte. Para o cético, nem um nem outro existem. Esta é a fraqueza em seu argumento, porque muito feitiço (como o feitiço mau nos contos de fadas) é quebrado simplesmente por um ato de escolha. Se nós podemos escolher, a despeito das alegadas cadeias das “leis da natureza”, então Deus também o pode. Ambos, o aspecto moral e o miraculoso podem ocorrer. Se nós podemos verdadeiramente agir, então assim também Deus o pode.
O que, então, preveniria Deus de surgir dentro de nossa aventura humana nalgum lugar particular, em qualquer tempo particular, tornando tudo ainda mais venturoso? O que O previne de introduzir uma maravilha completamente inesperada, algo para além de qualquer coisa previsível, e finais felizes que vão longe mais que qualquer noção humana de felicidade?
O que faz do Evangelho o maior conto de fadas jamais contado é que ele traz com ele a superação de toda maravilha anterior, dentre todas as aventuras de todas as estórias jamais imaginadas --- e estando no mais alto destas, seus milagres realmente aconteceram. Deus se fez homem; o Criador entrou em sua criação. O Grande Dramaturgo irrompeu dentro de Seu drama em um lugar e em um tempo inesperados, virando tudo de cabeça para baixo, vendo o céu que criara --- talvez aquela estrela que é um milagre que aponta um milagre --- de Seu novo lugar, em uma manjedoura.
Notas
1. Parágrafo meu, adicionado.

*
Benjamin Wiker. "Is Christmas a Fairy Story?" tothesource (December 15, 2010). Artigo original da Catholic Education Resource Center (CERC).
Reconhecimento: Tothesource é um forum para integrar o pensamento e a ação em uma matriz moral que leva em conta nossa situação contemporânea. Registraremos insights de nossos expertos culturais para as demandas específicas que nós somos confrontados acreditando que estas fontes estmularão as pessoas a grnade fé e à ação. O autor: Benjamin Wiker detém um Ph.D. Em Ética Teológica da Vanderbilt University, e tem ensinado na Universidade de Marquette, Universidade St. Mary (MN), Thomas Aquinas College (CA), e Universidade Franciscana de Steubenville.

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