outubro 21, 2010

Surdos para o silêncio

Nenhum lugar é seguro para escapar ao império do Niilismo; em todo lugar perdem-se os homens perseguindo febrilmente o “progresso” --- por que razão, eles não sabem exatamente, ou apenas por algum sentimento confuso. No mundo livre é um horror vacui que impele aos homens à atividade febril que promete o esquecimento do vazio espiritual que há em tudo que é mundano; no mundo Comunista muito é apenas ódio puro e simples contra inimigos reais e imaginários, mas sobretudo é contra Deus que sua Revolução ousou se voltar, ódio que é a fonte da inspiração de refazer o mundo em oposição a Deus. De qualquer modo, o mundo que resulta daí é um mundo frio e desumano que homens afastados de Deus modelaram [à sua própria imagem e semelhança], um mundo onde havia por tudo organização e eficiência, mas nenhum amor ou reverência.” --- Seraphin Rose. Nihilism – The Root Of The Revolution Of The Modern Age, IV: “The Nihilist program”.

(Horror vacui, 1)
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O que o silêncio tem a ver com o materialismo? Sartre disse essa frase curiosa, “O silêncio é reacionário”. Talvez ao referir-se à presença do ser que nos cerca de coisas, lá não muito preocupadas com o que pensamos delas. Então o silêncio pode ser visto como um acto lacônico de simples e inegável presença. Algumas pessoas sentem isso como se fosse uma terrível humilhação. Que algo exista indiferente a elas deu na nuança do existencialismo pós-moderno, que por vingança atomizou a vida a instantes vividos numa busca pela máxima intensidade com um mínimo de sentido. Mal puderam se conter ver nisso a grande corrida sem sentido pelo sentido da vida: nega-se o que há para criar a demanda pela sua busca a nada encontrar. Busca que não passa de fuga angustiada.
O mundo moderno tira sentido da ausência de sentido e dá isto por um supremíssimo nirvana. Para aumentar a sábia iluminação da fuga é necessário levar a ausência de sentido para tudo e onde quer que se possa. É o fundamento das liberalidades modernas e da moral impessoal do laicismo. E é desde aí que se chega, pelos expediente dos “direitos humanos”, a se invocar o direito individual sobre a vida de terceiro.
A vida do nascituro --- é o natural --- é da posse dos pais; a das crianças, por natureza e direito. Mas, se atribuir a guarda das crianças é natural, desde que estas possam ser afastadas dos pais naturais, isto diz respeito à tutela da criança e não à posse pelos pais de sua vida. Curiosamente, a noção mais liberal do aborto vê o útero em analogia a uma bolsa, dentro da qual pode-se encontrar tanto o CPF da mãe quanto um bebê. Na escala de valores de cidadania, todos sabem que estas coisas são invioláveis, assim como os nossos históricos bancários. Ninguém pode, violando direito de terceiro, interromper a vida intrauterina, do mesmo modo que não se pode surrupiar e malversar de posse do CPF alheio. O caso é que o nascituro não tem CPF, assim não pode ter, portanto, nada legitimamente seu, nem o direito perante a mãe que não seja o seu desejo de tê-lo.
Sem o CPF o nascituro não pode ter nem mesmo a sua vida como legitimamente sua; inverte-se, assim --- ouso dizê-lo --- a ordem natural das coisas: que é da natureza dos atos legais referir-se à vida e não criá-la (mesmo apenas formal e legalmente). O CPF passa assim a dar ao ser humano a sua “humanidade” inviolável.
Dentro do útero o direito à vida do nascituro é “garantido” desde que haja segurança jurídica para que assim seja. Assim, o direitos da vida do nascituro nas mãos dos pais é garantido pelo estado. O estado de direitos “invioláveis”, criado pela demanda dos “direitos humanos” (!), cria o poder administrativo conferido ao estado sobre a vida humana.
Como o nascituro não grita, é assumido para ele um tipo de sincretismo laico quanto à sua fé pessoal e indizível em si mesmo. “Existo eu?” Não, o nascituro ainda não faz essa pergunta. Como Jesus, o nascituro não deixou nada escrito de próprio punho que o provasse.
Penso, logo existo é a autojustificação que funda o laicismo na origem com René Descartes, posto o cogito como antecedente ao próprio ser. O nascituro não pensa, logo... nem pode ser polido e elegante! Assim, respeita tolerante (i.e., calado) o que quer que decidamos sobre a sua vida. Mas o silêncio é reacionário, como disse Jean-Paul Sartre. Para calar o silêncio do nascituro, esse silêncio reacionário de quem iria nascer fora das prescrições legais, o estado decide não decidir pela vida, aceitando a existência pela “existência” da personalidade jurídica. É o mundo em si de Immanuel Kant, ele cujo contorno do desconhecido é postulado por decretos legais que dá face à vida do nascituro. Não decidindo pela vida, kantianamente, admite-se que não poder saber --- o que não poderia não saber --- dá em não-ser: o nascituro torna-se uma função da personalidade jurídica, isto é, a esfera jurídica abrange a realidade da vida como um mero fenômeno de superfície na agitação da matéria inanimada.
Para esvaziar o silêncio da presença institui-se a tagarelice dos leguleios puritanos de cidadania. O número da carteira de identidade é a nossa “personalidade”, e em pouco tempo num número único, conferindo-nos uma unidade simbólica indissolúvel com o corpo social. Sociedades com unidade ideal e conduta disciplinada precisam controlar os indivíduos de algum modo. Se o nazismo quis controlar pela segregação industrial, o comunismo fez o mesmo pela massificação de uma maioria. São semelhantes, mas moveram-se para lados opostos: o nazismo segregou para criar a unidade da raça; o comunismo massificou por princípio, expurgando os dissidentes.
Há uma grande diferença entre um número tatuado no braço dos campos de concentração e o número único de um documento de identidade universal --- mas não são assim tão diferentes.

2 comentários:

Anônimo disse...

CARLOS VEREZA, DANDO EXEMPLO DE CIDADANIA E PATRIOTÍSMO,

diferente de artistas ultrapassado,mas com a "vida ganha" ao passar no guichê chapa-branca


ACORDA BRASIL



Nosso destino está sendo covardemente destruído pela malta de bandidos da mais baixa laia.

http://o-mascate.blogspot.com/

Anônimo disse...

Admirável mundo novo.