outubro 07, 2010

Lord Paul Farquaad


A mentalidade revolucionária não é só inversão do tempo: é inversão das relações lógicas de sujeito e objeto, dos nexos de causa e efeito, da relação entre criminoso e vítima, etc. [...] Elas [as inversões] são a essência do movimento revolucionário, mas essa essência pode se manifestar sob uma impressionante variedade de formas. É por isso que o movimento revolucionário não pode ser definido nem pelo conteúdo concreto dos seus objetivos declarados a cada momento, nem pelo discurso ideológico com que os legitima.
"Ser conservador é não ser jamais o portador de um futuro radiante" (2008). Bruno Garschagen entrevista Olavo de Carvalho. In: www.olavodecarvalho.org
A melhor maneira de destruir o sistema capitalista é depravar a moeda”.
Agouros do modus operandi de Vladimir Lênin.
A liberdade de grupo é o 'automatismo' ou racionalidade que é oposição ao arbítrio individualista”.
S. A. de Avellar Coutinho, explicando o conceito de liberdade para Gramsci. In: A revolução gramscista no Ocidente, I.




Um looongo comentário sobre o pedido de prova de existência de um fundamento da ortodoxia econômica e o ardil de esclarecer a denúncia de obscuridade tendo obscurum per obscurius o obscurantismo como método, para ocultar o mundo perfeito que jamais existirá e desde ele fazer a crítica do que há. A economia planificada como apelo à racionalidade que a racionalidade não dá razão. Um estudo de caso, entre tantos possíveis, que serve para casos semelhantes.
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Fred Krugman: O interpretador de pesadelos
Desmistificadores são quase sempre eles próprios místicos disfarçados. Sócrates deu pouca atenção ao problema, mas foi claro sobre isto no Fedro. O “místico” é geralmente alguém que busca ou que “encontrou” a linguagem mais verdadeira, o código dos códigos, e por essa iluminação --- geralmente pessoal --- trata de, nem sempre da forma mais clara, esclarecer o (que então é o) misticismo alheio.
O título do artigo de Paul Krugman traduzido pela Zero Hora de 4 de julho é uma destas desmistificações obscurantistas: “Mitos de austeridade”. Quero apenas fazer notar alguns pontos que não tem quase nada a ver com economia. O título já começa aludindo que no geral a austeridade é uma coisa imaginária, enquanto estímulos artificiais de tiro curto ligam-se por efeitos patentes (e imediatos) à economia real.
Quando era jovem e ingênuo achava que pessoas importantes tomavam posições baseadas na avaliação cuidadosa das opções. Agora, sei melhor. Muito do que as pessoas sérias acreditam repousa em preconceitos, não em análises. E esses preconceitos são sujeitos a manias e modismos.
[...] Nos últimos meses, eu e outras pessoas temos assistido, com deslumbramento e horror, ao emergir de um consenso nos círculos políticos a favor da imediata austeridade fiscal. De alguma maneira, tornou-se sabedoria convencional que agora é a hora de cortar os gastos, apesar de as maiores economias do mundo permanecerem profundamente em depressão.
É óbvio que o incentivo ao desenvolvimento e à recuperação não pode ser feito pelo corte de gastos, pelas tais medidas de austeridade, mas por outras medidas, e que os cortes de gastos são uma medida necessária de austeridade. Mas parece que Krugmam toma estas medidas mais próximas de algoritmos matemáticos que de princípios éticos (não por acaso) ligados de um modo “inesperado” à realidade.
Medidas de ação imediatas, para aquecer ou estimular uma economia, não são medidas de austeridade, por definição. Krugman parece que sabe disso quando diz que a austeridade não resolverá o problema, pelo contrário, do que há exemplos atuais, pode até piorar a situação imediata. As medidas para resolver os problemas atuais tais como desemprego e crédito devem ser de outra natureza, para agir não na qualidade da economia, mas na dinâmica desta. Muito menos na sua estrutura de base.
Tomar a política imediatista de estímulos por medidas de base acaba por projetar no futuro um acerto de contas sempre preterido. Para resolvê-lo, então, entram em cena os ajustes que o estado agora tem por demanda justificada. Esse caminho é o de um estado atravancado que só pode ser movido desde o capitalismo de estado, que hoje se infama pelo fracasso contemporâneo dos regimes comunistas existentes, isto é, de crescimento sem liberdade.
E a fórmula aqui é inversamente proporcional: para o capitalismo de estado dar certo, tanto menor a liberdade, maior a chance de sucesso econômico. O sonho de progresso igualitário (i.e., socialista) dá, no paroxismo do desenvolvimentismo, no pesadelo da aniquilação do indivíduo.
O prêmio Nobel é um prêmio técnico; se você sabe repartir átomos de um modo diferente, você poder ganhá-lo; mesmo que você babe sobre os sapatos enquanto os amarra pela manhã.
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Você não é tão racional quanto a economia planificada!
A sabedoria convencional não é baseada em evidências ou em análise cautelosa. Repousa no que podemos chamar, caridosamente, de absoluta especulação, e, menos caridosamente, de fábulas da imaginação da elite política – especificamente, na crença em coisas que chamo de o vigilante invisível dos títulos [the invisible bond vigilant] e a fada da confiança.
As fábulas da imaginação, a fada da confiança e a absoluta especulação parecem se referir ao que Krugman chama de “sabedoria convencional”. Ora, o termo não pode estar querendo encontrar alguma correlação com o common sense tradicional. Por que usar o termo “sabedoria” [wisdom] e uni-lo a termo “convencional” se quer dizer justamente o oposto? O que há coberto pelo termo “especulação”? --- Superstição? Irritação e mau-humor? Um dia de sol ou de chuva? Feeling? Princípios? Valores? “Preconceitos”?
O que deveria ser uma economia feita sob a “análise cautelosa”? Digamos, cálculos matemáticos, decisões racionais de prudência? A “sabedoria convencional” está oposta à análise cautelosa porque esta tomaria as decisões corretas segundo cálculos e evidências, enquanto aquela age por impulso irracional. O irracional, hoje, sendo o receio de que talvez os gastos tenham ido longe demais. Então é possível equacionar as variáveis acidentais? Ou, quem sabe, controlar pelo menos os arroubos de irracionalismo dos investidores. Quem cria o critério do risco admissível? Quem diz o que é racionalidade “correta” para o mercado? Onde está fundado esse critério de racionalidade da evidência sobre o imponderável evidente que a sabedoria convencional não pega?
Termos como “vigilante invisível dos títulos”, “fada da confiança” e “absoluta especulação” não são exatamente termos técnicos adequados para descrever a ação das pessoas na economia. Tudo lá um tanto esotérico, para um economista vencedor do Nobel. Mas o caso é que os termos que Krugman utiliza para descrever o comportamento de economistas conservadores e investidores parecem ter apenas a função de definir jocosamente os objetos de sua crítica e desde o que ficou aparente levar à conclusão que o efeito cômico sugere.
Será, realmente, que uma economia ligada apenas a algoritmos e decisões mecânicas de outro tipo de austeridade, a “austeridade” analítica e da percepção clara e distinta das evidências (matemáticas do algoritmo), são coisas mais reais que os valores de quem investe?
Economia real” é outro termo bastante austero, para dizer, no contexto que Krugman o utiliza, causar efeito imediato com medidas fogo de palha. Mas Krugman não esclarece esse ponto. E de que tipo é a austeridade imposta à Grécia e como ela se relaciona com os estímulos feitos, por exemplo, nos Estados Unidos e em outros lugares? Quando Nicolas Véron, economista do Centro Bruegel, de Bruxelas, advertiu para o risco de naufrágio das negociações do G-20, no Canadá, recentemente, disse: “É cedo para chamar de fracasso a agenda financeira do G-20... Mas há um inescapável senso de que uma harmonização financeira global é incompatível com a realidade”.
Incompatível com a realidade de estados soberanos, é claro. O termo “harmonização financeira global” tem o que a ver com a continuidade dos estímulos? Sob que condições essa harmonização seria possível? Quem sabe, sobre uma economia planificada?
Dependendo a que tipo de regulamentação que se quer chegar, uma coisa assim pode ser --- segundo a demanda aparente por estímulo --- a solução mais fácil para responder aos problemas de modo imediato e criar as condições de economia planificada para que o mercado, enfim, possa funcionar maquinalmente apenas por meios racionais de cálculo e análise.
Não raramente, para se tomar decisões nas finanças, é preciso saber previamente o que quase nunca é possível de todo. Na economia planificada, no entanto, eis o sonho de que se possa fazer com máxima racionalidade, conforme a clareza matemática invariável. Só mesmo a anulação da ação política real pode controlar a economia sem erros. As explicações mais óbvias, aqui, podem acabar servindo para outros fins, ainda não de todo claros e distintos, aos quais Krugman não se dedica.
Para respeitar algoritmos de racionalidade perfeita e evitar os vícios sem razão impostos sobre a economia real, e para expulsar os seres de contos de fadas de em meio à austeridade administrativa, nada é mais racional que uma economia planificada. Não há nenhuma dúvida, Lord Farquaad... digo, Mr. Krugman.
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O mundo malicioso dos silogismos de contos de fadas
Invocando a racionalidade e, corretamente, alguma evidência, para a tomada de decisões, pergunta ele: “Que razão temos para acreditar que é verdade...” a demanda atual por austeridade? Krugman insiste que não há demanda pela austeridade, e diz que medidas de austeridade de curto prazo não são a resposta. O ponto de vista de Krugman é oblíquo, porque toma medidas de recuperação de longo prazo como se fossem solução a curo prazo.
[Cortes de gastos...] Por quê? “Políticas que inspirem confiança irão promover e não travar a recuperação econômica”. Qual é a evidência para a crença de que a contração fiscal é na verdade expansionária, por melhorar a confiança? (Essa é a doutrina defendida por Herbert Hoover em 1932.)
Ao contrário, a evidência e a análise cautelosa, de que fala Krugman, começam pelo exemplo concreto de medidas de austeridade --- e aqui real se confunde com liberalismo econômico, já que o liberalismo só pode existir em contato com a realidade, que de outro modo vira uma síntese (em algum grau) do capitalismo de estado tão amado por managers, burocratas, grandes empresas e corporações que não querem perder nunca, etc., atores de um mundo cênico de movimentos rigidamente predeterminados.
O capitalismo de estado é um dos grandes alvos que a esquerda denuncia, mas que só existe como revisão das tentativas de coletivização feitas no século 20 no leste europeu, sempre fracassadas sob regimes tirânicos. Agora o capitalismo de estado “que deu certo” segundo L.F. Veríssimo, na China, se é condenável o é por ter se tornado capitalista e não por manter a estrutura repressiva violenta do comunismo. É indubitável que muitos seres de contos de fadas habitam a cabeça destes críticos inverossímeis.
As medidas de austeridade não são tão apenas medidas financeiras, são econômicas. A libertinagem da “austeridade” dos mais nobres fins quis que estes fossem fundamento servido por meios de cálculo. A questão não está entre estímulo e austeridade, mas entre fundamentos e medias de incentivo econômico artificiais, das quais o Brasil é a prova do oposto do que defende Krugman.
A urgência das medidas de austeridade são a reação psicológica de uma política atual racionalmente enbanjadora. Mesmo sendo “psicológica”, essa reação é reflexo de uma impressão concreta de que a alquimia na economia, para além do que os termos técnicos podem dar evidência, está ameaçando “harmonizações” postiças.
Os investidores, justamente porque são “irracionais”, não seguem às cegas o que os economistas da mais pura racionalidade dizem? Para Krugman, trata-se apenas de alarmismo contra as medidas pouco ortodoxas atuais.
No que apostam os investidores? Ou, com que dados jogam? Apostar é arriscar sobre o imprevisto, mas a especulação é geralmente ligada não ao jogo arriscado, mas a informação privilegiada. O que faz Krugman pensar que a especulação e os preconceitos sejam a mesma coisa? Os investidores parecem preferir os Estados Unidos pela estrutura real da economia, mesmo debaixo de crise, que subjaz às variações dos formulismos.
Krugman desencaminha o leitor a respeito do problema para contestá-lo: “Qual é a evidência para a crença de que a contração fiscal é na verdade expansionária”, pergunta ele. A afirmação é capciosa. Ele transforma a questão num silogismo simplório (uma falácia): se há crise, a solução é a não-crise; a não-crise é a economia aquecida; logo, aquece-se a economia. Quem disse que a contração fiscal é expancionária? Você disse! Fica assim mais fácil então dizer que não há evidência, concluindo irracionalidade.
Outra frase desmistificada por Krugman é: “Não se preocupe: cortar gastos pode machucar, mas a fada da confiança afastará toda a dor”. A confiança não virá, do contrário, com o estímulo; além do mais, passa despercebido (...) também a Krugman que os especuladores possam ser beneficiados justamente com medidas-tampão quando deveriam perder. A “confiança” que Krugman se refere perde o sentido de “boa fé” para se tornar “garantia” barata.
Resumir a austeridade por efeitos imediatos é um abuso; não para Krugman. Mas isso talvez nada tenha a ver com economia, mas antes com a agenda política liberal.
Economicamente, agendas políticas de esquerda costumam ser antitéticas a uma boa economia --- o que, de fato, jamais aconteceu ---, mas, como ocorre com L.F. Veríssimo e a “nobre ideia de comunidade”, a fraseologia liberal-esquerdista não foge muito do que sempre se tratou: utopias, princípios simplórios de bem-estar social e um impulso impetuoso por controlar tudo que possam.
E quando os meios de controle estiverem plenamente a disposição --- é do que se trata a tal racionalidade ---, a isto Krugman chama “realidade”.
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Exemplum in contrarium ao contrário: criptomundos possíveis
Diz Krugman:
Houve casos de cortes nos gastos e aumentos nos impostos seguidos de crescimento econômico. Mas, cada um desses exemplos mostra, em análise mais próxima [on closer examination], ser o caso em que os efeitos negativos da austeridade foram ofuscados por outros fatores, que provavelmente não seriam relevantes hoje. Por exemplo, a era irlandesa de austeridade com expansão nos anos 1980 dependeu de um movimento drástico de déficit para superávit comercial, uma estratégia que não pode ser seguida por todos ao mesmo tempo.
E exemplos atuais de austeridade não são encorajadores. A Irlanda foi um bom soldado nessa crise, adotando selvagens cortes nos gastos. Sua recompensa foi um mergulho do nível da Grande Depressão – e os mercados financeiros continuam a tratá-la como potencial caloteira. Outros bons soldados, como Letônia e Estônia, fizeram ainda pior. E todas as três nações tiveram, acredite ou não, piores quedas em rendimento e emprego do que a Islândia, que foi forçada pela escala de sua crise financeira a adotar políticas menos ortodoxas.
Como diz Darcy Carvalho do Santos, tudo em economia é sistêmico, nada acontece isoladamente. Muitas vezes o que parece ser de hoje é a colheita de frutos de políticas econômicas certas cultivadas desde bem antes “e que foram mantidas, com mérito”, no presente! Darcy deve estar se referindo ao Lula; mas é, no rigor, como dizer que há algum mérito moral nos muhahidin suicidas que acertaram em cheio as torres gêmeas por terem conseguido habilmente pilotar os boings até os alvos (!).
Implícito no que Krugman diz está que diferentes medidas contra a crise são boas ou ruins dependendo de circuntâncias iniciais --- isto é, da época e do lugar. As medidas de austeridade não têm, é o que se deveria concluir, efeitos benéficos necessários imediatos, mas até podem servir em alguns casos para combater a crise (o contraexemplo da Islândia). Mas a austeridade é, antes de tudo, ações de fundo, que não podem ser abandonadas de todo, nunca.
Se um movimento de déficit para superavit não pode ser feito por todos ao mesmo tempo, acha Krugman que políticas gerais de estímulo o possam? A “era irlandesa de austeridade com expansão nos anos 1980” dependeu de um movimento drástico de déficit para superávit comercial ou foi efeito possível pela austeridade? Estaria Krugman invertendo causa e efeito para seus fins?
Em seguida Krugman usa uma lupa opaca para dizer que os efeitos negativos da austeridade --- em outro casos, que ele dá como contraexemplos do que quer defender ---, foram “ofuscados” por “outros fatores”. Quem sabe fatores obscuros? Mas isto, ainda assim, também “provavelmente”, não seria o caso hoje. Os tais fatores desconhecidos poderiam explicar muito bem a irracionalidade apontada por Krugman no sistema financeiro, forças obscuras agindo por trás do cenário ainda não planificado. Assim, os supostos fatores deconhecidos teriam mascarado os danos da austeridade, que então tiveram a aparência de crescimento econômico.
Seriam estes fatores obscuros criados pelas inversões, simplificações e pelas falácias que Krugman utiliza para argumentar?
São infinitos os mundos possíveis da análise racional --- como são infinitos os demônios na cabeça de alfinites keynesianos --- quando se olha para eles por através da nuvem opacas de confusão simtomática da própria doença que cega.

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Uma acuidade de visão bem peculiar
Para apontar a presença de decisões irracionais no sistema financeiro, Krugman deve assumir que não há áreas obscuras no sistema. Se as decisões devem ter uma base de evidência e, só daí, uma racionalidade intrínseca, a clareza do que Krugman defende aparece porque ele toma o efeito direto do estímulo sobre a economia como evidência para as políticas de estímulo.
A racionalidade de Krugman é autóctone como uma função da mera vontade. Não há nada tão racional, de fato, quanto uma economia planificada, que cria, desde ela própria a racionalidade que se aplicará sobre a realidade econômica e dando por prova de sua eficiência os efeitos de um silogismo linear. Assim, paradoxalmente, o que é obscuro na economia é, ao mesmo tempo, o ponto de clareza e de certeza mais certa e mais clara de onde Krugman tira a racionalidade incontraditória da solução que defende.
Estes fatores obscuros, provavelmente, vistos “bem” de perto, onde o olho do senso comum vê imprevisibilidade ou (irracionais) valores (de ação), o liberal Krugman vê movido por aquela “luz especial...” puritana, “a qual...”, nas palavras de Richard Hooker, “permite discernir nas palavras aquilo que os outros, embora as leiam, não enxergam” [1].
E tendo visto, pode pregar ao leitor a desconfiança sobre todos os que pretendem usar uma linguagem não “racional” sobre as finanças. As medidas inortodoxas, as quais o mercado precisou adotar durante a crise, deram por efeitos de superfície na mística da Reforma do sistema financeiro com a qual alguns iluminados pretendem anular os erros no sistema.
Mas, de fato, os únicos fatos obscuros, como se vê pelos exemplos e pelas evidências de Krugman, parecem ser os sintomas liberais que danificam a capacidade cognitiva mesmo de galardoados com o Nobel.
Concluir pelo que se entende serem fatores obscuros em preconceitos, é dizer que vê a racionalidade trabalhando por trás do sistema, e mais real que a ortodoxia econômica, é arrogar-se uma acuidade de visão remota bem peculiar. É arrogar-se uma acuidade que de fato é herdeira de visionários heréticos --- não confundir com os verdadeiros místicos --- que fundaram, para além dos limites de vilas isoladas, o que pretendem que sejam os fundamentos de uma nova sociedade.
Sociedades assim, quando não limitadas por pequenos vilarejos, sonharam com mundos possíveis jamais existentes, e sempre que realizados assim feitos para fracassar redondamente todas as vezes, com não pouco sangue derramado. A evidência dessa acuidade é um ponto obscuro distante no futuro; é um futuro mais que evidente para esses dotados de uma acuidade de visão bem peculiar.
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Depravação racional da economia
Um sistema financeiro eivada de preconceitos, mas também de uma sempre desconversada ingerência estatal sobre a economia adota o estímulo como política, do qual o fundamento mais realista é o efeito imediato sobre a economia de hoje. Não surpreende ser uma linha de argumentação muito parecida com a de L.F. Veríssimo, supondo desmistificar mitologias, fala de ultra-abstrações, de irracionalidades, de contos de fadas como de anjos que bailam em cabeças de alfinetes. Sempre os mesmo loucos iluminados, sempre a mesma máxima: acuse-os do que você faz, xingue-os do que você é.
Krugman defende o que Paulo Guedes chama “a Grande Pedalada”, a idéia de que medidas de incentivo de longo prazo podem ser administradas sem problemas, mas não diz onde está a base de segurança para que isso dê certo no tempo que caberia tentá-la.
Medidas de austeridade são medidas de longo prazo, são medidas de fundo; medidas ortodoxas, são, por natureza, medidas de longo prazo. Só porque um país adota medidas de austeridade, isso não resulta na melhora da situação econômica, mas em uma mais provável piora imediata, além de em nada recuperar a fé de investidores e afastar o medo do calote, pois justamente porque as medidas de austeridade assumem condições difíceis numa época de vacas magras.
Lênin, com a lógica de ação que lhe é peculiar, entendeu que uma forma de sabotar o sistema capitalista era estimular as falhas do sistema para em seguida acusá-lo disso. Isto, se não fosse possível, simplesmente, tomá-lo.
A confiança que resulta do que Krugman defende, que é gerada e imediata é, no caso, a dos especuladores, que sabem que não irão perder no curto prazo. As medidas de austeridade são, de fato, o reconhecimento de perdas, o reconhecimento da realidade sem os recursos mágicos da sua versão Beta.
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Onde está a evidência do oceano?
Ao se adotar a austeridade sem que haja sinais de sua necessidade, segundo Krugman, “assume-se que os mercados são irracionais”. O que temos daí, então, é um chamado a que se mostre as evidências de um fundamento. Não poderia dar em outra coisa. Ao inverter o senso do real pelo senso do “racional”, o fundamento que naquele é a evidência, neste outro deve ser forjado às cinzeladas. O fundamento do racional é uma premissa oculta, é um obscuro no experimentalismo que dá num sistema financeiro sem falhas e sem apostas. E sem política.
E a premissa é oculta porque está (já) no futuro --- um futuro cuja evidência é ser mais racional que o atual; um futuro, por assim dizer, avant la lettre.
Concluir, como ele faz, de exemplos atuais que em outras circunstâncias e noutro tempo fatores obscuros agiram sobre a economia do dia, para causar efeitos positivos distintos dos de agora, é tomar a inortodoxia do estímulo por fundamento e desde o seu efeito imediato sobre a economia concluir que a austeridade é uma aberração que só dá certo em condições muito especiais.
Os efeitos, para Krugman, que o estímulo causa na economia real, do dia, são assumidos por ele como prova de que o equilíbrio da austeridade de outros momentos --- equilíbrio que é o fundamento doméstico de economia por excelência --- foi obscurecido por fatores desconhecidos.
Kugman entende que querem fazer passar por medidas necessárias a austeridade quando ela é irrelevante tecnicamente. E assim será, se tudo ocorrer como calculado desde o começo. Exceto, talvez, pelo irracionalismo que um sistema financeiro que exista unicamente sobre o cálculo deveria dispensar. Será, quem sabe, irracional quando pessoas conscientes e intencionalmente agem de modo a causar determinados efeitos a longo prazo? Ou, de outra forma, quais as premissas da racionalidade de Krugman: as de Maynard Keynes ou de Friedrich Hayek?
O nexo do argumento fala muito pouco de economia, mas parece bem certo do que quer defender com termos vagos, jogos de palavras, alusões a mitos para desmascar mitos. Começa acusando os defensores da austeridade como reacionários apaziguadores de monstros com o sangue dos pobres aldeões. Daí o sacrifício de dor imposto para acalmar o mercado não passa de um ritual perante um deus pagão, aquele mesmo cultuado pela Santa Inquisição, quem sabe.
Simplifica ou seleciona as palavras do adversário e mal-define os termos que irá refutar para facilitar o seu trabalho, é coisa que faz quem quer outra coisa que esclarecer.
Nessa história de contos de fadas, é especialmente intrigante vê-lo pedir sinais da necessidade de ortodoxia. Esperar que a economia dê sinais de necessidade de medidas ortodoxas no futuro não podem aparecer porque elas são a própria economia. Admitir efeitos locais e de momento e como dependentes de condições iniciais para mostrar que regras gerais, que são regras de fundamento econômico, não são boas --- sem distinguir o uso imediato delas para agir na crise do papel delas como fundamento econômico ---, dando como exemplo particular uma prova em contrário, é uma volta de torcer o pescoço.
Talvez ele justifique sua racionalidade pelo Nobel --- não coisa muito diferente, talvez mesmo em essência igual, à autoridade de antigos moralistas puritanos, dos quais os liberais são herdeiros.
Sob esse fog de misticismo “analítico”, para Krugman, “falamos de punir a economia real para satisfazer demandas que o mercado não tem, de fato, demandado”. Mas é que a economia não demanda austeridade do mesmo modo que o oceano não demanda ser molhado.
A desmistificação sempre tem o problema de ser usada como um tipo de racionalismo gêmeo xifópago das mistificações. Por isto, o racionalismo dos planificadores de sociedades vê os valores dessa mesma sociedade sempre como meros preconceitos.
Termina Krugman dizendo “E isto, senhoras e senhores, é o que passa por respeitável análise técnica”. Alguém disse, algum dia, para essa gente que acusar no outro o que você está fazendo é um disfarce a toda prova. Quando esse disfarce é discreto, é quando ele é, de fato, imbatível. Pode até fazer pensar que a realidade deva a nós alguma satisfação. Não posso deixar de lembrar ter dito Sartre certa vez, “O silêncio é reacionário”.
Mas, ora! O oceano é o oceano! É todo o resto que deve dar evidência e justificar-se.
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Quando racional quer dizer um tipo de obscurantismo
Algumas premissas “desmistificatórias” se prestam mais a fundamentar um tipo de ocultismo comumente encontrado na Modernidade. Tais premissas são reproduzidas com nuançada variação local e circunstancial:
  • Os preconceitos da civilização degenerada, que maculam a racionalidade administrativa;
  • A racionalidade contra os valores vazios e a (arbitrária) cultura, o pretexto de que a cultura é arbitrária, esposada pelos assassinos em massa;
  • As abstrações, querendo dizer fantasias, dos escolásticos e do sistema financeiro, o apelo ao a priori do materialismo na pele do naturalismo e do humanismo como premissas na base do racionalismo;
  • A sangria dos pobres para placar a ganâncias dos senhores escravagistas, repetido por revolucionários utopistas da propaganda da Revolução Francesa e habitual dos piores agitadores russos pré-revolucionários.
Velhos vícios de linguagem reproduzidos em outro contexto, ainda assim, mutatis mutandis, os mesmos.
As premissas da desmistificação geralmente ficam ocultas, esotericamente, sob a magia de prestidigitações retóricas. O uso destro das prestidigitações ocultistas pode mostrar não (apenas) o mais hábil ardiloso, mas (antes) o mais profundamente hipnotizado. Nenhum processo precisa ter tomado curso desde o planejamento científico de especialistas para realizá-lo em qualquer um: a repetição do estilo com que escrevem L.F. Veríssimo e Krugman é em si mesma neurotizante e hipnótica. Quer dizer, adeus consciência.
Como ocorre no contexto do movimento iluminista, de onde essa mentalidade saiu, o obscurantismo das premissas de quem invoca a racionalidade para desmistificar o comportamento humano está geralmente apelando ao óbvio --- a razão, que qualquer um reconhece de imediato como uma medida de bom senso --- para criar ad argumentum a evidência de um fundamento na forma de uma premissa mandrake.
Assume-se a razão como que se existisse como princípio absoluto, um fundamento como o chão sobre o qual se caminha. Como o fundamento nas premissas não pode ser trazido à evidência por meios racionais, de onde parte a razão, invocá-la manifesta apenas um apelo a um fundamento: a “razão”, ser “racional” --- e daí às formas negativas “críticas”: “não é racional”, “é superstição”, “fantasias”, “preconceitos”, etc.. O que, por fim, quer dizer, “Você não concordou comigo (imediatamente), como pode?”
Quem seria contra algo como a própria razão de um fundamento, antes de qualquer fundamento?! Quem seria capaz de questionar aquilo que é, nas palavras, a possibilidade mesma última de qualquer fundamento, só mesmo se acreditasse que as palavras pudessem tocar aquele mundo numinoso em si que nos ignoraria se pudesse, mas sem os quais o mundo não pode gozar de nenhum saber ser --- cogito ergo orbium est.
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A inquisição econômica sobre os mais pobres e a solução asteca
Em “The bad logic of fiscal austerity” --- avaliação esta, curiosamente, apenas retórica: quase-lógica ---, de 14 de junho de 2010, a linguagem segue o mesmo padrão Veríssimo de flashbacks psico-sociodélicos e aqueles mesmos velhos sonhos de sociedades perfeitas das comunidades heréticas, mas agora abusando da ayahuasca e querendo drogar a todos no mundo inteiro com o sonho da adminsitração global.
As premissas fantasmas aparecem assombrando do passado: a abstração do sistema financeiro como uma herança maldita dos escolásticos --- aqui, de novo, abstração quer dizer apenas “irrealidades”, outro termo ele próprio que tem sua serventia ligada àquele tipo de pronúncia mais típico da magia negra (ou, a varinha mágica das metalepses). E para variar, reproduz desapercebido --- ao que o pensamento tomará subliminarmente --- a alusão de que a Escolástica se liga à Inquisição, o que aparece nessa frase chistosa de Krugman: “Mas nós não podemos permití-lo, dizem os defensores da austeridade [ao estímulo]. Por que? Porque precisamos impor dor para apaziguar o mercado.
Mas esse flagelo moralista e inquisitorial, ao qual faz alusão Krugman, esconde a heresia que está sendo punida.
Contra a penitência da austeridade Krugman propõe um mundo melhor imediato, sacrificando, no seu lugar, um carneiro-estímulo. O único problema é que o sangue que corre nas veias desse carneiro é, disfarçadamente, sangue aldeão.
Em vez do flagelo penitente, Krugman sugere um ritual de sacrifício que é menos um ato de espiação de pecados confessados que o culto pagão que se passa no topo de alguma pirâmide com muito sangue popular rolando escada abaixo. É o culto de um deus que promete bonança assim que lhe for ofertado. Mas Krugam inverte as coisas. Assim, promete ele, o sol ressurgirá de em meio a uma eclipse, o obscurantismo será desanuviado com o supersticioso sacrifício [2] num ritual histérico, para acalmar os populares. Com o monstro da crise de um sistema falido, de uma civilização depravada, para que o monstro não devore o sol para sempre, o sacrifício de algum sangue (no lugar da penitência dos conservadores) e se trará de volta o sol tão rápido quanto em qualquer eclise, com boa colheita a todos e para a economia real.
Para o terrível monstro da eclipse, o imperador asteca oferece sacrifícios rituais --- i.e., “abstratos” --- de muito sangue acumulado em jarros, muitos jarros, modernamente sugados mensalmente aos aldeões [3].
Mas tem também os preconceitos “do” sistema financeiro: Muito do que as pessoas sérias acreditam repousa em preconceitos, não em análise. E esses preconceitos são sujeitos a manias e modismos”, que é o que já se disse da alta cultura, da civilização, da liberdade e dos valores que, já agora como tantas vezes antes, são estes fantasmas que não são apenas o planejamento racional da economia, da sociedade e de todo e cada aspecto da vida mesma.
Além do mais, a frase “preconceitos sujeitos a manias e modismos” deixa implicado o contrário: que podem haver preconceitos que são simplesmente critérios de decisão. Krugman capitaliza juros sobre juros, manias sobre preconceitos. Também decorre daí, por acaso, que uma economia “racional” é uma economia planificada? Antes, é outra a conclusão: sim, a racionalidade também pode ser irracional.
Krugman poderia ter evitado simplismos assim, bem típico do liberal-esquerdismo, lendo Max Weber. É claro, o “espírito” do capitalismo pode ter-lhe parecido só mais uma fantasmagoria preconceituosa. Já o mesmo não poderia dizer da nota sobre Brentano e o conceito de “racionalismo” discutido por Weber (cf. I, cap. 2).
A “irracionalidade” dos valores e da moral estava na origem em Adam Smith, na Teoria do sentimento moral (1759), e em Thomas Davidson, o filósofo escocês-americano, fundador da “Irmandade da Nova Vida” --- numa época em que os heréticos eram bem mais parecidos com Chesterton ---, que deu, depois de Davidson ter-se afastado, na lenta revolução reformista (in progress) da Fabian Society. É, assim, justamente essa “irracionalidade” que deu forja ao sistema fincanceiro que Krugman e liberais-esquerdistas abominan, mas já fazendo uso dele para aumentá-lo (talvez bobos desapercebidos (!)) até que não reste senão controlá-lo sem preconceitos.
A fórmula de Krugman, assim, deveria ser invertida: o estímulo é um ritual pagão que promete ao povo pobre a bonança se o sacrifício for aceito, se ele for grande o suficiente, o Imperador Asteca promete-o, aproveitando-se de dias ruins, de dias de eclipse solar --- como se teve de outras crises apelativas.
Os pobres pagãos são os súditos do sacerdote do Império Asteca que aparece sempre na literatura especializada descrito mais como um algum grau de comunismo do que como um mundo de bem-estar e farta colheira para a economia real.
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Aceitando as sugestões de Paul Krugman
Termos como “fada da confiança” são usados não para descrever ou representar um problema real ao qual se quer dar uma resposta, mas para estigmatizar e rotular e cujo conteúdo não pode ser contestado, já que ele se dá no nível do estereótipo. O exemplo é o mesmo usado durante a Reforma para blasfemar contra os escolásticos, como fez L.F. Veríssimo recentemente, já sem poder desculpar-se por não saber do chiste, que então, no caso dele, virou em trucagem com fins não dessemelhantes.
Num artigo recente, L.F. Veríssimo se mostrava surpreso com as opiniões de Krugman serem publicadas nos principais jornais “conservadores” (!). É a festa do pluralismo, onde até o nonsense psiquiátrico é aceito como prova radical de tolerância daqueles que defendem os melhores fins.
É notável que quem tem, de fato, uma autoridade indiscutível possa simplesmente dizer qualquer coisa que, ainda que seja mera panfletagem, passe por análise rigorosa --- isto ao mesmo tempo que adverte das falsas análises dos que pregam a ortodoxia.
Valem para Krugman as próprias advertências: “Então, gente: cuidem-se quando ouvirem...” que alguém desmistifica sob o pretexto de estar sendo super-racional.
Então, a próxima vez em que ouvir pessoas aparentemente sérias explicando a necessidade de austeridade fiscal, tente analisar os argumentos. Quase certamente, descobrirá que o que soa como realismo cabeça-dura, na verdade repousa em fundações fantasiosas, na crença de que vigilantes invisíveis nos punirão se formos maus e de que a fada da confiança nos recompensará se formos bons. E as políticas do mundo real – que destruirão a vida de milhões de famílias trabalhadoras – estão sendo construídas nessas bases.
O ar final, de estar desmistificando aquele que falam “pessoas aparentemente sérias” poderia ser mostrado a ele como num espelho depois que uma lista de jornalistas liberais nos Estados Unidos, que ficou conhecida como “JournoList”, foi descoberta. Os membros do grupo, Krugman incluído, que atuava desde antes das eleições de 2008, se revelou um conchavo que orientava os jornalistas a manipular as notícias dizendo quais deveriam ser omitidas e quais os alvos, como Sarah Palin, tornando-se em ativismo de esquerda e sabotando a profissão.
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Paul Krugman's profile
O contraste, no entanto, do que diz quando exposto ele próprio às suas próprias palavras, traz à tona tergiversações, rodeios, evasivas e indignação fingida. O jornalista Fred Douglas, em “Paul Krugman Gives Up”, descreveu recentemente o recuo de Krugman enquanto era contestado em comentários às suas postagens no highest mast blog do New York Time:
Krugman é um acadêmico. Ele jamais comandou uma empresa. Ele jamais criou um emprego. O contato mais próximo que ele evidentemente teve com os “negócios” foi como consultor da Enron, onde (em suas próprias palavras) recebeu 50.000,00 dólares para ajudar a construir a “imagem” da Enron.
--- O que realmente deve dar bem mais dinheiro.
Agora o método desde as palavras:
Isto, talvez, explique os doze ou tantos pontos sempre de novo repetidos por Krugman. Aqui, alguns deles: os estímulos de Obama são muito pequenos; a dívida é boa; a austeridade é má; a deflação é iminente. (Outros economistas de Harvard, não entendem de economia tão bem quanto ele.) Aqueles que não concordam com ele são “delirantes”. E, talvez a preferida por Krugman: “Eu estava certo, claro”.
Outros exemplos da retórica de Krugman:
Por exemplo, Robert Barro, um distinto economista de Harvard, observou que Krugman “diz apenas o que quer que seja conveniente para seu argumento político. “Ele não se comporta como um economista” ['regozijo-me tê-lo já observado', parafraseando Napoleão]. O ombudsman do New York Times, Daniel Okrent, observou que Paul Krugman tem “o hábito desregrado de moldar, cortar e selecionar números numa moda que agrada a seus leitores, porém deixa-o aberto a substanciais assaltos críticos”. James Taranto, do Wall Street Journal, depois de listar as falsidades na última peça de Krugman sobre o clima, recentemente, advertiu que talvez “Krugman se faça ridículo meramente para tornar seu trabalho mais fácil”.
--- Mentiras com padrão requerem certo esforço; caso não, são paralogismos estruturais de uma mente em disfunção.
Paul Krugman tem despendido sua carreira como um janota que advoga que os burocratas do governo e o processo político podem substituir o mercado. Ele sabe que existe uma vasta literatura que diz que isso é uma má idéia. Que esta literatura é claramente relevante para a proposta política de Krugman. E ainda assim Krugman não a leu ... e admite que não a leu, sem embaraço.
--- O mesmo vale para L.F. Veríssimo, e seu tipo de “intelectual”. Algo que os conservadores observam ser uma característica dos liberais nos Estados Unidos, que não precisa saber nada, nada ler a respeito, ou quem sabe como alguns professores de história que citam livros pinçados dentre os piores, para defender com pura propaganda as idéias progressistas mais radicais.
Em 23 de julho último, Krugman mostrou que claramente não estava mais “amando” os comentários de seus leitores. Agora ele os chamava “fanfarrões” e “trolls” [v.g., nanicos engraçadinhos]. No dia 28 mudou o controle de seus comentários. Reclamando que “os fanfarrões… só repetem sempre as mesmas coisas”, anunciou que iria descartar comentários que contivessem mais do que “sete centímetros”. Deve ter pensado algo como: sete centímetros são suficientes para escrever “Krugman, você é brilhante”, mas não suficiente para apresentar a refutação documentada e persuasiva do que quer que Krugman estivesse, através de seu método padrão, querendo fazer passar naquele dia.
Ou, estas nulidades laudatórias que sempre há:
[De um leitor:] “Paul, você um enviado de Deus a todos que apreciam um intelecto superior com senso comum! Obrigado por exercer seu brilhantismo” [...menos de duas linhas].
Parar a discussão in limine antes dos méritos é o supremo esforço da tagarelice da mídia atual, toda:
E depois de sua viagem de retorno a Princeton, Krugman puxou o plugue. Ele, por duas vezes ralhou com os “chorões”, reclamando que este blog, sob a visibilidade do New York Times, foi “um risco sem preço”. Ele reclamou ser sobrecarregado pela necessidade de ver se o comentário tinha “obscenidades”. E disse que não tinha “nenhuma obrigação de fornecer” espaço a “fanfarrões” e “chorões” que poderiam contestar a ideologia que ele habitualmente vende.
E assim seis meses depois o episódio do debate sobre o esclarecimento econômico chegou a um fim. Irá Krugman responder a comentários em outros blogs? Não sabemos, mas habitualmente no passado, ele simplesmente evitou fazê-lo. Ele é claramente incapaz de fazê-lo, e cercado agora de sicofantas e de acólitos que lhe dizem quão brilhante ele é, por que ele se incomodaria em fazer?
Agora você sabe!...”, então, depois de mim, as coisas estão mais claras sobre coisas tão pouco óbvias. É como se faz um chamado para aderir irrefletidamente, para concluir com o autor o que não está, de modo nenhum, no pé que ele quis que estivesse.
Quando alguém o pedir para analisar os argumentos mais no detalhe, supondo desmistificar o preconceito, a fantasia, ou termos vagos e desconexos do conteúdo do argumento central, veja primeiro se o que está sendo desmistificando não parte de termos mal-definidos para melhor combater, com armas adulteradas ou, substituindo um hábil adversário por ineptos e pusilânimes. E terminando por concluir o que promete desmistificar, confiando no efeito de que a mente dispersa seguirá a conclusão pela simples distância existente entre a primeira e a última linha de um artigo.
É preciso pouca atenção para perceber que o perfil de Krugman coincide com aquele tipo de homem descrito por Richard Hooker, referindo-se ao movimento puritano, para os quais o ultraje contra onde quer que o mal no mundo pudesse ser apontado e a benevolência histriônicas arrogavam-lhe uma posição superior entre os demais mortais. Superioridade herdada pelos socialistas desde então, os liberais americanos e iluminados superficiais de alma obscura como L.F. Veríssimo.
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O paralelo Veríssimo-Krugman-Farquaad
Há nas palavras de Fred Douglas, o signo do sonho do prussiano Farquaad: a “utópica ditadura da burocracia”. Um mundo perfeito, enfim. Depois, só, é que ele dá errado.
As interpretações psicanalíticas desmistificatórias de “Freud” Krugman --- aquilo que Sócrates diz no Fedro ser coisa de gente muito “douta” e que é o mesmo para os doutores da lei dos Evangelhos --- acabam sonhando um sonho de sociedade roteirizado dirigido por Freddy Krueger.
O mundo de Krugman começa com uma atmosfera nevoenta, olhando para o futuro incerto. Nada tão simples quanto ao ver com imprecisão, sonhar o sonho de linhas improváveis de um mundo na planta baixa. O fog desanuvia-se quando é projetado do papel ao horizonte que não dá para saber através do mais remoto breu. Lá, no futuro, onde tudo estará sob uma medida certa de cálculo, não haverá erro, nem neblina que agora possa nublá-lo. Como sempre, o mundo mais racional de Krugman apresenta para a crise da ortodoxia, “a solução”.
Os interpretadores de mundos perfeitos futuros são como a peste, virulentos e mortais. Mas diferentemente da peste, o vetor não morre; pelo contrário, ele se dá muito bem, fica gordo e rico, e vive às custas do delírio social antes do rigor mortis de toda a sociedade. Como o cancro em simbiose com o fungo, o controle burocrático assume etapas sobre toda a vida social, estabelece processos para cada movimento, engessa, rigifica, seca e mata. A rigidez cadavérica da sociedade planificada permite por pouco tempo o máximo bem, coisa tão banal quanto uma história de conto de fadas ensina: matar a galinha dos ovos de ouro para pegar todos os ovos de uma vez só.
Os vetores dessa peste ficam loucos de delírio, mas não deixam de ser capazes das tarefas rotineiras do dia-a-dia. Assim, L.F. Veríssimo, Paul Krugman e tantos outros, podem continuar dando suas opiniões com ar visionário enquanto a sociedade queima da febre da solução final.
É possível ver continuidade na forma mentis de Veríssimo e Krugman, por conseguinte, nos apelos de um e outro, nas figuras de linguagem --- estes seres de contos de fadas que ajudam a levantar os tijolos de um novo mundo possível ---, não por coincidência, ambos liberals.
Há um paralelo entre liberais de todo o mundo, materialistas mundanos, relativistas céticos, hedonistas, em busca de paz, não-dor, de ansiolíticos e hipnóticos, e, por fim, na morte durante o sono.
As abjetas “abstrações” em Veíssimo aparecem em Krugman como “absolutas especulações”, e as “irrealidades”como fantasias irracionalistas. Ambos, no entanto, deixam implícito irracionalismos seus, como a “idéia de comunidade”, de Veríssimo, e a política dos “estímulos”, que por seus efeitos diretos e breves querem ser fundamento; ambas reivindicam para si tocarem a realidade mais real, a realidade da “comunidade” e a realidade da economia planificada de Duloc.
Paul Krugman lembra a Lord Farquaad (até na aparência); a nobre ideia da comunidade de Veríssimo à asseada Duloc, com a pureza de sua economia planificada. São os dois como a mulher barbada --- inverossímeis em tudo, um materialista ungido pela “nobre ideia de comunidade”.
[São estes] seres de contos de fadas que estragam o meu mundo perfeito”, ultraja-se Lord Farquaad (Shrek I).
Odeiam, os mais limpos que todos, as superstições que levam os homens a agir, “irracionalmente” --- quando nenhuma razão de cálculo existe. O que quer dizer, não seguem as prescrições de uma economia planificada. A lei de Duloc! No liberalismo conservador esse campo da ação humana é trocado pela “mão invisível do mercado”. Um outro tipo de abstração, na linguagem, que desgraçadamente se quer materializar no real com a regulação por meios racionais de cálculo rigoroso, fazendo da própria ação humana do mercado uma abstração formal. Advém o ultraje e o sonho da prussiana Duloc.
O reino de Duloc é uma nobre ideia de comunidade, uma vez também sonhada pelos russos, onde na organização da burocracia total estarão ausentes as aberrações dos contos de fadas, os “irracionalismos” desmistificados por Paul Krugman desde a planta baixa de cálculo de uma matemática inexistente. Também onde estarão ausentes a Liberdade, a Justiça e a Felicidade verdadeiras. E quando sobrarão portas da lei, e doutores das leis nas salas que elas guardam, e guardas como colunas romanas landeando-as.
Notas
1. Richar Hooker, apud Voegelin: A nova ciência da política, V, 2.
2. “O núcleo da economia keynesiana é este: atribuir uma produtividade econômica autônoma à agência [do Governo] em posse da arma”. Gary North, “Quatro imagens contra o keynesianismo” (04 de agosto de 2010).
3. “G [o Governo] não cria nada. G confisca. G não pode gastar nada que não tenha antes extraído à força dos consumidores ou investidores”. Gary North, op. cit..

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