outubro 11, 2010

Chã assacação


"Os insultos de Madureira" Zero Hora, 8 de Outubro de 201; p. 2.
Boa parte da desconversa tática nesse período eleitoral foge do mérito denunciando o “nível” do debate político[1]. Formas mais discretas do mesmo apelam para a “polêmica” com bem distribuídas razão e verdade que cabem igualmente --- por uma questão radical de “justiça” --- aos dois lados em cizânia. Aceita a equivalência, as coisas podem passar tangenciando superficialmente sem nunca ir muito além das meras palavras, ao desmentido que começa com fases de um tom crítico, passando a igualar coisas desiguais e arrematar apontando algum “preconceito”.
Da linhagem dos colunistas diabólicos, um ramo dos Illuminati, David Coimbra é frequente de desmistificações obscurantistas (por eufemismo) não dessemelhante do mestre dos mestres na área, L.F. Veríssimo. No mesmo tom laudatório discreto de Veríssimo, ignorando sempre qualquer discussão de mérito, diferente apenas no fingimento de crítica que Veríssimo não se permite, David escreve “Os insultos do Madureira”.
Reagindo ao Casseta & Planeta Marcelo Madureira ter dito sem a polidez civilizada e ignorando os códigos de ética mais brandos da mídia, que Lula fora atraído para a política como um vagabundo e picareta, que é --- na verdade, pouco mais baixo que isso ---, David evade-se e leva consigo o assunto para qualquer coisa mais plana: o mero palavreado.
Ora, Lula ter prejudicado gerações para o debate político não poderia vir da corrupção apenas. Não se estraga uma geração apenas com a corrupção, que cessa tão rápido quando as oportunidades têm, por natureza, de seu exíguo tempo próprio. Exceção aos escaninhos burocráticos, que historicamente na medida direta que crescem produzem ineficiência e com ela os interstícios por onde os grilos infestam.
Nada comparado à sua política da desconversação hipnótica, com a qual Lula “soube” fazer chegar sua popularidade a próximo de 80%. Sem dúvida, reforçado seu poder com a exposição da presidência, chegamos ao apatetante abuso do fingimento de respeitabilidade, da oratória diversificatória e da pieguice histriônica do homem sem valor. A oratória hipnótica --- loucura, porém não sem método --- de Lula é que responde por esta devastação apontada por Madureira, pela qual o debate político brasileiro chegou ao delírio virulento.
A desconversa, e jamais os méritos, precisa vir então para arrumar as coisas a termos mais “polidos”. Este texto, de David Coimbra, não é um dos piores, mas é um dos mais bobos. Dizer “Lula desperta paixões” é só para desconversar para longe os méritos. Foi sistemático por parte da imprensa --- e eu só acredito em inépcia, não em má fé (apesar de incrível) --- jamais tocar nos méritos de qualquer assunto.
O “Lula não é um radical...” de nenhum lado, acompanha a frase tíbia dita na entrevista na RBS com os candidatos no primeiro turno: “Olha, gente; independentemente de quem ganhar, estamos diante de duas grandes pessoas [cheias de boas intenções], ambos extremamente capazes...” --- David diz isso com uma radical benevolência com cara de música de elevador. Mas o caso é que o Foro de São Paulo o desmente, se David não desconhecesse tudo isto. Desconhece? O blog de David está cheio de leitores horrorizados com ele sobre o que ele omite e sobre o viés amnésico de suas análises. David, como “Fred” Krugman e L.F. Veríssimo, comporta-se, no mesmo diapasão, ignorando as críticas. Mas a grande exposição que vem com os blogs das maiores empresas de comunicação é inversamente proporcional à atenção dedicada a esta grande audiência. É o efeito do estulto vaidoso (quando é só isto) com o autofalante na mão num lugar inacessível.
David segue o mesmo modo de produção de consenso de L.F. Veríssimo, ignorando tudo que não seja as meras palavras laudatórias a Lula e à sua origem, a despeito da política real, além de alguns truques bobos. O recurso à crítica é apenas o recuo diversificatório de fingimento de análise, também muito usado por Krugman e Veríssimo.
Depois desse “Lula desperta paixões” compara o decápodo a Itamar e a FHC, “isentando-se”[2] de notar as ligações com o mensalão, inigualáveis mesmo a Collor, ou que seus assessores diretos foram pegos nos computadores das FARC, procedendo para isso conforme a sessão de desmentidos radicais de tudo segundo a fórmula manda apurar, diz que não é bem assim e, por fim, nega veementemente que possa ter havido qualquer coisa semelhante da forma mais abjeta. Um dos traços mais fortes em Lula de que o que diz Madureira é exato. O que faz com que qualquer comparação com Itamar ou FHC seja apenas para manter uma proximidade equivalente e fazer de seus méritos difusos, mencionados alhures, e emanados de sua mãe analfabeta e da própria demanda criada por essa comparação.
David diz que Lula perdeu a oportunidade das reformas, na educação, no serviço público, a reforma política, a reforma do sistema tributária, etc. --- ora, não perdeu nada disso. Perderia tivesse a meta de fazê-las. Simplesmente as reformas que o PT pensa para o país são o oposto completo do que essa necessidade quer dizer para a maioria de especialistas que as reivindicam. E isto é evidente desde os planos e programas pelos quais o PT propôs a fina flor de suas metas. Assumir que o PT esposará o que quer que seja no sentido consagrado das palavras é a melhor proteção para um partido revolucionário que jamais abandonou a linha de ação para lá de maquiavélica de Lênin atualizado por Antônio Gramsci.
O rudimento de fingimento crítico é uma moldura para “o cara”. Levando em conta que “bolsas” tantas não são exatamente um mérito pessoal do homem, nem exatamente uma benesse do partido, talvez se tenha que aumentar o poder da lupa, bem como o seu efeito ótico para encontrar os méritos do presidente 80% de aprovação no país de 75% de analfabetos funcionais (por baixo). Nada fez, mas se o iguala por méritos (?), que convém aceitá-los para não ser arrolado entre aqueles que, possuídos por paixões, ousam não ver valor onde valor não há. Ou, maliciosos, ignoram seus great looks, por certo --- pelo que mais ver méritos?
Lula “poderia” é o mantra crítico (fingido) que David inflige impiedoso a Lula, para não deixar por menos as suas falhas, pois que não há quem não as cometa, e sendo Lula como todos --- vejam só ---, imperfeito, é de bom tom apontá-las, e seus motivos; para não “se arriscar” (?), diz David, e, quem sabe, a perder aquilo que não perdeu quando qualquer risco já se havia dissolvido numa violenta maresia de escândalos, sem, no entanto, que o homem fosse jamais exigido pelas responsabilidades do cargo. David deixou de fora todo o assédio à constituição do PNDH-3, bem como uma orientação política que mostrou a máxima proximidade com os piores fantasmas do século XX antes da guerra e dos fornos.
Só que o fato de ele ter perdido essa oportunidade não é o suficiente para despertar as paixões violentas que desperta” --- correto, David! Omita-se o pior e todo o demais não justifica o que já sejam apenas meias verdades.
Lula tem aquela “autenticidade que bordeja a vulgaridade” (!). De novo, outra vez, estas coisas que há quem não se canse de reproduzir: “Se eu errei, infelizmente eu sou assim, eu sou espontâneo”, disse certa vez um participante do Big Brother ao ser confrontado com uma pequena canalhice que fez passar por franqueza. Qual o limite formal entre uma coisa e outra, entre a vulgaridade e a autenticidade? Talvez a falta de caráter seja a resposta. Explicaria muita coisa sobre Lula.
David deve tirar essa comparação esperando encontrar entre a autenticidade e a vulgaridade alguma margem comum, talvez a estupidez que adere a coisas sem valor e tira daí per absurdum algum valor. Os loucos e os idiotas são como as crianças, os canalhas e os libertinos têm aquela indolência fascinante e sedutora, enquanto os criminosos e os tarados são forças livres indomáveis de purgação da sociedade, que é o que se tem da cultura vaidosa que o século 20 produziu, consagrado por palvras-sucesso para ser adotado pelos mais frágeis, por suicidas, medíocres, depressivos, angustiados, as vidas dos quais ganharam sentido numa cultura que celebra, quando não a inversão do bem e do mal, pelo menos os rituais de nonsense.
Como para brasileiro o fundo do poço é qualquer coisa --- lower than the grave --- um pouco aquém do fundo, David volta a cair na patacoada reicidente. O poder precisa de “parâmetros”, então inventou-se a “nobreza”, aquilo que alguns tem como elemento cultural arbitrário para demandar o poder. Explica a “nobreza” desde o sentido vulgar da burguesia ociosa e fútil. O povo, por alguma convenção boboca, passa a acreditar, por necessidade de acreditar, num símbolo esquecido de hierarquia social oficialesco.
Segundo a visão de David, a hierarquia social é um resíduo cultural do exercício arbitrário do poder. O mesmo já foi esposado pelo socialismo sempre que este alcançou alguma oportunidade de sair da planta bem baixa para a realidade, quando então sempre se transformou em outra coisa. Não por acaso, seus maiores méritos existirem tão somente nos “pensamentos elevados” dos espíritos mais simplórios. Com Veríssimo, David vê com visão clara e distinta que a esquerda tem os valores superiores aos da “direita” (i.e., qualquer oposição), por coisas como uma “ideia [mais] generosa de mundo” ou por aquela “nobre ideia de comunidade” que Veríssimo vê a coisa mais supinamente superior (!), nas intenções. Mesmo que nunca dê certo, esclarece David: Podem não funcionar, podem ser inexequíveis, mas são pensamentos elevados...”. E está justificado tentá-la ad aliis nauseam.
O mapa de Duloc é a forma mentis também de David Coimbra, de onde a hierarquia social emana desde a planta baixa do socialismo para um mundo melhor inexequível, uma idea cuja “nobreza” mais real (que o rei) substitui a representação antiga por um melhor elevado às nuvens e projetada no futuro, sempre um passo além de qualquer tempo.
Para alguns”, é o que diz David, irrita ver um homem sem valor no poder, mas a quem não irritaria? Um homem alto branco loiro não despertaria a mesma indignação pela picaretagem? Mas o que a história mostra é que o homem branco jovem alto foi punido por escambo de bijuterias no jogo político, enquanto Lula é protegido do mais grave pela sua origem necessitada (...que persiste). Em Lula a necessidade tornou-se mérito, deu valor ao homem sem valor, e esse valor foi reconhecido e se tornou um salvo-conduto para todos os testes, da falta de caráter à torpeza, da puerilidade simplória à autopiedade, da corrupção às mais medonhas relações que a oportunidade pôde lhe oferecer.
Por que David Coimbra imagina que a presença de Zeca Tatú substituindo Ruy Barbosa não deveria produzir repulsa, só o explica uma repulsa ainda maior nascida do ultraje fingido pela “discriminação” [3] abjeta para com o pobre retirante e sua pureza ingênua e “espontânea”, daquela classe de qualidades invertidas que se torna, pela torpeza --- e depois de passada por uma bizarra alquimia ---, em algum valor. Não, para qualquer um é insuportável ver o poder nas mãos de um inepto, que justamente o poder sem parâmetros criou para justificar líderes como Lula.


Notas
1. “Chã assacação” é uma forma mais rebuscada de dizer “baixarias”, “factóides”, “expedientes sem provas”, com os quais se quer fazer desmentir as evidências de todas as ilegalidades do PT desde a negação tática ao modo da loucura com método de Lula: ordena a apuração de tudo, passa a dizer que não é bem assim, mas que todos devem pagar pelo que fazem, e termina negando de todo que tenha havido qualquer coisa como se denuncia. A última fase é acusar os opositores de campanhas de difamação. Um extra se tem pela tentativa de Frankling Martins, Ministro da Verdade do governo Lula-Dilma, desde o PNDH-3, para complicar a liberdade de imprensa a níveis “aceitáveis” de liberdade.
2. A “isenção” é um dos valores mais caros ao jornalismo atual, que julga pela palavra ter que relativizar o bem e o mal por este expediente, para manter-se num ponto privilegiado à crítica: o seu próprio, qualquer que seja.
3. “Discriminação” se refere ao “preconceito”, que nesse jargão de “ideias nobres” pretende desfazer qualquer distinção entre a realidade e as imagens que vemos nas nuvens.


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