agosto 14, 2010

Jornalismo positivista


Tanto a imprensa polida vem pedindo para que todos se detenham nas propostas dos candidatos --- a tal cobertura “propositiva” ---, que mal param para ler eles próprios os tais planos de intenções. Já isto seria coisa notável; esperar, no entanto que eles tirem desses planos alguma consequência ou comparar as linhas diretrizes destes planos com as ações recentes dos candidatos, que os subscrevem, seria para a imprensa polida de um absurdo indelicado ultrajante.
Algum tempo atrás, bem antes de Dilma desmentir o plano que assinou, a curiosidade levou-me a ler os resumos das propostas da candidata do Partido dos Trabalhadores. Uma passada de olhos rápida sobre o elenco de platitudes ocas daria subsídios ao jornalista para algumas perguntas interessantes.
Mas que nada! O dedão do neto de Dilma extasiou o jornalista que produziu mais saliva do que lhe cabe na boca quando ganha um sorriso de simpatia do candidato. Infelizmente, constranger os candidatos apontando incoerências (i.e., digo uma coisa mas venho fazendo outra) e com a verdade é de uma falta de delicadeza inaceitável, inaceitável!
*
DO PROGRAMA DE DILMA
Transparência e Reforma
    • Manter a transparência dos gastos públicos”, mas de fato a transparência foi para as cucúias com o andamento das obras suspeitas de irregularidades do PAC. Sem falar no mais novo assédio ao Tribunal de Contas, que quer reduzir seus poderes para “desobstruir” obras importantes e reformas (petição de princípio) fundamentais.
    • Aperfeiçoar seus mecanismos de controle”, mas Lula disse não raras vezes que o Judiciário atravancava as ações do governo, assim como o PNDH-3 faz uma tentativa de tornar o Executivo mais forte (como explicou Ives Gandra Martins), desequilibrando intencionalmente (pelas reformas) a equivalência dos poderes.Ideias e práticas semelhantes surgem a todo momento, num movimento claro de surrupiar a soberania do regime democrático por uma coisa que tem lá alguma semelhança com este, mas no fundamental é outro. 
    • Combater a corrupção”, mas os mensaleiros estão sendo reintegrados, o processo de Celso Daniel está enterrado, a investigação sobre o suposto dinheiro que as FARC teriam tentado dar ao PT nunca andou, a CPI do MST foi bloqueada, e por aí vai sem fim. Punidos, só os que abriram opinião contra o aborto, segundo (porém contra) o Código de Ética do partido. 
    • Concretizar, junto com o Congresso, as reformas institucionais (que não puderam ser completadas ou foram apenas parcialmente implantadas)”, nem tentadas de fato, em 8 anos, porque se tratam das reformas pretendidas por meio do PNDH-3. 
    • A reforma política [e institucional]”, que me lembre, discretamente proposta e ao que se voltou a carga depois, a extinção do Senado; o que simplificaria os caminhos para o poder hegemônico do Executivo. Lula o disse, também no caso. Ou, como disse Fernando Marroni (PT) certa vez, na ocasião da proposta de um terceiro mandato para Lula:Essa é a soberania popular, é o sentido da democracia [sic.]. Todo o poder emana do povo e nãodo Congresso Nacional e da lei. Frases como esta são assumidas pela imprensa como deslizes semânticos, bobagens fingidas, típicas dos políticos. Não veem que tais coisas repetidas ad nauseam mostram não erros, mas procedimentos sistemáticos que nunca podem ser ditos abertamente. É claro, excluídos o estúpido e o bufão --- ambos, atributos lamentados dos políticos, portanto, considerados normais ---, que não serão levados a sério, nem quando realizam completamente a assumida bazófia: Hugo Chávez. Paulo Brossard e Ives Gandra Martins voltam sempre ao tema, dizendo que as reformas, com base num centro de estudo espanhol, têm modelo na idéia de Executivo forte (como no fascismo), sob o plebiscitarismo, e com as empresas grandes “anexadas” ao estado. A tentativa de criar demandas inconstitucionais pelas reformas bolivarianas em Honduras, o Foro de São Paulo --- por meio de Zelaya --- parasitaram as eleições com uma urna “extra”, com ajuda explícita do governo brasileiro. Os regimes constitucionalistas (“burgueses”) são um entrave para as reformas socialistas que pretendem estreitar os meios de mando (a uma forma) da “ditadura do proletariado”, para criar as alavancas da “Grande Transformação”. De novo, foi Fernando Marroni a sugerir, em tom de apelo, na época, a insatisfação com a impossibilidade de um terceiro mandato para Lula: “Não pode..., dizia ele a um eleitor,tem uma legislaçãoque não permite. 
    • A [reforma] tributária”. Mas as reformas tributárias apresentadas, como horrorizou-se Brossard, foram no sentido de criar um mecanismo draconiano de absorção de bens por meio de irregularidades manipuláveis. 
    • Aprofundar a postura soberana do Brasil no mundo”, o que quer dizer, precisamente, NADA; complementa-o: defendendo intransigentemente a paz mundial”. Precisa ter lido três livros na vida, o Sítio do Pica-Pau Amarelo, João e Meu pé de feijãoe, num nível mais avançado, O Pequeno Príncipe, para saber que essa frase é absurda até o ridículo. 
    • [E] uma ordem econômica e política [mundial] mais justa”, é um desejo, não uma proposta, a não ser enquanto siga os descaminhos aqui acima, onde “justo” quer dizer outra coisa. Ainda assim, a ênfase da frase está na “ordem” e não na “justiça”. O mesmo para as tentativas do Brasil de Amorim de mediar conflitos internacionais, como o do Irã, mostrara que junto com as melhores intenções (e as intenções ocultas) deve-se ter na manga algum coelho real pelo menos. 
    • Manter...” [para evitar o óbvio, o pior]:O equilíbrio fiscal”. O sucesso da ortodoxia econômica herdada e mantida ganhou parasitas 11,75% de aumento do funcionalismo, o que não ajuda em nada; o ufanismo do petróleo que necessita de superinvestimentos; o PAC 1 e 2 (“desatravancados”); a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016, entre outras coisas, dão sinal contrário, pró-ufanismo delirante. 
      O controle da inflação”, o óbvio ululante, para não perder os votos que ortodoxia econômica legou, mas sem a mesma fé no bom senso do equilíbrio fiscal. 
      A política de câmbio flutuante”, de novo a ortodoxia. Pelo menos, enquanto as políticas do governo não forem prejudicadas; pois as propostas dos Beluzzos e Pochmanns têm outras cores.
    Fonte:
    http://www.dilma13.com.br/paginas/propostas/

    Vale para Dilma a máxima leninista revolucionária,
    Fale sempre sobre Democracia e em Estado de Direito, mas, tão logo haja oportunidade, assuma o Poder sem nenhum escrúpulo”.
    O PNDH-3 e as propostas oficiais desmentidas pela candidata mostram essa tendência das “reformas” radicais tentadas com luva de pelica, até quando seja necessário.
    Esperar que o jornalismo puritano preste alguma atenção ao óbvio ululante é como pedir-lhes a fé obscurantista numa profundidade obscena. Preferem repetir mantras estúpidos de redenção tal como esse “Independente do candidato, temos dois de altos nível e ninguém se arriscaria a...”.
    A isto se acrescente o valium da agenda “propositiva”, o apelo a que se discutam os principais problemas do país, que se supõe seja a discussão técnica deles. Não sendo isto possível, de fato, ou, em muitos casos, sendo o caso de que não seja possível falar francamente, as perguntas se voltam (naturalmente) à intenção política, isto é, a orientação da decisão de o que fazer com a margem comum de ação que o problema permite. Margem comum também sugere que não se espera, de nenhum modo, que certas coisas possam ser concebidas intencionalmente --- franca e abertamente, pelo menos ---, o que hoje cabe aos partidos comunistas nanicos oferecê-lo; o oposto, à direita, é impensável, então desde já por estes não se perguntará, que não se pergunta pelo que não se pode nem imaginar.
    Mas sem tocar em temas polêmicos como drogas, aborto, Chávez, Foro de São Paulo e com o ferrolho da polidez positivista e dos códigos morais que impedem perguntar coisas duras, não sobra nada senão as promessas sobre o óbvio. Sobram, as promessas. É o que se fez muito quando se cobrou por aqui, saltitantes, a construção da ponte sobre o Guaíba, para que todos batessem o martelo.
    Os candidatos se tornaram empreiteiros acossados pelo lobby pudico dos jornalistas positivistas. Assim o jornalismo positivista vem transformando as eleições num leilão onde cada um de nós tem um preço --- mas no atacado. Sem poder pensar em mudanças que desafoguem as economias pressurosas por salvar todas as pessoas desde o estado, que deveria ser parte da proposta de qualquer direita, estados travados passam a necessitar de um Soviet Supremo: o Governo Federal.
    Seria impossível comparar Dilma a Serra, mesmo a Serra, por origens semelhantes, sem criar um desequilíbrio de tratamento entre um e outro. Assim, o jornalista positivista redistribui --- palavra politicamente correta esta --- a verdade e a medida certa das proporções para achatar desigualdades entre eles. E, pela falta de coragem, ritualiza com substitutos macumbas sociais hipnóticas, a polidez científica do que pode ser conhecido inequivocamente e a seriedade da ética profissional, feita de terno e gravata, e de um ar não pouco tolo. 
    O positivismo é, paradoxalmente, pós-moderno nos seus efeitos. Antinômicos nos exemplos extremos, com o tempo, um parece inexoravelmente levar ao outro. O miolo mole do pós-moderno apega-se sinking lower than the Grave ao fetiche do sabido inequívoco, um código para o consenso de uma maioria confusa e assustada. Mais curiosamente, o par positivismo/relativismo (outro nome do pós-moderno) produz um tipo de puritanismo feito de formalismo vazio, tanto mais desligado da realidade quanto mais sistematizado e exteriormente exagerado.
    Disso resulta que a aparência ritual de civilidade, a etiqueta e o cerimonial profetizem que o barbarismo é arcaico e não moderno, o que faz a babujosa deferência parecer a superioridade moral da isenção, acima de tudo.
    Quando uma enchente assomou além dos limites razoáveis algum tempo atrás, inúmeros foram os que observavam de cima de uma ponte a força da água, quando a ponte ruiu e os tragou num torvelinho. Esperar pela prova inequívoca dos fatos tem a mesma natureza: quando já não se pode ter dúvida, raro é a margem de ação possível para evitar o pior.

    Nenhum comentário: