julho 06, 2010

O velhaco de Taubaté



[O]s livros dos diabólicos não devem inovar, devem repetir o que já foi dito, senão onde irá acabar a força da Tradição?
Umberto Eco. O Pêndulo de Foucault, §118
É cedo para chamar de fracasso a agenda financeira do G-20... Mas há um inescapável senso de que uma harmonização financeira global é incompatível com a realidade”.
- Nicolas Véron, economista do Centro Bruegel, de Bruxelas, advertindo para o risco de naufrágio das negociações do G-20, no Canadá.
Assim, numa cultura em que o dinheiro é o principal valor, como a brasileira, as pessoas sempre raciocinam a partir do seguinte questionamento: O que ele quer ganhar com isso? Os outros nunca fazem nada por acreditar no que estão dizendo. Os outros sempre têm interesses escusos. Interesses, evidentemente, monetários.”
- David Coimbra, “Em que eu vou votar nessa eleição” (ZH, 21.05.10).
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Uma velhinha de Taubaté ao contrário
Ligando a crise grega atual, na região do euro, às origens da metafísica na antiga Grécia, L.F. Veríssimo mantém oportunamente ocultas as premissas que o levam a reconhecer no capitalismo e no sistema financeiro internacional as fuças fumarentas do Capeta.
Da metafísica grega de Tales, Anaximandro, a Platão e depois Aristóteles, entre outros, Veríssimo estende a peça de propaganda que chega até bem para além do Medievo, e para lá da Reforma, com duas acusações que ele atribui desconfiando de segunda mão: 1) atribui a reprovação da Igreja à usura como expediente para manter a sua metafísica dominante (pelo “poder de controlar os corpos” e mentes, suponho, como diz Saramago); e, depois --- já como se não se tratasse sempre disso mesmo --- 2) ao abandonar as restrições à usura “para não ficar de fora do melhor negócio do mundo, que é o dinheiro produzido pelo dinheiro”.
Nesse momento imagino que o Capeta sorri para L.F. Veríssimo, mas desconfio que mesmo ele tenha ficado um pouco mais vermelho, ao contrário do escritor.
A Igreja é, para Veríssimo, a cobiça natural encontrada nos poderosos, todos eles, como existiram na história. Jamais houve para Veríssimo um povo com fé nos homens de poder que os governaram, quanto mais na fantasmagoria do Cristo, mas apenas a opressão dos corpos e das mentes dos miseráveis por seus senhores, que lavam as botas sujas de lama na água do parto.
A “metafísica do dinheiro” faz parte, para Veríssimo, daquelas abstrações nascidas na velha Grécia --- e vejam a coincidência “irônica” (!) --- as quais haviam dado no Deus transcendente e nas ideias universais. Tomem-se àquelas a Dike (Justiça), o espírito de ordem moral e valores imemoriais reconhecidos por todos como justos; e a Aletheia (Verdade), a sinceridade perante o real, que é este adotado por aquela.
Coisas assim, feitas de “ar”, que darão, como efeito de um parasita de mentes à lá Dawkins, e na hipocrisia do Deus que, para Saramago é um permanente recusar-se, a jamais se sentar à mesa para um café da manhã. Veríssimo e Saramago parecem saber disso em contraste óbvio com a revelação laica da ideia da Comunidade --- suponho que concreta e mais real que o realismo metafísico. Nem mesmo o deísta chegou a declarar que Deus fosse uma abstração, querendo dizer por abstração uma fantasmagoria, só mais tarde, com os darwinistas ateus é que a alegoria do “vertebrado gasoso” de Ernst Haeckel substituiria a abstração positiva da fé deísta, o seu deus-singularidade já então distante demais.
A usura, uma vez combatida pela Igreja por ser infecunda, já que era o dinheiro que vinha do dinheiro pelo tempo de trabalho de alguns pelo ócio de outros, é uma abstração que, assim condenada --- “desconfia-se” ---, protegia a sua própria abstração: a metafísica cristã. Então a Igreja aceitou a usura e os negócios menos nobres porque queria o privilégio do reino das supremamente mais poderosas abstrações: “A vitória não foi da realidade do dinheiro sobre a especulação filosófica, foi de uma irrealidade sobre outra”.
A mesma lógica serviu a Lênin e depois György Lukács a inventar que, ao não atender ao chamado do comunismo internacional, o povo mostrava que não tinha chegado a perceber seus próprios mais reais interesses, que não mostrava consciência de classe e estava, portanto, ainda sob o jugo dos velhos símbolos da civilização decadente: “As leis, a moral, a religião são para o proletariado preconceitos burgueses, atrás dos quais se ocultam outros tantos interesses burgueses (Manifesto Comunista: “Burgueses e Proletários”).
L.F. Veríssimo é um tipo de velhinha de Taubaté ao contrário: enquanto esta acreditava em tudo que ouvia pela TV, de tudo que escreve Luiz Fernando nada é bem assim --- aquilo que os povos bárbaros no norte chamam, com rude indelicadeza, mentira.
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Para uma justiça mais justa
Veríssimo atribui a crise da Grécia à especulação financeira e dá isto de barato, e coloca a Alemanha como aquele país que sem mais os empecilhos morais da vergonha de duas guerras, permite-se ser um tipo de agiota impiedoso com os infortunados.
Parece ficar de fora da reflexão sorrateira do crítico do capital que uma boa medida de justiça implique de parte de quem toma o dinheiro de outrem as regras morais de respeito à justiça das finanças; regras nada obscuras e que nem se prestam à crítica da soteriologia marxista, da qual Veríssimo é adicto. Ofendido com as terríveis leis domésticas as quais, por certo, são de um pragmatismo reacionário (o dos outros) e do doutrinador senso comum, ignora o que qualquer mãe de família conhece perfeitamente bem, como não gastar mais do que se tem.
Ignorando a dike do mercado, a Grécia ter sido perdulária ao não ter respeitado o universalmente reconhecido, só mesmo assumindo que há uma justiça mais justa representada por um conhecido slogan da ciência política, o da justiça social. Somente criando um senso de justiça transformado é possível concluir como faz Veríssimo, um senso de justiça desligada da realidade porque superior a esta --- longe distante.
Ainda bem, para Veríssimo, que existe a encarnação da sagrada Abstração que se formou na Europa hoje, na época do euro, da União que vem para erradicar a doença do nacionalismo que a Alemanha ameaça de novo e ao sonho universalíssimo de um continente sem fronteiras e sem donos.
Como dá para ver, a nenhuma abstração declarada se permite a consciência de Veríssimo; antes, disfarça-as no subconsciente das entrelinhas. L.F. Veríssimo é cego para a abertura para verdade da aletheia, ao mesmo tempo em que eleva à condição de “nobre idéia” a Comunidade que é o símbolo da encarnação da delirante abstração do Socialismo.
Sob a dike do igualitarismo da Comunidade, o velamento da transcendência metafísica abriu os olhos de Veríssimo --- para dentro do mundo interior dos visionários revolucionários --- para a realização em uma nova tentativa (!) da mais alta abstração na terra, e a realizar os fundamentos da sociedade mais bizarra que já houve.
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O moralismo puritano do marxismo de Veríssimo
LVF certamente concordaria com Toynbee e H.G. Wells, reformistas Fabianos, simpáticos a Lênin, para os quais as soberanias nacionais são, como diz Toynbee, “uma força política misteriosa”, certamente uma abstração, a qual se deve erradicar, como se vê pelo artigo de Veríssimo, “O medo do fantasma” (ZH, 13.05.10).
Em outro artigo, “Um retorno a Adam Smith” (19.02.09), Veríssimo lembrava que junto e anterior À riqueza das nações (1776) havia a Teoria do sentimento moral (1759), de Smith, e que, considerava Veríssimo, “talvez um dos efeitos da Crise seja o resgate do Adam Smith da primeira fase”. Mas o sentimento moral de Veríssimo parece que está colocado em outro ponto que aquele da obra de Adam Smith, numa benevolência histérica que ignora toda prudência, para depois inculpar o mundo ocidental, a natureza do homem (essa premissa para controlá-lo) e a Deus, de não ser tão abundantemente justos quando ele próprio supostamente pretende que seja.
Como escreveu C.S. Lewis alhures, não é possível ser virtuoso com uma virtude só; o que dá em uma abstração que geralmente desliza para coisa má, ainda que quem desse mal sofra possa ainda assim estar certo de sua santidade moral.
Não lhe parece nunca estranha a ideia alardeada pelos amigados do Foro de São Paulo clamando pelo oximoro antidemocrático “soberania da América Latina”, que vigora sob a ideologia do “comunitarismo” internacional, hoje sob a forma de um governo sem fronteiras, com uma política laica e --- é claro, --- progressista. Primícias de um socialismo disfarçado, que não é outra coisa que o próprio socialismo tentando se fazer passar mutatis mutandis por coisa nova e distinta.
Mas quem tem vocação para idiota útil muda de senhor mas não muda nunca ele próprio --- como observou Eric Hoffer. A visão de mundo de Veríssimo é aquela clássica visão remota de quem teve um vislumbre da utopia, e nessa coisa bem mais rarefeita que as abstrações dos antigos, funda todo o julgamento moral sobre o real atual.
O estilo visionário de Veríssimo rende as memoráveis verdades de arautos puritanos de um bem superior, neles; desde onde julgam o mundo, de uma justiça mais justa, de uma realidade mais patente. É do tipo de evidência que a ilusão dá ao intelectual histérico, de diagnosticar nos próprios sintomas a manifestação do fenômeno de um mundo doente ao mesmo tempo em que vê, absorto na imagem ilusória, o meio de cura para esse mesmo mundo.
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Fascismo socialista: a unidade dos povos
A discussão dos temas metafísicos parecem a LFV os sintomas de uma doença que antecedeu o sistema financeiro desligado de qualquer lastro real --- conforme a dike particular de Veríssimo que, desequilibrada, é só pura benevolência. Mas de onde mesmo ele tira essa virtude superioríssima? E que tipo de virtude é essa cuja indignação ignora e encobre a responsabilidade contábil?
Para Luiz Ferrnando, tudo é demoníaco interesse, exceto, é claro, as suas próprias motivações, assim tão mais justas quanto mais se mostra categórico apontando, para apoiá-lo, vetustas mentiras deslavadas.
À resistência dos economistas à formação da comunidade européia Veríssimo contrapõe o que se fez forçoso, ceder a ações inortodoxas para salvar a comunidade: “são [os economistas] mais uma vez forçados a apoiar uma ação que contraria a sua ortodoxia”. Então, o medo do fantasma do Nacionalismo, da velha Europa, completa Veríssimo, superou o medo da inortodoxia. A nobre ideia da comunidade européia, unida economicamente meio que a força, constrangeu os economistas a adotar práticas inortodoxas, pelas quais se socorreram por... estarem certos quando entenderam que se tratava de um “mau negócio”!
A abstração fantasmagórica da “Comunidade” criou uma aberração econômica que teve que recorrer à ação inortodoxa; por isto Veríssimo entende que é o triunfo da inortodoxia, lutando contra o outro fantasma, o Nacionalismo. O Nacionalismo, por sua vez, era a unidade dos povos nacionais em nome de alguma nobre e insana ideia de unidade do povo, do qual diziam seus líderes ser os representantes, e por esta idéia justificaram todas as ações mais inortodoxas, até que desembocassem na recessão e na guerra, em opressão, expurgo e escravidão.
O que aproximou o Nacional-Socialismo do Comunismo foi exatamente isto, a unidade do povo sob alguma identidade fantasiosa até que se materializasse no que só poderia dar, no caos --- porque desligada de qualquer o sentido Conservador da realidade.
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O anjo da Benevolência
Em vez de concluir que a União Européia está formando a realidade econômica, social e política que pode estar avançando para dentro de erro temível, Veríssimo faz o inverso: parte do ponto de que a Comunidade precede os valores morais da economia na ordem da realidade. Infama estes valores por abstrações sisudas, quase desumanas, de antigos e atuais adeptos da usura, e isto em nome da defesa da nobre “ideia” da comunidade.
Coloca os economistas como antagonistas dessa tão nobre ideia e quando ela parece começar a fazer água dá como ponto arquimédico da realidade mais real o fato de que os economistas agora têm que capitular perante a necessidade de ações que contrariam a sua ortodoxia, para sustentar a ideia acima da realidade.
Mas mesmo a voz da maioria, com todos gritando juntos, como se quisesse um levante contra a justiça contábil, não moverá essa coisa tão reacionária que é a boa proporção das contas domésticas e aquela quantidade de pratos sujos que esperam por ser limpos.
O medo do nacionalismo europeu, contra o qual opõe Veríssimo o internacionalismo da comunidade européia, teria levado os economistas e os políticos a admitir medidas meramente gerenciais para salvar o euro equalizando a crise achatando os extremos de “injustiça” --- o que vai ser uma tendência ao que parece na aletheia da comunidade ---, trocando com isso a moralidade econômica de Adam Smith pela ação de managers do estado sobre a economia.
Para homens benignos como Veríssimo, apologistas da benevolência radical, os fins são eles próprios os meios de si. Estes são apresentados como “a solução” para um mundo injusto: um mundo justo. Realizá-lo, “como é”, assim, simplesmente, “benigno e justo”, é a solução.
O traço realista do futurismo foi marcado sempre com a mão da ingenuidade exaltada dos utopistas socialistas. No papel, tudo sempre correu muito bem. São a inspiração esquecida que se ergue da vala comum para encarnar a fórmula progressista avant la lettre: a solução.
A moral aqui é a ação prática de “solucionar”, de “ajudar” e de “socorrer” (abundante no PNDH-3). Como é possível ver, que é evidente, estas palavras têm, de algum modo percebido como patente, a aparência de uma moral, que é impossível não reconhecer logo de cara. Esta faz parte e justifica uma sociedade planificada: política, economia, futuro, justiça, e a vida mesma. Justiça aqui é a equidade material desligada de todo dos valores que levam à percepção do certo e do errado e de como se os reconhece na realidade, mas que se conformam com a planta baixa futurista.
O “economicismo” da economia planificada é um tipo de abstração mais complexa que só é efetiva sob condições bem especiais, sob regras particularmente criadas para produzir estas condições especiais. Mas então o que leva Veríssimo a tomar já uma coisa por outra --- a planificação forçada da economia pela moral econômica? Talvez o explique a referência que ele faz à frivolidade mediterrânea católica, mais dada --- segundo ele --- a “irresponsabilidades financeiras”. Pois enquanto acusa a religião católica de abstrações imaginosas, ligando-as à perfídia financeira, observa que dela veio “também” a caridade. Mas, então, desliga o desapego da caridade da responsabilidade moral, a ortodoxia, com o que alinha a virtude da caridade à inortodoxia. Mesmo no papel, a tinta socialista não encontra resistência para desenhar linhas impossíveis.
O mesmo desapego irracional da caridade que tolera a irresponsabilidade financeira é a que criou as abstrações da usura e as irrealidades vis do sistema financeiro atual.
Em outras palavras, retira-se os obstáculos da realidade real e a caridade pode ser essa caridade mais plena de si (que não traz junta a responsabilidade), uma caridade mais pura, um anjo de benevolência que só existe num cabeça de alfinete como Veríssimo.
Parece passar despercebido a Veríssimo que a moral cristã que presta algum respeito a regras de economia doméstica, formando o sistema financeiro responsável --- ainda que não se possa retirar-lhe, até pelas necessidades reais que pedem essa mesma moral, a possibilidade do erro e a fraude ---, nada tem a ver com a irresponsabilidade de uma benevolência que já se quer superior à moral cristã e suas fraquezas.
Como o utopismo marxista, a metafísica escolástica busca o Paraíso --- é o que entende Veríssimo. Então quando este se aproxima pela realização da nobre ideia da Comunidade, essa somente é ameaçada pelo nacionalismo, fruto hoje de apelo eleitoral, barbarismo e ganância. A mesma ganância que leva aqueles que perseguem o paraíso cristão a se voltar às abstrações do lucro fácil por um sistema que manipula alavancas angelicais para acionar irrealidades.
L.F. Veríssimo opõe os sentimentos morais da ortodoxia como adversários da tremenda abstração da Comunidade, justamente os recursos ao lastro do real, tomando-os como abstrações que ocultam aquilo que ele toma como a realidade mais real, a materialidade imediata dos meios de produção e da riqueza existente reunidos sob a ideia de Comunidade (e sob seu mando).
À realidade descrita por Adam Smith na Teoria dos sentimentos morais Veríssimo a atribuiu a um “nacionalismo” reacionário, quando justamente as imposições daquela moral são colocas à Grécia. Ter feito o elogio discreto dessa moral em outro artigo, mostra apenas que a moral de que fala é aquela inclinada à benevolência purista daqueles que são os melhores dentre nós.
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O balé das cópias demoníacas
A metafísica do mercado quer dizer a abstração da usura tão complexa quanto pode ser em Wall Street, não dessemelhante da metafísica católica, mirando o nada da utopia além-mundo, são de um mesmo tipo para Veríssimo. Estas duas metafísicas, “como são feitas no ar, só tem os limites que elas mesmas se dão.”
Sublinhadas a cobiça e a hipocrisia do catolicismo, mantendo-se para aquém toda a demais hierarquia angelical de abstrusos concílios, bem como a complexidade simbólica do sistema moral cristão, detem-se Veríssimo na essência, o purismo da benevolência impoluta. Com toda sinceridade da vontade que adere imediatamente à simplicidade de um bom sentimento, julga todo o demais.
A responsabilidade com as contas domésticas é para LFV uma abstração feita no ar, um meio de recalque falsificado por um sentimento hipócrita de dever. Que a abstração da responsabilidade com as contas domésticas dê em uma economia equilibrada é, para Veríssimo, uma coincidência demoníaca que serve apenas para legitimar a riqueza de algumas sociedades sobre as outras.
O número de anjos na ponta de um alfinete só é infinito quando se pretende gastar e distribuir o dinheiro que não se tem, então esse dinheiro é abstrato e a usura ganha uma cara diferente: a demagogia pelo social. Sim, o número de anjos na ponta de um alfinete é finito, daí porque é coisa de idiota ignorar os valores que se tira dos mais altos ares da metafísica para encontrar a ação responsável na prática voluntarista das melhores intenções.
A ação, na prática, sem a ordem moral complexa da alma, dá na vontade triunfante que adere ao purismo rarefeito que move ao caos. Mas para quem entende que a desordem e o caos das revoluções são criativos, é algo autoexplicativo. Para Veríssimo --- como pode ver na lógica que se lê em “Um retorno a Adam Smith” ---, o nada é cheio de possibilidades, mais potente que tudo, a suprema abstração negativa que habita a cabeça oca de Veríssimo (alguns a chamam, equivocamente, “crítica”) e sai de sua boca com a virulência da peste para jamais deter-se nos limites que ela mesma se dá não tê-los.
O caos revolucionário é aquele efeito que, na mais completa desordem, pode ser tudo, o mais promissor. Como as matas virgens, a juventude, o pool genético de um povo mestiço e os bens minerais (o nosso novo futuro cum grano pre-salis), a riqueza futura do nosso potencial latente é nosso maior mérito.
A benevolência serve aqui de pretexto para reunir sob o seu rótulo toda a convergência de impropérios contra aqueles que se escandalizam ante a santidade do pensamento de Karl Marx --- e seu porfeta retrospectivo, Vladimir Ilitch Lênin ---, sempre omitido(s) em suas infinitas variações em metástase dialética que explode em cabeças-pólipos militantes autofágicas.
É sempre de assombrar observar que a neurótica dialética negativa encarne em servos voluntários como Luiz Fernando Veríssimo as macaqueações cíclicas quase perfeitas dos mesmos motivos --- como uma máquina cega. Como uma experiência de vida artifical, passa a reproduzir no que quer que escreva, com um DNA mutatis mutandis, sempre o mesmo de outro modo.
Essa habilidade, é inegável, que é uma febre virulenta, é coisa só concebível a um ser angelical, mas no caso, não anjos, que não são infinitos, mas os demônios da macaquice e do embuste. Estes sim, que se reproduzem como quem divide fácil o nada, são infinitos pela geração de medonhas cópias de si mesmos.
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A comunidade: realidade planificada
Resumindo a complexidade do problema num “ajuda não ajuda”, Veríssimo decreta: “A comunidade está salva...”. Ou, pelo menos, “por enquanto”.
A inortodoxia não tem lastro na realidade, mas novamente se teve que aderir a ela para salvar quem não respeita a ortodoxia, por amor à ideia de comunidade.
Se a usura é pecado preferido dos ricos, a inortodoxia pelo social é o pecado preferido dos pobres. Exceto para os intelectuais, que atribuem a inortodoxia uma virtude benevolente para infamar os ricos por não adotar a usura preferida “dos pobres” (v.g., é um slogan, é claro). Estava certo Oswald Spengler quando dizia que capitalismo e socialismo eram irmãos gêmeos:
O Capitalismo e o Socialismo têm a mesma idade, são intimamente afins, surgiram da mesma maneira de ver as coisas e se acham presos às mesmas tendências. O socialismo não é mais que o capitalismo da classe inferior” (in: Anos de Luta).
A lógica está assim: o sistema financeiro gera a crise que quebra a Grécia, e a Alemanha, meio bárbara meio civilizada, que não sofreu o mesmo como a Grécia, nega-se a ajudá-los, e é só porque pode. Mas então a Alemanha, ligada de novo a um nacionalismo egoísta, ou respeitou as regras de mercado e não sofreu tanto com a crise, de modo que pode ajudar a Grécia, ou é parte do próprio sistema financeiro diabólico que agora, depois de quebrar a Grécia, quer impor medidas de austeridade como aquelas aplicadas sobre a própria Alemanha no tratado de Versalhes.
Tecnicamente, quando todos os argumentos parecem estar ao seu favor, mesmo os contraditórios, é o tipo de coisa que caracteriza uma teoria da conspiração, as generalizações e o excesso de fontes diversas. De toda essa patacoada, de Veríssimo, o que se tem de mais certo é sua natureza infamatória, do delírio de ultraje servido pela máquina de moer carne do desconstrucionismo interiorizado e já fazendo as vezes de consciência.
É claro que ele jamais toca na política por trás da unificação européia, ou na América Latina, esse novo tipo bem caracterizado de nacional-socialismo que é uma cópia caricata regional da unidade comunitária que se quer para a Europa hoje. Pois uma das formas de se equalizar as perdas, como as que a autonomia grega teve pior e diferente da Alemanha e de outras nações, é homogeneizar a margem de ação de cada nação, limitando desde cima a economia, a política, o sistema legal, os hábitos e até as crenças íntimas das pessoas --- em suma, planificando tudo.
É ao que se arrisca, a um outro pecado da igreja, uma radicalização das Missões --- que, segundo Veríssimo, deixando a ênfase do sucesso sob um critério puramente monetário --- “...e [que] deu certo!”, na China (!).
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Legião
A incoerência de L. F. Veríssimo tem um padrão, apesar de tudo, é o padrão da propaganda dirigida sempre contra os alvos do marxismo eterno em todas as suas formas, que ele exerce com uma destreza que supera qualquer inteligência. Somente o louco e o estúpido são tão coerentes consigo mesmos e inerrantes.
Os artigos de Veríssimo são peças de propaganda feitas por uma máquina de litotipografia com engrenajens marxistas. Reproduz motivos de “propaganda crítica” gerando interpretações marxistas delirantes sobre qualquer assunto. Faz a desconstrução “crítica” dos fatos de modo a reafeiçoá-los conforme os esquemas mentais da máquina lhe permitem.
Como as larvas de dípteros proliferam nos cadáveres, quando a consciência humana é substituída por um arremedo grotesco de fingimento de consciência, parasitam-na os demônios --- as mentes nesse estado passam amiúde por processos análogos, dependendo de características pessoais, chamados “espontaneidade” (na tipologia do Admirável mundo novo, os gamas), outras tantas vezes “engajamento” (os deltas), ou, por fim, a militância (os ípsilons). Estes entes teológicos infestam a consciência humana criando um efeito semelhante ao de espelhos voltados um para o outro. A medonhice reproduz o mesmo ao infinito, produzem uma legião deles, que marcham dentro de homens ocos.
Realmente parece caber poucos anjos sobre a cabeça de um alfinete, mas demônios parece caber infinitos --- uma legião infinita deles, uma em cada cabeça infestada.
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Mesuras histéricas e puritanismo
Veríssimo repete o embuste de debates sobre anjos na cabeça de alfinetes, inventado durante a Reforma contra os filósofos escolásticos, e repetida de novo pelo mecanicismo e pelo empiricismo contra vazias abstrações que a ciência moderna sonhou, num movimento parecido com o de Veríssimo, denunciá-lo enquanto fazia justamente o mesmo, aumentado em grau ao delírio histérico.
Curioso que a histeria possa ser silenciosa e discreta, cheia de deferência e mesura? É fácil ver que ela se compensa em lendas do tipo das que circulavam durante a Revolução Francesa, como a que descreve a condição de inferioridade da criadagem que, sobre a hora de parir um filho, e tendo chegado o senhor da casa com botas enlameadas, a água quente servisse a este preferivelmente àquela. Mas destas falsetas o nosso velhaco Luiz Fernando não vê abstrações e irrealidades, mas talvez algo como nuanças de meias verdades, que se não foram como contam, bem poderiam ter sido, por aquele tipo de justiça que só o puritano ofendido com o mal no mundo é capaz de sentir ser o legítimo representante.
Veríssimo engana os leitores com tanta facilidade, a facilidade natural dos que enganam primeiro e mais a si mesmos! O puritanismo de Veríssimo para com as questões da justiça social, lá à maneira de Lula --- o homem sem pecados, ou como disse David Coimbra, os “pensamentos elevados” do homem de esquerda que se move por “uma idéia generosa de mundo”, mesmo que nunca dê certo ou pior ---, impede-o de tolerar uma realidade reacionária, como a Sartre pareceu o silêncio.
O silêncio que atormentava Sartre é tanto o silêncio no qual se manifesta a (reacionária) verdade, quanto o silêncio dos cadáveres do socialismo revolucionário que ele apoiou.
Obviamente, a indiferença do universo silencioso para com homens tão bons reforça a sensação de que há algo errado com o universo; algo mau, somente redimido pela “inteligência viva” que trazem ao mundo, mesmo quando mal compreendidos, mesmo quando tudo dá errado. Afinal de contas, são os melhores homens, porque guiados por pensamentos elevados. Homens que perseguem um mundo mais verdadeiros que esse que a realidade mostra os limites, um real manufaturado no seio de uma outra caridade, a radical benevolência pela Comunidade.
A caridade socialista se resume na arte da propaganda panfletária a expensas próprias (os tais dos “companheiros de viagem”). O incrível é que é David Coimbra quem no fim, está certo, quando diz sobre aqueles que melhor encarnam o que acusam nos outros, como reza a máxima leninista xingue-o do que você é, acuse-o do que você faz:
[é como se os] outros nunca [fizessem] nada por acreditar no que estão dizendo. [É como se os] outros sempre [tivessem] interesses escusos. Interesses, evidentemente, monetários”.

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