julho 19, 2010

A máscara da polidez


Do Padre George Rutler

Jesus não escolheu os irmãos Tiago e João apóstolos a despeito do temperamento deles, mas por causa destes. Os dois “Bonaerges” (Filhos do Trovão) quiseram levar fogo sobre os rudes Samaritanos. Dessa raiva disse Jesus poder ser “virtuosa”, se mantida sob rédeas, porque era justa. É diferente usar o temperamento de perder-se pelo temperamento, como é diferente usar o óleo para energia de derramá-lo no mar.
A raiva corretamente usada e não apenas despendida com vazão, é vigor. Tiago foi o primeiro apóstolo a oferecer sua vida serenamente por Deus, e João em sua maturidade escreveu, “Pequeninos, ameis uns aos outros”.
O Cristo ressuscitado converteu a ira destrutiva de São Paulo na estrada de Damasco. Mais tarde, o apóstolo advertiria os Gálatas que seu temperamento descontrolado é “uma obra da carne”. As cartas de São Jerônimo a Santo Agostinho mostram-nos como foi árduo a ele controlar sua língua e sua pena, e o sol foi testemunho muitas vezes da ira do missionário irlandês Columba. Nenhum santo, naturalmente, calmo ou agressivo, substitui a raiva com o oposto extremo da timidez:
Porque Deus não nos deu um espírito de timidez, mas um espírito de poder, de amor e de temperança” (2º Timóteo 1:7).
A cura para os pecados da raiva ou da timidez é a virtude da coragem. Santo João Crisóstomo escreveu a Timóteo:
Porque se a ira de Deus fosse uma paixão, qualquer um poderia desesperar-se por ser incapaz de apagar a chama que se acendeu por tantos males feitos; mas desde que a natureza divina é destituída de paixão, mesmo se Ele vos punisse, mesmo se Ele fosse à desforra, Ele não o faz com ira, mas com candura, e cheio de boa-vontade; por isto convém-nos ser homens de boa coragem e a acreditar no poder do arrependimento”.
A timidez disfarçada de caridade pode causar mais dano do que a raiva; e a arrogância de que o mal pode ser disperso ao ser simplesmente ignorado seria fazer o mesmo que fez o Capitão Smith no Titanic, ao dizer: “Iceberg? Que iceberg?”
Santo Agostinho disse, “Deus não precisa minha mentira”. São João, Pescador, falando com o único bispo de seu país, que foi um verdadeiro pastor, lamentou: “As muralhas são traídas até mesmo por aqueles que as deveriam ter defendido”. Exatamente quatro séculos mais tarde, diria Churchill: “Um apaziguador é alguém que alimenta um crocodilo esperando que este o coma mais tarde”.
Santo Afonso Ligório não foi nada tímido quando aconselhou: “Mesmo quando corrigindo falhas, um superior precisa ser amável”. Mas a sua amabilidade é, de fato, instrumento de seu zelo para “admoestar os pecadores”, que é o primeiro dos Sete Trabalhos Espirituais da Misericórdia. De outro modo, São Leo confrontando Átila, o Huno, ou Santa Joana D'Arc tentando fazer de um patético rei um homem, e o Abençoado Jerzy Popieluszko, voltado contra o Comunismo, não foram temerários em suas afimações.
A força deles não veio de uma Terapia de Autoajuda para a Raiva, mas de Cristo, do qual a ira é misericordiosa.

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“O pecado da raiva e o pecado da timidez”. 
Fonte: Catholic Education Resource Center
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O pecado da timidez tem paralelo hoje, com força epidêmica, nas máscaras da "polidez" neurótica, da "tolerância" e do relativismo.
Como escreve o autor, se a timidez é um pecado, portanto pessoal, suas derivadas são vícios sociais. Deus não precisa de nossa mentira, disse Agostinho, nem a sociedade do nosso ultraje “puritano” que é escândalo perante a verdade.
O pecado da timidez é uma máscara. A máscara da polidez é o pecado da timidez disfarçado de conduta moral conforme algum código de ética habitual. Aquilo pelo qual Jesus Cristo admoestou nos doutores da lei, ser só uma “etiqueta”, um “protocolo”, um “cerimonial” e alguma “mesura” --- regras destituídas de autoridade, porque existentes somente pela autoridade secular e habitual.
Os pecados, como o da timidez, podem assumir nomes diferentes, para se tornarem vícios sociais, hábito, como ocorre hoje com a "timidez" da polidez e da tolerância que levam a reforçar ao relativismo, sendo, de fato, aqueles frutos deste; e assim inibindo o senso do real que nos leva a nos guiarmos pela verdade.
A idéia aqui é fazer notar que os nossos códigos éticos, códigos sociais, têm que estar fundados na moral tradicional, que tem fundamento na acuidade cognitiva do senso das proporções, o que permite conhecer a verdade, que permite buscá-la e (muito importante) reconhecê-la.
Ética quer dizer "estudo sobre a moral", que por sua vez quer dizer "pertencente ao caráter ou temperamento" de como conduzir a si mesmo. A moral é uma faculdade cognitiva, uma acuidade, que dirige à verdade, pela verdade; e que está ligada ao senso do real que é um senso de discernimento das proporções. A moral não é uma figura de linguagem que pode ser reduzida a uma ética.
Admitir que uma coisa assim esteja apenas na moda é o mesmo que dizer que a peste negra estava na moda no século quatorze.

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