junho 09, 2010

Veríssimo: narrador inconfiável


Li os manifestos com o propósito de não acreditar no que diziam, mas querendo ver através deles, como se dissessem alguma coisa mais. Sabia que para fazê-lo dizer outras coisas devia saltar trechos, e considerar algumas proposições como sendo mais relevantes do que outras. Mas era exatamente aquilo que os diabólicos e seus mestres nos estavam ensinando. Que quando nos movemos no tempo sutil da revelação não devemos seguir as cadeias obstinadas e obtusas da lógica e sua monótona seqüencialidade. Por outro lado, tomando-os ao pé da letra, os dois manifestos eram um cúmulo de absurdos, enigmas e contradições.
- Umberto Eco, O Pêndulo de Foucault, 70 (1989) [§3].

Na sua resposta, Borges, você escreveu que estava acostumado com a soberba dos tradutores, mas que eu claramente levara essa deformação profissional a um nível patológico. E se como tradutor eu já era um perigo, como cirurgião plástico seria uma ameaça pública, pois minha imprecisão anatômica era alarmante. Em vez de mexer na cara do seu texto, eu lhe acrescentara um rabo, "una cola" grotesca. Um desenlace que transformava o autor no pior vilão que uma história policial pode ter: um narrador inconfiável, que sonega ou falsifica informações ao leitor” (Vogelstein).

- L.F. Veríssimo, Borges e os orangotangos eternos (2000), “O Crime”.

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Os meios diabólicos
Quando Luiz Fernando Veríssimo escreveu que Lula foi reconhecido pela The Economist como um “exemplo de conservadorismo responsável” em “Bom Comportamento” (ZH de 26.11.09), o que me ocorreu foi certo espanto atônito pelo artifício discreto que mostrava como despercebida uma falsa obviedade:
Há no reconhecimento da revista [The Economist a Lula] um desagravo retroativo ao PT recém-leito, que assustava com a promessa implícita de mudar toda a economia, correr com o neoliberalismo...” 
“O monstro não era um monstro afinal de contas. O monstro tinha cara de Palocci e era Social-Democrata como todo mundo”.
É um “Vejam só, quem diria...”, esperava-se uma coisa, veio outra. É até verdade que todo mundo é social-democrata por aqui; os únicos liberais são os que o são de fato, na prática, ainda que defendam políticas social-democratas e não verdadeiramente liberais. Então só são liberais na prática, mas tendendo sempre ao sentido oposto. O que só quer dizer que fazem política liberal sem princípios liberais, onde o risco deve ser defendido tanto quanto o lucro: se se privilegia este sobre aquele, a segurança do estado-babá passa a ser uma tentação. O pouco confortável que é assumir riscos no liberalismo é um princípio, e, ainda que desagradável ou, justamente, por ser o sacrifício que honra a riqueza, é o que garante a bruxuleante liberdade.
L.F. Veríssimo deixa não dito toda a tradição leninista de se ligar ao capitalismo liberal para subjugar politicamente o capital. Ou diretamente, A melhor maneira de destruir o sistema capitalista é depravar a moeda”, diz Lênin. E que os meios de produção não são o capital em si e o liberalismo, mas a ação humana dirigida por meios indiretos (se necessário) desde a política por trás da economia. Mas quando a política perde o sentido para se tornar pragmatismo, é só porque ninguém mais é capaz de saber o que é a tal liberdade --- as “abstrações” que Luiz Fernando aprendeu a rejeitar pela presença material do que já foi produzido, do que já existe (que pode ser dividido em comum), como se fosse um bem perene.
Mas o que interessa mesmo aqui é o modo que invoca no sombreado uma obviedade para insinuar méritos inexistentes do Partido “dos” Trabalhadores e do fundador do Foro de São Paulo, Lula.
O modo de escrever de Veríssimo opta por uma linha construtiva de disfarces, jogos de espelhos e alusões e premissas ocultas que querem discretamente produzir um relevo de verossimilhança que ao desavisado ganha, por insinuar a evidência, algo dela. O que há, de fato, no entanto, é só a insinuação de superficial do que não é senão um padrão mental que adapta as coisas a si mesmo.
Escrever assim, é um diabolismo que quer fazer passar, num relance, o que afirma discretamente. E como o conspirador, com sinal invertido, já quer desmistificar a ação política pelo gerenciamento estratégico do governo. Numa perfeita inversão das coisas. “Diabolos”, do Grego, quer dizer o “acusador”, o “difamador”, mas também, e antes de tudo, por seus meios, “jogar junto”. Dizer algo para dizer outra coisa; encobrir uma mentira com um jogo de luz e sombras, para dar abusivamente feição de ser pelas aparências mais superficiais o que se quer que seja.
Bem, fora os rodeios, seguem minhas considerações ao sr. L.F. Veríssimo:
Enviado à verissimo@zerohora.com.br terça-feira, 22 de Dezembro de 2009.
(Sobre o tom laudatório ao PT, quando antes da reforma de Duda Mendonça, meter medo em empresários brasileiros, mas, no fim, mostrar-se confiável e tremendamente competente.)
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(Porque o criminoso sempre volta ao local do crime)
O ARGUMENTO DA CARTA
(O texto original está em preto)
1. O PT “assustar” 800 mil empresários refere-se àquelas maiores metas da esquerda de mudanças sociais, jurídicas e econômicas radicais que não apenas não se confirmaram por aqui como foram abandonadas?
A ideologia política revolucionária parece ter sido abandonada, ou trocada por “reformas” --- nos termos em que Lula se refere às vezes à sua “revolução pacífica” ---, que deu em ortodoxia e (!) em estabilidade e algum ganho e reconhecimento. Não saberia dizer, no entanto, qual ganho, já que tudo que a imprensa faz é dar isso por certo. O The Economist é quem pode dizer, sobre o aspecto econômico, tecnicamente --- frio e maleável como as estatísticas o permitem (o sexto estado da matéria) ---, se bem que me parece se trata apenas do nosso nível de exposição à crise (e da manutenção do óbvio), e isso passe por virtude de doutrina econômica [1].
Então o PT poderia dizer, como Chesterton, “Tentei criar uma heresia, e quando a concluí, era a ortodoxia”.
Porém, se ler os artigos, os debates e os seminários internos da esquerda (que nenhum jornalista faz) --- que no geral, falam o mesmo e divergem para no fim convergir ---, vê-se que esta nunca abandonou seus ideais em nada ou recuou de seus métodos em um só centímetro. Nem jamais acreditaram na liberdade de mercado, mas por aquela tolerância leninista de pegar a oportunidade quando ela aparece e como ela aparece. Então, agora, recebem o lustro do bem-estar, da “boa fortuna” dessa “nova realidade” do país, como que justificando aqueles ideais de um horizonte legendário ao qual se perseguira. Tudo muito bem, não fosse ser o contrário.
Tudo isto é aceitável se e somente se se ignorar que a ortodoxia faz parte hoje de um passo comum da esquerda que tem o seu horizonte forjado nos encontros do “Foro de São Paulo”, um seminário internacional --- tudo entre os extremos do espectro da esquerda --- que “CONSTITUYE EL PRINCIPAL AGRUPAMIENTO DE PARTIDOS Y MOVIMIENTOS POLÍTICOS DE LA IZQUIERDA LATINOAMERICANA Y CARIBEÑA”. É um tipo de “conspiração aberta”, político-estratégica, de natureza supranacional, e voltada à ação política revolucionária e não apenas reformista. Na base de ação, estão reformas econômicas, jurídicas, políticas institucionais, “subversão” cultural, tudo abaixo das diretrizes de ação política ali decididas.
Bem; lendo, a ortodoxia econômica é desmentida. Assim, teria a esquerda abandonado seus ideais? Parece pouco provável. É mais fácil aceitar que o que de fato se deu foi a integração de uma praxis econômica temporária, do modo como se pôde --- o que se vem declarando no PT e no Foro de SP com suas limitações intrínsecas ---, no curso da revolução lenta e gradual a qual atrai com uma mão para bater com a outra.
Nenhum historiador ou cientista político, nem mesmo o jornalista, sérios e com alguma consciência, ignorariam estas coisas para concluir pelas aparências que um governo quer fazer passar.
"O Brasil era capitalismo sem capital. Resolvi que era preciso construir o capitalismo para depois fazer o socialismo 
 -- Lula ao jornal espanhol El País --
2. Nos termos do Foro de São Paulo, segundo suas atas[2], dizem “fazer bons governospara --- é esse “para” que mata ---, para modificar o sistema desde dentro:
Entramos no sistema para mudar o sistema e não para nos modificarmos a nós” --- Shafick Handal.
Isso é repetido como um mantra. Jamais houve uma intenção diversa desta, reiterada sempre pela esquerda latino-americana, onde quer que ela se manifeste com alguma consciência, mas as mudanças as quais o sr. comemora e que as aponta aos 800 mil empresários, estão justamente, como outrora, nesse esforço pelo poder --- “pelo povo”.
3. Mário Vargas Llosa passou a encabeçar a resistência contra esse populismo hipertrofiado na América Latina de hoje, sem que a mídia se dê conta destas coisas com a gravidade que merece e que se encontra, por um destes acidentes felizes, com a objetividade das coisas existentes e sendo feitas por mãos humanas; p. ex., como se viu no caso recente de Honduras, quando as declarações no Foro explicavam toda a ajuda mútua entre PT e Zelaya na estratégia de reformas constitucionais progressivas, exortadas no Foro de São Paulo. Chamam-nas também “processos sociais” (...newspeaking), como os que estão em curso hoje na Venezuela.
Ora, é bem fácil perceber que esses processos sociais, que estão ocorrendo em toda a América Latina, são contrários aos princípios mais certos da economia liberal que o PT parece ter-se convertido de forma pragmática.
Nas atas do Foro de São Paulo estas coisas estão ditas e repetidas à náusea, com quase todas as letras. No entanto, o tal é tratado como se fosse mais um ser fabuloso de um livro do nosso folclore, coisa igual à mula-sem-cabeça, do que o que é: um importante grupo político que clama pela “soberania da América Latina...” e Caribe (!). O termo, como o sr. deve ter notado, é um oximoro; e, por regra, só pode querer dizer outra coisa.
4. Imagino que a palavra é coisa que recebe do sr. os mais altos cuidados, imagino também contra o seu abuso e adulteração, o que me lembra logo George Orwell.
Veja a palavra “(Neo)Liberalismo” (capitalista), é o nome da doutrina que gerou a crise e que o PT mostrou como dar alternativa aderindo ao mesmo? O que não pode fazer, para justificar, é confundir o conservadorismo econômico, que é a ortodoxia, com o controle estatal: subjuga aquele a este e parece que o controle estatal é uma alternativa ao liberalismo. Aí podemos chegar a dizer como o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, que o medo que paralisa a ação estatal agora imitaria a República de Weimar, com uma
obsequiosa gestão pró-mercados do chanceler Brünning... [que] tangeu então a economia e o povo alemão rumo a um suicídio histórico perpetrado com doses letais de cortes de gastos públicos; erosão das reservas externas; fuga de capitais e consequente desemprego galopante”.
Não posso deixar de notar, antes de continuar, que as odiosas --- para Beluzzo --- políticas de contenção e de austeridade, são justamente as agora adotadas pela Grécia para tentar corrigir ter sido perdulária e ter levado adiante políticas sociais irresponsáveis. E contra as quais, os socialistas se levantam, chegando a causar mortes de inocentes, para repudiar as medidas que entendem ser draconianas.
Então a história se repete, em outra circunstância, e parece que não será esse o fim dessa história, como “prevê” --- clarividente de profecias que se autorrealizam --- Gonzaga Beluzzo.
Então, para combater isto, que levou à ascensão do nazismo, Beluzzo, hoje presidente do Palmeiras --- convenhamos, a minha avó com Alzheimer não lhe daria ouvidos ---, sugere:
1) administração discricionária das reservas cambiais;
2) estatização do crédito direcionado à produção; e
3) expansão do investimento público; na generalidade, justamente as ações tomadas pela Alemanha nazista após chegar ao poder (!).
Coisa muito parecida Obama vem, com luva de pelica, aplicando nos Estados Unidos; mas, antes, a luz amarela da Grécia veio primeiro.
Tornar-se o monstro para ter força suficiente para impedir que o monstro cresça. É exatamente isso, ainda que o sr. Beluzzo não o tenha querido demonstrar, que o Leviatã é perigoso, seja lá que forma venha a assumir, seja lá como. Se de um modo a República de Weimer era recessiva, o progressismo de Adolf deu em... Hitler [3].
Seria já então nem tão cedo para se concluir pela ação benéfica do estado à capacidade de gerar riqueza, de dirigir a economia de forma sustentável e favorecer o desenvolvimento?
A palavra “neoliberalismo” é uma daquelas que Geroge Orwell reconheceria, em “Politics and the English Language” (1947), na classe das que se dá o sentido que bem entende quem pretenda fazer uso dela, segundo seus próprios fins; assim, já começando por mal-definí-la, para refutá-la (o caso); porém, ao refutá-la, ao mal-definir, evitar prestar contas das conseqüências que advém quando se propõe algo novo e vazio no lugar de algo existente e que tem contra si suas mazelas sem que estas possam refutar seus sucessos. Também, assim permitindo que os autores de propostas vazias --- de termos intencionalmente equivocados --- esquivem-se de seu futuro insucesso e responsabilidade.
Não é de hoje que se contrapõe a “ética da intenção” --- que a tudo justifica pelas melhores intenções --- à “ética da responsabilidade”, de Max Weber, a qual converge com a noção de moralidade econômica em Adam Smith e sem a qual chamar alguém ou orientação geral ou política de “Conservador” é [o mesmo que] inculpar a salmoura do pickles pela crise.
A virtude econômica da riqueza (ainda pouca para alguns, mas a que há), que só existiu sob o liberalismo capitalista --- com os seus problemas intrínsecos, que motivam sempre de novo a crítica da “crise” ---, é ao mesmo tempo o sucesso da esquerda pragmática e o fracasso do liberalismo capitalista? Essa inversão, pela forma e não pelo mérito, deve pôr Orwell escavando com as unhas a terra sobre ele nesse momento[4].
Esse liberalismo da adesão pragmática é um liberalismo de outra natureza, que nunca se viu e que se tentarmos fazer comparações, encontraremos somente o pior, aquilo a que todos se recusam in limine. É o tipo de “radicalismo” (!) que se censura hoje na internet e nos jornais. A ciência política já notou que entre o desemprego e a liberdade o povo não escolheria necessariamente a segunda; em seguida a isto, dão-nos o estado empreendedor como forma mais eficiente para resolver alguns problemas a curto prazo, sem podermos prever o que só tem precedente no pior do século passado. E o pior desse nosso século, no século passado, só na literatura.
O PT tornou-se liberal? Ou, o PT provou a alternativa ao neoliberalismo? Dizê-lo “conservador” é uma heresia (tecnicamente), que o conservadorismo está ligado ao Direito Natural, que é o arqui-inimigo da esquerda, depois de Deus. Estas coisas não batem. Veja que segundo o sr. Pochmann, presidente do IPEA,
o atual modelo de capitalismo está em xeque, mas não pelo aparecimento de um novo projeto. Caberia, portanto, à esquerda construir essa alternativa”.
Um modelo de economia socialista não existe... “ainda”. O liberalismo a cabresto, como alguns cientistas políticos vem notando surgir na Venezuela --- e Chávez foi gestado dentro do Foro[5] ---, foi o modo político do estado soviético e do nacional socialismo na sua estrutura econômica (...o pior), que só passa despercebido quando o caráter estratégico de “fazer bons governos” fica convenientemente oculto.
O modelo de estado do liberalismo/capitalismo a cabresto parece ter sido uma das maiores heranças da Segunda Guerra, mas --- os jornalistas geralmente não o distinguem --- isso não significa que esta forma de estado, que se encaminha a passo lento a qualquer coisa que mereça o termo “fascismo democrático”, venha carregando bandeiras com cruzes que giram, seja lá para que lado, ou com que tipo de bigode esquisito apareça o seu líder populista. As marchas são as mesmas, o passo é outro e os archotes são também outros: “inteligência viva”, “hope” e o velho e bom “futuro” luminoso no horizonte crepuscular, sempre a um passo de si mesmo, assim como o pior.
Continua sendo, no fundo, aquela velha “luz da razão” luciferina de profetas revolucionários (à direita ou à esquerda, tanto faz), que é um tipo de insight que o homem de fé deve ter para “compreender” --- isto é, aderir imediatamente --- à essa boa-nova macaqueada. E, de novo, tão facilmente caímos hipnotizados pelo messias populista cujo culto promete a redenção terrena de todos os nossos males.
Se é bom perante o mundo liberal ter fama de ortodoxo responsável, não poderia deixar de ser --- se o senhor o soubesse --- desconversa dizer que pode ser constrangedor perante os ideais da esquerda, quando esta está hoje ainda atavicamente ligada aos seus velhos ranços, e como nunca.
O poder de fazer, delegado porém sem as amarras institucionais --- que a esquerda quer pôr fora --- dá, sim, em uma capacidade maior dos estados para melhorar a vida do povo, mas a que preço? O preço é a liberdade, mal compreendida no que realmente significa e desfeita pela lembrança da fome dos miseráveis. Uma granja alimenta um número maior de galinhas mais tempo e melhor que o ciscar, mas não dá para ignorar esse outro tipo de miséria que vem junto.
Não desconheço as razões que o levam a blasfemar contra o “capital financeiro internacional”, que são reais, porém a simplificação de fazê-lo desaparecer, para pô-lo em mãos... de quem? Prefiro o poder vil na mão de muitos que este concentrado em poucos “bem intencionados”. A premissa oculta aí quer dar a entender que o mal poderia ser reduzido com a racionalidade do sr. Beluzzo, suponho. De mim, desaconselharia. Mas talvez nosso maior problema seja hoje uma aproximação medonha entre socialismo, capital financeiro internacional e humanismo ateu, muito mais próximos, quando juntos, do 1984 de Orwell do que qualquer um já havia se dado conta com toda a consciência, mesmo o mais visionário cientista político --- além, é claro, novamente, de na própria literatura.
Seria o equivalente a um salto de King Kong por uma janela metafísica (cuja antevisão só pode ser literária), a encarnar o mais assombroso caso de crime da história da imaginação humana, o do macaco revoltado que matou Deus com um sorriso sátiro.
Esse grande “salto” para frente, que a esquerda sonha, um dia, traz consigo toda a sua herança macabra, seguida por zumbis, adolescentes, idiotas, ingênuos (puros), ressentidos, celerados, etc., i.e., as “minorias” todas.
No demais, por estranho que lhe pareça, há tantos mais entraves políticos e não, realmente, os econômicos; nem tanto por aqueles que querem sustentar-se como elite --- e os há ---, mas, no grosso, a repulsa a levar a todos sem cobrar-lhes aqueles princípios que são um dever que se tem em vista sabendo que uma maioria fracassará ao defendê-los. Vejo como ridículo e humilhante as reivindicações dos pobres perante os ricos, como se o valor que pudessem reconhecer fosse aquele contra o qual blasfemam acima deles: o dinheiro. Custa, por um instante, imaginar que talvez os ricos tenham se tornado ricos porque não estavam cobiçando o dinheiro dos ricos? Ou, se chegaram lá por este viés, sem virtude, então já se confundem bizarramente com essa blasfêmia dos que querem a igualdade compulsória a tornarem-se um dos contra quem blasfemam.
5. O espetáculo do crescimento, que o sr. retrata no artigo, que antes de ser de quem o realiza, é crédito da própria ortodoxia econômica, parece quando muito o efeito imediato do mínimo de prudência com aquele delay entre qualquer coisa à esquerda da liberdade econômica verdadeira, comemorada no seu artigo. Liberdade econômica que não se mede bem, até, pelo menos, que ela atinja o preço da cerveja, a qual hoje no Brasil é de 56,7%, a beira do abismo para “Repressor” segundo o Heritage Foundation.
Então, como que a salvação vem hoje pela campanha irracional, de pura repetição de slogans, pela “salvação do planeta” --- a “oportunidade” que se perdeu --- com a criação de um imposto mundial, justamente o que fez Delfim e Joelmir Beting chamarem coisa igual, para o Brasil de hoje, de política econômica suicida. Mais uma vez, enquanto pedimos compensações “por direito” (na história de novo) os Estados Unidos terão o mérito, e nós, a fantasia de uma “moral” que já foi aquela do PT --- a droga alucinógena na nossa água que os ecologistas não combatem.
Os pais do socialismo moderno (XIX pra cá) já sabiam que o Velho Mundo deveria ser totalmente destruído para que o socialismo pudesse se realizar, para que pudesse inspirar alguma esperança, pois é impossível ele ter qualquer chance de ser aceito se não sabotar o mundo para vender o seu remédio.
Atribuir, assim, ao PT o brilhantismo de um 10 no dever de casa, enquanto inclinava-se mais a gazear aula, é comemorar a cola como estudo --- que pode também render vários 10. É colocar o mundo de cabeça para baixo fazer do modelo da liberdade de mercado um fracasso apontando suas crises recorrentes da crítica marxista, sobre a qual --- não se pode negligenciar ---, pesa começar a ser vociferada precedendo sempre o pior do século 20. Liberalismo que não foi um fracasso nem mesmo para as espoliadas nações antes comunistas. E em vitória do socialismo o que a esquerda socialista sempre combateu e que agora só por estratégia unificada, do que se tem evidência, permite-se manter por algum tempo. Por algum tempo, até que possa avançar --- progressismo fatídico esse --- a essa promessa sempre um passo além, no futuro, que será então uma economia socialista original. Aí, sim, poderemos estar vivendo o fim do mundo como o conhecemos --- um para lá de semelhante 2012... ---, para qualquer coisa mais estranha --- ...ao modo asteca de sociedade ---, já que ninguém nunca viu algo assim além de na literatura.
6. Em outro artigo, “Um retorno a Adam Smith”, sobre uma passagem ali, intriga-me se o sr. realmente acredita que o Terror gerou as condições para a invenção (ou surgimento) do computador (que deve mais certamente à economia racional que àquela sinistra) --- a idéia de que a violência é parteira da história, que pertence ao coração do marxismo. Quando o certo seria afirmar que alguns problemas, como as crises (quaisquer), abrem espaço para mudanças --- que são então um rearranjo necessário (que pode ser, e geralmente é, de restauração), como quando se abre as águas com as mãos e elas voltam ---, mas que estas crises de modo algum estão ligadas necessariamente ao avanço da ciência ou ao que quer que seja. É até mais fácil observar o oposto, onde as falhas de antigos sistemas abrem espaço não para novas oportunidades, mas para os mais perigosos oportunistas, quando eles então ganham força e até parecem poder ser uma alternativa.
Marx entendeu que o mundo era o subproduto dos processos de produção, mas tentou mudá-lo pela ação política --- e disse mesmo em que passo, lento. Depois, quem o tentou novamente pela economia fracassou sistematicamente e sempre de novo e de novo e, agora, mais uma vez, como aquele lateral que jamais deixa de cruzar para a zona morta, no lado oposto do campo.
Se Lula, como li em sua defesa em outros locais, está provando que não produziu crise alguma, como se esperava e botava medo nos 800 empresários, isso ainda é um risco real, como se vê pela unidade de ação do Foro de São Paulo e por casos recentes. Lula pode não ser o motor na crise, mas pode ser a encarnação dessa casca de banana eterna no nosso chão. Já nem considero seriamente lhe dar algum mérito por ter desistido do pior, depois de ameaçá-lo.
Ao que parece, a revolução na economia fracassou de todo --- a qual Marx jamais exortou a que se fizesse abruptamente, como é do imaginário ordinário ---, para então mostrar-se mais acessível pelas reformas, enquanto à revolução coube a ação política. Para Heráclito a natureza se mostra melhor no seu ocultar-se. A Revolução tornou-se discreta e aberta --- para ocultar-se.
Nada de novo sob o sol”, diria o Eclesiastes.
7. A propósito de “Para voltar a crer” (03.12.09), penso que o artigo onde o sr. escreve sobre a superioridade moral a qual o Grêmio deveria aspirar é um exemplo de como os melhores valores podem ser usados para motivar-nos a ajudar o “inimigo” (não o Inter), ou ao pior [6]. Como quando se pede aos Estados Unidos e não à Rússia que detenha o Irã ou que trabalhe para a construção do estado palestino, cedendo-lhes às chantagens e ameaças. No balcão de negócios, isso é só truque: intimar o adversário a agir de forma honesta é, em si, um ardil conhecido e é usado sempre em situações precisas, seja em geopolítica, seja no futebol. Essa reticência prudente em atender de pronto aos sinais do adversário foi chamado de “jogo” pelos piores cafajestes. “Krämer nation” [Nação de lojistas], diziam os alemães dos ingleses e dos judeus: os alemães, da Alemanha do imperador Guilherme IIº, depois os nazistas e os comunistas tantas vezes; o que foi usado também universalmente contra os judeus, antes; e pela polícia secreta russa, a Okhrana; e depois pela KGB, e depois ainda e ainda, para inculpar o mundo ocidental, por suas falhas, à culpa de todos os males do mundo. E até por esta astúcia, que já se lhe imputa, ao inimigo.
Lula --- e o PT, que aspira ser o maior partido do Brasil de todos os tempos... se for o último ---, pode ser, e até agora é o que foi, o nosso Valium, um ansiolítico e hipnótico eficiente enquanto fazemos como bons liberais (que, previstos por Bakunin, tornar-se-iam notáveis amigos do marxismo), preocupando-nos com as estatísticas da economia e ignorando todo o demais.
*
Se os olhos são os espelhos da alma, não estranharia a Borges --- pelo peculiar impressão que lhe causavam os espelhos --- que há olhos que reproduzem labirintos sem fim; e por isto, ou por insistirem nas colas que põem na história Original, a permanecerem perdidos.
Novamente, desculpe-me pela impertinência e por aborrecê-lo.
Cordialmente; e um Feliz Natal.
[22 de Dezembro de 2009]
--- Jamais obtive qualquer resposta.
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O fio vermelho do crime
A “cola” é a expressão de um acréscimo de “tradutor”, em Borges e os orangotangos eternos (2000), a uma obra original. Mas pode ser também o “rabo” deixado para trás pelo criminoso que denuncia, segundo a máxima forense de que toda ação deixa rastros, a assinatura de seus métodos, a marca de Caim.
E é a busca por alguma verossimilhança, mesmo quando se trata de uma história fantástica. Ou, o perfeito inverso, que é válido, de que é preciso algum artifício para narrar uma história banal ocultando dela o que ela tem de fantástico, envolto numa atmosfera de banalidade fingida com a discrição de uma obviedade.
Afinal de contas, porque o criminoso sempre “volta” à cena do crime. N'O Pêndulo de Foucault, os “diabólicos” são os conspiradores que falsificam os fatos interpretando-os segundo uma chave mestra que se mantém abrindo portas indefinidamente; mas, de fato, variam pouco nos métodos, o que lhes dá um padrão. Como o “rabo” de todas as crônicas de Luiz Fernando Veríssimo, a sua assinatura na cena do crime.

Notas
1. Delfim Netto deu entrevista dia 20.12.09 no Canal Livre, comentando os motivos do Brasil ter escapado à crise, que só pode ser atribuído às instituições brasileiras (mesmo assediadas), por pressão do MP, a despeito da má gestão dos bancos centrais e da intervenção dos governos. Muita coisa que a imprensa dá por óbvio, mas o oposto. E não só nisso.
2. XIII ENCONTRO – SAN SALVADOR (EL SALVADOR) - 2007. Resumen Conclusiones del Taller Internacional. La Vía Electoral Como Componente de Victoria de las Fuerzas Revolucionarias - Uso Efectivo de las Elecciones por parte de las Fuerzas Sociales y Políticas de Izquierda.
3. Delfim disse também que esse tipo de economia, bem como as medidas mais rapidamente tomadas pelos governos, com fins eleitoreiros, são “vôo de galinha”. Mas, como dá para perceber rápido, geram estatística: de novo, “fazer bons governos” quer dizer isto.
4. Ouvi dizer que o filme Shinshing Cleaning traz algumas das virtudes do capitalismo, é de conferir. Mas a minha simplória ideia deste, e pelo qual eu reconheço poder levar o homem às mais altas realizações mundanas, é aquele da mítica família “Wayne”, de Batman, o “nobre” que goza do que tem e sabe que por isso dele se lhe cobrará mais. Ou a dignidade austera e a honestidade da família “Richie Rich”, para aqueles valores individuais que permitem a uma pessoa prosperar na vida. É claro que isso não pode deixar de distingui-las; não há igualitarismo com estes valores. E que na ausência dos valores, seja lá por que motivo, redunda em qualquer coisa que pejorativamente se possa chamar “burguês”, ou chegar a ser algo ainda pior. A massificação que o socialista denuncia na pequena burguesia é ela própria um socialismo, kitsch-minded uniformitarizados. Mas eu julgo que a nossa estratégia para fugir a esse horror não seja a do sr. Beluzzo, tornarmo-nos socialistas para lutar contra o socialismo pequeno-burguês.
5. Se está prevendo, do mesmo modo como ocorreu historicamente, o surgimento de uma elite nova dentro da Venezuela, ligada ao projeto boliviariano de Chávez.
6. Sobre a brincadeira de pedir ao Grêmio “superioridade mortal” para convencer o arqui-inimigo a vencer o flamango para permitir ao seu Inter tornar-se campeão brasileiro; é claro, o que era para retroativamente (ao final daquela partida) vexar o rival, e, naquele momento, induzindo sob ameaçar, discretamente. [Não Constava na Carta]

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