junho 24, 2010

Lula: o bom, o mau e o feio


Artigo de Moisés Naím, do El País, de 09 de maio de 2010.

A revista Time acaba de incluir a Luiz Inácio Lula da Silva entre as pessoas mais influentes do planeta. Certamente as atuações do presidente do Brasil afetaram a vida de milhões de pessoas e, no caso de seus compatriotas, muito positivamente. Mas Lula não merece apenas aplausos e admiração. Existem aspectos de sua conduta que são vergonhosos. Vejamos.
Lula será lembrado como um bom presidente, mas como um mau vizinho para os amantes da liberdade.
O que tem de bom. Dez milhões de brasileiros foram integrados à classe média entre 2004 e 2008. A pobreza caiu 46% da população em 1990 para 26% em 2008. A desigualdade na distribuição diminuiu. A hiperinflação é um fardo já distante. A dívida externa está em invejáveis 4% do PIB. As exportações se multiplicaram pro cinco em apenas vinte anos. E em si foi pouco, que na próxima década o Brasil pode chegar a ser uma importante potência petrolífera.
Graças ao seu êxito e ao seu tamanho, o Brasil é já presença indispensável nas negociações internacionais sobre clima, energia, finanças, desenvolvimento, proliferação nuclear e tudo o mais que desafia o mundo. Assim, Lula fez se tronar obsoleto o chiste pejorativo segundo o qual o Brasil é o eterno país do futuro. O Brasil alcançou muito do seu sempre alardeado potencial e não há dúvida que Lula merece enorme reconhecimento por esse êxito [--- isto tudo, de Naím, um belo esforço de encontrar méritos para equilibrar o que vem a seguir].
O que tem de mal. Lula é pouco generoso. Deveria compartilhar o crédito do sucesso de seu país com Fernando Henrique Cardoso, seu predecessor na presidência. Lula herdou uma economia reformada, políticas sociais e de vanguarda [!] e uma base muito sólida para continuar aprofundando a liberalização econômica [e o livre-ajuste do mercado] que explicam o atual êxito do Brasil. O grande mérito de Lula foi ter mantido, ampliado e defendido estas políticas, que contrastam com as posições ideológicas [opostas] que manteve durante anos. Lula liderou a oposição das reformas que hoje lhe trazem os aplausos do mundo.
Enquanto isso, nas cúpulas revolucionárias com os Chávezs, Castros e Ortegas do mundo, Lula compartilha elogios ao socialismo, mas em suas decisões, no Brasil, este brilha pela ausência daquela ideologia [superficialmente]. Lula foi um dos presidentes mais favoráveis ao mercado e ao setor privado e aos investimentos externos que o Brasil já teve. Diz com frequência que suas políticas econômicas de mercado servem para construir as bases para o socialismo. Poucos acreditam nele [E isso é bom?!!]. E é fácil supor que um dos que não crê em Lula seja ele próprio.
Lamentavelmente, o presidente brasileiro tampouco pôde impedir que em seus círculos mais próximos crescesse a corrupção que invade os governos da América Latina. Dizer que isto era inevitável é tão correto quanto reconhecer que a luta contra a corrupção nunca chegou a ser uma prioridade para Lula.
O feio. Lula da Silva foi muito bom para os brasileiros e muito mau para milhões dos seus vizinhos. Os déspotas que tem a sorte de serem amigos do presidente brasileiro e que estão arruinando os seus países, enquanto o Brasil progride, sabem que conta com o forte apoio tanto quanto com o silêncio cúmplice de Lula. Seu incondicional respaldo público lhes dá uma valiosíssima legitimidade internacional, o que os ajuda a atuar com ainda maior impunidade dentro de seus países. Seria ingênuo esperar que Lula fosse o protetor da democracia e dos direitos humanos na região. Porém, não deveria ser ingênuo esperar que aqueles que violam reiteradamente os direitos básicos de seus povos soubessem que não contam com a tolerância silenciosa de Lula e seu fraternal abraço nos encontros presidenciais.
Não seria maravilhoso que aqueles que estão encarcerados por lutar pela democracia em outros países saibam que Lula é seu aliado e não de seu carcereiro?
A lista das contradições, inconsistências e exemplos da dupla moral de Lula é triste e vasta. E não passa semana sem que cresça. A última foi a de obrigar a que fosse excluído da cúpula presidencial entre a União Européia e a América Latina o novo presidente de Honduras, Porfirio Lobo. Segundo o Brasil, Lobo --- que ganhou as eleições sem fraudes, tão comuns na região, de Hugo Chávez e Daniel Ortega --- não tem credenciais democráticas suficientes para estar na reunião. Isto vem do mesmo presidente que expicou ao mundo que Mahmud Ahmadinejad ganhou as eleições em seu país limpamente e que os milhares de iranianos que protestaram nas ruas estavam portanto como rebeldes torcedores de futebol depois que seu time perde.
Ao mesmo tempo em que Lula dizia isto, Ahmadinejad ordenada à pena de morte para alguns dos manifestantes. Feio, não? [Depois ainda, quando tripudiou sobre os pedidos de liberdade em Cuba para os prisioneiros de Fidel]
Por tudo isto, Lula passará à história como um bom presidente para seu povo e um mau vizinho para os amantes da liberdade.
*
Leninismo: mutatis mutandis
A reportagem do El País, que descreve com a acuidade parte do pior, que nenhum jornal impresso teve no Brasil, não ganhou as páginas dos principais jornais brasileiros, como as que serviram aos comentários laudatórios a Lula como os que o ligavam a uma miríade de prêmios postiços.
Ainda assim, o artigo de Moisés Naím é ingênuo quando se trata dos benefícios que contabiliza aos méritos internos de Lula.
Para saber se os dez milhões de brasileiros integrados à classe média entre 2004 e 2008 devem isso a Lula, caberia saber antes se essa integração não é o efeito inevitável da estabilidade criada pela ortodoxia econômica da social-democracia de Fernando Henrique Cardoso. Naím nota, no entanto, em parte apenas, estes méritos herdados fáceis por Lula.
E nem tudo vai tão bem, se a visão não for a mais imediata, já que as investidas de controle político e econômico do governo petista seguem uma lúgubre cartilha da esquerda. É sempre a ação possível do ideal utópico, sempre mais à frente. O governo é o timoneiro que desvia, recua, tenta de novo, com a antonomásia do “pragmatismo” pelo que é o mais descarado maquiavelismo, e “progressista” para o socialismo.
Esse é outro ponto que passa despercebido para Naím. Coloca a economia ortodoxa como uma contradição de Lula. Ao mesmo tempo em que Lula está a brandir a bandeira do socialismo, de fato não seria nada disso do que se trata, para Naím. Como já havia declarado anos antes Marco Aurélio Garcia ao jornal La Nacíon uruguaio, nunca deixaram de ser socialistas, mas havia a necessidade de uma “guinada à direita”, isto é, à economia em bases ortodoxas, para implantar com mais vagar o socialismo. Essa fórmula não é nova, não foi outro o modus operandi pregado por Karl Marx e executado por Lênin na segunda fase da revolução.
Lênin e Trotski riam dos revolucionários mais radicais que acreditavam que o voto democrático ou as “oportunidades”, sejam lá quais fossem, devessem ser recusados pela “luta” franca pelo poder. A artimanha, o oportunismo, o embuste sempre foram as regras para a estratégia revolucionária. Tem-se que notar que o esforço por esclarecer alguns socialistas sobre o poder do voto livre ainda existe nos encontros do Foro de São Paulo, onde se usa o termo pejorativo “eleitoreiro” em oposição à guerrilha e ao complexo de estratégias “não-regulares de luta”, isto é, os meios de alcançar modificações do sistema constitucional para aquilo que ainda se chama, não como mera teoria --- mas que então não será mais aceita como tal pelos socialistas ---, mas como prática, a “ditadura do proletariado”.
Mas o termo evoluiu, mutatis mutandis, por metalepse, a outras formas, mais brandas: diz-se hoje a “soberania do povo” que se obtém, por meios regulares (seu uso expandido para criar expediente a direitos), com plebiscito, ou por meio irregulares, como ocorreu em Honduras, com a tentativa de uma urna plebiscitária colocada ilegalmente ao lado da urna oficial. A superação destes obstáculos ou “adversidades” legais --- o impedimento ao terceiro mandato, a tentativa de extinção do Senado brasileiro, onde há mais o equilíbrio de forças entre os Estados ---, é um dos objetivos diretos da política socialista, completamente despercebidos por Naím.
Dizer, portanto, que ninguém acredita, nem Lula, nas suas intenções para implantar o socialismo, acaba servindo apenas de máscara ao deixar às claras as intenções que despertam o ceticismo, aceitando a premissa de que o socialismo é algo desejável de ser tentado. Quando o maior risco está justamente no leninismo mais discreto pós-revolucionário, nas estratégias que deram na criação do estado soviético.
Ao contrário do que diz Naím, Lula não fez o chiste tornar-se obsoleto, mas o contrário, uma vez mais reeditou a esse Brasil do futuro próximo, numa fase não dessemelhante àquela do período militar, quando o estado tomou conta do país e o colocou numa taxa de crescimento igual à da China atual. E o que aconteceu depois?
As análises imediatistas têm esse problema inato, negligenciando duas coisas mais óbvias: 1) na estabilidade alcançada e mantida --- o mérito real de Lula (um tipo de despreza automática de pilotar), se é que isso pode ser chamado mérito ---, enquanto se mascaram abusos discretos que criam condições previsivelmente danosas no futuro; 2) assumem riscos de um aprendiz de feiticeiro brincando com o poder que não conhece, a ortodoxia econômica que adotaram por herança de um sucesso alheio, ao qual se combatia e que pode ser que se perca com a confiança de que os fundamentos dessa ortodoxia possam ser lenta e continuamente ou de algum modo (para algo mais) modificados, por verossímil que seja, por quem não acredita realmente nela; 3) porque, politicamente, a “oportunidade” da economia ortodoxa é amiúde, ao socialista, mera estratégia para fazer aquilo que se repete ad nauseam nas atas do Foro de São Paulo, “fazer bons governos” para... Para “modificar o sistema desde dentro”. Para criar condições de estabilidade para a implantação plena do socialismo clássico.
Naím não liga que as críticas que faz, incluindo “lo bueno” de Lula, estão intimamente ligados numa estratégia conjunta para a América Latina.
*
Hoje, o povo brasileiro está muito perto de eleger a sucessora tacanha de Lula, dando à estupidez boçal da esquerda o poder pelos efeitos do mérito que eles não têm. As políticas econômicas da social-democracia, mais ortodoxas que a da esquerda revolucionária mais radical, legou a esta irmã mais feia os meios de parecer com mais graça, imitando, com o “Lula paz e amor” de Duda Mendonça, o layout dos social-democratas.
Ao segurar a economia nos moldes da social-democracia, sem ter nem méritos por ela nem a compreender, mas pegando o jeito de mandar a coisa andando, o que o PT tem de diferente é justamente a ação política leninista do fingimento, do embuste, do truque, para chegar ao poder, e no poder, para mantê-lo; e mantê-lo para modificá-lo, desde dentro. E isto não tem nada a ver com a economia, mas vai afetá-la, mais cedo ou mais tarde.

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