março 12, 2010

Saramago e o demônio da perversidade




Saramago e o seu daimon da “inteligência viva” --- feito à sua imagem e semelhança ---, que deve, segundo o escritor, ocupar o lugar do Logos encarnado.
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Ilusionismo
O escritor português e Nobel de Literatura (1998) José Saramago chamou o papa Bento XVI de "cínico" e disse que a "insolência reacionária" da Igreja precisa ser combatida com a "insolência da inteligência viva" (Roma, 14Out2009. EFE).
A profundidade da inspiração literária de Saramago é a minha anta, poderia dizer, como Diogo Mainardi. Não que me custe desconfiar de um prêmio Nobel --- Arno Penzias e Robert Wilson que lhes contem ---, mas às vezes é preciso tomar um soco de estupidez na cara para começar a ver as coisas.
Em alguns momentos do Evangelho segundo Jesus Cristo, que eu não consegui ler --- agora começo a entender a razão ---, a grosseria de certas imagens deram-me uma náusea parecida a que senti ao ver O cheiro do ralo, de Heitor Dhalia --- o que não aconteceu com Grande Sertão: Veredas, nem com o Finnegans Wake, com uma linguagem definitivamente estranha à Alexandre Herculano e Machado de Assis.
Se o Português dos clássicos da língua é hoje “reacionário”, não espanta o estilo de Saramago; e se o estilo é o homem, o homem às vezes torna-se, realimentando-se, o estilo. No caso do seu Evangelho, uma monótona e deprimente ladainha que se consagra a ver Jesus à luz de sua própria miséria espiritual.
Outrossim, repete aquele clamor de um Geofroy Onfray, do Manual de ateologia, no qual exorta a “um esforço mais... para aumentar a claridade das luzes. Um pouco mais de Luz, mais e melhores Luzes” (Instrodução, 4). Essa “Luz” é, por certo, a luz da convicção, que deixa, e não pode não deixar, tudo sempre mais claro, a luz da fé cega, que não hesita, porque a tudo ilumina sem mistérios.
Ora, por “inteligência viva” --- se é que não está a referir-se mesmo só a si próprio --- deve querer dizer que, contra as fábulas bíblicas, aquela é o que bem lhe aprouver dizer nalgum momento de ócio escarnecedor, desde que seja de sua lavra.
A inteligência viva da criação literária é descrer do mito para passar a crer na “vida real” --- na intrínseca condição de miséria materialista dos que não creem no que não veem. Reinaugura assim a civilização não mais sobre Sócrates, mas sobre os muito doutos aqueles que interpretam no Fedro, segundo o mesmo, que no mito de Orítias e de Bóreas tomam por óbvio o escorregar de uma donzela afoita no penhasco ao ser apanhada por uma lufada de vento solto.
A Luz da Razão era, para Sócrates, Ilusionismo.
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O que Godot não criou não é posto sobre a mesa
Que Ratzinger tenha a coragem de invocar Deus para reforçar seu neomedievalismo universal, um Deus que ele jamais viu, com o qual nunca se sentou para tomar um café, mostra apenas o absoluto cinismo intelectual (EFE).
Declarações intempestivas como esta deveriam causar polêmica, o que Saramago não quer, não por ofensa à fé cristã, mas pelo ridículo que faz passar um vencedor de prêmio Nobel de literatura... i.e., faz passar o Nobel. Obama e Saramago diminuíram o valor do galardão, mas talvez isso não signifique lá grande coisa, já que os valores de Saramago também não sentam com ele para tomar café.
Pensando bem, agora, não me lembro de ter encontrado imaginação literária no pouco que li de Saramago, talvez tenha que tentar encontrá-la, mais uma vez, mas --- o que me parece mais certo --- talvez não valha a pena.
Quem, afinal, acreditaria em algo que jamais viu? Eu jamais tomei café da manhã com o risco de extinção ao qual se atribuiu pender sobre os pescoços dos ursos polares, logo... não tenho porque acreditar que ele esteja sob risco de extinção, o que, em pouco tempo, caso se cumpra (por qualquer motivo longe da fé do IPCC), ninguém mais, jamais, terá a chance de tentar se sentar com um para comer carne de foca. Deve ser o efeito da “inteligência viva”, da qual fala Saramago, esta cria o que acredita e faz desaparecer o que desconhece.
Por “medievalismo” devo entender certamente aquele período “arcaico” --- e todo mundo sabe que o que é arcaico é risível, que todo mundo sabe, e que “moderno” é superior --- no qual os homens de cavalaria acreditavam que lutar contra moinhos de vento era um ato de coragem insuperável, em nome do papa.
Se buscar a Deus pode fazer-nos encontrá-Lo, o ceticismo incrédulo parece que pode fazer desaparecer coisas materiais existentes, que até o idiota clínico encontraria com o tato, e assim realizar admiravelmente os fundamentos do ceticismo.
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Linguagem e magia negra, política e possessão
Mas que curioso, o homem recluso sentiu o dever lhe chamar, então como que se levantasse contra dragões ameaçadores --- o “Fascismo”: --- “Sempre fui um ateu tranquilo, mas estou mudando de idéia”, encarna, suponho, o oposto de Dom Quixote.
O Nobel de literatura parece que está mais para o gênero mágico-esotérico, para a literatura de misticismo (um Paulo Coelho da ira), e como sempre acontece, acabou enfeitiçado pela própria feitiçaria --- se bem que é coisa que acontece mais a analfabetos funcionais e a noviços.
Saramago destacou que o fascismo está crescendo na Europa e mostrou-se convencido de que, nos próximos anos, ele “atacará com força. Por isso, ressaltou, “temos que nos preparar para enfrentar o ódio e a sede de vingança que os fascistas estão alimentando(EFE) [grifei].
Saramago poderia começar definindo o que ele quer dizer por “fascismo”, já que o uso da linguagem em termos vagos e grandiloquentes foi um dos meios do próprio fascismo, como ele historicamente apareceu. Mas basta, antes de saber do que está falando, para se inclinar ao ódio contra a Igreja e a vingança contra Deus! Saramago é um socialista de pleno, é inegável. Um sujeito completamente de cabeça para baixo.
Ter um Dom Quixote, socialista e ateu, falando, é sempre bom, já que dá sempre em tiradas cômicas, enquanto ninguém morre, é claro.
George Orwell escreveu em “Politics and the English language”, de 1947:
A palavra Fascismo não tem outro sentido senão tanto quanto um “alguma coisa indesejável”. As palavras democracia, socialismo, liberdade, patriótico, realismo, justiça, têm, cada uma delas, vários sentidos diferentes, os quais não podem ser reconciliados um com o outro. ...Palavras desse tipo são usadas conscientemente de forma desonesta. Isto é, as pessoas que as usam têm cada uma as suas próprias definições delas, mas deixam seu ouvinte pensar o que bem entendem noutro sentido [desde que sempre invocam os mais altos valores sociais]... (inMeaningless words”).
Bem a propósito, denuncia esse tipo de manifestação política --- que não há, como diz Orwell, no nosso tempo, o que não seja político --- que justifica tudo em nome de uma verdade superior, um estado perfeito de coisas a realizar, ou o demônio da perversidade weberiano da possessão que fala pela boca dos que não falam nada de si próprios.
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Consenso: revelação laica
Se Saramago tivesse lido a passagem do Pequeno Príncipe onde o Pequeno pede ao rei do mundo que faça o sol nascer, e ele diz que o fará, ...lá pela aurora, na hora em que o sol tinha por hábito --- e parece que ainda tem --- nascer, teria entendido que Thomas Paine (Age of Reason) comete um erro juvenil ao querer tomar as leis de Deus como normas arbitrárias e cruéis de um tirano. O rei justifica dizendo que não seria tolo o suficiente para ordenar algo impossível.
Parece que toda a modernidade sofre de algum tipo de demência satânica, as provas não deixam de pesar, afiadas, sobre os pescoços dos dissidentes --- e, segundo os entendidos, mais ainda dos seus próprios, os aliados de outrora.
No contrato social todos os homens são o que são, naquilo que se parecem com os chimpanzés, a maior parte --- logo: A Revelação Laica é uma obviedade gritante, de todo evidente, porém inventada; então, desde logo, uma revelação do Sagrado Consenso com fundamento naquele princípio reconhecido em Jesus por Thomas Paine: filantropia.
É um Espírito Santo a seu modo, o Santo Consenso, que permite-nos perceber a boa-nova do Contrato Social do Sacro-Santo Estado Laico. Finalmente, um rei que manda em alguma coisa; a natureza que fique enclausurada no seu reacionarismo; as leis supremamente justas, nós as faremos; nosso direito consuetudinário rápido como o bruxulear de nossas Luzes é o Consenso, inspirado por nenhuma pomba feia. Teremos chefes quando precisarmos, para mediá-los, aos nossos direitos; nada, em nenhuma hipótese, aceitaremos de novo de outros sacerdotes, que se supõe representantes de Deus na terra, desse Deus desconhecido que não fuma, não bebe, não deseja e que, por isto, não existe. Já eu próprio estou a sentir alguma vertigem por não ter bem claro em mente se ainda sinto o chão sob os meus pés.
A maior verdade, a mais forte evidência, já não tem como não ser o que é, algum aspecto psicótico da realidade que flui, evanescente, incerta.
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Condenado à morte sem direito de defesa
"As insolências reacionárias da Igreja Católica precisam ser combatidas com a insolência da inteligência viva [que piegas!], do bom senso, da palavra responsável. Não podemos permitir que a verdade seja ofendida todos os dias por supostos representantes de Deus na Terra, os quais, na verdade, só tem interesse no poder" [Comentei (!) e grifei].
Segundo Saramago, a Igreja não se importa com o destino das almas e sempre buscou o controle de seus corpos. Para quê?... Qual é o grande benefício do poder da Igreja? Carrões? Casas em ilhas paradisíacas? Orgias? Saramago está confundindo o papa com Max Mosley. E Deus com “o Poder”. Para o ateu, não é que Deus não exista, mas ele tem outro nome: Poder.
Michael Foucault escreveu alhures, “O lugar do rei é um lugar vazio. Sem o rei, há o poder do rei --- in abstracto, assim purinho... E este pode ser tomado. De Saramago a Foucault vamos de um Hamlet desesperado ao sartreanismo de Macbeth como condição consagrada do homem. Claro, sem aquela parte desagradável da consciência pesada. O mesmo Poder, para Michel Onfray, encarna uma conspiração de 2.000 anos, bem mais fácil de acreditar, para ele, já que é da evidência que as suas Luzes podem produzir.
Lembra-me um hedonista ateu que acusa a religião de ser ópio das massas, que impede as pessoas de ver a realidade --- a realidade de um hedonista ateu?
É um duplo ressentimento este, de Saramago: pela disciplina dos corpos que a igreja impõe, e a que Deus nos “impõe”, com a morte. Com 86 anos, o que está na cara de Saramago: medo de morrer. Parece-me agora que dispender a vida, sem sentido, dá em Saramago no fim da vida.
Vaidade, diria o Eclesiastes --- “Alguém como eu, morrer?!
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Bastante pouco sensato!
Deus, essa criação literária, na realidade tão simples, bem poderia ser de Saramago, mas para a sua infelicidade, alguém o inventou antes. É por isso motivo de grande ressentimento ao autor português. Crítico feroz da criatividade literária bíblica, Saramago parece querer substituir a mitologia judaico-cristã pela saramagueana --- um Moisés socialista?! Um João materialista!! ---, e começa com isso a substituir o Espírito Santo pela “Inteligência Viva”, que, esta sim, é representante da Verdade.
Como todo socialista ele odeia a violência; e Deus, esse sátiro fantasma é o grande genocida que a todos condenou à morte. “Revoltante!”, é esse sentimento piegas e fingido. Para Saramago, "O Deus da Bíblia é vingativo, rancoroso, má pessoa e não é confiável". Mau Deus, mau Deus!
Aí eu tenho que ler que esse “reavivando a polêmica(AFP), de comentário por ocasião do lançamento de Caim, o livro mais recente: qual polêmica? O que Saramago diz dá, no máximo, para pensar que há alguma coisa errada com o mundo (ao ouví-lo), mas que, para além disso, toma as manifestações de rancor do escritor premiado já pela credibilidade do que diz. (Os méritos de Obama e Lula, sobremaneira.)
Certamente esposa aquela estatística bíblica --- bem a propósito de estatísticas, o quanto valem ---, que Satã matou menos que Deus na Bíblia. Saramago pensa que Deus deveria agir como Lula, que é incapaz de tomar uma só atitude de admoestação contra o pior, nem punindo alguns poucos; é mais magnanimidade que pôde Jesus, capaz de negociar até mesmo com Judas! Judas lhe teria sugerido arrecadar moedas pelos milagres: todos têm que ceder um pouco, afinal de contas. E a todos é só abraços; sai sempre conciliador em todas as fotos, é de uma piedade, de um perdão, que supera o Supremo naquilo que atribui uma confusão de Deus, confusão entre misericórdia por transigência e paga política.
E voltou suas baterias contra a Igreja:
"O que eles querem e não conseguem é colocar ao lado de cada leitor da Bíblia um teólogo que diga à pessoa que aquilo não é assim, que é preciso fazer uma interpretação simbólica, e a isto chamam exegese".
É; de fato, o sacerdote do anti-teísmo, Saramago, que denuncia outros sacerdotes os quais querem determinar como as pessoas devem viver. O socialista Saramago, muito menos opressor, não se atreveria a conduzir o comportamento das pessoas, o que seria algo herético à natureza símia do homem; ele apenas propõe um mundo governado pelo socialismo, que não conduzirá ninguém a fazer o que não queira, quando já não pudermos nem mais pensar nisso.
Alguém lhe sugere uma conduta, lhe pede que opte por ela, mas você pensa que não deve, então adota nenhum modo de vida. É possível? Há muitos modos de vida, mas alguns são melhores que os outros. Convença-te por ti mesmo; ou escandaliza-te. Saramago escolheu o seu modo de ganhar a vida, ateu, socialista, que crê na família, no bom senso... Para conciliar estas coisas, só mesmo crendo no pode redentor da “inteligência viva” --- uma fé não que não perceba as contradições intrínsecas a estas coisas, mas que as sintetiza numa adesão perfeita e amorosa. No futuro, por certo.
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Deus como Doutor da lei
Segundo Saramago, a Bíblia é um "manual de maus costumes", o que o prova as prevaricações que grassam na descendência incestuosa de Adão e Eva, de Caim e Abel, e nesse velhaco do Noé. A consistência de Saramago leva a Igreja a declarar que ele faz uma "operação publicitária".
"Na Bíblia há crueldades, incestos, violência de todo tipo, carnificinas”, é o que não pode ser desmentido para Saramago. A mitologia do Socialismo, ao contrário, só tem imagens literárias redentoras, um mundo sem mortes, igualitário, de bem-estar radical, depois que ele chegar.
A verdade óbvia e evidente, que o bom senso revela; só Deus não viu.
Sou uma pessoa que gera anticorpos em muita gente, mas não ligo. Continuo fazendo meu trabalho.
Os anticorpos formam-se perante o proferir a palavra revelada que nasce de sua boca, feito o que materializa um slogan, que não há nele às claras, enquanto prega a “inteligência viva”, diz que as leis de Deus são injustas e põe-se a chorar. Anticorpos à pieguice, à autopiedade, à arrogância de quem quer substituir as escritura bíblica pelas suas.
Aí, como Thomas Paine, tem lá o seu modo particular de interpretar as escrituras sob a luz da própria obra.
Deus, “que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado... mas que não deixa ninguém impune” (Êxodo 34:7). Essa passagem foi execrada por Thomas Paine como “contrário a cada princípio de justiça moral”.
Perante mim, ninguém é puro de si mesmo, é como está esse anátema, que é desde a queda do homem, na origem no mito adâmico, a culpa que compartilhamos com o próximo. Isto não é uma lei --- como um “contrato” ou “aliança” ---, é uma descrição da realidade.
Deus, Onipotente, é o Bem; e como o Bem, não poderia fazer o mal; que é, por exemplo, punir o infame?
Curioso o raciocínio de Saramago e Paine, mas melhor deixar este n'algum bestiário medieval modernista, talvez o feiticeiro da desimaginação literária, o novo messias cabalista, encantador de golens socialistas.
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Inspiração Negra
Juntos na morte --- esse deveria ser o lema da fraternidade de Saramago e o seu retrato definitivo. Contra Deus, melhor a morte!, diria o velho Sabujo, farejador do próprio cadáver. Por que Deus o condenou à morte, ele se vingou de Deus abraçando a morte como um símbolo de resistência, atrás de alguma dignidade, que lhe sobra. Daí, suponho, deva-se compreender que Deus seja “reacionário”?
As interpretações da Bíblia de Saramago lembram muito aquelas de Thomas Paine, onde um breve apólogo deve explicá-lo melhor...
Diria o herói saramagueano a Deus na beira de um abismo ao qual ele desejava livremente atravessar:
- “No teu livro está escrito: Morte àquele que precipitar-se ao abismo”
- Mas outra vida, na outra margem, melhor há-de me esperar, longe de ti... Atravessarei!!”
Deus, nesse momento, daria a graça de alguma atenção a Saramago, mas com aquela frieza que costumamos ver do universo para com nós: 

- Em verdade vos digo: Aquele que no abismo precipitar-se, lá no fundo encontrará a sua morte”. Revoltado, o herói saramagueano cospe para cima... e o cuspo, de volta, lhe dá na cara. Praguejando aviltado, sai da presença de Deus e vai-se dali, até em casa, onde busca a família, mulher e filhos pequenos.
De volta à beira do abismo, vocifera, com o que pensava revelar aquele Deus de opressão e ódio:
- Agora estou aqui, e com minha família... E nada me impedirá de atravessar o abismo, ou...”
    Trovões e nuvens escuras pareciam pressagiar uma reprovação. O herói compreendeu assim, ainda que tivesse alguma dificuldade com a linguagem simbólica:
- Avançarei para o abismo! E agora, Ó, Deus!!” --- perturbado, acossava o Supremo no céu --- “Seguirá a tua lei ainda, e matarás também a minha mulher e filhos pequenos?”
É assim que Thomas Paine deve ter chegado a interpretar aquele trecho do Êxodo, não sei apenas se com essa pieguice patente ou, sagazmente, por má-fé; e Saramago o mesmo... Nota-se fácil que se tratam de espíritos (que se pensam com a luz da razão) superiores.
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Saramago, um brasileiro!
"O direito de refletir sobre isso é de todos nós", diz ele. Por que então não começou? As premissas da diatribe são já o de que está falando Saramago: o hedonismo ateu. Não é apenas propaganda, é a mentalidade de um repetidor de slogans. É isso que quer dizer “inteligência viva”?
Denuncia "a intolerância das religiões organizadas", contra as quais devemos aquelas “reflexões” acima; mas eu fico com Nelson Rodrigues, que denuncia a intolerância da estupidez onipresente e inamovível.
"Às vezes dizem que sou valente...” --- meu Dom Quixote! --- “Talvez seja valente porque hoje não há Inquisição”. Há coisas piores, há os medonhos moinhos de vento!! Oh, Saramago, valente! “Se houvesse, talvez não teria escrito este livro. Me apóio na liberdade de expressão para poder escrever", aí o noticioso escreve: “ponderou...”.
Esse “ponderou” só pode ser um deslize do jornalista no lugar comum, não tem outra explicação.
Saramago é brasileiro! Como se sabe muito bem por aqui, no Brasil, o direito à livre opinião é uma obrigação inalienável e compulsória da nossa democracia. E ai de quem não der a sua opinião, ai de quem tentar provar algo, ai de quem falar a verdade, que já provou-nos Pilatos que até os deuses se calam perante a opinião do relativismo absoluto. Depois desmentiu-se; mas isso é outra história.
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Histórias para adultos
Deus não fez nada. Depois, decidiu criar o Universo, não se sabe por quê, nem para quê. Fê-lo em seis dias, apenas seis dias. Descansou ao sétimo. Até hoje! Nunca mais fez nada! Isto tem algum sentido?" (por ocasião do lançamento de “Caim”, em entrevista para a Agência Lusa).
Ele questiona as “razões” de Deus para criar o universo (!), imagino que ele não tenha entendido também aquela passagem da mitologia babilônica onde Marduk, herói, mata Tiamat, o caos, mas Tiamat deixa-se matar ser morto --- por Marduk --- num único e indivisível movimento.
Pobre academia, que sofreu o maior logro da história (até Obama mostrar que está a se tratar sempre de outra coisa), ao premiar para o Nobel de literatura um analfabeto funcional --- e, pior, aluno que não faz nem o dever de casa.
Na sua diatribe enfadonha --- e, não se enganem, sem nenhuma inteligência, que lhe faltou completamente, apesar do talento --- Saramago bufa ventríloquo da sua consciência ideológica, que Deus fez em seis dias, ora-pois! Saramago limita-se a um inferior bem baixo, o que me faz pensar que ele não tenha lido Moby Dick pelo mesmo motivo que desdenha as Escrituras. Aí a diatribe, que quer ironizar a contagem de seis dias de trabalho e um de descanso, o sétimo --- que arbitrariedade! Disso, Saramago tira a tirânica arbitrariedade de Deus. Ah, esse Deus danadinho!
E “[Deus] nunca mais fez nada”... Está bem, está bem, alguém dê, por favor, um abraço em Saramago. É carência pura; está apenas precisando de um pouco de atenção o garotinho de calças curtas.
Isso que dá ler histórias de adultos para as crianças, depois elas querem colo.
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Sacerdote semiótico
Com suas dúvidas infantis Saramago quer, bem como a corrente pós-Frankfurt, nos dar aulas de interpretação para dizer que nenhuma interpretação há senão aquela mediada pelo sacerdote marxista e semiótico.
Saramago deixa-se levar pelo daimon revolucionário de Thomas Paine, para verter para o bom Português a palavra revelada pela sua inspiração literária.
Pois justamente ele, que denuncia o sacerdote, é que pretende que a sua interpretação que desfaz a sagrada escritura seja aquela que carrega a verdade. E que torna a Bíblia em propaganda cristã com o fim de controlar as massas --- 2.000 anos de propaganda!
A “inteligência viva” de Saramago se parece mais com o Sabujo do Diabo.
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O portador de outra luz
Saramago tem aquele ódio que nasce da ignorância recalcitrante, adquirida por uma indefectível adesão, pura e simples, e do ressentimento, que só a ignorância tem, o ultraje histriônico contra Deus. É aquela horrorosa ignorância do homem letrado, vaidoso e arrogante. Em vez do homem caído, um Lúcifer ereto, injustiçado por Deus: o “Portador da Luz” --- no caso de Saramago, “A Inteligência Viva”.
A “luz da razão” de outrora, que se espraia difusa como o crepúsculo, relativista, decadente, niilista --- culto de deuses mundanos como o Socialismo, o do deus Asteca, o do deus da morte.
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Para o fundo do poço e aquém
Portugal está em óbvia decadência, e a prova disso é que o seu prêmio Nobel de Literatura é Saramago. O Brasil não pode ser decadente em nada, porque seria preciso inventar um novo fundo do poço para isto --- “Por aqui e aquém!” deveria ser o lema na bandeira no lugar do que há.
O daimon da “inteligência viva” de Saramago, feito à sua imagem e semelhança, é como um Azazel travesso, cheio de boas intenções, mas de acidentadas realizações. Segundo o escritor, essa inteligência viva, seja lá o que quer que queira isto dizer, deve ocupar o lugar do Logos encarnado, trazendo-nos a boa nova do hedonismo ateu e do socialismo.
O homem depois de velho deveria evitar se expor ao ridículo e ao vexame público. Mas não se fazem velhos mais como antigamente.
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Se, como diz Sartre, “O silêncio é reacionário”, a boa literatura o é também; e o é a ave do céu e a pedra do rio; é-o o rochedo da montanha e o céu e a vida: não estranha querer depor Deus de seu trono. Para Saramago, Sartre, Hemingway, e mais distante (e abaixo), L.F. Veríssimo, e tantos outros, companheiros de viagem, a insurreição é um rito negro à morte, um levante no inferno que é o próprio existir.
Parece-me que essa gente perdeu alguma coisa do essencial em algum ponto de suas vidas.

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