fevereiro 02, 2010

Bulas sintomatológicas


Como fato positivo...” (1), a despeito da insuficiência que os testes do Enem mostraram para a metade dos alunos brasileiros, o editorial de ZH conclui pela superiodade da razão e da competência.
Falta-nos, pelo que entendi, uma racionalidade igualitária, que se ofereça como direito inalienável a todos, mas então me vem a pergunta, Quem a tem antes, que a possa ensinar-nos?
Para usar a racionalidade, poderíamos começar em ato no momento mesmo em que clamamos por ela, estou errado? Ou já está a se confundir a “razão” com a crítica estéril de novo e o seu mal hábito de tagarelar com clichês?
O que será exatamente o “processo brasileiro de ensino”? Por que parece-me que dizer isso ao invés de “a educação” já dá até para ver uma máquina complexa funcionando com Chaplin dentro, por que tenha ali caído e desde lá a veja melhor que todos, como se fosse um mundo obscuro, um subterrâneo como o de um sistema digestivo.
Então já não podemos pensar senão com as metáforas gastas dos “mecanismos” e “processos” da educação.
Doutro modo, frases desse tipo parecem-me que não passam de uma forma de prolongar a frase até que a reflexão tenha perido o de que se trata e suavemente escorregar para aquelas sequências de frases que se as complementam com expressões dotadas de desejável efeito analgésico.
Por exemplo, eu que gosto muito das orientações que George Orwell nos deu em Politics and the English language”, logo penso que O erro persistente que ocorre no processo brasileiro de ensino público poderia ser dito melhor dizendo A educação no Brasil não está dando conta de ensinar aos jovens.
Há pressupostos ocultos demais na primeira frase, que tem uma única função de enunciar o problema, e que enquanto não são resolvido na frase não podem ser resolvidos na realidade, por certo.
Quanto mais perdemos o de que estamos falando, mais engenhosa, superfluida e cheia de volteios abstrusos (no lugar de abstratos) ou azo a coisas simplesmente sem sentido aparecem.
O horroroso “esteja sendo...”, nesse caso, “...discutido”, é o que equivale a um surdo e impessoal desejo e não passa disso. Eu ouço outra coisa: tomara que alguém esteja pensando esse problema, já que nós, de nós mesmos, percebemos somente que alguma coisa está errada. Mas, obviamente, com racionalidade e competência, quem se dedique ao problema o resolverá.
E termina afirmando que as avaliações, como esta do Inepeto --- a propósito, cujo acrônimo “Inep” (sem o “e”) quer dizer Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, mas acrescentaria (com o “e”) Ex-Tatísticas e Outrosfins ---, são a necessidade de se ter acesso aos meios de produção de índices que nos permitam investigar como produzir os resultados adequados --- ! --- e desde aí resolver o que está errado com a educação. Estas palavras seguem a melodia aprazível do descaminho.
São apenas a formas de produzir a estatística que nos possa fazer ver e jamais entender o que se passa com a educação, o que deve caminhar inevitavelmente para um acerto do método de avaliação que vá melhorando as notas dos alunos até o insuficiente aceitável.
O real escândalo, no entanto, é o editorial de Zero Hora levar a sério os testes do Enem depois de ler a propaganda governamental nos testes, que virou piada em todo o Brasil, a qualidade estupidificante e as pegadinhas na maior parte do teste.
O culto estatal pelos concursos públicos, pelos vestibulares e que culmina na cédula eleitoral, ironicamente, é uma forma burocratizada de escolher o mais competente nécio dentre todos, salvando-se os que sabem mais que os outros, mesmo assim, sem confundí-los às raras exceções que são bons alunos e que não se submeterão à modorra de trabalhos que buscaram porque amam um bom salário.
Não há melhor maneira...” é o estertor aquele que o azedo dá às vezes, como efeito aqui da ingestão de uma frase apascentadora: “...de levantar os problemas e... enfrentá-los com racionalidade e competência”.
Além de levar o teste do Enem a sério, invoca a razão --- talvez como Saramago, a “inteligência viva”, como diz ele --- para em seguida declarar uma vacuidade expressando-se de modo simplório e inconsciente.
Abaixo do limite de insuficiência que critica para a educação, e sendo esses mesmos sintomas da moléstia que acusam, os editoriais de Zero Hora são bulas de um diagnóstico diário dos efeitos que o remédio vem nos causando.

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