novembro 25, 2009

Fascismo, democracia e messianismo


Reacionário, fascista, direitista e conservador vêm sendo usados sem que ninguém tenha a mais mínima idéia de ao que se está referindo; os termos são usados simplesmente para blasfemar, espumar raiva e difamar.
É claro que quanto mais precisa seja a língua, como lembrou George Orwell, mais fácil é passar a se tornar adicto de benzodiazepínicos e literatura de auto-ajuda. Para que afinal gastar com medicamentos caros se podemos ter isso no modo como usamos nossa própria língua, não é mesmo?
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Fascistas democráticos
Nesta segunda, no programa do Jô, o gordo pergunta a Reinaldo Azevedo se ele é mesmo Reacionário e Conservador --- Jô meneou a cabeça quase como um “Ora!...” ---, imagine só! O termo “Conservador” parece que é o que logo vem à mente: aquilo que vai nas latas de pepinos. Logo, se você usava nos anos 70 cuecas samba-canção listradas, é bem provável que alguém lhe imagine nu com as tais cuecas defendendo austeramente suas idéias retrógradas. Está explicada assim a aversão aos Conservadores --- se bem que para os pepinos eles fazem bem.
Dias antes aparece Saramago, com uma declaração destas boboca que só não é mais pelo mal estar que causa vinda de um laureado Nobel de literatura --- depois ainda falam das nossas eleições à Academia Brasileira de Letras.
A declaração de Saramago (pela EFE):
Saramago destacou que o fascismo está crescendo na Europa e mostrou-se convencido de que, nos próximos anos, ele 'atacará com força'. Por isso, ressaltou, 'Temos que nos preparar para enfrentar o ódio e a sede de vingança que os fascistas estão alimentando'” [grifei].
Vamos comparar à declaração do Juiz de Todos os Tribunais, Tarso Genro (do Zero Hora):
A Itália não é um país nazista nem fascista, mas vem sendo constatado um crescimento preocupante do fascismo em parte da população italiana” (p. 12; dia 21/11/09).
O presidente do Senado italiano chamou a declaração de Tarso de “patetice”, que, é claro, é o que ele deve dizer, mas não o que nós deveríamos aceitar, já que Tarso infamar a alguém ou uma nação de “fascista” tem uma função bem conhecida da propaganda difamatória leninista, a fé do Superior Juiz de Todos os Tribunais e o que lhe garante poder ser um Juiz Supremo.
O mesmo, para o que se entende por Democracia, encontra-se em “Coerência despercebida”, e também naquela declaração que transcrevi no título Sempre dizemos outra coisa, quando Lula esteve com Chávez, e que está abaixo:
Este é o maior período de democracia que o Brasil já passou (20 anos). Estamos num processo de construção da democracia, mas nada impede que daqui a algum tempo, apareça um partido político, um conjunto de deputados, que proponha mudar a lei […] e que permita ter três, quatro eleições... Isso pode acontecer. Na hora que você tiver instituições consolidadas, e tiver liberdade política, e o povo quiser, isso vai acontecer. Eu sou criticado no Brasil por defender o processo aqui na Venezuela, pois [é porque] eu sei quantas eleições você [Chávez] já [se] submeteu, quantos referendos, quantas votações, e eu acho que isso é o exercício da democracia”.
Esse é o sentido de democracia, que se juntado com a declaração recente de Lula, regozijando-se de que dessa vez não teríamos um candidato de direita, mostra que Lula não sabe o que possa ser a democracia, nem pode --- como dissera com ar solene --- ter aprendido a respeitá-la, nem lhe interessa realmente. É coisa que se presta mais ao que disse o senador italiano de Tarso.
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O evangelho de Lula
Dizer que Lula é tolo, no entanto, é despertar os defensores dos seus talentos discretos, de bastidores, sem jamais, é claro, lembrar que suas defesas são sempre “desconhecer” o que se passa bem embaixo do nariz; uma vez, no Mensalão, outra vez as ligações de seus imediatos com as FARC, esta ligada ao tráfico de drogas, ao treinamento de traficantes no Rio, mas nada macula o nosso unbreakable de Garanhuns.
Lula é o verdadeiro redentor do brasileiro, é um Jesus Cristo novo, que negocia com Judas e fecha acordos com Pilatos; a verdade é relativa e as alianças são o símbolo oposto da gastura que desagrega, coisa do Cão. É mesmo do caráter desse novo homem, sofismado de ladino, a pureza compulsória, diluída no social: o Reino do coletivismo vem-nos cum grano pré-salis. Lula tirou do brasileiro todos os pecados; faz um povo à sua imagem e semelhança, “incorruptível”. Nada lhe macula a alma, será sempre puro, sem pecado algum, e aqueles que o seguirem, mesmo os ladrões, como a graça se lhes veio apenas de tocar com a mão a barra de suas roupas, e curaram-se: Calheiros, Collors, Sarneys, os 300 picaretas, quantos mais? É um milagre de proporções nunca antes vista neste país.
Não sei se um terceiro mandato é equivalente a uma reencarnação, mas será, sem dúvida, o nascimento de uma nova nação, de uma nova base para a civilização ocidental, de por aqui. Assim fundada nalguns valores universais que merecem o seu próprio Areópago de conversão, e da síntese de todas as opiniões, de todo o povo, forjar a Revelação Democrática e Cidadã:


§1 – amar a incerteza, acima de tudo;
a) é permitido o uso de benzodiazepínicos;
b) informar-se bastante por jornais;
c) ler muita auto-ajuda;
§2 – manter a elegância, a moderação e a cordialidade, que são já máxima razão;
§3 – cultivar mútua deferência;
§4 – igualdade de opinião (todas valem a mesma coisa);
a) todos têm o direito compulsório à opinião;
b) todas as opiniões serão iguais nos termos deste evangelho;
§5 – não blasfemar contra a autoridade;
a) ela não sabe de nada;
b) ela precisa trabalhar;
c) ela deve saber o que faz;
d) ela deve estar bem assessorada;
§6 – não dar falso testemunho;
a) na dúvida valerá o §4;
b) saber a verdade ou tentar prová-la é uma arrogante falsidade;
c) afinal, o que é a verdade?
§7 – manter o entendimento, negociar sempre;
a) não expulsar os vendilhões do tempo, cobrar-lhes impostos;
b) manter o diálogo com Judas;
c) cear com charutos cubanos e champagne com os amigos sempre que possível;
d) dar aos pobres o que pode ser dividido sem esforço;
§8 – perdoar os criminosos, como a nós mesmos (!);
§9 – não há pecado abaixo do Equador (e Caribe, exceto Honduras);
§10 - se pairar dúvida, valem as regras do Código de Ética do PT e sua exegese peculiar.
Cumpri com os mandamentos, que são o caminho de uma vida justa e tranquila, pois Lula limpou-nos a todos, seu evangelho é um esfregão de aço. A Verdade é só um encardido, uma coisa retrógrada, dogmática, antiquada, reacionária.
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A loucura da pregação
Não é à-toa que os discípulos de Lula pregam a razão do presidente aos quatro cantos, com aquela coragem que Saramago atribuiu-se ao infamar a Igreja católica de reacionária, e ao papa de “cinismo” ao invocar um Deus que não se sentou jamais para um café. Pois que a sabedoria de Lula é loucura para os homens.
Seu apóstolo Paulo é Tarso, que chama a todos à fé no Deus Estranho e Ingoto de um templo pagão. Tarso anuncia desde aí sua autoridade de puro, pregando aquela loucura macunaímica que é o espírito que habita a cabeça de Lula, mas que não é Lula; porque Lula é três-em-um: é Carne-De-Sol, Espírito Solerte e o Superior Desconhecido (i.e, o brahma Foro de São Paulo) --- e o brahman Deus-Nada do niilismo.
George Orwell escreveu em “Politics and the English language”, de 1947, dando exemplo dessa ordem sacerdotal de gente palavrosa que hipnotiza pela trucagem (da inversão compulsiva), pela truncagem, pela nuvem de fumaça, pela vaguidão de sentidos:
A palavra Fascismo não tem outro sentido senão tanto quanto um 'alguma coisa indesejável'. As palavras democracia, socialismo, liberdade, patriótico, realismo, justiça, têm, cada uma delas, vários sentidos diferentes, os quais não podem ser reconciliados um com o outro... Palavras desse tipo são usadas conscientemente de forma desonesta. Isto é, as pessoas que as usam têm cada uma as suas próprias definições delas, mas deixam seu ouvinte pensar o que bem entendem noutro sentido [desde que sempre invocam os mais altos valores sociais]... Outras palavras usadas com vários sentidos, na maioria dos casos mais ou menos desonestamente, são: classe, totalitarismo, ciência, progressismo, reacionarismo, burguesia, igualdade” (in “Meaningless words”).
São os termos da pregação, desse evangelho invertido, do qual Tarso é loquaz. E é em parte por ele que Tarso se sente superior ao Supremo, com toda a ambiguidade que essa palavra carrega, e com toda ambiguidade que o marxismo-leninismo traz a Tarso na sua missão de, respectivamente, depor Deus e à ordem jurídica.
Nossos jornalistas, professores de Português, linguístas, seja por desatenção seja por fazer parte do problema, ninguém está interessado nessas engambelações, de nosso políticos, de nossos professores universitários, de alguns juristas e de muitos de nós, enganados ou enganadores. Se ninguém com autoridade ou responsabilidade de ofício denuncia esses abusos de embustes, como fez Orwell, nossa chance está mesmo em nos converter ao evangelho de Lula, para que, no fim, pelo menos, ninguém veja um o encardido do outro.
Mas, sinceramente, acho que prefiro que me incluam fora desta.

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