novembro 22, 2009

Vovô Quadros vs. Lauro Hyde


(A arte da polêmica - 3)
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Um estudo de caso[1]
Toda vez que o programa da Rádio Gaúcha (RBS) Polêmica, de Lauro Quadros, fala sobre assuntos políticos ou de cujos temas são da cartilha da Nova Esquerda[*], a isenção se torna um balouçar à náusea o entendimento para fazer do debate engodo. Sem grandes pretensões, a intenção é descrevê-lo em parte ou dá-lo a conhecer, nos seus modos recorrentes, o que no tempo em que as coisas são ditas, no rádio, a confusão da truncagem tem a faculdade de parecer-se com alguma razão.
A série "A arte da polêmica” é um conjunto de notas críticas sobre o programa Polêmica --- cujos vícios certamente não lhe são exclusivos ---, mas especificamente nos seus assuntos políticos, ou temas afins, coisa tão rara nesse país, que nunca antes por aqui se deveu tantos escrúpulos à honra de charlatães que posam de personalidades que encarnam a democracia em si mesmos.
Para permitir que a santidade permaneça com uma linha política, Lauro vira um monstro freak da chicana, do leguleio, das tergiversações e da mais fina arte do mais sutil timoneiro stalinista.
Nestes casos, então, o apresentador do programa, Lauro Quadros, é a pedra de toque da desconversa técnica, algo que sempre me pareceu carecer de uma atenção mais séria de gente especializada, que no entanto, não se manifestam.
Vovô Quadros vs. Lauro Hyde é a metáfora literária do zeloso avô e de seu Ersatz deformado em idiota útil --- o oposto funcional do que seria um partisan. Resumir a arte "polêmica" deve notar o relativismo disfarçado de democracia à liberdade de opinião, enquanto a crítica é dialética de inversão pura e simples; o reverso conveniente de algum aspecto do assunto (ou objeto) --- i.e., digo algo, levanta-se qualquer objeção maliciosa, uso da ignoratio elenchi, não um paralogismo, mas como sofismas ---, e por quaisquer outros meios, os mais usados, que podem ser identificados pelo seu efeito panacéia: “democrático”, “pensamento crítico” (i.e., dialética erística de inversão), “social”, “bem estar”, etc., além de sua (do apresentador) autopropalada “imparcialidade”, os quais querem dizer exatamente o oposto, com mais tempo aos seus efeitos e de fato, do que o senso comum identifica logo que os ouve.
Em um de seus usos, por exemplo, “democrático” quer Lauro dizer que todos falam, mas com o valor de uma mera opinião --- e cuidando para que assim se selecione descartando o demais ---, sendo o valor do que se diz determinado pela sua sensibilidade no timão dessa navio negreiro que vai para o mundo socialista com nós dentro.
O caso é mais de psiquiatria que de malícia. Pois até mesmo a arte da dissimulação já nos parece aceitável, desde que se a produza como colóide semântico e performático, como dissimulado, então até mesmo a manipulação e a propaganda são permitidas --- se é que não tidas como arte. Diga apenas “Sou equânime”, “Tenho compulsão pela isenção...”, “O que me acomete, como uma mania, é a minha imparcialidade contumaz”, e pronto, está feito a primeira demão que dará relevo e contraste à segunda, feita do balouçar no mareado das opiniões e das esterçadas do apresentador, camufladas entre as ondas.
Feito isto, e tudo estará justificado, criando o meio intelectual hipnótico da crítica estereodialética, que permite que aflore na consciência do ouvinte, com relevo, o padrão de intenções ideológico.
Esse meio intelectual é um grande processo de lavagem cerebral que só pode ser explicado por impregnação do ambiente --- como a umidade está no ar (v. artigo “O erro organizado”) ---, não por ação intencional de nenhum agente isolado, o que já não pode deixar de ser um tipo de maluquice epidêmica, endêmica.
A “imparcialidade contumaz” quer dizer um certo jogo crítico-dialético que já não pode deixar de ser o esterçamento neurótico do timão para um lado e para outro, fazendo isso parecer isenção, então ir desviando sutilmente a nau dos desatentos à esquerda.
Falar de política no Brasil é quase impossível, em época de eleições, então, há salvo-conduto dado aos candidatos, desde que expressem mesmo o absurdo numa linguagem moderada e cordial. Se os slogans são trava-cabeça, o ambiente que se forma com esse mais amplo predomínio do vocabulário da esquerda, é um "desliza-cabeça" pelo qual a tudo dissolve-se em metástase semântica. Assim, qualquer debate mais sério os revela propagandistas espontâneos, voluntaristas, vazios ou, (o termo que se tornou razoável) “militantes”. Como não dá para ignorar, este último termo refere-se à adesão voluntariosa e acrítica ao partido (tomado) bem como à crítica de tudo que possa destoar do que o demônio da possessão não lhes assopra ao ouvido.
O que se tem aqui, abaixo, são apenas notas para um estudo de caso, que deveria ser a regra em uma sociedade que cuida da sua sanidade mental, contra essa arte da desconversa maliciosa --- e, talvez mesmo, clínica.

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Relativismo histórico para o triunfo da vontade
Zelaya voltou a Honduras e lá ficou albergado na embaixada brasileira, protegido sob a fumaça legal desse novo mecanismo jurídico do direito alternativo brasileiro-e-internacional, como defende o advogado Jorge Buchowski, segundo o qual é possível questionar a ordem jurídica quando ela não é justa (!!).
O novíssimo Direito Brasileiro Internacional, nova cátedra no Direito, é só aparentemente um oximoro, pois o não-dito está em que o partido que governa o Brasil hoje tem raiz ideológica internacional (e corpo no Foro de São Paulo), logo sequer pode imaginar o que seja intervencionismo seu, que é, como todo mundo sabe, prerrogativa Yankee.
Um dos seus maiores defensores, com amplo espaço na RBS para defendê-lo, é Lauro Quadros, Rádio Gaúcha, e o sua peculiar arte sofística de contrafação.
Lauro começa assim:
A história é mais ou menos como eu a conheço... Tudo é versão, a verdade absoluta não existe.... Hoje eu estou aqui de Aristóteles. A verdade absoluta não existe. Tudo é versão; cada um escolhe a sua versão. A versão que eu tenho é o Zelaya, presidente eleito de Honduras, [que] tinha um perfil conservador. Partido liberal. Tinha um perfil conservador. Eu não vou falar de direita e esquerda, tem gente que não gosta. Um cara escreveu “Que que é isso... Direita e esquerda não existem mais!... Aí eu lembrei o Jean Paul Sartre, na década de '50 disse “Se alguém disser que não existe mais esquerda e direita, pode saber que ele é de direita!” Bem, então esqueçamos dessa terminologia lá da revolução francesa.
O Brasil, que tem interesse em fazer um papel mais forte no cenário internacional, tem que “um certo protagonismo é necessário”, que é como a questão é colocada por Lauro Quadros no programa Polêmica. Lauro, com isso, transforma a situação comprometedora e juridicamente abstrusa em algo positivo ao governo brasileiro. Na proposta mesma da questão já está o desenvolvimento complacente para o governo que inculpou pessoas de olhos azuis pela crise, que declarou (e de fato) que torceu pelos vietcongs e acusou uma filha de judeus presos em campos de concentração de usar as técnicas de Goebbels.
Em vez de mediar com imparcialidade, de buscar a objetividade das notícias e a “pluralidade”, Lauro Quadros lança grande nuvem de fumaça sob qualquer assunto que aborreça a esquerda --- Lauro é um tipo de contínuo não oficial do Foro de São Paulo ou, tecnicamente talvez, um “idiota útil”.
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Jornalista desconstrucionista e oligarca da comunicação
Lauro aprendeu bem a usar o texto --- termo de Umberto Eco --- para um determinado fim, para seus interesses. Já citou Platão para dar o contexto errado de uma questão, de forma irrefletida, para justificar a mentira dos políticos. O que, em qualquer outra situação, tornaria a idéia inaceitável, quando se a toma pelo que é, estelionato eleitoral. Pois jamais se admitiria --- e a RBS e a Zero Hora sempre denunciam essa praga de hábito --- que alguém justificasse meias verdades para fins eleitoreiros. Mas para defender a esquerda, Lauro é um tanto complacente, nuançado entre o ardiloso e o febril ideológico.
A respeito ainda de “protagonismo”, o termo tem como premissa de fundo, ou contrastante, a crítica à “dominação” americana. Por exemplo, Brasil, Índia, países africanos, etc., são colocados ao lado de China e Rússia, como “emergentes”, fazendo deles um alinhamento geopolítico contra a Europa e Estados Unidos --- que se trata, de fato, dos fundamentos culturais e civilizacionais e não de mero alinhamento econômico. É, com alguma variação, os mesmos eixos das guerras. Aliados de cá contra aliados de lá; aliados de lá, do fascismo terapêutico da Nova Esquerda, do “fascismo gentil” europeu e agora americano, contra o Velho Mundo. Só assim dá para entender o que quer dizer este “protagonismo”, de que se tratou no programa; é posicionar-se perante e contra o protagonismo americano --- posição ereta, de afronta contra o Norte, e de quatro, salivando raiva na correia sino-russa.
Lauro preferiu Aristóteles dessa vez, sobre a diversidade historiográfica para dizer que nada é objetivo --- este o argumento preferido dos tiranos e de seus sabujos. Aristóteles também dá à poesia o predomínio da possibilidade sobre o predomínio da perspectiva histórica (Poética, IX). Tivesse cuidado disso, e Lauro teria que ter tido mais atenção à infraestrutura da revolução popular democrática que ocorre na América Latina, Central e Caribenha, que não está dita com palavras inteiras em nenhum lugar por seus próprios realizadores, nem está documentada no pior --- mas de fato, nas primícias ---, como se fosse da natureza da verdade sair da boca dos próprios falsificadores.
Ao usar o texto de Aristóteles, pinçando o que lhe interessa, começa fazendo aquilo que atribui à história, sua falta de objetividade --- o hábito contumaz da historiografia e do direito alternativo esquerdista.
A erística de Lauro é, como sempre é, o triunfo da vontade da violência do mais forte sobre o mais fraco, ou (análogo) daquele que detém os meios de difusão das grandes empresas de comunicação e que se envaidece da arte.
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O humanismo à esquerda de Oliver Stone, Sartre e Guevara
Em seguida, cita Jean Paul Sartre, no que vale hoje exatamente pelo seu oposto, o de que quem diz que esquerda e direita não existem mais, pode ter certeza que trata-se de alguém de esquerda. O oposto disso, na frase original de Sartre, dito em pleno governo Nikita Khrushchev, sucessor de Stalin, já não pode deixar de ser apenas um truque, para incutir, como hoje, a suspeita que recai sobre si ao oponente (v.g., acusar um infiltrado sendo ele próprio o infiltrado). Esse ardil variou muito pouco no tempo, como hoje é ainda o mesmo [2].
Desse modo, a frase de efeito de Sartre, apenas muito pouco após Stalin, só poderia ter o sentido de uma medida diversificatória de um simpatizante de esquerda que passou a vergonha histórica de ter apoiado assassinos cruéis e herdeiros morais de massacres:
[Guevara] foi não apenas um intelectual, mas o mais completo ser humano de nossa época (Sartre).
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Disse também essa frase já a nós bem mais familiar, por acontecimentos recentes:
"Ele [Che] viveu suas palavras, disse o que faria e sua história, e a história do mundo veio à margem(Sartre).
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Compare-se ao que disse Oliver Stoner sobre Hugo Chávez, ao apresentar a apologia South of the Border:
A Europa e o mundo precisam de dezenas de pessoas como ele, de líderes que fazem o que prometem” (Zero Hora, 13.09.09).
Depois de matar centenas, que podem ser milhares, enviados a pelotões de fuzilamento, sem julgamento, o uivo da selvageria do humanista identificado por Sartre se faz ouvir de novo. Por si mesmo, Che tratou de mostrar o quão longe estava disposto a ir, empilhando corpos, para alcançar seus ideais:
Eu não preciso de provas para executar um homem, preciso apenas saber ser necessário!" (Che)
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"Nós marcharemos o sendero da vitória, mesmo que isto custe milhões de vítimas nucleares... Precisamos manter nosso ódio vivo e levá-lo ao paroxismo" (Che).
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"Se os mísseis nucleares ainda existirem, teríamos de usá-los contra o coração da América, incluindo a cidade de New York” (Che).
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Um revolucionário deve ser uma máquina fria de matar motivada pelo ódio” (Che).
A Bill Ayers é também atribuída, pelo agente Larry Grathwohl do FBI, infiltrado então no movimento anarco-terrorista Weather Underground, de que fazia Ayers parte nos anos 60, a seguinte frase:
Meu plano era executar 25 milhões de Americanos que resistiriam à minha revolução após eu tomar os EUA”.
Se é verdade tê-lo dito ou não, como ele nega, a coerência com um legado de frases comunista iguais é, pelo menos, inegável.
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Em seguida, Lauro continua descrevendo sua “versão” unívoca de uma história que, para ele, é de versões, ignorando que se só há versões, teria ele que, por justiça e por sua tão autopropagandeada equanimidade, ter apresentado algumas das demais.
Anuncia que a história é sem objetividade e apenas versões, em seguida omite as demais versões --- nem as explora --- por apenas uma. É identificar ao mesmo tempo uma conspiração e já começa a engendrá-la para os ouvintes incautos, arengando. O que mais dizer de Mr. Lauro Hyde?
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Giros ardilosos
Chamar Zelaya de Conservador é unir a “direita”, que de si mesmo tem apenas ser oposta à esquerda, e identificá-la às oligarquias locais e, estas, aos “conservadores”. Uma artimanha que usa um termo pejorativo para designar qualquer alternativa à esquerda. Lauro deve ser como Lula, não sabe que faz estas coisas.
A direita é sempre o “pilantra de direita”, enquanto a esquerda, todos “santos” --- porque buscam a paz perene de Che, a paz pós-nuclear.
Um ouvinte disse que Lula criticava os EUA por interferir em outros paises, agora intromete-se ele próprio em Honduras, mas Lauro, dissuasivo, diz: “Ahhh, Lula...”, interjeição de litotes, para dar ar de admoestação exagerada, como se mais uma vez houvesse, num giro ardiloso, citar Lula por todo mal.
Ao que parece, induzido por algum convidado, ainda a respeito das manifestações engraçadas e forçadas dos ouvintes --- as que ele escolhe para ler --- diz: “Éh, é o povo, é a democracia!...” seguido de risos, caçoando das opiniões afoitas, a maioria. Por certo, como é possível ver enviando mensagens, ele só lê as afoitas, evitando as demais, que possam não ter como controlar. “Ahh, se eu lesse tudo...
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Convicção revolucionária
Tudo que se diz de Lula é dissolvido no axioma centrífugo do relativismo; no esforço pelo “entendimento” os exageros habituais dos ouvintes são atribuídos à natureza mesma das opiniões soltas de que é feita (!) a democracia. As mesmas opiniões que permitem contar qualquer história e justificar por elas essa bazófia do Che sobre alguns "arcaicos detalhes burgueses”, tais como a evidência judicial (!). Esta, no entanto, a qual está superada pela inocência retrospectiva de que a história provaria a firme convicção revolucionária --- isto é, provado agora pelo futuro --- como acertada.
Lauro segue lendo, em tom jocoso, as manifestações afoitas. Mas quando questionado pelo que pode ser constrangedor, pela ação internacional do Foro de São Paulo --- que faz da ideologia comunista supranacional a alma de todas as nações “democráticas” da América Latina e Caribe ---, então Lauro desliza para interjeições e interrupções, giros elípticos de oratória e relativizações que vende por equanimidade. O próprio sentido de democracia é modificado com freqüência para ajustar-se à coisa que valha à convicção revolucionária do Che e a um sentido de democracia com base apenas no voto “soberano” da maioria --- escolhas tontas no meio de uma nuvem de fumaça.
Nada será feito para atrapalhar aquilo que Lula chamou de “revolução pacífica” (pós-socialismo fabiano) e ao maior golpe às democracias latino-americanas como nunca houve outro, o próprio Foro de São Paulo, pela “soberania da América Latina”.
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Hermenêutica da similitude
Se o jornalismo é um tipo de micro-história, no sentido rigoroso do termo, alguma responsabilidade caberia cobrá-la aos seus homens de ofício.
Segue Lauro a sua historiografia particular:
Ele era um liberal, no sentido hondurenho da palavra, ele era um conservador [!]. Dois anos depois, ele virou --- pela minha versão --- populista. Aí decidiu, cresceu o olho, talvez, decidiu alterar a Constituição lá de Honduras... Alterar não apenas para se reeleger, como fez FHC... O pessoal esquece, né? Durante o mandato, o FHC, nosso querido FHC, decidiu, não mais adiante, uma reeleição, mas dentro do seu próprio mandato, e ele se reelegeu depois, alterar a Constituição brasileira. Eu sei que a Constituição hondurenha não é igual á brasileira, ela é mais radical, menos permissiva, mas esse aí é mais ou menos o resumo da ópera... Agora, o que aconteceu...”.
Zelaya era um conservador, um liberal --- “no sentido hondurenho da palavra... um conservador” (!!!) --- então, por ajuda econômica, voltou-se à esquerda, para a mão estendida de Chávez, que, por sua vez, finge ser de esquerda, mas é um “fascistinha”, como o reconheceu Arnaldo Jabor, fazendo o mesmo que aquele ouvinte do programa do Lauro Quadros que certa vez disse que Chávez tentou golpes antes, então virou à esquerda --- esse “então” é que mata.
Um dos modos de identificar um conspirador de conspiracismos é o de que dois argumentos mesmo sendo contrários estão ambos ao lado dele --- na verdade, todos os argumentos estão ao lado dele, há apenas um certo pudor fingido em não usar todos juntos, ao mesmo tempo, na mesma oração; ocorre com frequência deles parecerem na mesma frase, e bem comum no mesmo parágrafo. Além desse ponto é absolutamente inútil pedir qualquer coerência.
Comparar as mudanças de FHC com coisa igual aos plebiscitos realizados pelo Foro de São Paulo nos seus países-ilha, como o que se pretendeu em Honduras --- para, ao fracassar deixar às claras a ópera bufa ---, é criar através da pura associação de idéias, isto é, por similitude, comparações tão livres quanto o momento as peça.
A estabilidade do Brasil de FHC é a estabilidade da ortodoxia econômica, na qual o homem era o responsável direto, sendo a reeleição um modo de consagrar o sucesso a uma unanimidade a outro mandato, que é coisa com amplo precedente em outros países, porém, como nos EUA, não a uma terceira eleição. Segue assim Lauro, um tanto desavisado, àquela comparação ao seu próprio modo e circunstância, que fez Lula sobre as democracias parlamentaristas e Chávez[3].
Comparar desse modo, como faz Lauro, só pode ser para fazer uso daquele senso de objetividade que existe comum em Eduardo Galeano e Antônio Gramsci para a historiografia. Este, conforme o seu sentido de “cultura” como propaganda ideológica e como a obliteração da memória crítica do passado --- e mesmo a destruição desta --- e para o seu lugar “um vago esboço que pode ser revisado a qualquer momento para se adequar ao que deve ser feito” (Gramsci, in Kolakowski, Main currents of Marxism). Aquele, pela arte de mastigar cacos de vidro, fazer revoluções e contar estórias de um futuro mais real que o presente, segundo lhe apraz à subjetividade (Galeano, O livro dos abraços; L&PM, pp. 51 e 118).
As comparações de Lauro geralmente seguem um padrão em “metástase” hermenêutica, para que a técnica aristotélica (!) desconstrucionista do tudo pode em matéria de opinião desfaça a objetividade da tensão dialética da história concreta em um nauseante balouçar à deriva desse Caronte da radiodifusão.
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O Pinto na mesa
O que Sartre disse é ainda tão certo...”, diz Céli Pinto, escritora e jornalista, formada em filosofia, está havendo uma interpretação direitosa [sic.] no caso de Honduras”, e com isso ela afirma a existência de direita e esquerda para, justamente, inculpar a direita.
Para falar de franceses, prefiro outro, Olivier Reboul, o qual diz n'O slogan, que o trabalho ou função de um slogan é justamente o de travar o pensamento, enquanto as figuras similares, porém adversárias (v.g., adágio, aforisma, etc.), têm o efeito de despertá-lo. E, em alguns casos, esta função do slogan, de paralisar o pensamento, pode ser desempenhada por uma frase inteira ou mesmo a sequência de um argumento ou o todo de um discurso, do qual se falou brevemente em Estereogramas dialético-ideológicos, acima.
Uma distinção possível parece ser a de uma trucagem rápida, a prestidigitação de um slogan pela catatonia induzida por métodos hipnagógicos, mais afins à repetição em profusão do mesmo.
Céli Pinto não deixa por pouco, e não teme qualquer crítica, (pois) que não há. Questão de educação, de gentileza, de equilíbrio mesmo dos debatedores.
Refere-se a uma “gangue de golpistas” em Honduras, “golpe não pode ser negociado”, conclui de pronto; “pode até haver mudanças estranhas na Constituição, mas golpe não pode...”, acho que Paulo Brossard discordaria. “Ele é um presidente eleito!...”, repete, hipnótica Céli, mais uma das suas meia-verdade categóricas. Definitiva, diz: “Houve um golpe de estado e assim deve ser chamado”. Pois é, só que não houve.
Típico golpe de estado latino-americano, onde o exército [?] coloca um títere como presidente, no caso, o presidente da assembléia, então nós estamos frente a uma situação de golpe de estado, que deve ser tratada como tal...”
Perfeito! Toma a hipótese de golpe conforme (projetando) o singelo modelo teórico que prevê que o exército, como ícone das forças opressivas das elites no estado, assume o poder conspirando colocar um fantoche como presidente enquanto dá suporte a ele pela violência indiscreta, porém não oficialmente declarada, para dar aspecto de legalidade. Levanta, para tanto, nada mais que a pura teoria dos fenômenos de superfície para dizê-lo.
Para tentar entender: “democracia” quer dizer mudar as garantias democráticas nas constituições nacionais pelo voto direto, plebicitário; “golpe”, a tentativa de manter a ordem constitucional opressiva e intrinsecamente injusta. (o Juiz dos Juízes, Tarso Genro, quem diga!) Aquela vem sendo praticada em larga escala na América Latina (...e Caribe); esta última, depois de exemplos que advertiram da estratégia (o conceito da “avalanche de votos” do Foro de São Paulo), é apenas um exemplo isolado no meio de um mar vermelho.
É; nas democracias de esquerda, manda mais quem grita mais alto e em maior número.
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Nilusionismo
É importante notar que não se trata de prestidigitação tão somente, mas de auto-hipnose hipnótica. É muito eficiente justamente porque não é consciente e de todo intencional. Repete e repete até deixar o ouvinte duvidando de si mesmo. O nicho ecológico desse pensamento não poderia deixar de ser a universidade, onde grassam termos técnicos como “mesmice”, de Juliano Corbellini, o viés “direitoso” de Céli Pinto, assim como “racismo de gênero” e muitos outros.
Por muito menos que esse “golpe” em Honduras, Umberto Eco disse (Seis Passeios..., 6) que Nesta Webster sofria de alguma febre “conspiracista”, quando esta esposou a idéia de que os judeus eram os protagonistas de uma conspiração mundial. Segundo Eco, Nesta estava incorrendo em um erro inadmissível pelas provas que já se conheciam da fraude dos Protocolos dos Sábio de Sião. Mrs. Webster diz, reiterando, “Mas que há uma conspiração ali [nos Protocolos], há...”; Eco interpretou isso como um sofisma: claro, eu estou denunciando uma conspiração, logo é porque há uma.
Na continuidade da convicção revolucionária aparecem a truncagem e essa nova categoria da verdade, o brado, o brandir expressões-estandarte e slogans e furibunda indignação fingida, só o que acaba sendo audível no meio da algaravia:
A título de exercício, eu gostaria de pensar a situação ao contrário [sempre]. Vamos supor que houvesse um golpe que, na verdade, quem tivesse no poder, não fosse uma pessoa à esquerda, mas uma pessoa à direita. E que um político ideologicamente ligado ao Lula, ou ideologicamente ao Chávez, desse um golpe de Estado em Honduras. E o presidente, conservador, tentasse voltar. Qual seria a reação, qual seria a reação a este golpe de esquerda. Então esquerda e direita existem sim, existe hoje mais do que nunca... Só porque nós não temos mais o comunismo soviético, do leste europeu, isso não quer dizer que existam posições de direita e de esquerda, não precisa nem ser tão de esquerda para reconhecer isso. Um velho cientista político e senador... e cientista político liberal, o italiano chamado Bobbio, que morreu há pouco, há dez anos, Norberto Bobbio, que [a fala fica confusa] existe [sim] direita e esquerda... e há uma posição conservadora e direitosa na interpretação dessa situação em Honduras, eu acho que isso deve ficar claro (12 min 23s)”
O que ela quis dizer com isso tudo, é nonsense puro. Uma fala tremendamente confusa, que foi da “negligência de Obama” perante a situação de Honduras ---se fazendo de morto”, outro destes termos técnicos de universidade --- à interpretação conspiratória de golpe sob a simplificação de que “o contexto é o de absurda negligência [para com ele] de um presidente eleito que entra no seu país...” e é tratado como criminoso --- o que o era, por ordem de captura expedida pela Corte Suprema de Justiça de Honduras.
Eu não conheço a figura de estilo que explique essa verborragia militante, porém, parece-me que deva ser qualquer coisa --- descrevendo --- como uma encadeação de elipses hiperbólicas, as quais ao extraviarem-se num lance longo demais, ligam, ao perder de vista, com qualquer coisa que terminam concluindo. Acho que, em lógica, isso se chama epiquerema, o que só não descreve as elipses (entimema?) que levam o orador à estratosfera e de lá o fazem voltar esbaforido e um tanto confuso.
Qualquer um, imediatamente ao ouvir esta fraseologia embusteira, não pode mais senão deixar de levar essa senhora a sério já de primeira.
Aí vem o exemplo esdrúxulo, que imagina a possibilidade de um golpe de esquerda, para em seguida dar uma volta indiscreta e afirmar que há sim diferenças de esquerda e direita, e que obviamente há um viésdireitoso” na interpretação do caso de Honduras. Em seguida, repete a frase de Sartre, no mesmo contexto da máxima usado por aquele, para enganar. Aqui, o simples fato de fazer a comparação, em seguida sublinhando viés de direita no assunto, deixa entrever, ardilosamente, a prerrogativa de denunciar a “direita” por aquilo que caberia ao próprio declarante dar satisfação; isto é, tomando o fato de um fracasso ideológico seu, que começa com um fingimento de derrota ou de reforma, como acusação d'outro, e por essa volta, aproveitando-se da gravidade da lua, impulsionando-se de volta, como se nada tivesse acontecido.
Tanto Stalin foi um escândalo de tirania, que se tentava disfarçar, quanto estreita-se ao fascismo a revolução silenciosa do Foro de São Paulo na América Latina e Caribe. Para disfarçar, mais uma vez --- lá como o infiltrado que denuncia um infiltrado para fazer disto o seu álibe ---, a reação legal torna-se, no caso de Honduras, “golpe”. E antes que alguém se aperceba de que não é, tem de ser tantas vezes erguido em altos brados e por muitos, “golpistas!, golpistas!”, que já ninguém mais discute.
No caso de Sartre, reafirmar a esquerda tão cedo depois do escândalo do stalinismo, é apenas o esforço por limpar o nome da esquerda dos crimes de Stalin, afastando-se dele --- isto enquanto se denuncia a direita de tentar dar por terminada a esquerda, justamente pelo escândalo do stalinismo.
Esse tipo de prestidigitação é mais do que rapidamente pega por Lauro e Céli Pinto: tira-se o mal fora, o que fica é só o melhor socialismo que jamais houve; de fato, jamais.
Intelectuais como Sartre são o equivalente francês e (!) ocidental da polícia secreta russa, a Okhrana, depois --- por herança --- KGB.
As técnicas dessa gente continuam sendo as de Lenin e dos revolucionários, de militantes, satanistas e loucos como o místico russo Serguei Nilus, editor dos Protocolos dos Sábios de Sião --- sob as divisas: “o Reino do Anticristo” e “uma iminente possibilidade política” --- na última investida que influenciou o antissemitismo nazi-comunista. O mesmo ocorre ao diabo do capitalismo, que sempre está na iminência de um infame golpe ou de um possível arranjo político de dominação de uma nação, continente ou mesmo de todo o mundo. Repetem assim sempre a mesma forma psicótica de inversão que os levam a começar denunciando.
Assim é que faz Céli Pinto e Wasserman, criando a narrativa conspiracista do “golpe” em Honduras --- aquilo que eles próprios estão fazendo em maior amplitude (i.e., o Foro de São Paulo).
Querer dizer que “só porque nós não temos mais o comunismo soviético...”, é até inverter o que Sartre disse, pois revela o stalinismo como esquerda, de fato, mas sem fazer a referência aos crimes do estado soviético, querendo afastar a esquerda do stalinismo. Aí vem a afirmação, “Há esquerda e direita, sim!...”, que no contexto de uma denúncia fingida de “golpe” de direita, quer pôr em relevo supostas dissimulações da direita, que são, de fato, de quem as denuncia. É --- valha-me Freud --- denunciar neuroticamente a “direita” de ter, como Sartre, anulado as diferenças para ocultar-se, quando foi justamente, em ambos os casos, as ausências, fracassos vexatórios e mentiras da esquerda comunista que estavam em questão.
Quando Céli Pinto diz “Existem sim [a “direita”], existe hoje mais do que nunca...”, quer dar aquela ênfase a uma inventada negligência para como “aqueles” a quem ela imputa o “golpe”. É um pensamento circular, que acaba sempre de cabeça para baixo.
Como em Sartre, o contraste entre esquerda e direita existia ainda forte, ainda muito cedo após a morte de Stalin, de modo que reafirmar essa diferença naquele momento trazia implicado uma discreta alusão a um silêncio premeditado, quando em seguida justamente afirma Sartre que tal silêncio vem da direita. Exemplo mais que exato da frase repetida por Umberto Eco como exemplo do ardil da polícia secreta russa:
Mistura astutamente o verdadeiro com o falso,
e nega sistematicamente o verdadeiro,
de modo que ninguém mais duvida do falso”.
E que é o sintoma-ardil psicopatológico leninista, sempre repetido (e sempre confirmado):
Xingue-o do que você é, acuse-o do que você faz
Ora, se há uma direita e esquerda, por difícil que seja distinguir hoje os “trogloditas” (como os nomeia Lula), o caso de Honduras terá mostrado que a defesa por alguns de que não houve golpe já os delata. Para não ter nem começado a tentar entender o que ocorreu em Honduras, Céli Pinto já tira a conclusão e começa a esboçar as articulações ocultas da direita, as maquinações, e para isso começa maquinando, de pleno, uma teoria conspiracista. É um destes primores de falta de seriedade... e ou delírio (já) alucinatório.
Coisa semelhante, no mais puro espírito conspiracista, ocorreu na denúncia de movimentos ocultos da direita feito antes por Ruy Carlos Ostermann, quando ele suspeitava da aparição de McCain junto a Uribe no resgate de Íngrid Betancourt às FARC. Sendo o apoio dos Estados Unidos feito abertamente à Colômbia, as especulações de “algo por trás” é que eram elas próprias obscurantistas. Não me parece errado dizer que nesse, como em outros casos, trata-se de não rara “crítica conspiracista” --- análogo à síndrome do perseguido/perseguidor como mistificador-conspirador/desmistificador, à fase de perseguidor ou desmistificador ---, a qual procura nos interstícios de fatos conhecidos, que dão em consequências esperadas, algo por trás que os explique conforme eles imaginam que deveria agir a direita “golpista” contra seus interesses.
A esquerda dar um golpe, no exemplo de Céli Pinto, não é uma hipótese, mas uma fábula, pois todo mundo sabe que “golpes”, “reacionarismo” e “fascismo” são prerrogativas da direita. E já aí a mente revolucionária gira à náusea conspirando contra a própria sanidade para acabar vomitando um mundo melhor, algum dia.
Céli Pinto chega a falar de uma “gangue”, que estava lá há muito tempo, sempre espreitando no interstício conspiratório da cabeça oca dos militantes. A direita a qual ela se refere é sempre oportunista, como o PMDB, agora ao lado da esquerda, porque é quem está no poder.
...Isso aí abre um precedente pavoroso para a América Latina, Se o presidente não volta, se ele fica de fora até as novas eleições, abre-se um precedente pavoroso...” Não se pode admitir uma solução não democrática...”.
Poucas vezes o sentido de democracia ficou tão esclarecido, com precedente em Lula antes. Mas de modo geral, qualquer coisa que digam, Tarso no caso Battisti, p. ex., revela o sentido de democracia, é só juntá-las e ver o que está por trás das palavras polidas e da elegância posuda, ver a racionalidade sinistra da ação coletiva.
Democracia”, a despeito da Constituição de um país, é uma palavra mágica, sem definição clara, como ocorre com a definição de “socialismo petista” no 3º Congresso do PT, que na sua indefinição, carrega a função de um solvente semântico --- e ai de nós se o edifício jurídico acolher esse cavalo de tróia demencial que tem o valor de um abracadabra que abre a caixa de Pandora.
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Departamento de propaganda e doutrinação incomparadas
Cláudia Wasserman, professora de História da América Latina (!) da UFRGS, diz:
O Brasil não deve ter algum protagonismo, mas um protagonismo consistente, contundente...
Ora, a pergunta colocada nestes termos, já finge totalmente uma complexidade do problema, para menos; e, mesmo as suas linhas de compreensão mais simples, do contexto atual na América Latina, já se põem fora do alcance. Não é possível que uma pergunta destas não seja já o eixo de uma defesa prévia, voltada para a desinformação. Ela forma um “núcleo discursivo” ou um “eixo discursivo” que favorecerá as alusões e alguns problemas dialéticos que a ela convém... por proximidade. E, de forma centrípeta --- voltando-se para si ---, excluindo o demais.
Disse Wasserman que seria uma omissão o Brasil ausentar-se ao problema, quando o fato novo foi justamente o Brasil omitir-se à manobra de Zelaya para permanecer em Honduras usando a embaixada brasileira --- e lá gozar de ampla e irrestrita complacência do governo brasileiro. Não é omissão que ocorre ali, é clara e óbvia ajuda.
Wasserman, aos 46:20 de programa, diz que a supremacia americana está sendo ameaçada, é o argumento de que o golpe foi um golpe econômico:
Historicamente, Honduras desempenha, na América Central, ao longo do século XX, o mesmo papel um papel que a Colômbia tem desempenhado na América do Sul, o mesmo papel que Porto Rico desempenha no Caribe, de quase protetorado norte-americano... Se é bom ser um aliado automático dos EUA, como diz o nosso colega aqui [Caliendo], eu até achei graça que ele disse que o Brasil nunca foi aliado automático da URSS, pudera, né?! Se é bom ou não ser automático, não é o caso aqui. Honduras é o país que abrigou os contra-nicaráguas, matou gente da frente sandinista de libertação nacional, que matou gente da frente de libertação Farabundo Martí, foram assim, um milhão de pessoas que morreram naquela região e quase todos no território hondurenho. E que reprimiu e teve contra o golpe, a revolução do presidente Jacob Arbénz, que era uma revolução contra a United...”
Conforme Wasserman, “os líderes de esquerda estão ameaçando a hegemonia dos EUA”. Ela deve saber do que fala, já que descreveu as revoltas comunistas ocorridas na América Central, negligenciando suas motivações e financiamento. A história da América Central e Caribe é contada, no contexto da Guerra Fria, como intervenção americana --- certamente, nos legítimos interesses do povo sul-americano e caribenho ---, sem a participação da URSS: no front da Guerra Fria, os soldados americanos se entrincheiram contra algo atrás da fumaça de seus próprios tiros!
Ainda assim, gostaria de saber qual hegemonia americana está ameaçada e como. Qual o extremo interesse dos Estados Unidos na AL? Imagino que os negócios, para eles, vão passar a ir mal se os líderes latino-americanos quebrarem ou desarrumarem para os próximos 90 anos os países sulistas. Segundo as conjecturações de Wasserman, os Estados Unidos em crise não puderam dar resposta aos problemas internos de Honduras, que fez crescer os olhos do “conservador” (!) Zelaya para a ajuda econômica de Chávez. “Foi uma guinada econômica...”, conclui.
Isto é, o interesse do “conservador”, do “liberal” Zelaya, é --- como não poderia ser de outro modo --- o dinheiro.
Numa daquelas afirmações que pretendem criar os fatos, diz: “Todo mundo concorda na mesa aqui que ele é um conservador, que ele é um liberal!...”. Devia estar certa, porque ninguém ousou contrariá-la. Seria uma questão de elegância, não fosse não haver quem pudesse fazê-lo. Vá que possa ser, um conservador, um liberal, mas igualar um ao outro, a uma professora universitária, confundir conservador com liberal é de doer. Mas já fica claro que o real trabalho dela não é o de professor, mas o de pedagogo doutrinário, ou da disciplina, semelhante a Corbellini, de cientista político especializado em marketing para a política.
Faço minhas as palavras de Céli...”, com a adesão complacente de Lauro, o diapasão da imparcialidade, que não há, absolutamente.
Quando um cientista político ou um professor de história se emocionam com parte da história (retorno de Arrais), é porque de fato não pode haver nenhuma isenção. Mas a história é, como diz Eduardo Galeano, uma “celebração da subjetividade”, feita pelos interesses do nosso tempo, e o nosso tempo, no nosso lugar, é a vez da esquerda. Lauro assina embaixo.
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O sparring da hegemonia
De outras vezes, Paulo Caliendo, advogado e professor da PUC, já se saiu bem; não foi desta vez, quando foi só sparring.
Zelaya ter sido albergado na embaixada brasileira compreende “motivos humanitários”, pois que estando “em lugar inseguro... acorrre à embaixada”, disse Caliendo.
No entanto, Caliendo sugere a ação da embaixada para a entrada de Zelaya no consulado brasileiro. Não acredita que tenha se passado como um truque apenas; onde não apenas Zelaya e sua mulher entraram, mas juntos mais de 60 militantes seus (!).
Wasserman e Céli Pinto podem ser consideradas, para qualquer um que cuide de sua sanidade mental e de algum respeito perante o vexame da subserviência, mais à charlatanismo militante ou à pura negligência pelo que disseram, que não poderiam não saber, senão sem ressalvas, do que se passou em Honduras, bem como do que a História é, entre contradições e versões, cujo caráter é assumido para imediatamente se passar a uma narrativa unilateral dos fatos.
Lauro, sempre pronto a relativizações, desconversas e ironias subterfúgios --- sempre, para os assuntos políticos onde os superioríssimos princípios e moral da esquerda estão em jogo --- faz sua equidade balouçar qualquer tema entre interjetivas murmorejantes, entre as quais ondulações os mais frágeis enjoam fácil, até acostumarem-se, verdes e de quatro. É o que se precisa para amaciar o adversário, uma generosa dose de complacência e concessões de mútuo auto-reconhecimento, assim passa a tibiez, que foi o caráter de Caliendo nesse programa, por estéril superioridade de modos, paga com subserviência intelectual e inferioridade moral. E, no demais, pagam todos que se submetem a estes arengotangos.


Notas
1. Sobre o programa Polêmica, da Rádio Gaúcha, do dia 23/09/09.
Embaixada brasileira acolhe presidente deposto de Honduras. O Brasil deveria ficar fora desta ou um certo protagonismo é necessário?
Resultado:
Brasil deveria ficar fora desta - 62%
Um certo protagonismo é necessário - 38%
* Uma comparação entre as políticas da administração Obama e do governo Lula revelam uma exatidão constrangedora.
2. “A Colômbia tem sido um grande laboratório para a aplicação dos princípios estadunidenses da contra-insurgência. A nova guerra dos EUA na América Latina já começou, e tende a militarizar a região, com possibilidade até de um conflito convencional, se se esgotam as alternativas não-convencionais. È a "guerra assimétrica" ou de "quarta-geração", como dizem alguns especialistas na questão. Golpes de Estado, desestabilização econômica e política, terrorismo mediático, narcotráfico, paramilitarismo, bases militares, tratados de livre comércio, ofensiva diplomática, política e econômica contra os governos da região, principalmente contra as iniciativas de integração, financiamento de grupos de oposição, ampliação dos convênios e da influência junto às polícias e às forças armadas latino-americanas, etc. São inúmeras ações que se desenvolvem de maneira combinada, aplicadas de maneira diferente, respeitando a situação concreta” (in: "O Golpe em Honduras e a nova guerra dos EUA na América Latina" (04.09.09). ADITAL Notícias da América Latina e Caribe).
3. Ver Polêmica unívoca, em “Politicamente correto: como dissolver as comparações” ou, o mesmo, em “A arte da polêmica, 2”.

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