outubro 02, 2009

Provocações e tergiversações

(NOTA: Transcrições precárias, feitas “de ouvido”, que não havia outro modo.)

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Provocações, o programa de Antônio Abujamra na TV Cultura, que nunca deixei de ver sem ficar falando sozinho quando o programa acaba. Grande Abu! Mas a entrevista com Agnaldo Timóteo foi uma destas coisas das mais curiosas que até então eu já tinha visto. Abujamra saiu dizendo que talvez precisasse, sempre, para começar, uma tragédia grega, é o que lhe parece no 9º ano de aniversário do Provocações, para em seguida mergulhar na sua própria tragédia e a de sua geração.

Mas se é verdadeira essa lei natural que fala que daqueles que mais têm, deles mais se cobrará --- responsabilidade, por exemplo, daquilo que alegaram não saber --- e se nalgum tempo há-de se prestar contas, de algum modo, Abujamra lá estará.

Agnaldo assomou na frente do grave Abujamra e pela primeira vez eu vi Abu ficar desconcertado e sem palavras. E emendava seu silêncio com a próxima pergunta.

Estou chocado, mas, para variar, fiquei falando sozinho. Abu teve seus dias de Jô Soares, teve seu “Omar Khayyam”. Agnaldo diz: “Não entendo nada de... nem de... nem de socialismo e...” e Abu perguntou-lhe, “Mas então o que você foi fazer lá [ser Vereador]?”... Agnaldo, lacônico: “Representar o povo!...”, óbvio! [para ele, o óbvio] Disse Agnaldo, sem ver reação de Abujanra. Abu não reconheceu o povo quando o povo estava bem na sua frente, o povo real (piegas, ingênuo, brega, etc., etc., conservador, o povo real), não aquele idealizado que a esquerda autorreputa-se representante: aquele que a atende quando ela joga slogans.

Agnaldo Timóteo é a direita que o povo brasileiro não tem quem o represente.

Sobre Agnaldo ter dito que nunca teve problemas com a ditadura, que havia segurança, que não havia corrupção (o que é falso), Abujamra vociferou “No coletivo, eles acabaram com esse país!... Os militares estavam trilionários...”.

Qual militar ficou trilionário? “Os militares estavam trilionários” ao mandarem no país está a tomar pelo poder instituicional, em suas mãos, aos cofres públicos e estes pela conta bancária pessoal de cada militar. É só jogo de palavras, o qual toma o posto oficial, sob mando militar, por chefe estamental, e daí faz materializar os cofres públicos nas contas dos militares. É um caso de metalepse historiográfica, ou como tornamos o delírio hipnagógico em fato histórico. Estes, na sinistra invertida razão de Abujamra, são milionários no lugar dos indenizados (!) da esquerda insurgida.

Cuba é maravilhosa, lá não tem analfabeto!”, o que solto assim, convenhamos, é só propaganda. (Alfabetizados para ler o jornal Granma? Meias-verdades a direita as usa com menos habilidade, como esta.) “Mas não tem liberdade”, devolve Agnaldo; Abujamra então diz, “Ahhh!...” qualquer coisa sobre “...a liberdade de ideia...”, que pareceu-me no momento o delírio de um adolescente de 15 anos que é convencido que ele não pode desperdiçar sua criatividade com regras e estudo sério. “Liberdade de ideia” deve querer esquecer que não era possível ouvir Santana e Beatles em Cuba, e ver, anos depois, Santana vestindo Che-Shirt! Ainda sobre Cuba, e depois, sobre a tropicália: “Por que eles não foram [exilados] para Cuba?... Por que foram para a França?!”, disse Agnaldo.

A geração de Abujamra --- e o próprio --- tem a mesma culpa pessoal da desgraça do povo brasileira que eles denunciam, que aquela da qual padece o povo alemão ao sustentar Hitler.

O povo, quando analfabeto, pode ser engando, mas é só como semi-alfabetizado que ele pode ser totalmente movido a crer em coisas que não poderia pela própria experiência, e agir por elas sem ter como avaliar seus efeitos para além do que dá para saber. O que, de outro modo, daria em precaução. Para um povo semi-analfabeto, os textos de Voltaire podem funcionar; num povo analfabeto, nem dá para começar.

Abujamra, então, diz --- já não lembro bem --- “[sem?] 30 anos de presença americana, e o que seria desse país?” (?) e Agnaldo rebateu, sem piedade: “E Cuba, sem a ajuda da URSS, o que seria?...”, sendo esta bem mais verdadeira que aquela. E Abu recolheu-se a um ataque de náusea: “Acho você uma bobagem, Agnaldo...”. Bobagem é mesmo o termo certo para detratar ao que disse Agnaldo Timóteo, pois “bobagem”, na escala de valores de Abujamra, designa o oposto inverso do que é “cool” na referência --- essa sim, boboca --- que fez Benicio del Toro ao Che[1].

Mas o que acham Benicio e Abujamra, dever-se-ia perguntá-los, de quem não fala no que vai, de fato, fazer? Pois até Chávez, Evo e Correa aparecerem, não dava (para o reles mortal) saber as intenções reais de Lula --- franqueza não é lá muito o seu forte mesmo. Franqueza, Lula? Não; Lula é espontâneo, não franco. Quem votou em Lula não sabia em quem votou, ele não disse, nem a imprensa nos contou.

A medir hoje o delírio de Abu, vai acabar como aquele alienado, sendo entrevistado pelo Provocações para o “Vozes da Rua”.

Acho que o programa Provocações acabou depois de Agnaldo --- talvez só simbolicamente; talvez só para mim; simbolicamente. De mim, apesar de discordar das idéias que movem Abujamra, espero que o programa tenha mais 9 anos. Parabéns Abu! O nosso Vincent Price!... Sempre, perigosamente, a um passo de Bernard Shaw.

Artistas sofrem disso, não é mesmo! Muitos deles, sempre os alfabetizados --- sempre só nas letras ---, compartilham eles de uma afetação do caráter igual, bem visível em Abujamra e Jabor. São tão bons, Abujamra ator (e diretor) e Jabor cineasta, que o que falam, vestido de toda técnica, parece-lhes já alguma razão. Mas estão longes daquela loucura com método, de Hamlet --- no caso deles, a neurose da motivação socialista é quase só auto-hipnose.

Nota

1. Benicio disse, no todo: “Che foi um daqueles caras que falavam e faziam. Era coerente [!]. Sempre tem algo de cool em pessoas assim. Quanto mais vou conhecendo Che, mais o respeito” (“O verdadeiro Che Guevara”, no site do Instituto Ludwig von Mises Brasil). Com essa distinção, encontra-se também Karl Marx (que deu em Lênin e Stalin) e Hitler (um poço de fraqueza e fidelidade às suas ideias); aos quais poderá juntar-se H.G.Wells qualquer ora.

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