junho 10, 2009

Fazedores de fumaça


Gradualmente, o aprazível universo o foi abandonando; uma insistente névoa apagou as linhas de sua mão, a noite se despovoou de estrelas, a terra era insegura sob seus pés”
- J. L. Borges, O fazedor.
No excelente artigo de Luís Augusto Fischer, "Vanguarda, mas sem ler os outros", que iguais andam faltando outros, Fischer diz que trabalhava ["operava"] com as "categorias sempre interessantes do Marx pensador", mas que saiba Marx refutou o pensamento pelo "fazer" --- para transformar o mundo.
E é justamente esse “fazer” o tema principal do artigo de Fisher.
A relação entre O fazedor de Borges, a arte como fazer técnico (τέχνη) e o “transformar” --- tremendamente voluntarista --- de Marx, cujo valor histórico parece que não passa de uma série de erros medonhos, faz reconhecer a tal “vanguarda” nascida de dandismo vazio, beletrismo vaidoso e revolta. Uma vez ausente de conteúdo, porque de “conteúdo” eminentemente crítico, não pode chegar a ser um estilo em si e se torna, por fim em duas coisas: 1) em arte técnica, puramente (arte, perícia, truque, tomadas em si), ou em 2) “subversão” constante e perenizada --- o que dá em contrassenso.
Uma vez que o modernismo e a vanguarda se tornam o mainstream, não podendo voltar-se sobre si mesmos, não tendo conteúdo para atacar criticamente, de modo a desequilibrar os sentidos, para expressar a experiência real original, para revitalizar cognitivamente a sua geração, viram em “estilo”, sem, no entanto, poder ser qualquer estilo. Dá no que só pode dar, em técnica vã de efeito duvidoso ou, mais fácil apostar, em um tipo de processo neurótico que se confunde ou identifica facilmente com a pura ideologia maquinada. Esta, dá então o conteúdo rarefeito de uma persuasão nebulosa --- mist.
De certo modo, Marx deu exatamente nisso, na arte --- techne --- de subverter a sociedade até que toda ela se torne no mais alto nível homogênea. E até que, nessa hiperinflação da produção pelo ser, tudo virasse em bijuteria sem valor. A capacidade da contestação moderna de discernir as coisas é a mesma da acuidade que tem um moedor de carne.
O marxismo, o vanguardismo e o modernismo transformam o mundo no que o acusam, em ser vazio de conteúdo, fútil e mercantilista --- ou, senão isso, anunciar que ele não pode ser mais que isso, daí a sua saída bizarra. Essas febres são frequentes em realizar aquilo que denunciam: “...dá pra dizer que a vanguarda, apesar de suas intenções, virou mercadoria, evanesceu, evaporou, ainda quando continue acreditando ser contestação”.
Dá para dizer que o socialismo, sempre que tentou ser implantado, deu em outra coisa, bem outra coisa, e mais medonha que o sonho utópico --- etimologicamente: não há lugar para algo imaginável, porém irreal, senão o não-lugar do vir a ser, do futuro sempre de novo postergado.
O marxismo faz exatamente isso, tornou tudo em uma derivação das relações de produção --- em techne. Um aspecto do mundo moderno é anunciado como o próprio mundo.
E na crítica à arte, da ética e da virtude como afetação da “burguesia”, alimentou os movimentos modernistas com “consciência” e “engajamento” --- sendo este o conteúdo daquela ---, dando no que constrangeu Luís Augusto Fischer na entrevista de Ricardo Piglia, sempreapesar de suas [boas] intenções”.
Marx pensador” é um oximoro histórico e filosófico --- Marx é um fazedor. A modernidade é tremendamente alienante, o que é da crítica e denúncia do próprio marxismo, mais quando ela leva a marca da própria ideologia marxista (n'alguma das suas mil faces).
A engrenagem da máquina de moer carne nota-a Fischer quando diz que a crítica modernista elege a si mesma como superior a toda a literatura anterior a ela, e assim se legitima, bem como à obra individual do modernista, pelo próprio modernismo.
O teylorismo, o fordismo, o stakhanovismo são símbolos dessa idade fabril do homem, desalmada e vazia, massificada em técnica feita para coisas --- e nesse sentido, a técnica passa bem longe do que quer dizer dela Fischer, um meio de dar condições ao espírito de expressar no que ele tem de genial.
De outra forma, a técnica se confunde com o puro fazer, e o fazer, com a técnica --- meios de expressão da vontade pueril e do esforço e revolta que a vanguarda é símbolo.

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