janeiro 16, 2009

Coerência despercebida (!)


(2ª atualização)
Lula, sobre a manutenção de Chávez no poder na Venezuela:
(Algum tempo atrás)
“Ora, o parlamentarismo inglês permitiu que Margaret Thatcher ficasse muito tempo no poder, como ocorre com Chávez agora. No final das contas, o parlamentarismo inglês e o socialismo boliviariano levam ambos à mesma coisa: muito tempo no poder” [não textual].
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Nosso modelo socialista é eminentemente democrático” – Hugo Chávez (Época).

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(Transcrevo:)

“Este é o maior período de democracia que o Brasil já passou (20 anos). Estamos num processo de construção da democracia, mas nada impede que daqui a algum tempo, apareça um partido político, um conjunto de deputados, que proponha mudar a lei […] e que permita ter três, quatro eleições... Isso pode acontecer. Na hora que você tiver instituições consolidadas, e tiver liberdade política, e o povo quiser, isso vai acontecer. Eu sou criticado no Brasil por defender o processo aqui na Venezuela, pois [é porque] eu sei quantas eleições você [Chávez] já [se] submeteu, quantos referendos, quantas votações, e eu acho que isso é o exercício da democracia”.


Lula nega em seguida ser candidato a um terceiro mandato.
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Na Revista Época de 20/11/07:
  • “A estréia de Hugo Chávez no cenário político foi numa tentativa frustrada de golpe de Estado em 1992. Na época tenente-coronel do Exército venezuelano, Chávez liderou 300 soldados que tentaram derrubar o presidente Carlos Andrés Pérez.
  • Após ser eleito, usou sua popularidade para destituir o Congresso e promover uma Constituinte. O novo parlamento foi todo formado por aliados de Chávez. A mudança deu ao presidente mais um mandato.
  • Chávez reelegeu-se novamente em 2000. Por causa da nova Constituição, esse foi considerado seu primeiro mandato.
  • Aposentou os ministros do Supremo Tribunal da Venezuela que considerava seus adversários. Para o lugar, nomeou aliados.
  • Mudou também a composição do Conselho Nacional Eleitoral, órgão que julga as causas eleitorais do país, para acomodar ministros simpáticos a seu governo.
  • Não renovou a concessão da RCTV, emissora de televisão que fazia oposição a seu governo.
  • É suspeito de incentivar e armar grupos [para]militares que intimidam seus opositores.
  • Agora quer mudar novamente a lei para poder se reeleger quantas vezes desejar.
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Eu sei quantas eleições você já [se] submeteu, quantos referendos, quantas votações, e EU ACHO que ISSO é o EXERCÍCIO DA DEMOCRACIA”.
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(...)

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A prova
(Atualização 090128)
Ao não extraditar o terrorista italiano, Cesare Battisti, o Brasil --- este que está aí --- põe sob suspeita todo o sistema jurídico italiano, entendendo, por declarações de Tarso Genro nesse sentidoTarso Genro --- suportado pelo esforço justificatório de Lula --- que o governo da época (“de direita”?) teria sido o fator mais forte para determinar a condenação do “ex”-militante da esqueda radical, por atos cometidos em 1978 e 79. Põem sob suspeita, assim, a instituição jurídica italiana, como se esta fosse suscetível de ser determinada por decisões políticas e, efetivamente, ser este o caso ao dar "refúgio" político” a Battisti.
Ora; se o governo Lula não crê nas instituições italianas, supostamente subjugadas por políticos e juízes da época dos acontecimentos, como poderia deixar de agir exatamente assim por aqui? Mas se as instituições italianas não são confiáveis, como poderia a cúpula petista acreditar que as brasileiras fossem mais? Ou, que elas devessem permanecer sem serem “ocupadas” pelo que pudesse dar confiabilidade a elas. Como fez Chávez.
Acreditam nas instituições, como diz Lula, “Na hora que você tiver instituições consolidadas, e tiver liberdade política, e o povo quiser...” uma eleição ilimitada irá acontecer. Mas não estariam consolidadas as instituições italianas? Na prática, suas ações mostram que sua confiança ocasional nas instituições está sempre ou sob seu controle ou quando se veem temporariamente impedidos de “ocupá-las”. Tudo é “politicamente” considerado, maquiavelicamente!
Afinal de contas, Lula faria o que fez Chávez com o Supremo Tribunal venezuelano, se pudesse? Ou Lula declara que rejeita um terceiro mandato e coisa equivalente ao que fez Chávez, porque não vê como fazê-lo agora?
A conclusão aqui parece evidente.
(E, afinal de contas, quem tem Ayres Brito, de quem mais precisa?)
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O condottiere
(Atualização090129)
Não bastasse isso, tanto na França, depois de passar pelos trâmites normais, quanto na Corte Européia de Direitos Humanos, além do Comitê Nacional de Refuagiados (Brasil), todos foram unânimes em dar o processo de Battisti como correto, mesmo assim, Tarso resolve, autocraticamente, que "não há provas", que ele "leu o processo", e que há erros crassos que, subentende-se, nem o Comitê de Refugiados, nem a Corte Européia de DH, nem os juízes franceses entenderam o que leram.
Quando Tarso diz que o debate deste caso virou em polêmica política, e que não se lhe toca no mérito, está sendo cínico, pois a sua decisão foi, como se vê pelas instituições que ele contrariou, apenas política. Pratica aquilo que acusa, e dá isso já como prova da veleidade dos seus contendores.
Eis o entendimento, mais uma vez, de "instituições sólidas", assim, de ponta-cabeça, do mesmo modo que a democracia já recebeu outro conceito --- new-speaking --- de Lula, com o aval de toda a imprensa, que já acha que política é só a afetação inócua de quem dirige a economia do país.


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