outubro 27, 2008

Ensaio sobre a surdez


A fala que dissimula a violência instituída sob uma aparência de razão
Disse Olivier Reboul do “clichê”, identificando-o ao discurso do poder estabelecido, e das ideologias.

Não há hegemonia de opiniões na imprensa, além, é claro, da hegemonia da “opinião” mesma. Essa, uma hegemonia que beira ao mais absoluto dos totalitarismos. E como a opinião é o meio inconsciente do absolutismo, o conteúdo não poderia deixar de ser subliminar.
A mensagem subliminar dessa vez foi sobre um comentário sobre Lula (a favor, é claro): “Quando Lula diz que [a crise] não é grave, criticam ele, quando diz que é, criticam ele também. Assim eu não entendo”. Comenta Lauro após ler a mensagem do ouvinte: “É, às vezes eu até entendo...”.
O direito universal à opinião é o totalitarismo do descritério e do blefe, da mensagem subliminar, do slogan, e, ver-se-ia, com mais atenção, em essência, do espírito de contrafação.
Não nego mais que Lula tenha aquela virtude política maquiavélica e macunaímica, de que trata Arnaldo Jabor, mas, ainda assim, esta virtude não deixa de ser o oposto de qualquer virtude, a pura inépcia assessorada pela contrafação. A mentira mais repetida de todos os tempos, de que o PT era o “partido da ética”, não se houve mais quem lembre e faça permanecer na memória para que se saiba o que se passou, e já quase se quer, dando estranha volta, um retorno àquele estado de mentira por, quem sabe, erro de alguma ala do partido que não seja o próprio partido, do mesmo modo que Marx goza da fama de idealista da “igualdade” e a história que paga pelos assassinatos e miséria que advieram de suas idéias e promoção direta. Ou como os crimes do stalinismo são separados do comunismo, como se estes não fossem seus próprios crimes.
Retire-se tudo que há de ruim, passe-o para o inimigo e, voilà! Nesse mundo de fantasia não há conseqüências, tudo se faz pela igualdade, fraternidade e justiça, e se no exato momento seguinte pessoas começam a morrer, já é coisa do selvagem “curso histórico”.
Promotor de coisa menor, mas seguindo ainda o curso histórico, é a subserviência do “homem média”, o formador de opinião que falsifica a polêmica escolhendo com finura de escrúpulos aquilo que pode comentar e aquilo que não pode. Para Lauro Quadros, o ouvinte ter chamado de “demagogo” é motivo de censura direta no seu programa, sob a evasiva de que ele próprio poderia ser preso. Imagine-se como seria um país onde a crítica que nomeia o vício dos seus políticos implicasse em cadeia? – acho, se não me engano, que isso se chama “ditadura”. A ditadura da mentira, do logro, do desvio e das evasivas contumazes, que os sacerdotes desse império falsificam com o nome de “ética”.
Calam a boca do ouvinte para manter os seus “padrões éticos”. Vigarice pura, de quem tem responsabilidade de ser um comunicador de massa. O que dizer? Melhor nada, para não ser convidado a participar desse silêncio que se reconhece por um direito compulsório ao fingimento.
Ao expediente da crítica, negam-se; sobre Lula, há só o respeito idiota pelo rei nu. Esse filme é mais assustador que Ensaio sobre a cegueira, baseado no livro homônimo de José Saramago, porque o equivalente daquela peste existe na surdez ideológica que enxerga na sua própria deficiência o “silêncio” dos bons. Se quando os bons se calam o mal prospera, é igualmente verdadeiro que um mal ainda maior aparece quando não há quem estranhe esse silêncio. Se num primeiro momento o silêncio negligente estarrece, pior é quando já não há mais quem possa ouvi-lo.
A propósito; quem fala sem consciência do que fala (xenoglossia), não tem como ouvir bem. Só ouve o que quer; só lê o que já lhe fala alguma coisa. O silêncio é já normalidade. Mas para o zelote moderno, a algaravia de opiniões circulando na cabeça já não o permite distinguir as mentiras que foram e que são uma violência proporcional à da opressão física.
Sem a violência física, com símbolo na “tortura”, restaram as mentiras, já feitas em consciência coletiva sob a proteção dessa artimanha alucinatória que usa os nomes de seus inimigos invocando-os como estandarte e autodefesa: “democracia”, “ética”, “imparcialidade”, “direitos”, “subjetividade (individualidade)”. Esta última, justamente o que abre um espaço de instabilidade na hegemonia do discurso “laicizado”, quer dizer, amoralista – que é, e já não pode não ser, imoral –, pois é a voz do ouvinte que chamou Lula de demagogo, que percebe o que o véu de mesuras postiças quer manter longe da consciência.
"Eu queria ter a [experiência] política do Lula...", disse Lauro Quadros num de seus programas, reiterando a seu modo a tese de Jabor, de que a inépcia é um talento novo, um talento de um estadista moderno – bem a propósito desse movimento de queda radical da moralidade, que começou com guerras e genocídio por ação política, mas que tem para com a história a dívida ligada ao símbolo do regicídio, de nas origens começar pelo frio assassinato como se esse fosse um direito inalienável dessa justiça dos movimentos: derruba o mais alto para fazer uma potestade dos subterrâneos.
Lauro Quadros rejeita dizer que não é ético chamar Lula de populista e demagogo, ainda que tenha ele usado a imagens de crianças em outdoors na campanha, declarar ter torcido pelos vietcongs (que mataram 3 mi após o fim da guerra), que dá por resolvido o Mensalão com uma evasiva que passa ao Congresso “aquilo que aconteceu lá” como “folclore[!]”; que apóia para-militares exportando para o país vizinho o que está vedado na Constituição, e que só se lembra do seqüestro e do assassinato quando é pego apoiando, irresponsavelmente, o movimento revolucionário armado daquele país; que deu guarida política (e emprego) a braços do crime organizado sob rótulo ideológico, com os quais compartilha do fim para o qual os meios, não declarados, são negados mesmo quando se vêem realizados numa cartilha comum nos mais mínimos detalhes; que fala conforme a platéia – por vezes contraditando-se a si mesmo em questão de horas –, que fala o que bem entende, e quando não é o clichê mais vazio, é apenas o ridículo ou o absurdo, e intermináveis coisas do gênero.
Tudo que, por outro lado, como entende Jabor, é justamente o que se lhe atribui por talento, a mais pura inversão do certo e do errado, do justo e do injusto, do bem e do mal.
Lula tem a irresponsabilidade bem-aventurada de Karl Marx para com os crimes que se cometeram sob sua égide, em nome de um mundo mais justo, no curso do qual o sr. Lauro Quadros sabe exatamente aonde olhar para não ver coisa nenhuma, e que para defendê-lo faz implicar com gravidade em crime o que tem a força de uma evidência, mesmo que se negue ela justificando que ainda não passou no Jornal Nacional.
Essa polidez e cautela respeitosa para com o sr. presidente da república explicam-se, certamente, por alguma ética semelhante àquela que declarou por décadas a pureza do petismo e essa excrescência política chama “militância” (os para-milicianos), mas que admoestou o ouvinte que chamou Lula de “demagogo”. A imparcialidade desse mediador é a toda prova (imune).
Os métodos do PT – e que se fique apenas com São Paulo e Porto Alegre, de acontecimentos recentes – Lauro jamais ligaria à figura do presidente – ainda que aquele tenha celebrado com champagne a aliança com o sindicalismo para-miliciano e agora, por mérito seu, à margem da lei (silêncio crítico que justifica sua popularidade). Mesmo Lasier Martins, bem mais honesto, não conseguiu ver intenção política no movimento reivindicatório dos “Sem” (pelo menos não abertamente).
Chamar Lula de demagogo, não pode; fazê-lo desencadeou em Lauro um “Ahhh...” puritano que o calou e à mensagem do ouvinte. Reação de gravidade moral e legal, porém fez sussurrar (ou talvez sibilar) que Lula é atacado por qualquer coisa por detratores, os mesmos que não querem a justiça delinqüente da inépcia que deu em José Dirceu e quadrilha, Celso Daniel, em Palocci persecutório, em mensalão, em propostas de extinção do Senado (para negociar diretamente com os 300 picaretas, por certo), de anúncios de pré-sais e reservas gigantescas, para daqui a 20 anos (que os especuladores adoram); em autopromoção de virtudes, etc., coisas que os nossos prestidigitadores de mensagens subliminares ignoram, subservientemente, em nome da inconsciência crítica, do espírito de massa, contra aquilo mesmo que reconhecem no subjetivismo, como autonomia individual – que é só o que pode, quando há espírito, denunciar contra a opressão quando ela está mesma já no ar que se respira.
Chamar Lula, portanto, de O Grande Mentiroso (por demagogo, que é só um eufemismo) é, assim, por justiça, ajustar a opinião fácil aos fatos, que o homem da mídia, por recurso à “ética”, se nega saber. No ar, o homem da mídia reproduz esse medonho silêncio, fruto de uma surdez imoral.
Essa nova ditadura é feita de opiniões e de um fino sentido – e por isso mesmo ainda mais vil –, de austera polidez [1]. Aqui a cegueira é surdez; e a surdez, uma moléstia moral: esta, a faculdade cognitiva do real que leva à ética.
*
Contra a política da desinformação e do fingimento polido:
Nota
1. Ditadura de silêncio obsequioso, burocracia, de rebotalhos da modernidade (kitsch-minded), de polidez fútil, representantes privilegiados da modorra moderna e amoralidade, da qual são expressão Brazil o filme, de Terry Gillaim; 1984, de George Orwell; Brave new world, de Aldous Huxley; e The managerian revolution, da obra de James Burnham.

Nenhum comentário: