junho 17, 2008

A opinião como princípio de igualdade

Um homem aparece na TV, em entrevista casada, de algum lugar da cidade, de outro o Comandante da Brigada Militar, que fizera há pouco o policiamento no caso dos tumultos de manifestantes ligados à Via Campesina em um Supermercado:

Comandante...” – disse o homem – “O sr. não acha que a sua ação, para impedir o movimento [Via Campesina] de ir, com o seu protesto, até o Palácio do Governo, foi um ato político-partidário?”

O Comandante respondeu:

Como havia por aqui tumulto, invasões e depredação, óbvio é que não poderíamos deixar que os manifestantes avançassem até o Palácio do Governo” [não-textual].

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O evidente encoberto pelo avesso

A Via Campesina e quejandos, simpatizantes e outros “movimentos sociais” que tais, buscam tornar público, como deve-se ter por boa-fé e se sabe, das intenções, pelo gênero de ação a que se identificam, serem reivindicações de cunho social; como, por exemplo, a saída do capital estrangeiro do país (!) – que declararam, tomando como vaga alegação a crise do preço dos alimentos –, e de monopólios vários.

Por isto, ou pelo que mais se possa arrolar com natureza igual, justificar-se-ia o tumulto e o vandalismo vistos. Como exatamente estas ações lutam, por meios não-democráticos, pela alteração de uma situação econômica estabelecida, e um tanto complexa, é que é revelador. Como suas reivindicações concretas não podiam ser entendidas, naquele exato momento, pela aquisição direta ao que reivindicam, a ação não pode deixar de ser política, e é mesmo, não cabe dúvida honesta, um “movimento político” ao qual se autoqualifica “social” desde que por isto subentende, de pronto, “justo”, “legítimo” e destes “evidente” a quantos queiram.

Não podendo não ser um movimento político, a alegação daquele homem, que falava em nome dos “movimentos sociais” ao Comandante da Brigada, havia invertido a ordem das coisas.

Acusara a Brigada de fazer exatamente o que os integrantes do movimento social haviam acabado de fazer e ele próprio, enquanto alertava na ação da Brigada o seu próprio fim.

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Pontes para o nada

A ordem inversa é rigorosamente a mesma que Raul Pont usou quando colocado frente a frente com o ex-Contador Darcy Francisco Carvalho dos Santos, que havia refutado toda uma longa declaração ao Le Monde Diplomatique/Brasil citando dados falsos e interpretando-os politicamente favoráveis à sua própria militância político-ideológica[1] – a famigerada “Luta”[2].

Na ocasião, diante de uma situação humilhante, na qual o Contador refutava todas as declarações dadas ao Le Monde, Pont acusa a intenção político-partidária no oponente e a motivação do seu desmentido, com o qual ele afligia Pont. O contador, então disse que não tinha Partido, mas “posição”, certamente que sim, a dos números oficiais do Estado.

Como não bastasse, disse Pont: “Não me venha com o argumento da autoridade... Transforme isto em uma opinião sua...”, o que queria dizer, naquela situação, “Faça de seus números matéria de opinião, assim poderemos debater em igualdade de condições!”

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A Luta

E Reinaldo Azevedo, da revista VEJA, que em debate exortou os alunos de jornalismo da USP a invadirem as bibliotecas em vez das reitorias, em manifestações bobocas, ouviu do representante de esquerda: “Reinaldo quer ser um intelectual... Ele quer desviar a atenção da luta.

Nesse febril estado delirante, o rosto pintado feito catapora e respiração ofegante, viu-se junto do festim fascista dos sem-vergonha-na-cara, jovens pintados de guerra, como conta a Zero Hora de 12/06/08, na p. 34:

Conforme um veterano líder estudantil, cresce o número de jovens universitários integrantes da Juventude da Via Campesina. Eles fogem à regra porque não pertencem à direção dos DCEs ou a diretórios acadêmicos, como geralmente se via em protestos. Seriam filhos de sem-terras que ingressaram em cursos como História, Ciências Sociais e Direito”.

(Calafrios)

Até Pedro Simon, sempre (parecendo) tão lúcido (mas talvez pouco esclarecido), apareceu se mostrando admirado e mesmo exultante com a volta dos “caras-pintadas”.

É o que sobrou para o pessoalzinho por aqui, a vanglória imberbe; que me lembra aquela frase impagável de Max Gheringer, quando ele consolou os adolescentes noviços querendo fazê-los crer que sua juventude será sua maior arma de resistência quando fracassarem e nada compreenderem.

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Dissolvência mental

Para não dizer que isso é coisa só de gente de esquerda e de jornalista, quando os dados dos acidentes de trânsito com motos foram comunicados ao repórter do Bom dia Rio Grande (RBS), na TV, notando que 50% destes, nos casos específico das motos, deviam-se a imperícia no momento de frear, estranhou que uma semana depois, ao questionarem um dos representantes do DETRAN sobre estes números, este prontamente tenha-lhes apresentado o recrudescimento dos testes para tirar a carteira de motorista como remédio àquele mal. O que aconteceu com a alteração passando de uma apenas para três voltas na pista de testes (sem errar, a R$ 60,00 por erro).

Isto teria algum sentido se o trajeto exigisse, em qualquer momento, o uso dos freios, que nas condições em que os testes são realizadas, é impossível.

É um dos fenômenos que, retrospectivamente, podem ser vistos como indícios fortes da lógica que acabou por levar ao escândalo no DETRAN, onde os valores eram desviados para financiar partidos e distintos homens públicos, sem nenhuma preocupação real com a condição de avaliação dos testes para motoristas.

Por exemplo, quanto ao perfil psicológico dos candidatos que para tirarem carteira de motocicleta vinham de casa pilotando a própria!

Que nenhum dos jornalistas que porventura tenham assistido a ambas as entrevistas, e com algum (mínimo que fosse) conhecimento dos procedimentos, tenha se dado por curioso para apurar a flagrante contradição, mostra que o disparate e a inversão, que acaba por produzir uma impossibilidade material, pode passar fácil como coisa mais que normal por aqui. Pelo que tinha declarado o representante do DETRAN, em contradição aos fatos, que o assunto não merecesse qualquer destaque se deve certamente à indefectível possibilidade universal à opinião.

Senão isto, aos efeitos já de se permanecer muito tempo exposto à balbúrdia de coisa assim.

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A democracia dos jornalistas

Assim, os jornalistas todos, por aqui, aplaudem, com estas asneiras, o que entendem ser o fundamento máximo de nossa Democracia, e ao que, por fim, ela se resume na “diversidade de opiniões” e na liberdade de dizê-las e ser respeitado por isto.

Se por acaso você quiser discordar disto, deverá primeiro assentir com a regra para poder negá-la, desde a base – ou negá-la já não podendo deixar de se valer dela. E concluir desde aí, que as opiniões são todas igualmente respeitáveis.

Com essa mecânica falaciosa, fundamento da vida nacional, não estranha que o que se disse acima tenha mesmo a condição de respeitável momento na história do debate público contemporâneo, com uma diversidade dos quais nossos comentadores de futebol e jornalistas, in toto, adestram ao absurdo o povo no exercício de suas profissões.

Essa inversão do que se faz e diz, no ato mesmo em que se faz e diz, tem daquele métodos psicológico de dar com a porta na cara do sujeito para ele, incrédulo do “argumento”, repensar seus pensamentos à luz da liberdade de expressão ao acaso ou, direito irrestrito à opinião espontânea.

Para o jornalismo brasileiro, essa estrovenga chama-se “liberdade de expressão”, protegida pela inalienável liberdade de consciência (não esquecer do nosso Art. 5º da Carta Magna) ou, do que sobrou dela.

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Contra o silêncio, as opiniões

Se bem que tudo isso vá muito ajudar aquela opinião que saiu na imprensa, pela qual o especialista orientava os afetados de zumbidos permanentes no ouvido a não permanecerem em lugares silencioso, onde o zumbido era mais incômodo.

Se o esforço por algum pensamento mais exato pode levar a alguns momentos, ainda que breves de silêncio, desconfio que o hábito da opinião acabe por levar bem mais vantagem que seu concorrente.

Outro lugar onde isso aparece é na absoluta necessidade de os narradores de futebol de TV e locutores de rádio (salvo alguns poucos) não pararem de falar um só minuto, para garantir a atenção do hipnotizado espectador ou ouvinte.

Ora, os veículos de comunicação são os mais suscetíveis a esta lógica tagarela que tanto favorece a opinião espontânea e que tanto seduz a uns quantos profissionais do meio.

Notas

1. V. “O grande vão sinistro de Pont.

2. V. “As novas castas, nota 2.

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