abril 26, 2008

Mundo apócrifo

(“Mundo apócrifo” – parte I)

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O evangelho apócrifo

Ao nascer, conhecemos o frio, a claridade... e desde então que o mundo é de vários modo desconfortável, comparando-o a uma situação anterior que julgamos, como testemunhos vivos, melhor. Mas é verdade que já é o mundo no ventre materno, assim a noção de pior e melhor está abaixo daquilo que damos testemunho.

Entender, contra todo relativismo, ainda aquém deste, com puro (!) ceticismo, que é o Nada que há, sem haver, mas talvez apenas como um truque de linguagem que nos consola por nada, e é já o truque mesmo que vira ventre. Aponta o equívoco da existência e ignora o choro estridente que, antes de nascer, o feto não podia saber se, com a mesma natureza, o som que ouvia era algo ou se se confundia consigo próprio, daí já sem nada dizer-se o que não é e não saber ser, se homem ou ainda apenas a forma do sonho de maternidade de mulher.

O cético radical é testemunha do equívoco do mundo, do divórcio do mundo dos sentidos, aquele mundo que Umberto Eco diz que “está implícito no primeiro grito que o recé-nascido emite logo que saiu do ventre materno[1], do mundo virtual e fugidiu sobre o qual sempre nos enganamos ao querer conhecê-lo. Neste mundo ideal, do qual tudo que se pode saber é que dele não se pode saber nada – o que, por si mesmo, não é nunca interrogado, mas apenas esquecido – qualquer conhecimento deve ser só erro relativo ao conhecimento de que dele nada se pode saber. O fundamento dessa metafísica é o Nada[2].

Assim, o Nada tem para o cético evidência digna de... fé. Com esta fé, o cético – ateu ou pagão[3], dependendo da crença – sente o sofrimento e a angústia como uma resistência que o mundo lhe inflige sem dar esperança.

Se de início o tipo humano nadista crê num mundo melhor, do qual esse mundo atual é uma coisa mal-feita, é só para reforçar o pior, e jamais encontrar sequer aquele mundo que começou “relembrando”. A anamnese nadista recorre a outra estrela, de massa muito grande e que tem a escuridão como “brilho” aparente. Um novo mundo é possível – para usar uma daquelas frases embasbacantes – é alcançável, realizável, desde aqui e agora, mas ele se mostra persistentemente fugidio, daí o que permanece mais forte é a sensação dessa resistência que é só desgaste e exaustão ao seu encalço, sobrevindo a desesperança.

Nas esferas sublunares, os habitantes desse mundo assumem uma cosmovisão cujo princípio de realidade é o Acaso: o acidente é a essência. Alguma coisa há, mas é equivalente a nada. Imagine agora se as testemunhas oficiais de uma época – os evangelhos de uma outra civilização –, após nascerem (e isto não está em questão aqui), fossem adoradores do acaso? Que tipo de testemunha dá isso? Ocasional, espontânea, equívoca...[4]. E o homem de fé que sai daí? Aquele que vai de “esquecimento em esquecimento...[5]

O cético nadista chora ele próprio ser uma obra do puro acaso; a angústia é, para o cético, uma espécie equivalente ao grito do recém-nascido. Mas a manutenção dessa condição mostra uma regressão ao útero, e a angústia se torna o próprio líquido aminiótico do pirralho.

E como já não pode encontrar nenhuma solução prática aceitável, faz profissão de fé o prosélito do Estado leigo e Tutor; alberga-se no consenso, na autoridade, no pragmatismo, num materialismo sacro-santo e no princípio do prazer (ou, sua forma negativa, de “não sofrimento”).

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A fé na negação coroa o rei nu

Recentemente, deu testemunha de uma fé parecida o jornalista cineasta Arnaldo Jabor; fazendo as vezes de “o homem do cheiro do ralo” (o filme[6]), encarna o homem que descobriu, com as ilusões socialistas mortas, que o homem não presta[7], que ele é intrinsecamente mal; não nasce mal, mas, por força da seleção natural, é no que se torna mais facilmente. Essa natureza vil pelo menos é competitiva, e na competitividade deixa no seu rastro o melhor mundo possível, distribui riquezas e prova que os benefícios indiretos do egoísmo são melhores que os ideais igualitários, que engendram a miséria.

O erro egoísta redime, como que por um traço de humor negro do acaso, o homem de ser pior do que é, mas que já não pode não ser. Só o acaso é bom – só eventualmente e, por acaso. Só assim é possível entender o cineasta ter “defendido” a inépcia de Lula como um tipo novo de estadista que inventou um “maquiavelismo macunaímico”[8], que pela absoluta inépcia, letargia e submissão, impediu uma guerra no continente por ter feito papel de mediador boboca, evitando que os ânimos se acirrassem.

Como se o papel do governo brasileiro não tivesse sido todo a favor das FARC e da Venezuela, e de Chávez – aquele que primeiro de todos saltou para a fronteira falando em conflito – que foi depois galardeado por Lula ao chamá-lo “o grande pacificador” (!!).

Essa profissão de fé parece que é um traço particular mais recalcitrante do “homem de esquerda” (mesmo do ex-homem de esquerda) – a inversão lógica e a negação da presença que assume a forma de uma regressão infinita aos menores e mais simples elementos constituintes, tomando-os como fundamentos do real. Assim, p. ex., a vida não passa de reação química em cadeia; e a mente, da estrutura física do cérebro. A reação química é em última instância uma espécie de movimento que só pode ser explicado, aquém de si mesmo, pelo taoísmo da física quântica. E que, por fim, deve-se concluir que a natureza dual da matéria é a negação de toda realidade que não pode ser reduzida a um termo mais simples, mas apenas ao seu oposto.

Assim, a vida é para o nadista uma maravilhosa obra do acaso, o efeito do supremo princípio metafísico: o nada.

Lula, como se pôde ver, inverteu toda situação e resolveu-a como se o caso ocorrido fosse o oposto. Tudo de ponta-cabeça!

Depois de reduzir tudo a meras reações químicas promissoras – ou a um misterioso “movimento” jamais interrogado –, o cético nadista afeta-se a antever o futuro “mais alto” reconhecendo em si o sonho “superior” de toda a raça humana.

O que não deixa de ter alguma razão é o que Arnaldo Jabor entende pela política ideal para governar o Brasil, que ele chama de país “geléia geral”. Um país com caminhos todos tocaiados pelos 300 picaretas não pode ser melhor governado que por um presidente o qual impressiona a todos com algo tão parecido com ponderação e simplicidade que mal dá para perceber que tudo está fundamentado pelo movimento e pela mudança, desde o discurso até os fatos mesmos; há perfeita analogia entre um e outro. É sem dúvida um anti-herói! Nesse sentido, é Macunaíma. É uma encarnação do dândi brasileiro, do qual se espera os “bons instintos” de que falava Machado de Assis. Na esfera política encarna o estadista desconstrucionista, que em estado febril pós-moderno é muito superior como fenômeno aos 300 do Congresso, o sobranceiro Ali Babá.

Para a política exterior, por seu turno, Lula é o lastro mesmo do mais puro conservadorismo, representando a previsibilidade e a ponderação equilibrada das leis econômicas que o mundo impõe ao Brasil. O Brasil sabe que o resto do mundo (!) é real, tem existência própria e apesar de saber expressar-se nessa língua, tem-na como excrescência de uma mundo inacabado. Um mudo que deve ser modificado – metafisicamente, um mundo em movimento, em transformação. Por isto é de certo modo surpreendente notar agora que Jabor e mesmo Luiz Fernando Veríssimo – que já não nega “os números”[9] – tenham passado a ver tão claramente algo real e alguma ordem no mundo hodierno.

Os ladrões de galinha (na inteligência e não no tamanho da galinha) desconhecem totalmente a “estratégia” de Lula: o próprio Lula. Lula é estratégia de si mesmo. É pela simplicidade e obviedade, pouco crível que não haja, como pensa Jabor, um estrategista por trás da incongruência sistemática[10]. Lula é uma esfinge que devora quem não o decifra, mas – como aquele gato da fábula de Kafka[11] – os que o decifram também são devorados, porque já não há como escapar dele.

O problema é que quando Lula sair, não haverá alguém tão hábil quanto ele para confundir seus adversários fazendo-lhe todas as vontades?

Na lógica nonsense desse escambo político, quem pode substituir a arte de Lula? Quem terá, ademais, a sua popularidade, seu carisma para unir o povo brasileiro em torno da idéia do progresso, “de distração em distração”, de forma tão eficiente?

A solução para o Brasil é reeleger Lula indefinidamente, é mantê-lo como presidente vitalício – símbolo de todas as possibilidades brasileiras. O pior é que no caso de Jabor, ele sabe disso, declarou-o com todas as letras: “Lula tem sorte!” disse ele. O acaso é reconhecido pelo que é, e nesse não-valor (ou, se vale, vale ao acaso), encontra-se o maior valor.

Nessa inversão, o apedeuta é herói néscio que acaba por dar certo só por acaso – e o Acaso, já no lugar de Deus, mostra a ascendência verdadeiramente religiosa da fé cética e dos súditos do rei nu.

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O canibalismo do ser

Deve estar – ou, pelo menos, se não está, dever-se-ia tê-lo em mente – implícito na divisa délfica Conhece-te a ti mesmo um “antes do nada”; assim ficaria: “Conhece-te [antes do nada] a ti mesmo.

Tem que cuidar só para não inverter o Só sei que nada sei socrático para um relativismo cético ou, o pior, um relativismo luliano: Só sei que não sabia e por aí concluir que todo conhecimento é inviável, quando o conhecimento é justamente um esforço por algo. Se bem que parece que já descobrimos espantados com a “descoberta” de que há algo a ser conhecido, enquanto, por outro lado, se resolveu, ainda imaturamente, dar prioridade para a incerteza que o conhecimento visa um pouco menos[12].

O homem grego e o homem moderno têm sinais opostos. O tipo socrático sabe que sabe que sabe alguma coisa quando reconhece que não sabe; o homem moderno, pelo contrário, sabe que não sabe, e que saber não saber não é um conhecimento: é o conhecimento de nada[13].

Este “nada”, talvez porque não possa não ser sem tornar-se em um buraco negro metafísico, que traga toda realidade, a ponto de não caber nem mesmo a especulação de ser o homem o sonho de um sonho, (este nada) passa a ser algo presente; um equívoco ou erro com positividade – um nada positivo ou um negativo positivo , que dissolve tudo, como um Urobóro em que o devorar extinguisse quem devora, exceto o próprio devorar; exceto seu próprio sentido negativo, que por não ser não pode deixar de ser – e aí já é pelo menos alguma coisa. Ou como se o ser pudesse devorar a si mesmo, deixando de ser.

Um tipo humano sente o mundo como ausência; o outro, como presença. O estado de um é a morbidez, a angústia; a do outro, a fé na evidência. Parecem coisas essenciais estas, como se mostra naquela imagem popular, de cujo estranhamento reproduz o mesmo sentido, quando se diz que há um copo com água pela metade, enquanto alguns vêem-no quase vazio, outros vêem-no quase cheio. Um vê o que há, o outro, o que falta[14]. Parece fácil ver, no entanto, que ambas as coisas, tomadas dogmaticamente, levariam ao erro.

Mas a despeito da forma, é a água ainda que faz toda a diferença.

(Continua...)

Notas

1. U. Eco, Kant e o ornitorrinco; 1.3..

2. Uma estrela outra que aquela de Platão, uma stella terribilis, da qual a intuição ou lembrança dá esta certeza do equívoco, e existencialmente, o sentido da angústia da desconstruição” em um mundo fragmentado.

3. Chesterton dá boas razões parta se crer – como deve ser – que o descrente acaba por acreditar em tudo, cultuando até mesmo jornais e enciclopédias. Ortodoxia; p. 243.

4. V. post “Departamento de oximórica e jornalismo opinativo.

5. V. Artigo de Jeffrey Nyquist,Intenção estratégica do homem-massa”.

6. No podcast do Jabor: “A delícia da verdade no escândalo do governador de NY” – 17/03/08.

7. No podcast do Jabor: “Cuba vai fazer a contra-reforma agrária” – 04/04/08.

8. No podcast do Jabor: “Lula está em lua-de-mel consigo mesmo”31/03/08.

9. L.F. Veríssimo, “Os números”. Zero Hora de 07/04/2008 (p. 3).

10.

11. Acossado por todo tipo de dificuldade, ratoeiras, muros, beco sem saída, ouve por trás de si: “Mas por que simplesmente não muda de direção?...”, então, ao dizer isto, o gato que o perseguia devourou-o.

12. V. Scientific American ano 2, nº 21, “Não sabemos que não sabemos”. Fev/2004, pp. 32-7.

13. Que por esta comparação se chegue hodiernamente a concluir que é, de fato, uma descoberta saber que não se sabia, equivale a dizer hoje que o conhecimento não é mais que um esforço pragmático. É dizer que o erro do conhecimento, que é como que algum conhecimento hoje, mas que não pode ele mesmo ser um conhecimento amanhã. Tentar amenizar a coisa toda dizendo que alguma coisa não sabemos dá em que sabemos de pelo menos alguma coisa e, portanto, tem-se que concluir que tudo isto foi perda de tempo. Se o autor tivesse usado a solução semântica (entre outras coisas) contra sua porópria tese, e não a “lógica dura”, poderia ter evitado escrever o livro que escreveu; e o autor do artigo, o mesmo.

14. Parece inegável que quem vê “falta” está colocando dialeticamente a si próprio como fator essencial de objetividade do mundo, daí a objetividade ser uma coisa desvalorizada pela subjetividade já aí inevitável. Enquanto quem vê a água vê contemplativamente, quem vê “falta”, projeta sua própria angústia sobre o mundo.


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