dezembro 18, 2007

Homens sinistros


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Sociologia e cachorro-quente
Já vi o cachorro-quente ser associado ao capitalismo, mas ainda não tinha visto ele ser feito o triste destino daqueles que, por sabotagem da livre iniciativa, não puderam ter subsidiados os estudos pelo Estado. A lógica disso, num artigo curioso do colunista do jornal Zero Hora, David Coimbra (em 7/12/07, p. 3),Homens de esquerda”, surpreende.
Não fosse a educação pública, hoje eu seria, talvez, vendedor de churros. (...) Logo, por formação, não posso ser de Direita. Não posso ser um liberal, que é a favor da extinção do Estado. Concordo, pois que saiba, quem teve uma legítima educação Liberal não seria tão simplório e presunçoso assim; nem tão fantasioso, assim, delirante, que com a sensibilidade de um coice de mula define a posição da Direita como o esforço para a extinção do Estado para, certamente, predominarem os valores individualistas da burguesia reacionária. Ora, bolas.
E foi o Chávez – este “homem de esquerda” que não soube sê-lo – que deu golpe duas vezes antes de ir, pela aclamação da maioria, ao Poder. E são costumeiramente os países socialistas que extinguem o Estado ao modo democrático para instaurar instituições postiças ligadas como apêndices ao partidão. Pensando desde pensamentos elevados, David Coimbra parece que nem precisa tratar dos termos corretos, basta ter certeza de que o oposto é pior por ser o oposto de princípios superiores, pelo menos, em termos humanistas.
Imagino que os vendedores de cachorro-quente e os churreiros tenham ficado desgostosos com o comentário de David, pois se David fizesse cachorros-quente do modo como comenta política, a salsicha correria o risco de estar coberta de pêlos e, por quase nada, miar.
Conclui, então, que, por formação, não poderia ser de Direita. “Não posso ser um liberal, que é a favor da extinção de Estado. Mas que raios! Deve estar se referindo à dívida que tem com o Estado, e, portanto, que já pode prescindir da própria consciência ou desta existir só em favor deste – senão, mesmo, por este. Pagou seus créditos com uma nota? Parece que custou bem mais caro.
Toda minha educação foi forjada pelo ensino público” quer dizer exatamente o que as suas opiniões demonstram por si mesmas. Num Estado que oferece uma educação tão ruim, David só pode estar se referindo ao emprego na RBS, e, desde aí, ser, por si mesmo, prova de sua natureza superior, que ele, de lambuja, reconhece no socialismo e no comunismo, onde o partidão tinha, por si mesmo, a validade mais geral e compulsória.
Se bem que, com a natureza de suas opiniões, não teria dificuldade de ser o editor-chefe de um jornal como o Pravda.
Um estado maior, que abrangesse todos os informais é, para David, o ideal de Estado; o oposto do que a Direita quereria, porém que, ao contrário do que pensa David, concebe o Estado o agente de estímulo à iniciativa privada sob a regulação legal num estado de direito que é a própria força de produção, e que sustenta a caridade feita a David.
Num Estado de Direita, as carrocinhas de cachorro-quente podem existir legalmente como iniciativa privada, cujo ocntrole do Estado se limita à fiscalização sanitária e aos impostos. Até para evitar as salsichas de carne de gato do colunista.
David resolve os problemas dos informais pela solução: subsidiando o estudo; quando não, subsidiando estudantes de jornalismo que acabam em um jornalão dando opiniões falaciosas sobre seus princípios nobres para fundamentar um estado de direito sem deveres. A começar pelo dever de honestidade intelectual, que, em épocas de Internet, teria ficado menos grotesco ter citado verbetes da Wikipedia.
É a própria sempre renovada encarnação do intelequitual esses rompantes de luzeiros faróis das páginas dos jornalões. Sofrem de luciferismo. O “portador da luz” esqueceu-se que esse título só tem sentido quando ele porta a luz e quando já não a leva consigo, que já não quer dizer nada, mas exagerando, pela verossimilhança – que é no que apostam por ofício – naquela marca angelical que o soturno ainda carrega.
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Luciferismo
O Estado, segundo David, “existe justamente para defender o mais fraco, para lhe propiciar, no mínimo saúde, segurança e educação.... E como a iniciativa privada não tem nada de fraca, ele tem por aí que não só o Estado é a própria caritaspagã, laica, humanista – como o empresariado a injustiça de alguns poucos de vida extravagante, de gozos cínicos e prática espoliativa.
A Direita, quando prega a extinção do Estado [sic.], alegando ser o Estado incompetente, está sendo cínica. Pronto; junto com o Jabor, outro freudiano dotado da acuidade dos piores instintos movendo, pelo substrato verdadeiro, a aparência dos bons princípios. Mas temos que rever essa psicologia: define a Direita pela extinção do Estado, que, cínica, faz que não vê que ela própria tem lá suas incompetências, e, que, portanto, deveria ser ela própria extinta; porém, a quer a do outro. O mundo de cabeça para baixo (aos olhos de David): como se não pudesse ser mais inverídico, atribui, de sua própria “forja”, a definição de Direita em negativo ao seu Estado Todo-Caridade[1].
São os valores mais altos, de pensametno elevados, que estes cavaleiros de esquerda carregam, como sabres de luz snistra.
David faz de sua gratidão para com o Estado-Mãe (que o forjou na ficção) a experiência definitiva da realidade, e que molda todas as outras. David toma sua própria experiência pessoal como marco existencial e aspiração de todo vendedor de cachorro-quente.
O mesmo crédito educativo cobrou de conhecida minha 600,00 reais por mês, valor que nem mesmo a Universidade pensou em cobrar dela no decorrer do curso. Mas David Coimbra entende que esse Estado-Mãe é bom pela sua experiência individual, tomada tão estreitamente quanto pode, que sequer parece que ouve os seus colegas de empresa, que se peca, parece que é por dar liberdade à expressão, mesmo quando ela, no conteúdo, vai contra os fatos que o próprio veículo dá conhecimento em outro lugar.
A Direita sabe que incompetência não é justificativa para abolir uma instituição, mas finge que não sabe para desmantelar o Estado. O que é exatamente que David está querendo dizer com isso não dá para saber. Como será que a livre iniciativa está querendo abolir as instituições do Estado? Será que por ela sustentar o Estado e, assim, ao cometer suicídio, tornando-se todos esquerdistas, levaria as instituições à bancarrota?
Em seguida, complementa o parágrafo dizendo que “[c]aso contrário a iniciativa privada seria muitas vezes abolida no Brasil - não são raros os casos de incompetência da nossa classe empresarial. É um típico “esquerdista”: entende tudo errado, simplifica a coisa toda ao extremo, refuta pela torpeza do próprio argumento o oponente e daí não poderia sair outra coisa que quejandos – e, por fim, reafirma um humanismo absolutamente idealista, que se mostra mesmo pela natureza da argumentação, sempre tão geral quanto não possa ser menos, para concluir pela própria miopia a desorientação da posição oposta.
(Assustador.)
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Igualdade no pó(stumo)
Então, entre Esquerda e Direita, sou Esquerda. Até porque a Esquerda é movida por uma idéia generosa de mundo. O comunismo e o socialismo acreditam no ser humano e na justiça. Podem não funcionar, podem ser inexeqüíveis [!], mas são pensamentos elevados, obviamente superiores ao pensamento da Direita, em termos humanísticos” [grifo meu].
Termos humanísticos” deve ser, para David, os princípios superior que persistem mesmo confrontados com a injustiça e com a opressão que produzem, quando incondicionalmente abraçados pelo socialismo e pelo comunismo. E esse “Até porque...” só pode querer dizer que, antes de tudo, é óbvio e evidente que a esquerda tem os valores superiores, essa “idéia generosa de mundo, mesmo que nunca dê certo.
Estende seus esforços de iluminar o mundo a todos, de tão desapegada, e assim independentemente mesmo das conseqüências que todos sofram.
Eu acho que eu não li isso! Podem não funcionar, podem ser inexeqüiveis, mas são pensamentos elevados.... Além disso,obviamente superiores ao pensamento da Direita, em termos humanísticos. E por estes pensamentos elevados, apesar de não darem certo, como diz David, quando dão errado, terão sido por uma boa causa; mesmo que isso signifique apoiar um completo atordoamento cultural que fabrica o embotamento cognitivo de qualquer princípio elevado.
É essa luz emanada de princípios elevados, que abdicou da consciência pelo senso de gratidão subserviente para com o Estado Todo-Caridade, que pela sombra fundamentam a visão de mundo pacifista e igualitária no pó. Como uma Fênix, o pó já parece poder significar mais, encarnado num estado de Caridade Social realizar a quimera antiliberal.
Esse novo mestre da política novomundista, discursa sobre temas altíssimos, como é natural de quem tem os mais nobres sentimentos. Seria de uma ingenuidade atroz, se esta ingenuidade não fosse a mesma do nosso tipo endêmico que mesmo sobre um tronco de mais de metro de diâmetro nega que ainda se derrube árvores; que se coloca desde logo ao lado da verdade, e ambos, em comum acordo, produzem este homem do “Só sei que não sabia”, o tirano discreto deste Estado-Mãe cuja teorização é digna de IgNobel.
Esse processo perverso que leva um modesto colunista a se tornar um comentarista social inverídico, deve vir da sabedoria do inverossímil (às vezes pelo jogo verossímil de contra-opiniões desqualificadas) que os grandes jornais criam para manter um otimismo estupefaciente na catarse do novo circunstancial, acidental e póstumo; e de breves interjeições de indignação sem entendimento.
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Educação superior
Parece que David Coimbra não assiste ao programa do Lasier Martins, colega seu, que volta e meia divulga os méritos da iniciativa privada gaúcha e de sua capacidade de manter o Rio Grande de pé, mesmo contra governos que perdem prazo de cobranças de dívidas, que arrastam déficits até não poder mais – e chega o dia em que não podem mesmo –, de esquemas ilógicos que tornam departamentos máquinas de arrecadação corruptas, supertaxadoras, inibindo justamente quem lhe permite fazer caridade.
Mas David prefere um governo centralista e educador dessa educação novomundistas da classe “ípsilon-laica” que está entre os últimos dentre as quase-nações do mundo.
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Esse papo babujoso do David pela Esquerda-Estado é uma das mais simples e evidentes mostras de inépcia do homem de esquerda. A adesão abobalhada deste Então, entre Esquerda e Direita, sou Esquerda”, é a adesão do opinador frívolo, bem como parece que é o método do jornalista ou já, por não poder ser de outro modo, a personalidade mesma do escritor que está acostumado a ver comezinhos detalhes da vida privada, como o seu mestre “yoda”, L.F. Veríssimo. (A doxografia da curiosíssima carreira de “cientista político” de Veríssimo só pode ser conferida nos jornais do centro do país.)
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O eixo de um mundo desgovernado
David diz que prefere a Esquerda à Direita por seus “pensamentos elevados, superiores, mas por fim tem que admitir e inverter tudo para reafirmar sobre ambos a Democracia. Não é preciso ver alguma contradição aí, pois sendo pensamentos elevados os guias inconseqüentes para chegar ao que ele chama de justiça, não estranha – até, pelo contrário, esclarece – que a Democracia seja, por fim, considerada o fiel da balança dessa justiça que arrisca com o voto simples da maioria colocar no poder uma caricatura grosseira e duble de tirano.
Que valores elevados são estes, que David associa à confiança no homem e na justiça que não devam estar presentes na iniciativa privada? Por definição, quem acredita no homem é o livre-mercado de inicitiva privada, e não o culto ao Estado, que é seu oposto se não é meramente regulador, e se assim não se limita a ser.
E assim, não são os valores superiores de David que garantem o regime democrático, já que as ações que engendram não são exeqüíveis; isto é, estes princípios estão desde sempre fora do plano de ação do homem da Esquerda, senão criam injustiça e tirania. A justiça de David serve perfeitamente ao tirano que busca igualdade por esta noção iluminada de justiça. Talvez as palavras de David expliquem por que estes homens de esquerda, ao se dirigirem por pensamentos elevados, acabem por fraudar a Democracia como ele faz notar para Chávez.
Vejam só, o ditador do século XXI “é um homem de esquerda...”, mas até para David fica evidente que ele é um imbecil. E os pensamento superiores tiveram uma conseqüência, exatamente aquela que torna a revolução um sucesso e o Estado de esquerda inexeqüível. David usa a mesma lógica que Chávez usa; o artigo de David é o exato reflexo da lógica de Chávez.
Como diz mesmo David: “se trata de um óbvio, e grosseiro, aspirante a ditador.
David Coimbra e Gisele Bündchen[2] tem um caso de afinidade insuspeitado, que se vê quando, ao defenderem uma idéia, ambos dão testemunho eloqüente do ponto de vista oposto numa rara refutação por torpeza evidente.
A lógica de David é bem a lógica dos homens de esquerda, toda atravessada, de tal modo que nunca vêem as atrocidades que causam; depois, quando tudo falha, fazem como o Pomar (PT), e diagnosticam o fracasso do regime por não terem conseguido suplantar o Capitalismo. É o que dá defender sempre os valores mais altos e nobres por esta instituição da esquerda que é a confusão contumaz.
Os princípios elevados de David são o eixo de um mundo desgovernado, o eixo que a esquerda tem para o sistema político democrático, sem ater-se às conseqüências de que é causa. A luz do homem de esquerda é uma luz sinistra, porque ilumina desde cima e de fora, independente do que causa, essa justiça que te diz para onde ir e, por ela, levar os outros. O mundo da Esquerda é excentricidade sem centro, ou essa luz humanista no homem que guia de modo inconseqüente.
A positividade das realizações de esquerda são reflexos negativos da Direita; é parasitária, em busca (obviamente) do que há de melhor. Em torno desse eixo, o erro é a lei do vagar à sombra dos princípios mais altos, arbitrária e pueril.


Notas
1. O hábito que se reconhece aí é comum a “homens de esquerda”, como se lê em Pomar, do PT, em “Invasão bárbara.

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