dezembro 27, 2007

A dialética antinômica nos filmes “O Perfume” e “Cheiro do ralo”

(Sobre o paralelo antitético entre o filme Perfume, de Tom Tykwer, e O cheiro do ralo, de Heitor Dhalia)

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Prolegômenos à dialética do pior

Por que Deus, o criador de tudo que existe no Universo, ao dar existência ao ser humano, ao tirá-lo do Nada, destinou-o a defecar? Teria Deus, ao atribuir-nos essa irrevogável função de transformar em merda tudo o que comemos, revelado sua incapacidade de criar um ser perfeito? Ou sua vontade era essa, fazer-nos assim toscos? Ergo, a merda?”

Começa assim o conto “Copromancia” do livro de Rubens Fonseca, Secreções, excreções e desatinos, no qual depois de uma fase inicial de sistematização naturalista dos dejetos, com domínio da anamnese excrementícia, revela-se ao narrador a capacidade da copromancia.

Em outro trecho, o narrador diz: “o certo é que estava pensando em Deus e observando as minhas fezes no vaso sanitário. É engraçado, quando um assunto nos interessa, algo sobre ele a todo instante capta a nossa atenção...”. A este trecho, segue-se que, do que lhe despertara a atenção, naquele momento, conste ouvir o barulho da descarga do vizinho e perceber uma nota num canto de jornal sobre a venda de potes de fezes, sob o expediente de arte conceitual, arrematada por alguém por alguns milhares de dólares.

Leiam-se as incertezas, a tensão da condicionalidade que liga as frases, pois não é à toa o imbricamento “deus/Fezes”[1] e, depois, que o assunto indeterminado concentre a atenção para o que lhe é semelhante. Se o assunto que interessava ao protagonista eram as fezes, não dá, por outro lado, para deixar de notar aquele momento breve e passageiro em que Deus, no justo instante da indecisão, compartilha retroativa e subliminarmente do mesmo jogo de forças que trazem à atenção os dejetos, quando se vê o protagonista descrever sua acuidade metafísica para com o mais baixo e degradante, o mais insignificante e indigno de se ter na atenção.

O narrador, declarado ateu, entende que é “...Deus um mistério acima dos poderes humanos de compreensão”, por isso Deus sempre pouco lhe interessara. Pode talvez explicar-se por isto que estivesse pensando em Deus quando contemplava as próprias fezes no vaso sanitário. Esse sentido da divindade ser inefável tem outra alusão no conto, quando justamente outro inefável lembra-lhe de Immanuel Kant.

Tentava ele, em certa etapa do seu esforço anamnésico, descrever o próprio odor das fezes que catalogava, porém no que fracassou.

Atribuiu o insucesso, em concordância com a opinião de Kant, de que o olfato é um sentido meramente secundário devido a sua inefabilidade. Conseguiu no máximo, segundo ele próprio, “sinonimizar”; o processo, no entanto, é o da sinestesia, que atribui o que é de um sentido a outro, fazendo passar por “opaco” o que ele descreveu antes como sendo de textura “espessa”. Compara-se ao enólogo (como ao perfumista, seu semelhante), porém reforça o caráter de que as suas descrições olfativas, as quais empreendera, partem para “uma espécie de poesia”. E a poesia é o domínio da possibilidade, daí a expressão sinestésica “odor opaco” que o narrador estranhou ter cunhado na primeira tentativa de descrição olfativa.

Negando essa via, parte para uma descrição bioquímica do odor das fezes. Diante da inefabilidade dos cheiros, coisa que ele já atribuíra a Deus, aceitando a opinião de Kant, recua agora até as propriedades físico-químicas do excremento, negando a própria diferença que percebia dos cheiros, sem notar que o que descrevia era justamente o essencial, e não a base comum a todo dejeto humano.

Eram os cheiros, justamente, as nuanças do processo da anamnese. O que ele fez, ao recusar os cheiros, foi tomar conhecimento deles e, por tê-los incognoscíveis, negá-los, afirmando a base química sobre o fenômeno mais complexo. Do mesmo modo, um tanto grosseiro, refuta Deus; o mesmo inefável, que esteve uma vez na atenção, é recusado por uma explicação mais baixa. A dinâmica desse conto de Alvez vai ser importante para mais tarde.

Pouco depois diz: “O exame das fezes é muito importante nos diagnósticos definidores dos estados mórbidos, é um destacado instrumento da semiótica médica. Tanto a anamnese quanto a enologia (também a perfumaria) tratam do inefável; outros campos que tratam do inefável, são a física de partículas e a teologia. A nomenclatura destas disciplinas é altamente arbitrária e alusiva. O naturalista fracassou nesse momento, pois quando ele negou a linguagem poética[2] que surgiu das suas tentativas, o caminho oposto, por algum tipo de “escândalo”, foi o de recusar a experiência inefável como irreal ou desinteressante. Não tê-lo tentado, condiz com o desinteresse dele pelo próprio Deus inefável, cujo nome mesmo é sempre apenas alusivo.

Há uma analogia assimétrica entre pensar em Deus e, impedido de prosseguir, perceber as fezes; e, num esforço por perceber o odor destas, recuar até os seus princípios químicos comuns que as compõem. Já não há aí nenhuma possibilidade de anamnese.

Se Deus inefável é o mais alto, negá-lo leva ao mais baixo; já na fase inferior da analogia, o inefável do cheiro negado, leva ao mais abaixo, à matéria química que o explica desde baixo. E é desde aí, desde baixo, negando o inefável, que o protagonista refuta Deus ao desinteresse.

Não espanta, portanto, que distraído no inefável, o que para ele é de todo opaco ao entendimento, o narrador acabe por fixar sua atenção nas próprias fezes. E sua atenção é aguçada para coisa equivalente (o anúncio no jornal, a descarga no vizinho). O desprezo do protagonista-narrador por Deus, enquanto ser inefável, refletiu a indolência para baixo, às fezes e à acuidade de coisa igual. Note-se que ele vai de alto a baixo, do cheiro inefável à matéria química, como antes, pensando em Deus, detinha-se no vaso sanitário.

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O que sobrou sem Deus

A atenção do narrador permanece, desde o início, no tema do dejeto, a ponto mesmo de se perguntar se Deus teria destinado o homem a defecar. Convenhamos que é dar muita importância aos dejetos; porém, se olharmos direito, que opção lhe sobrou? Pois justamente quando pensava em Deus, é que percebeu as fezes no vaso sanitário. Sem Deus, sem a acuidade da direção à Deus, sobrou-lhe – pois, assim, só por acaso as fezes, como – qualquer coisa menor.

Mas nenhuma frase é tão eloqüente disto quanto as que seguem, mas não é necessário repeti-las. A importância do excremento funda mesmo o homem: “Ergo...” e fez-se o homem. Ao voltar-se para Deus, viu-o inefável, e por não poder continuar, voltou-se ao que lhe sobrou: dejetos.

A partir daqui, já temos um diapasão do que será dito em seguida. As analogias vão ser evidentes, para pensar a simetria e oposição entre os filmes que se segue a comentar. Além disso, é dizer que todas as possibilidades do narrador de Copromancia estavam ligadas ao universo simbólico que tinha no bolo fecal a substância da realidade.

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O lado “B”

O argumento por trás das câmeras de O Cheiro do ralo é a libertação do mal irreprimível dos bons, segundo o diretor, Heitor Dhalia. Para todo bom instinto, algo obscuro por traz que pode ser liberto ou, por pudor, participado, numa catarse do mal: “O filme aborda um lado “B” que todo mundo tem, que às vezes a gente tenta esconder”.

O contraste das fezes é mais forte quando contraposto a um Rei que a um ogro. O Rei no seu “trono”, lembra – de alusões de aquém-mar – a aparência opulenta mascarando a verdadeira natureza de que são feitos todos os homens. Nada cheira muito bem, esse odor, pelo menos, foi reconhecido; é como a água para o peixe, e o ar para a ave do céu – lembrando uma passagem de William Blake.

Começa com aquela justificativa da acuidade própria daquele que se mantém por tempo demais mirando o nada: algo sombrio por trás e abaixo, como o fundamento existencial mesmo que dá dignidade ao homem ao saber e aceitar essa condição. Um heroísmo luciferino deixa brilhar a luz da alma má nos olhos. Para quem o bem é uma hipocrisia de um “lado A” oficialesco, mais verdadeiro seria este “lado B” onde o pior e mais inferior fundamentam, desde baixo, a natureza do homem.

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Silogismo existencial tupiniquim

Mas não há como deixar de ouvir os depoimentos dos extras para aguçar os sentidos para coisas iguais, senão poderiam apenas parecer grosseria. “O título era o principal obstáculo para a captação de recursos” – diz o diretor. O suposto enredo de “um cara [que] se apaixona por uma bunda”, não faz justiça à lógica do sanduíche (!). Disse isto imaginando, talvez, recuperar algum virtuosismo parabólico-analógico por trás da (sic.) aparente vulgaridade.

Um motejo feito análise psicológica surge quando o diretor declara que “O Cheiro do ralo fala das coisas que estão escondidas nas pessoas”. Mais uma vez, quer-se revelar o que há por trás da aparente dignidade humana, por desprezo a qualquer valor, para elevar sobre todos os valores, a ausência de valores. (Essa é mesmo a lógica do Estado laico.) Para mim, só outro grafiteiro rupestre de banheiros públicos.

Eis o termo médio de um silogismo falacioso, que o homem escatológico torna o traço comum dos homens, porque é como pode se reconhecer homem: quando escrevem nas paredes dos banheiros, ao mostrar que sabem que todos fazem a mesma coisa, e por isto pensam achar algo que mostra que eles e os outros são, como eles próprios, identificados na merda.

Comparam-se facilmente, assim, a um Conrad, a um Blake ou a Chesterton, Churchil, tomando o que eles faziam no banheiro, isto como caráter mesmo do homem; porque é a única coisa que pode “aproximar” aqueles homens do grafiteiro escatológico. O dejeto é o termo médio de um silogismo falacioso, ainda que nem todas as premissas precisem ser falsas.

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O döppelganger d'O Perfume

O lixo é o troco”. É o dejeto do sanduíche, de um amor por uma bunda, são as quinquilharias do dono do antiquário trash de o protagonista d'O cheiro do ralo. O lixo é bom; não, O lixo é ruim; é feito pelo homem; o outro diz: não, o lixo é bom, é a ocupação dos desocupados. O que fariam os desocupados sem o lixo? Ele próprio, que se ocupa de quinquilharias desprezadas, sabe bem disso. O que sobra disso, como essência, é o dejeto.

Que essa lógica tenha gerado um filme, revelaria o “lado B” do autor, do diretor e de seu ator principal? Aplicar-se-ia, assim, o expediente psicológico parafreudiano aos entusiastas desse amor marginal?

Instar ao tropismo no odor do “troco”, é torná-lo a inefável imanência, e desta a fonte, o ralo, o inferno de cujo olho pestilento só tem olhos para o dejeto, para a minudência, fazendo dela mesma, essência.

O desprezível e até mesmo o pestilento feito como que essência de um mundo que só vê corrupção nas coisas: “A vida é dura”. O Olho vê o banal, o vulgo, o pequeno, o particular, faz um mundo de particulares, de restos, de dejeto, de entulho; do troco, que é a própria incompletude que passa a circunscrever a existência. É um mundo de obstáculos e de miudezas a se perder, a si mesmo, de vista.

Lourenço tenta preencher a ausência comprando coisas, diz Dhalia; preenche-se de quinquilharias para ocupar a ausência. Mas é justamente essa completação que é incompletude: encher-se de coisas que nada valem, é estar pleno de nada. Completação pelo “resto”. No filme Perfume, o protagonista, Grenouille – um monstro de Frankenstein ao seu modo – , se vê induzido pela diversidade à busca de uma unidade transcendente; para Lourenço, n'O Cheiro, a diversidade não é diversidade, é apenas a repetição sempre igual do mesmo. As novidades do antiquário são reminiscências da origem que não há, na figura do pai; na construção de uma origem monstruosa – frankensteiniana.

A busca em ambos tem a mesma direção, mas sentidos opostos. Grenouille desesperar-se-á com a transcendência ainda além; Lourenço, com a infinita dispersão na repetição errante.

Para o que se disse sobre O Perfume, a respeito das capacidades olfativas de Grenouille poder criar mundos olfativos (worlds of scent), o equivalente no Cheiro do ralo é uma composição de mundo feita com restos de outros mundos.

Outra analogia ocorre na passagem do simbolismo do cheiro para o do olho.

Das quinquilharias vem “o olho”, uma relíquia neurótica de Lourenço que aparece no filme com destaque, e suas aparições, sempre mais envoltas em vulgar estranheza, em interesse pelo bizarro, pelo canhestro; é um olhar sem pálpebras, cuja “vigília” desesperada imita a onisciência às avessas.

O olho é “daquele outro”, diz Lourenço, não o da nota de dólar. Há uma grande diferença entre tudo ver e não poder não ver. No primeiro há onisciência; no segundo, desespero. Num primeiro plano do filme, o ralo é o símbolo do “olho infernal”, o olho daquele outro, enquanto, num plano paralelo, é a fonte do Cheiro, onipresente. E no sentido invertido de que é “onipresente”, todos o vêem. Em uma barganha, isso é dito a Lourenço, que explicava que o cheiro vinha do ralo, mas o homem diz que vem dele, de Lourenço. “Quem usa o banheiro?”, pergunta. O ralo é um tipo de olho que tudo vê; nesse sentido, é onipresente; é infestação.

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Buscar para se perder

Para o diretor, este “é um filme sobre a busca: [Lourenço] procura preencher o vazio dele comprando objetos. Em seguida ele começa a comprar pessoas também”. É coisa bem curiosa, isto de fazer da “busca” o tema de um filme que já se encontrou, em cada personagem; o sentido é estático; a “busca”, uma repetição de hábitos, para encontrar o próprio rabo preso nas quinquilharias. Não dá nem para falar em cadeia causal viciada, é pura metafísica vil do mais baixo. A essência do Cheiro é reconhecê-lo como familiar, a cadeia inquebrantável de uma maldição que engendra uma paternidade postiça. O mote “A vida é dura” é o guia para se perder na quinquilharia, é esse “olho” que faz um mundo pelo que ele vê, e, de volta, é o que ele só olha.

No rabisco na parede, nos Extras: O ralo é o olho do inferno / O inferno só tem um olho / O inferno é meu pai.

É o próprio inferno essa busca interminável para se preencher de vazio, para encontrar uma origem que fundamente a ausência.

A busca de Grenouille, em O Perfume, é também uma tentativa de completar-se, mas Grenouille é símbolo dos extremos: porque tudo falta nele, ele vai buscar a essência última, a mais elevada. Já Lourenço preenche-se mesmo da falta, do que não tem valor; não é correto dizer que ele usa as quinquilharias como substituto de uma ausência de humanidade ou de essência ou o que lhe daria alguma decência; a essência em Cheiro do ralo é o próprio desprezo que as coisas sem valor aludem. Por isso, no Cheiro não há a dinâmica que passa de um plano de significado a outro, mas apenas a modorra de um indigestão reiterada num único plano, que se estende a tudo, que a tudo abrange, como a substância mesma imanente na metáfora do cheiro do ralo.

A indigestão no Cheiro é o aborto de todo um mundo, sob a vista do ralo, e de seu poder de impregnar tudo.

Há uma justaposição entre esta metáfora e a dinâmica do enredo, onde tudo tem o valor de quinquilharia; por isso tudo, não vale o que diz Dhalia, que o filme é um filme “sobre a busca...”.

A grande metáfora do ralo é aquele lugar aonde vão as coisas sujas, as coisas desagradáveis que a gente não quer lidar”. Segundo a própria reflexão de Lourenço, a certa altura do filme: “Eu vou ao bar, atrás da bunda [da garçonete]; como o sanduíche [ruim], sinto-me mal e, desarranjado, uso o sanitário; e o ralo cheira mal...”. O enredo do filme, de “um cara se apaixona por uma bunda”, deixa o filme nauseabundo. As coisas desagradáveis que a gente não quer lidar podem incluir, segundo essa lógica, os próprios idealizadores – autor, ator e diretor.

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A medida do valor no Cheiro e no Perfume

Paralelo em ambos os filmes, é a alusão pela doença dessa incompletude, vinculando-a à origem parental, à ascendência: o “olho” é do pai (Dhalia?). Como Grenouille, ele é órfão. Há um reconhecimento de Lourenço para com a incompletude, ele não se completa com as quinquilharias, ele é a própria incompletude e reconhece isso pela ascendência que faz dele filho de uma pai feito o próprio de quinquilharias; Lourenço também é órfão, sua ascendência torna-o no que ele é. Como este, Grenouille veio dos desvalidos, não tem alma (cheiro), busca completar-se com um aroma essencial que é inalcançável. Mas Grenouille tende para as alturas (cena da montanha), onde o ar é mais puro, onde a existência quase se resume à sua essência, quase acredita que pode encontrar a essência da existência na própria existência, envolvido pelo aroma de antigüidade de pedras e musgos quase primitivos.

Já a ascendência de Lourenço é a quinquilharia que ele toma posse, ele reconhece essa origem nela, por ela monta seu pai fictício, onipresente e onisciente, desse olhar desesperado, como o cheiro do ralo que o envolve.

Em ambos os filmes há incompletude, mas Grenouille responde à questão de Hamlet, tragicamente (deixa a existência), enquanto Lourenço encontra definitivamente a essência que ele nega, de início (“Esse cheiro que você está sentido, é do ralo”), para a ascendência que o cheiro e a barganha de coisas sem valor tem sobre ele: Lourenço [legitima, valoriza] em troca de coisas sem valor, estima quando parecem não valer nada; desdenha quando elas valem, por si, mas ele as nega.

Grenouille desespera-se na direção de uma abstração de humanidade pura, pura essência, enquanto Lourenço, carente de toda infinitude, não pode ter uma idéia de humanidade que não seja degenerada, feitas de coisas extraviadas de vidas extraviadas.

A pergunta para o caso de Grenouille é saber por que ele não se contentou em fazer perfumes diversos, ou criar um perfume marcante e único para si próprio, em vez de buscar uma essência última? Sem uma experiência de valor, Grenouille é amoral: “Grenouille não distinguia entre os cheiros ruins e os bons”. Grenouille é motivado não por um bem próprio, que não pode conhecer, nem por analogia; mas pela busca de um Bem último, que é inalcançável como padrão de todo bem existente. A ausência de ascendência funcionará, também para Grenouille, como falta que o acompanha, para ser buscada e nunca encontrada numa essência última, que se torna, para ele, a figuração da própria incompletude. Por esta, irá buscar como um monstro prometéico, para fracassar tragicamente.

O que falta de todo a Grenouille (cheiro), é levado à máxima potência na busca da essência última, medida de todas as coisas. Para Lourenço, todas as coisas ganham a mesma medida, a mais baixa.

Essa tensão no Perfume falta ao Cheiro, que se naquele o mínimo leva a uma busca pelo máximo, neste último o mínimo é feito a própria essência imanente a tudo.

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Desespero de finito e de infinito

A completude é negada para o finito e para o mortal, ela não se alcança porque é plenitude, que vai contra o próprio sentido da finitude e da mortalidade. Lourenço apenas reconhece a sua condição, desde sempre; termina consciente dela; mas Grenouille é inconsciente do que seja valor humano, ele mata inocente, buscando a essência absoluta e a completude plena, mas fracassa duplamente. Não fracassa como ser notável, não porque queria ter um cheiro, que ele percebe que lhe falta. Que por essa miudeza se queria deduzir, como faz a crítica, o enredo do Perfume, é buscar a origem de tudo, como no Cheiro, por alguma falta ou vício. Faltas e vícios não são motor de nada; são antes, atravancamento.

Quisesse ele apenas essa “identidade odorífica”, tê-la-ia com facilidade, talvez, ao menos, camaleônica ou de uma particularidade toda individual, isto é, uma griffe.

O reconhecimento como perfumista torná-lo-ia alguém, por que então Grenouille não para de matar? Grenouille exaspera-se da transcendência, quer ela como última essência, porém, esta é inalcançável. Então, num último ato, Grenouille usa a essência para despertar o poder que adquiriu para a destruição de forma finita e mortal.

É exemplar que a incompletude de Grenouille, no Perfume, seja o oposto simétrico da incompletude de Lourenço. Na filosofia dialética de um Kierkegaard, enquanto um representa o desespero de finitude, ou carência do infinito, o outro representa o desespero de infinitude, ou desespero do finito.

O eu não tem saúde e não está livre do desespero, senão quando, tendo desesperado, transparente a si mesmo, projeta-se até Deus”. Grenouille é, verdadeiramente, “transparente” a si mesmo; não tem cheiro. A essência ou o cheiro dos cheiros, é mais que identidade pessoal, é a infinitização da identidade. Grenouille é Prometeu, é um Dr. Frankenstein do aroma dos aromas.

Para Kierkegaard, a imaginação reflete no eu o seu possível de intensidade, infinitiza-o, a ponto de perdê-lo... “O desespero que se perde no infinito é... imaginário, informe”.

A saúde de Grenouille estava no alto da montanha, no cheiro de musgo, chuva e rocha... A carência de finito que Grenouille intui e que o alegrou até quase esquecer-se de si: “Como o sentimento se torna imaginário, o eu evapora-se mais e mais, até não ser ao fim senão uma espécie de sensibilidade impessoal, desumana, doravante sem vínculo num indivíduo, mas partilhando não sei que existência abstrata, a da idéia de humanidade, por exemplo”[3].

O problema de Grenouille é o poder da acuidade de seu olfato ser tão forte que essencializa todas as coisas, as abstrai, e já não pode não fazê-lo ao máximo. Tomado dessa imaginação odorífica, infinitiza-a, e não é por acaso os opostos “não ter cheiro” e “buscar a essência” aparecerem como pólos dinâmicos na história de Grenouille.

No Cheiro, Lourenço sofre do contrário: “não se trata aqui senão de estreiteza e de indigência morais. Ao contrário, o mundo só fala de indigência intelectual ou estética ou de coisas indiferentes, que são as que mais o ocupam. Com efeito, porque a tendência é dar um valor infinito às coisas indiferentes”.

Lourenço é uma de suas quinquilharias, tem o valor de uma delas; e por elas, substituiu a transcendência pela repetição incessante de uma só coisa, de um único valor, comum a tudo, o mais baixo, que nem mais se distingue coisa e gente:

A reflexão de quase toda gente prende-se sempre às nossas pequenas diferenças, sem que, naturalmente, se dê conta da nossa única necessidade – porque a espiritualidade está em dar-se conta dela –, por isso nada percebemos dessa indigência, dessa estreiteza, que é a perda do eu, perdido não porque se evapora no infinito, mas porque se fecha no finito, e por que em vez dum eu se torna um número, mais um ser humano, mais uma repetição dum eterno zero” [4].

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Pólos dramáticos

A crítica da revista Set reconhece a frase de Lourenço, “Eu não gosto de ninguém” a definição da vida do protagonista.

Mas como poderia gostar, se toda essência é perdida, se a humanidade não é. É o que acontece com aqueles seduzidos do perfume, quando Grenouille estava prestes a ser imolado. Espargi então o perfume que a todos atordoa, como se eles começassem a ver pela primeira vez, e nesse frenesi, o homem vulgar chegasse ao invés da contemplação moral ou divina, apenas à sensação – o oposto de Grenouille, todos os sentidos são exacerbados no festim da multidão embriagada enquanto o sentido do olfato de Grenouille fica definitivamente separado do êxtase da multidão.

Sem poder compreender uma essência, os populares excedem em sensualidade erótica e frenesi libertino.

Grenouille, o assassino, está num nível de consciência maior que a multidão, apesar de seus crimes. E, ao mesmo tempo, reduzido a uma caricatura da própria multidão. É tão desumano quanto ela. Grenouille é um Frankenstein e um Prometeu. Ele e a multidão medíocre são um duplo Ersatz, um grotesco reflexo um da continuidade um do outro.

Num extremo, Lourenço; no outro, Grenouille.

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Nonsense crítico

Sem saber por onde começar, optei por alguns textos dos seguintes sítios: Set (revista), Omelete, Sinestesia, Cinematical, Time OUT/N.Y., e Contraponto.

No sítio Contraponto, as “notas” são dadas segundo a escala a) obra-prima, b) vá ver imediatamente, c) vá ver assim que puder, d) vá ver caso haja interesse, e e) vá ver por sua conta e risco. Deixando para lá todos os filmes de diretores e atores consagrados e as unanimidades, para os quais os críticos todos repetem-se, as notas dadas aos filmes Perfume e Cheiro do ralo são, incompreensivelmente, semelhantes. Menos compreensível é, no entanto, a diferença de qualificação entre um e outro. O filme nacional recebe qualificação vá ver assim que puder (1), vá ver caso haja interesse (1) e vá ver por sua conta e risco (3); enquanto, enquanto Perfume tem coisa menor: vá ver caso haja interesse (1) e vá ver por sua conta e risco (2).

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O filme não tenta, mas consegue, atormentar com a repetição pornográfica de cenas vulgares: a bunda, o balcão, a mesa de penhora, o ralo, frases repetidas à náusea, o olho, a perna, o filme perde qualquer aspiração que tivesse de fábula moral quando transporta o espectador para dentro da náusea, quer que ele experimente o mundo do filme. O próprio espectador é assediado pelo pouco que Lourenço tem a oferecer, e se deixa comprar porque sofre o estelionato de um apelo à arte oculta na quinquilharia e no dejeto.

A resenha em Contraponto é de uma linguagem difícil de acompanhar. Clichês como a mercantilização do homem, a metonímia da bunda pela mulher, são elementos de uma análise psicológica que levam a interpretar o que o filme pretende comunicar, como se fosse um teste de alfabetismo funcional. Antes de saber se os personagens tem uma psicologia, seria bom assistir os Extras.

É sempre curioso que restrições orçamentárias tendam a levar às explicações técnicas mais laboriosas, de modo a, como ocorre com freqüência, chegar a fazer um filme tornar-se cult, ou tecnicamente melhor ou mesmo virtuoso. Isso talvez explique como as categorias artístico e comercial se definem por aqui: quando falta dinheiro, é arte; quando sobra, é comercial.

Segundo a revista Set, o filme é “espetacular”. E “não há espaço para frescuras”, há apenas a preocupação em fazer cinema de verdade” (sic.). Suponho que não tenha a ver, essa “verdade”, com a pornografia que permeia todo o filme, exagerando-a de tal modo que pareça, por isto, algo mais que o que é.

Atribui-lhe o triunfo por “atuações”, pela “direção impecável”, e pelo “apuro técnico”, mas viria, sobretudo, da técnica, o primor, portanto, vale a frase do diretor: “O filme é o que é”. A tecnicidade não absolve, no entanto, o que o filme tem, senso estrito, de pornográfico na delongada temática da bunda, na vacuidade de Lourenço, na ausência de valor das quinquilharias, que é mesmo a ascendência do protagonista, na náusea das entrevistas, na grosseria pueril dos diálogos, na vulgaridade reiterada, no deserto da reflexão. A demora nestas coisas quer essencializá-las, como se nelas existisse alguma coisa mais, e para isso inverte tudo e põe o foco sobre o insignificante, para, por atração dialética, não dar escolha senão encontrar algum valor no sem valor.

Levando em conta o que diz a Revista Set, na crítica do filme, que lhe deu nota 9,0, sobre o conjunto da técnica com o “roteiro brilhante”, que o resume, “trabalham para contar uma história, [n]ada além[,] [n]ada mais simples”, só resta imaginar o inimaginável, o que poderia ser mais simples; nada mais é a essência do filme. Ele é o que é.

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Repudiar o pior

Como a pornografia não é mais que o que é, o Cheiro do ralo torna explícito o que é evidente, mais que isso, pelo mais baixo – ou o menos levado ao máximo –, prende-se em detalhes vulgares e insignificantes do que não tem valor e faz disso algum valor. Perdura vulgar e ofensivo, entrecortado por palavrões ditos de boca cheia, como trovões de verdade, revelando a hipocrisia por trás dos bons hábitos, querendo mostrar, em negativo, que a essência das pessoas é o dejeto quando elas abandonam seus princípios, segundo se possa tomar o que declara o Roteirista: “O [filme] é uma prova de que a dignidade humana não é negociável”. A idéia de decência, no entanto, se está na garçonete, cuja moral é uma inocência que vai-se perdendo, e vira, rapidamente, em algo lascivo e mercantil, qual então o parâmetro de decência que faz o Roteirista reclamar para o filme qualquer alusão à dignidade?

Pede ele que o próprio espectador reconheça o que o filme não media de nenhuma forma? Nenhum veículo, símbolo ou interpretação, revela a fábula moral por trás da pornografia do pior em O Cheiro do ralo. Uma referência à garçonete é mostrar, por a mais b, como a ingenuidade leva à corrupção. Deve o espectador, com algum senso de decência, repudiar todo o ofensivo mundo da quinquilharia, na participação de uma catarse pelo pior?

Nesse sentido, o filme quer, expondo ao pior, que se repudie justamente o pior, mas desconfio que isso seja já impossível sem repudiar o próprio filme. E não haverá arte ou técnica apurada que impeça a sensação de que assisti-lo não vale a pena.

Por fim, o amor de Lourenço, a bunda, é reconhecida pela essência acre do ralo. O “cheiro” é o protagonista, é a alma do filme e o Senhor diabólico que dirige a vida de todos os personagens, é a essência das coisas que não tem qualquer valor. O filme é o que é.

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O primeiro, no entanto, O pefume, é um bom filme; O cheiro, por outro lado, é, por justiça, aquilo mesmo que ele retrata. Se a crítica restaura alguma dignidade para este filme, é por comparação com o Perfume, nunca por ele mesmo. É de empréstimo apenas que aquele se faz notável: Cheiro do ralo é pornografia do pior.


Notas

1. Parear “Deus” às “fezes” só pode dar na inversão de valor de um e outro, daí “deus/Fezes”.

2. A mesma linguagem poética recusada pelo protagonista é usada pelos físicos de partículas subatômicas para referir uma propriedade denominada arbitrariamente “charme”, na falta de qualquer termo mais adequado.

3. Monstruosidade conhecida dos “homens de esquerda”, na empresa do “mundo futuro”,

4. As citações são de O desespero humano, de Sôren Kierkegaard, a) Desespero da infinidade ou carência de finito, para Grenouille (O perfume), e b) Desespero no finito ou carência de infinito, para Lourenço (Cheiro do ralo).

Um comentário:

Fellipe Ernesto disse...

Não sei como ninguém ainda postou um comentário...
Muito boa, a análise!
Trazer Robens Fonseca para o texto, sobre os filmes foi uma boa idéia. Interessante junção!