outubro 12, 2007

Dialeto atravessado

O presidente do clube diz: “Entregamos duas vezes”, invertendo a lógica do jogo, que teve ampla vantagem do adversário, porém não absoluto domínio. Controlando a maioria das ações, faz dois gols, um sob prerssão de marcação, outro sob contra-ataque – arma consagrada dos que jogam fora –, marcados por um drible improvável, da primeira vez, e um raro chute certeiro no ângulo do arqueiro inimigo, da segunda. Mas o presidente derrotado aferra-se no negativo do jogo e conclui pela fatalidade do clássico.

O jornalista que o entrevista, por uma lógica curiosa, senão por desfeita ao raciocínio enviesado do dirigente, coroa sua participação decretando um “E o presidente admite que o adversário mereceu vencer”.

Nem um, nem outro, falaram o que houve (ou ouviram), apenas o que, nas entrelinhas de um dialeto de desentendidos, convinha a um e outro, que não deviam admitir ou deixar explícito. Mais uma enviesada rotina de evasivas de um dialeto que se ouve na conversação de bastidores, que os fatos do jogo. Apesar disso, ficou entendido o que um nega, que é evidente, e que o outro conclui no sentido oposto, por conta própria.

O futebol tem um dialeto que, de tanto viés dos envolvidos, já tem o seu próprio antídoto, igualmente de viés...


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