setembro 11, 2007

A revolta ípsilon-laica

(Cadê a transcendência que estava aqui?)

12º semana de gravidez

A ministra da Secretaria Especial de Política para as Mulheres, Nilcéa Freire, reagiu às declarações do Papa Bento XVI de que as mulheres deveriam receber ajuda estatal para se dedicar exclusivamente aos filhos e à família.

Em abril desse ano, Nilcéa veio, em uníssono, com o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, postulando que a mulher deve ter a liberdade ao aborto até a 12ª semana (4º mês) de gravidez. Para ela, o aborto é uma questão de “autonomia” – ou, como traduz a filósofa Márcia Tiburi, o direito subjetivo da mulher “fazer o que quer do seu corpo”.

Curioso e inadvertido que o que mais mate mulheres em estado pré-natal seja a falta de assistência nesse período, sendo que o aborto é só a terceira causa, geralmente com números oficiais bem mais acanhados que os que os abortistas divulgam. Quer dizer. o papa mirou com a fé e acertou na realidade. Por princípios, acertou a realidade. Quando alguém tenta defender sua fé e consegue ser mais realista que os realistas, é de se perguntar se também a realidade não está sendo usada de expediente para fazer valer as subjetividades autônomas de Tiburi.

O papa não olha para o mundo real, porque o mundo real do papa é baseado na transcendência do homem ao real imediato ou temporal. Mas como Nilcéa deve desconhecer que justificou o “erro” do papa com o antípoda da fé do pontífice, deve ter visto apenas, ao olhar para o lado, um homem de idade avançada vestido de modo exótico, de cabelos brancos, declarando, para sua surpresa, coisas tão distantes dos graves problemas de saúde pública do seu Estado. Mas por um azar horroroso, a realidade das mortes de mulheres em estado pré-natal é justamente a falha do Estado no acompanhamento da gestação de mulheres solteiras e de famílias constituídas.

Um julgamento infeliz destes é quase motivo para adjetivar de criminosa negligência, principalmente vindo de um integrante do Estado.

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Esclarecendo” o Papa sobre a sua ingenuidade atemporal, tão pouco realista, Nilcéa explica que as mulheres – para as quais o Santo Padre queria a ajuda do Estado, para que elas cuidassem melhor dos filhos, que estas mulheres – participam da vida econômica do país, e querem a autonomia que lhes cabe, o que tem, por certo, o sentido de valores humanos inalienáveis, e por suas qualificações funcionais, para a coletividade.

O que deve ter, para Nilcéa – nesse sistema de valores – algum paralelismo integrador: “mão-de-obra qualificada”, “autonomia” e “participar da economia” cujos valores humanísticos que ela defende estão implícitos, forjando um sistema dentro do qual as mulheres encontram uma vida digna.

À manifestação do papa Bento XVI, respondeu a Secretária Especial:

Sinto-me compelida a dizer que o Papa precisa olhar para o mundo real. No mundo real, as mulheres participam da economia de seus países, não só pelo desejo de autonomia, mas porque também o desenvolvimento econômico precisa do talento, da qualificação e da mão-de-obra feminina [grifado]. (Evandro Éboli, “Descriminalização do aborto”. No JC/SBPC do dia 16/05/07. Original d'O Globo, 16/5/07).

Autonomia, para Nilcéa, é autonomia econômica e material, é satisfação do querer subjetivo e uma valorização da afirmação da mulher como apta a ser um fator de desenvolvimento econômico e capaz de provar que pode exercer o papel de mão-de-obra ípsilon. O que deve ser mesmo a idéia de “autonomia do proletariado” admirador-novomundista – ao modo, certamente, da “livre adesão fraternal à Revolução”, que é a única autonomia imaginável para esse caso: participar do mecanismo como uma mola bem azeitada, para fazer parte do Grande Sentido do Todo móvel.

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Mas há quem, como Nilcéa, sente de modo semelhante a esse tresloucado impulso pelo qual ela teve de explicar algumas coisinhas ao pontífice: “Aí, Papa; te liga, a realidade é outra!”. Tem gente que pretende que Jesus Cristo tenha sido um revolucionário como o “Che”, o que certamente tem a ver com a barba e o cabelo comprido, pois é grande a semelhança ideológica que têm quando comparados sob esse critério. Seria esta uma interpretação realista. Realista, porém, seria começar distinguindo coisas diferentes. Teria que dizer que a Igreja e as políticas de Estado tratam de coisas diferentes, e ficar por aí, que seria um vexame menor. Mas concluir não apenas pelas suas próprias coisas e convicções, além disso, opinar sobre as coisas da Igreja, fazer o secular explicar a realidade para o transcendental, é coisa lá de um nababesco ababelado sem par ou qualquer fundamento, a não ser a prórpia confusão. E enquanto não seja impossível decidir qualquer coisa sobre esses termos, resta apenas (por efeito ou por recalcitrante) reafirmar o que se pretendia desde o início, sem ter jamais (e não apenas agora) querido entrar (ou saber, mesmo remotamente, tê-la adentrado, incauta) na discussão.

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Como não pudesse ver no papa mais que dissimulação, passa-se rapidamete a especulação verossímil de que ele certamente estará, como para ela está, na defesa da teoria do Design Inteligente, intrometendo-se, portanto, como é da religião fazer, na ciência rigorosa, impondo a fé sobre a razão, a sobrepor-se a esta última, aos hábitos, cuja loucura intolerante de um São Paulo arrisca subjugar o mundo e impor a guerra contra a racionalidade ilustrada ao declarar que é loucura o que ele segue.

São Pedro é um perigo para as consquistas do Estado ípsilon-laico de analfabetos-funcionais, assim como a vida um risco para a autonomia e o amor próprio dos aminoácidos.

A conquista da sociedade laica – que traz subentendido que é moralmente superior justamente por eliminar a moral – e das suas liberdades, encontra a sua maior bandeira no Estado laicizado e, por ele, no direito à morte na forma da eutanásia e do aborto, além de outras formas de morte lenta. Não é estranho que isso leve à “transcendência do proletariado”, na revolução para o estado laico: morrer.

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Onde as mulheres não educam os filhos, geram-se Nilcéas, que querem que a educação das crianças fique com o Estado, para que o Estado se sirva das mulheres como mão de obra qualificada e autônoma. É o que dá para chamar um Estado ípsilon-laico, onde loucura é não ser adorador da liberdade de se poder consumir e produzir e por isto entender-se a autonomia do indivíduo, onde a livre adesão fraternal ao Estado-Organismo é a mesma “livre-adesão” que toma o Che pelo Cristo, como a encarnação mesma da Revolução que substitui a Providência, vendo-se aí as suas aspirações divinas terrenas.

Como pode-se cometer um erro tão grave é algo de deixar qualquer um boquiaberto. Particularmente sobre a defesa do aborto, que parece que até hoje não tem lá uma explicação muito convincente de como pode ter-se tornado um acontecimento social, apostaria em pura e simples rejeição a valores “pequeno-burgueses” – nada ou outra coisa muito diferente de uma rejeição dos valores que pedem algum esforço de espírito, que negaria a hybris de uma punhado de nitrato e carbono insosso – que, contra a dura e fria realidade que o povo laico se orgulha de ter a coragem de defender, como cavaleiros-negros portadores da verdade nua e crua da história.

Contra a transcendência da Igreja, mesmo o argumento mais torpe parece que é admissível. Mas o erro de Nilcéa não é apenas o erro contra a Igreja, é contra qualquer transcendência, é quase uma guerra contra o pouco mais além, uma negação da verdade, negação da vida e da consciência, ambas as quais, para Nilcéa, são uma coisa só, pois é verdade que a mente é a manifestação da fisiologia cerebral e que a vida é o efeito mais ou menos aleatório de algo que ocorre tal como caldo de galinha em fogo brando e nela a necessidade que tem os aminoácido de subir na vida como um Estado laico de coisas superiores, como numa luta entre a classe das enzimas deltas e ípsilons para dominar os meios de produção e decretar, de posse das forças do organismo, a irrealidade do fenômeno da vida e do espírito.




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