setembro 23, 2007

A Nova Epistemologia

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Admirável rodeio

Pressionados por avaliações de “produtividade”, a atividade científica, de psquisa e de ensino – que vêm associadas àquela –, parece que passa a sofrer cronicamente de “adaptação” estratégica, quase ao modo dos livros de auto-ajuda empresariais, que tem por fim último a manutenção de empregos, a ascensão profissional, no geral, a administração de carreiras.

Nesse ambiente de competição, é sintomático que “estratégia” e “adaptação” sejam palavras elevadas à categoria de essência, moldando não os fins, mas os meios de produção. Aliás, coisa que, de longe já cheira a uma inversão espúria, enquanto preocupado com a produção, coloca no centro das atenções os “meios” antes que os fins. Assim, “meios de produção” é apenas o termo composto pára dizer “meios”.

Perguntar-se-ia: Quais os fins? Mas isto é uma incógnita misteriosa protegida a sete chaves. Daí que na ausência de fins, o importante é om “impacto” que se pode produzir pela produção, consistindo na produção de impacto a noção nova de produção.

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Se “fator de impacto” fosse critério de qualidade científica, o noticiário sensacionalista seria o ápice de uma sociedade funada sobre a boataria, e daí, nesse processo civilizatório dá até para entender o Lula como um Sócrates às avessas: “Só sei que não sabia”.

Mas digamos que os tais famijerados “fatores de impacto”, os quais são apoiados por “indicadores estatísticos” – de citações – , sejam a comoção acadêmica, ainda assim ter-se-ia que diferenciar a comoção da autoridade da comoção de méritos que, por definição, não são lá coisa que aparece de uma hora para outra, senão como fruto da discussão interna, qualificada, de uma comunidade acadêmica autônoma.

Se congressos passam a falar apenas sobre as novidades apresentadas, então está-se a falar de efemérides.

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Ciência impessoal coletiva

Escreveu o cientista argentino residente en México, Marcelino Cereijido[1], que, querendo manter a regularidade de publicações, o jovem investigador não se pode dar ao luxo de abordar um problema profundo, porque corre o risco de que essa línha de estudos não produza publicações suficientes de modo que não lhe outorgue subsídeos, nem bolsas”.

Méritos é o que na dinâmica da “ciência impessoal”, despersonaliza o brilho individual (em alguns casos, puramente individual, pois contra a desatenção de todos) para tomar, como que por um imemorável legado, a herança das melhores hipóteses explicativas e métodos filosófico-científicos como algo imanente denro da comunidade impessoal.

Em artigo de 15/4/2007, Marcelo Leite escreve para a Folha de São Paulo – “O fim da era Einstein” – para notar que os trabalhos científicos cada vez mais são realizados por equipes; diz ele: “No campo das ciências naturais, o pesquisador é hoje mais chefe de equipe do que intelectual”.

Especializados até a idiotia...”, sentencia, pesquisadores como Einstein já não existem. Mas isto é um engano. “Einsteins” existem por conta de si mesmos, de tempos em tempos; é por justamente ter que ficar a espera de um Einstein que é o temível. Todo o há muito abaixo de Einstein será achatado e, o que há abaixo, dilatado, a um mesmo nível.

O efeito é evidente: os trabalhos acadêmicos deixam de ter objetos que não possam – e talvez poucos não possam de modo nenhum – serem desencadeadores de citações. Sem as citações, não há trabalho científico reconhecido, portanto, não há lugar para o cientista. É o que diz o cientista argentino: “si nos hacemos los locos nos toman las instalaciones”.

Desse modo, o trabalho científico é modelado pelo potencial de apelo a citações; isso modifica o próprio objeto da ciência em última instância. Isso é bem conhecido – o que não quer dizer que seja de todo consciente –, que o método de pesquisa “orienta” e “molda” o objeto de investigação, de modo que se busca algo que espera encontrar, sob algum aspecto. Que efeitos podem resultar, então, quando o que prescreve o método são “regras econométricas, administrativas e sindicais”?

Esse modo de avaliar a qualidade do trabalho cientifico, com número de citações, na maioria feito por equipes, não avalia o impacto cultural e efetivo do conhecimento no ambiente acadêmico, aplicado e social, que é onde parece que ele deveria ser medido e não vinculado diretamente a um cômputo de referências.

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A Nova máthêsis epistêmica

É tamanha a sanha pela avaliação de “produtividade” nas universidades que não vai surpreender que as preocupações com o método científico se tornem mera busca por eficiência ante os critérios da avaliação de produtividade. Se a “econometria” levar à forja do “novo método científico” – e da “nova epistemogia” –, desde já não se aceitará objeto científico que não dê azo aos resultados de produtividade que o método econométrico não “perceba”.

Vejamos quais os aspectos da pesquisa que podem se adequar a esta máthêsis meritocrática – ou, o cômputo do valor impessoal, que todos reconhecem em algum grau, para um trabalho por apoiar a rede de reconhecimento do cômputo do valor impessoal que todos reconhecem... (:)

1. A descrição ou ensaio de um caso particular qualquer, por amostragem, espécime, etc., seja lá uma inclusão fluída num pedaço de rocha, seja o ensaio casuístico de amostragem, isto é, o que estas coisas têm de diferença específica, que é, neste primeiro caso, existirem no espaço e ou no tempo e pelo erro comum de existirem, sem que se confundam num trabalho igual, o que nos leva a conhecer, por fim, qual é o valor certo de propriedades bem conhecidas [2].

2. Levado à generalidade de uma teoria ou metateoria que ao modificar conceito ou procedimento de grande extensão, obrigue a um número grande de citações.

O cômputo se dá sobre o primeiro reconhecendo a novidade de um trabalho sobre bases materiais “novas” – novo, aqui, tem o sentido mais pobre que o termo pode carregar, que qualquer espécime de uma espécie qualquer estudada pela primeira vez é uma novidade em sentido estrito. Mas qual a representatividade deste ensaio, amostra ou espécime, poder-se-ia levantar a objeção. Aí é que ocorre um dos desvios mais comuns de método em ciências naturais [3], que pode ser objeto de infinita corroboração por trabalhos semelhantes posteriores, sem conduzir a nenhum acrécimo substancial. Este trabalho é, realmente, dirigido a um só fim, que é instruir e treinar um iniciante que, de lambuja, pode publicar como novidade um trabalho “ensaístico”.

É bem verdade que se busca sempre a novidade qualitativa – específica –, como, em geologia, uma espécie nova – e tanto melhor quanto mais alta a filogenia – onde antes se não a conhecia naquele lugar ou tempo. A tal novidade é um “achado” casual, já que em geologia a descoberta de algo novo implica desconhecer que se possa encontrá-lo onde se o encontrou. Como mero achado, a novidade é fruto de um gope de sorte, consistindo nisso o mérito da novidade. As citações estão garantidas neste caso, mesmo sendo o mérito concreto da ação investigativa e especulativa (e seus riscos) o mínimo.

Bem, essa novidade específica pode ser encontrada por acaso – e geralmente é o que acontece. No entanto, essa novidade só é encontrada porque já está prevista de algum modo. Quando se encontra um fóssil de um filo numa posição onde não se o tinha conhecimento num momento anterior, é porque se conhece tanto o filo quanto o lugar onde ele não era esperado ser encontrado. Espécies novas paleontológicas não são reconhecidas de pronto. Os dinossauros foram tidos como um tipo de mamute, depois como lagartos gigantescos, e não por último ou de todo em definitivo, como ancestrais das aves.

3. Um terceiro aspecto é o da mudança teórica que vira referência geral, amplamente difundida, porém sem passar necessariamente por um ápice inicial, de amplo reconhecimento. Muitas vezes, se não recebe reconhecimento no seu próprio tempo, pode não o ter mais depois, quando pode já influir positiva e largamente sobre o pensamento de uma época – que pode estar restrito a uma disciplina específica –, sem ter o seu mérito devido e de seu autor de uma comunidade científica quanto mais da avaliação econométrica, que já não o pega de modo nenum. Por outro lado, um trabalho ensaístico recebe mérito sem tê-lo, e a mudança teórica pode ficar dispersa numa nuvem de propostas que concorrem com ela sem que no seu tempo ela receba o número de citações devidas.

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A produção de um novo pesquisador

O mérito, nesses caso, somente funciona para aqueles trabalhos que modernamente tomam corpo, como grandes consórcios que empreendem como um só. E a estes trabalhos que o método econométrico se dirige. São os trabalhos que criam as grandes bases empíricas e de levantamento de dados que servem a todos. Nas novas afoitezas das metodologias de avaliação, não está contemplada a existência da inovação científica relevante, pois seria invisível a ela um Einsten, nenhum empreendimento poderia prever a Relatividade.

Os grandes empreendimentos científicos, tais como o mapeamento do genoma humano ou aceleradores de particulas, os cincrotrons, que se valem do uso de instalações muito caras para uso restrito a poucos, somente possível nos grandes consórcios, tem mais alto potecial de citações, porém isso é encobrir o fato de que mudanças ou descobertas não são feitas pelas equipes, constituiondo elas apenas de um esforço coletivo por algo que se já se tem no horizonte e que não se poderia alcançar em menos tempo sozinho.

Revelam-se trabalhos grandes demais para um único pesquisador e dispendioso demais para bolsos individuais, porém a outra característica é que eles revelam algo que trazem à evidência que não é nenhum esforço cognitivo, mas o que culturalmente já se podia aceitar: o código genético humano, por exemplo; o que Einstein fez, por outro lado, não é um feito individual, é a descoberta de um modo de ver que não poderia nunca surgir como evidência trazida pelo trabalho de uma equipe que não tivesse surgido antes revelado a uma consciência individual dessa equipe.

Parece que o modo de fazer ciência atual pode cada vez menos reconhecer uma idéia individual, pois o método e as regras econométricas que o sobrepóe não podem identificar uma pesquisa que não tenha um fim certo. Uma idéia individual não pode estar prevista por “programas de pesquisa” e tampouco será identificado pela avaliação econométrica. Só o trabalho que sai do seio da coletividade, por interesse prévio dela, é que podertá existir, e se essa vontade respeita à econometria, anula-se a exploração individual e, com ela, a livre-iniciativa da investigação.

Novamente, “o jovem investigador não se pode dar ao luxo de abordar um problema profundo, porque corre o risco de que essa línha de estudos não produza publicações suficientes de modo que não lhe outorgue subsídeos, nem bolsas”.

Isso é um ócio que já não se tolera, e temos a situação temível que se pode perceber. Afinal de contas, Einstein era funcionário público a certa época.

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A “zolação” de Shakespeare

Reconhecido um problema, como aquele a que deu seu esforço Einstein, uma equipe poderia solucioná-lo cooperando, ainda assim, as soluções só poderiam vir da consciência de um único cientista no que ela tem de essencial. Este “um” seria Einstein, mesmo que nunca se saiba se da mesma magnitide, justamente porque não teve que desenvolver a explicação teórica sozinho. Outra questão a respeito seria saber se uma vez tendo idéia de uma coisa igual à Relatividade, seria possível que este quase-Einstein a compartilhasse com outros para ser desenvolvida em conjunto sob o prteexto de melhor sorte. Parece inverossímel e talvez seja isto mesmo improvável.

Aí se aplica aquilo que já se disse sobre Shakespeare, que ele não existiu, que era o consórcio de inúmeros autores, entre eles, talvez, o próprio Francis Bacon. Harold Bloom, se não me engano, disse que, de qualquer forma, Shakespeare existiu, seja lá ele carne e osso ou uma unidade metafísica coerente chamada “Shakespeare”. Há, efetivamente, uma unidade intelectual ideal reconhecível, segundo se tem reconhecido por séculos. Outrossim, Gustave Doré tinha um ateliê onde seus acólitos desenhavam sob seu comando e não o permitiam que se desse uma obra por terminada sem a sua inspeção. A griffe Doré é, efetivamente, Gustave.

Parece, por tudo isto, inviável uma avaliação desse tipo sobre o trabalho científico; fica claro, portanto, que o caráter “científico” venha a ser, pela avaliação de mérito, todo trabalho que está dentro do alcance dos critério de assimilação dos métodos de avaliação, e que se tornam referência obrigatória ao autor ou autores. Isso só se dá pelas grandes escalas de produção acadêmica (escalas “industriais”) ou pela novidade (diferença específica) mostrada por um autor único. Mas este terá dificuldade de ser reconhecido porque está sem o aparato caro de produção científica moderno, pode não estar referendado por uma instituição (pior), ou se está, deve fazer parte de uma linha de pesquisa ou projeto (aí tem-se já captação de recursos), que são, por definição, definidos para o trabalho em equipe.

Mas não se pode conceber uma novidade sendo planejada para acontecer, o que exclui do método de avaliação já de cara a inovação.

Isso não significa exclusão ampla da pesquisa, mas esta já não é uma investigação no sentido de uma logica inventionis. Porém, como diz Marcelino Cereijido sobre o jovem investigador, que no afã de manter a regularidade de publicações ou ser reconhecido entre seus pares, não se pode dar ao luxo de abordar um problema profundo, porque corre o risco de produzir menos ou fora de linhas de pesquisa normais, perca subsídeos e bolsas.

Einsteins não são mais possíveis por desentímulo; já não se pode pensar que isso impeça a ação individual, que nunca teve monopólio de um setor ou nível social unívoco entre cientistas ou filósofos, e Einstein, como funcionário público a certa fase da vida não foge da regra.

Por fim, os métodos de avaliação, o trabalho que já não tem, ao que parece, a consciência individual nele, leva a um cientista que se torna um mero administrador da própria carreira. É a desolação de Shakespeare, e a negação do homem por trás do empreendimento científico para hipostasiá-lo a um projeto de pesquisa proletário.


NOTAS

1. In: “Morrer de avaliação”, de Nora Bär ao La Nacion, Buenos Aires, 22/8. Notícias Domingo, 26 de agosto de 2007. JC de 22 de Agosto de 2007.

2. Este primeiro caso é justamente o que, em geologia, se diz que não se pode chegar a fazer de modo nenhum aplicando-o ao passado (Kitts, 1962, p. 306).

3. Penso especificamente na geologia, mas também na biologia e mesmo na filosofia e disciplinas derivadas, que não são lá das ciências naturais, mas partem (senão, pelo menos, deveriam) da mesma base, a realidade concreta, o hábito ou teoria dominante.

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