julho 10, 2007

Buracos de vermes nos miolos

Desarranjo visceral podem ser vermes. Mas se os indícios são entendidos fracos nesse sentido, fica o rumorejar premonitório, o augúrio desse desarranjo. Premonição retrospectiva, que vê, pelo efeito, insinuarem-se as causas. Nesse sentido, a casa ter desmoronado é evidência – ainda que, é bem verdade, nem por todos reconhecida – de furos na estrutura.

No blog do Noblat d'O Globo On-Line, em “Premonição”, a ilustração de um Renan Calheiros parasitando a cadeira do Senado, é o que se pode chamar de um retrato a Dorin Gray.

É infestação, e não mandato.

O Senado e a Câmara dos Deputados sofre de infestação de um tipo de verme; ele causa alucinações esquizofrênicas que já não deixa ver o buraco da corrupção que rói a instituição secular e torna decadente as colunas da nação. Tudo é recoberto, esquizofrenicamente, com o verniz de formalismos vazios, de brilho de integridade, de coisa nova, mas cheira a mofo. “A verdade aparecerá e mostrará que a razão está comigo...”; com letras grandes, “O dossiê ignorado” ignora as provas, enquanto declara que “não pairará dúvida” depois dele; pergunta-se o Sr. K., “Do que é que me acusam? De ter um filho fora do casamento?” como se seu maior pecado fosse ser o dono de um rebanho como quem se jacta do maior falo, e das vacas que cobre, como um Júlio César triunfante, que manda no Senado por virtudes superiores que tais.

Renan é um elemento mágico, é um ente sobrenatural, fantasmagoria, alucinação das paredes do Senado, assombrado pelo horror que elas testemunham.

O lugar não é bem habitado; maldito, é assombrado por agouros pestilentos de horrores sem-nome, que jornal nenhum relata.

Há quem diga que a assombração é simples doença mental; então este é um país de loucos, com o seu chefe louco e o séquito de insanos que o segue.

*

A popularidade do presidente Lula, seu “desempenho pessoal”, cresce e já conta com o apoio de 64% da população entrevistada:

A estabilidade da economia e os programas sociais do governo continuam sustentando a popularidade do presidente Lula em altos patamares. A avaliação do governo Lula é a segunda maior desde a crise do mensalão em 2005.

Pela pesquisa, Lula é isento dos problemas políticos, tem carisma pessoal maior do que seu próprio governo e conta com a estabilidade da economia”, disse Ricardo Guedes, responsável pela pesquisa do Instituto Sensus”.


É tudo meio atravessado mesmo. A rejeição à lista fechada vem ao encontro daquilo que o artigo d'O Globo chama de “carisma pessoal”. O brasileiro vota na imagem, vota no candidato, nunca no... presidente. O triunfo do presidente é ser um candidato vencedor – e que, quando chegue eleito, não se faça esta distinção, já não espanta. E o brasileiro respira aliviado e comemora depois da eleição:

A enquete também ouviu os entrevistados em relação à reforma política em discussão no Congresso. Dos 46,8 por cento que tomaram conhecimento do assunto, 74 por cento são contra o voto em lista pré-ordenada pelos partidos, como querem PT, PMDB e DEM (ex-PFL).

A cadeira do Senado é o corpo daquele Brasil formal do Machado de Assis, caricato e burlesco, que não tem como trabalhar pela boa “natureza” do povo brasileiro, que deverá vê-la perdida progressivamente, carcomida por uma já vasta infestação de vermes esquizóides.

Quanto mais as coisas vem à tona, menor é a vontade de acreditar na realidade, e maior é a necessidade de sobreviver no mundo kafkiano de Renan.

O povo brasileiro reconhece alguma coisa nesse inconsciente coletivo esquizofrênico, que é como a exsudação do feromônio pela pele lúbrica da massa, que reconhece um rei sem arestas, um rei que é a imagem mesma da unidade do povo.

Como certas febres, que se alastram pelo contato e evoluem à demência, porque já não há como escapar às seqüelas.

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