junho 08, 2007

A torpe carantonha da imprensa esportiva

Num dos programas mais patéticos dos últimos tempos, sem ter do que falar, o jornalista e âncora do programa Terceiro Tempo da Rede Record, Milton Neves, bem como toda a claque de “comentaristas”, apelaram para a chacota e à tática “bate e assopra” contra os Gaúchos para mostrar toda frustração com a classificação do Grêmio de Porto Alegre sobre o Santos Futebol Clube na Taça Libertadores da América. O assunto aqui não é, todavia, o futebol, mas coisa mais séria. Com alguma divergência, é bem verdade, mas mantendo-se, na média, atrás de assuntos menores, o programa teceu o melhor retrato de sua índole. Como um Dorian Gray que já não pode esconder sua fealdade, surpreende que não seja objeto de estudos sérios as mazelas dessa imprensa pasquimiesca. Todas as faltas éticas começam com estas inconsciências malandras e com a negligência de se apontá-las sempre que elas aparecem.

Mantém apenas um verniz de jornalismo, que os seus programas de esporte apresentam, e por baixo fica aquela volumosa carantonha malformada pela corrupção a inverter sentidos e criar o melhor futebol do mundo que o patrocinador quer jogar. E isso fica claro, quando ele declarou recentemente, como está no post “Formadores de opinião vendida” do dia 20/05/07: Torci para o São Paulo, Sim...”. Disse ele que pensou em “ter assunto” para falar, que, para ele, é o que interessa.

O programa do dia 07 de junho último do apresentador desfiou torpeza, negligenciou qualquer fato jornalístico, comentou opiniões magoadas e balbucios canhestros (e, certamente, negócios frustrados). Agarrados às declarações desaforadas dos diretores gremistas (não sem a contraparte de barbarismo, além do surrupio de ingressos à torcida gremista), abstraídas todas as verdadeiras circunstâncias, o que desqualifica a parte jornalísitca e cai para o desabafo e à mera contrariedade.

Ora, para uma semi-final de Libertadores da América, um dos campeonatos mais meritórios que um clube pode almejar, e para um programa que se quer esportivo, com ênfase no futebol, fica claro que o que o interessa estava em outro lugar. O Santos na final da Libertadores daria “muito assunto” ao sr. Milton Neves, como poderia querer-se dele outra coisa? Que ele próprio, talvez ingenuamente (ou sem ter como evitá-lo) o declara por incontáveis vezes. No demais, há que ser cego para, poucos minutos assistindo ao programa, não ter cristalizada a natureza do seu âncora.

Mas, é bom notar, que num país onde nega-se uma assinatura quase no ato, não é de se duvidar de nada – coisa para lá de terrível nas suas conseqüências para a consciência do cidadão e para a educação de toda a gente.

E não é coisa que já não se tenha observado anteriormente. Veja-se, por exemplo, o artigo “Publicidade 10 x 5 Debate”, do Observatório da Imprensa, que relata um programa picotado pela publicidade, sem que se apresente mais que papo fácil entre um reclame e outro. O autor do artigo, Antonio Carlos Teixeira, escreve, ao final:

Só depois de duas horas assistindo a mais propaganda do que a debate percebi que tinha sido usado indevidamente pela emissora e, por que não dizer, pelos anunciantes”.

Outro exemplo, do mesmo site de crítica jornalística, é o caso em que apressadamente divulgou-se que a FIFA teria reconhecido um título do Palmeniras de 1951, como primeiro Campeão Mundial Interclubes, mas a história não era bem essa. De qualquer sorte, Milton Neves foi um dos que mais que rapidamente deu como “fato” o que, fosse ou não verdadeiro, já era “assunto” dos que o interessam, de grande apelo. No artigo “FIFA & Palmeiras – As afoitezas do jornalismo esportivo”, Walter Falceta Jr. – que chama Neves de “jornalista e publicitário” – escreve:

Com raras exceções, é fato que a cobertura esportiva enveredou pelo caminho da celebração farrenta, descuidando da checagem das informações, ainda que sobrassem indícios de que se tratava de uma decisão não-definitiva”.

Fica claro que a notícia era assunto mais que valioso, para que se tivess escrúpulos com o trabalho jornalísitico. Que estas coisas sejam assim, agora, se antes não foram percebidas (veja-se aqui), é para que já não devam mais ser consideradas para os casos em que a justiça é acionada para calar os detratores desta máquina de publicidade que é uma praga da imprensa de massa.




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