junho 25, 2007

Renan K. e o processo que condenou a realidade

Quando Renan despertou, certa manhã, de um sonho agitado, viu que se transformara, em sua cama, numa espécie monstruosa de inseto”.

Este talvez pudesse ser um modo do advogado de Renan Calheiros iniciar a defesa do conspícuo senador. Se bem que não se possa esperar muita chance de escapar quando os julgadores são o próprio enredo opressor, que parece que é regido pelas parcas schakespeareanas. A literatura é outra, no entanto, é de um outro o mundo fantástico de que se fala. Não é o reino de Macbeth, é o mundo de Joseph K.. Renan denunciou ser alvo de um processo kafkiano; Calheiros é um personagem kafkiano. É “Kalheiros”. É, por tudo que lhe acusam, como Maluf e Lula, o Mantega, a Marta, ora bolas, e, de resto, ainda que nem todos sejam mortos por inseticida, que pese não ter-se detetizado Brasília desde a inauguração.

Seguiria o rábula, descrevendo a situação kafkiana, a apontar contra seus antigos aliados, vira-casacas, que agora o abandonam “de costas”, deitado desconfortavelmente na cama que lhe prepararam, tão sordidamente. Renan viu seu grande ventre exposto para o ar, asqueroso, repartido como se a cada um coubesse uma parte. A coberta curta sentiu-a escorregar de cima dele, enquanto num debater de pernas que podiam alcançar longe, arriscava-se a atingir ex-amigos e amigos, e, ainda, as paredes brancas de concreto armado de todo recinto.

O tal processo foi reclamado por Renan como coisa lá de quem sofre de esquizofrenia, e curioso é que o tenha feito lembrando-se d'O processo, que é, não por acidente, a representação de uma esquizofrenia persecutória que no mundo literário é recorrente, como na loucura do nobre Macbeth, na excitação dos sentidos, no pressentimento da culpa, que a consciência já não pega, e lhe vem de fora como força da natureza incontida, que é só de onde pode vir o conhecimento de quem o acusa. Não há quem denuncie Kafka por esquizofrenia ou síndrome da teoria da conspiração, mas é inegável que o autor já sofre (e ou percebe) esta de algum modo. Não é diferente com Renan, que, ao que parece, caiu na própria armadilha, e agora diz que ouve um autor ignoto que murmura nos corredores do Senado sua condenação.

Nunca, nenhum dos autores tentou impor a sua ficção à realidade – pelo contrário, é na realidade que encontraram a inspiração de suas obras. Mas o caso do senador é o oposto, que as provas que já dá por feitas, antes de o serem, impõem à realidade a urdidura da burocracia e do corporativismo, como se fosse o formalismo a malha mesma da realidade.

Autor de mau gosto, a literatura de auto-ajuda de Renan o enriqueceu de vacas magras, e agora, robustecidas pela ficção (pastando cogumelos que crescem no prórpio estrume), e tendo comido da carne de vaca, sofre os seus efeitos.

Levou aos doutores da lei todas as provas que lhe absolvem, como se isso não fosse uma tautologia, que só um enredo cochichado ao pé do ouvido do Juíz pelo prórpio autor para ter poder de convencimento. Forneceu os documentos que todos pediram, que o absolvem, mas, por algum desvio kafkiano, negam-os.

Os recursos da defesa, como se pode ver, parecem cultos, mas não querer separar a realidade da ficção formalista e corporativa, deixou a usual cara de Valete do senador com traços monalísicos. Desfaçatez que, por trás, joga para dentro da toca do coelho toda realidade e acaba, com duvidoso humor, quase só com o sorriso indisfarçado, que quer pairar no ar, irônico, sobre a constrangedora situação, como aquele gato do país das maravilhas.

Com a razão burocrática, entende que um documento fornecido dá prova do que se pede, desde que o que se pede tenha sido o documento de prova. Ora, se prova era o que queriam, de prova foram supridos; materialmente. Mas agora estas sutilezas de chegar aos detalhes do que há escrito, e como se não fôssemos todos analfabetos funcionais, ainda ousamos entender o que não está dito no documento, que nos leva a conhecer que há um certo lucro impossível, que não há em terras secas de vacas magras e loucas. Essa lógica todos conhecem, é a lógica fantástica que aufere lucros sem fim, como dantes, quando anões fabulosos do orçamento atestavam, que o tesouro que lhes atribuíam era fruto de dezenas de loterias ao acaso. Quem viu nisto algum despautério, ilógica ou improbabilidade estatística, parece que deve reconciliar-se com a verdade de Renan e tentar vacinar-se contra a fé alucinógena da realidade.

Para nosso conforto, Epitácio Cafeteira, ex-relator no Conselho de Ética, declarou que, depois de 72 horas de “uma busca terrível”, não encontrara nenhum documento que incriminasse o presidente do Senado – seu amigo e aliado. Um dia depois apareceu a reportagem acachapante do Jornal Nacional mostrando as notas inventadas e, em seguida – ato contínuo – a declaração de Renan que teria “autenticado” as notas e que agora estava tudo provado. Tem-se que admitir que a estratégia de defesa de Renan é boa. Ele fala de igual para igual com os acusadores do sr. K. d'O processo, usa argumentos com a mesma lógica.

Quem dera, imagine só, K. tivesse podido contar com o advogado de Renan!

A fábula se materializa. O sr. K. está sendo condenado por um processo que não há; como não há indícios, não há nada, só a verdade, a despeito de todo o senso da realidade ter-se perdido, a verdade absolvirá o senador no fim de tudo, ele acredita. Afinal de contas, a verdade está sempre no final de tudo para uns, senão terá sido encoberta; já para outros, a verdade não está no fim, mas no começo de tudo. A esta inversão Renan chamou de movimento esquizofrênico, de desligamento da realidade. Terá ele se referido ao vestíbulo do Senado, àquela casa, como o buraco do coelho do País das Maravilhas? A revista IstoÉ deu tudo com a mesma versão, culpando Kafka pelo processo insano. Segundo a Zero Hora deste últimos domingo, dia 24, os senadores “não vêem, indícios para a cassação” (p. 17). Devem estar querendo dizer que não há “elementos” legais para a cassação, que indício é coisa que não falta, sejam pelas vacas envolvidas, seja pela notas que engordaram as vacas e as vacinaram, tudo ao mesmos tempo. E nem dá para falar que Olavo Calheiros, irmão do do Sr. Kalheiros, foi pego pela “Operação Navalha” (p. 14).

Ora, se o processo é kafkiano, não pode haver mesmo indícios; por isto, talvez, a defesa seja tão “mandrake”. Similia similibus...

Esse nosso país é mesmo o país do Renan “Kalheiros”, que disse que sofria um processo kafkiano. Isto é, que a realidade que o põe acusado é esquizofrênica, que não é real. Nesse processo, só quem pode ser condeanda é a realidade. Por fim, o Sr. K., de O Processo, sentiria náuseas se um dia acordasse em Brasília; e Gregor Samsa, de A metamorfose, sentiria asco se um dia acordasse e se visse – Horror! – metamorfoseado em Renan Calheiros.


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