junho 10, 2007

O melhor argumento contra o aborto


Com a Gisele defendendo o aborto, os não-abortistas não precisam mais se preocupar. É um anti-exemplo do que se queria dizer. Poucas vezes vi (...li) coisa que, tentando dizer num sentido, fosse tão eloqüente expressão do sentido oposto.

No jornal O Sul do dia 06/06/2007, “Caderno de Reportagens” (p. 4), a entrevista com a modelo Gisele Bündchen questionou-a sobre o aborto e outros assuntos, totalmente desinteressantes, mas, pelo menos neste ponto – é bem verdade –, trouxe algo fora do comum; segue:

O Brasil tem discutido muito o aborto ultimamente. Qual é a sua posição a respeito?

[Gisele] Sou a favor de a mulher fazer o que deseja de seu corpo. Fui a uma exposição em Nova York que mostrava o interior do corpo humano e as fases da gravidez. Até quatro meses de gravidez, não existe quase nada. É como um grãozinho. Portanto, acho que a mulher deve ter direito de decidir o que é melhor. Se ela acha que não tem dinheiro ou condição emocional para criar uma criança, como pode dar à luz? É claro que a prevenção é a melhor coisa, mas existem situações que escapam ao controle.

A Igreja Católica é a principal opositora do aborto no Brasil, bem como do uso de camisinha...

[Gisele] Proibir camisinha é ridículo, basta pensar nas várias doenças que são transmitidas sem ela. Quando a igreja fez suas leis, milhões de anos atrás, a mulher era virgem, o cara era virgem... Hoje em dia, ninguém mais casa virgem. Me mostra uma pessoa que seja virgem! Acho que é obrigatório usar camisinha. Como é possível não querer que se use camisinha e que também não se faça aborto? É impossível, desculpa.”


Na declaração da Gisele estão todos os melhores pontos para uma defesa da vida – expressão que, a propósito, é o oposto sardônico de quem entende ser um “direito de escolha” da mulher cometer o aborto porque “escapou”... do controle. Exemplo forte de quando o modo como se defende uma idéia é mais efetivo que o conteúdo que a defende. Coisa semelhante como quando se diz que se defende a paz a qualquer custo. Talvez seja por isso que a palavra no Hebreu para dizer paz diz, no seu lugar, “não-guerra” (o que parece que tem lá a sua razão de ser).

Direito de escolha é uma coisa bonita para não dizer que queremos ter o direito de não fazer nenhuma reflexão melhor sobre as conseqüências do que dizemos, fazemos ou simplesmente defendemos. A ênfase fica toda no “direito” – estas coisinhas inalienáveis que um Estado laico nos garante, pelo menos no discurso – e neste prodígio, que é uma conquista que não poderia ser maior se, uma vez nos fosse permitida a escolha, soubéssemos como usá-la além da autonomia de dar um passo livre para dentro de um buraco no meio da rua. Gisela mostra isso com a elegância que desfila nas passarelas.

Doutro modo, que a vida é uma coisa para além do que podemos decidir sob o pretexto de direitos individuais, que, de outra forma, produzem o status quo do direito irrestrito de todos fazerem o que bem entendem sem parar, como a Gisela, um só minuto para dar conta do que se vai dizer antes de abrir a boca. Direito à vida é uma expressão que se perde nela mesma para dizer, no geral, que a vida lá tem direito à vida, que é a tautologia humanista por excelência, ao contrário desta outra, anterior, que trata do direito de escolha, que como está no artigo 5° da Constituição da Terra de Santa Cruz, dá-nos o indefectível poder de decisão de não querer decidir ou, pelo inalienável direito à consciência, até abdicarmos dela. Para não termos consciência e nada, por ela, escolher.

Nem milhões de anos atrás as coisas poderiam ser muito diferentes, lá ou cá a vida continua uma coisa desconhecida. Quem soprou essa coisa por aqui ainda não deu as caras de tê-lo feito em outros lugares. Apesar disso não ser improvável vida em outros planetas (Gliese 581c quem nos diga) –, quando uma notícia aparece dizendo que talvez a vida (outra vez) possa ter surgido ainda antes do que se imaginava, as probabilidades ficam sem crédito e o que quer que seja que se diga fica sob suspeita, principalmente quando um grão de poeira interestelar de pico-magnitude (~0,000000001 mm), por mais bela que seja, resolve que depois de quatro meses o embrião ainda quase não há como vê-lo e, por isto, dá nada “decidir” se ele existe ou não.

Ora – Pelas penugens do T-Rex! –, decidir sobre se há ou não vida é coisa pr'outros mundos, que aqui, que se saiba, é só chutar uma moita que pula bicho de todo lado – mesmo que a gente não os veja.


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