maio 27, 2007

Ventríloquo de uma moral atravessada

Artigo publicado no Jornal da Ciência da SBPC, assinado por rgio Malbergier, jornalista e editor do caderno “Dinheiro” da Folha de São Paulo (15/05/07), onde o autor trata de uma Igreja que doutrina, um Estado que dá liberdades e de outros valores que julgam ambos. Para estes últimos, segue o comentário enviado a 17 de maio de 2007:

Resistir à religião

Pouco se discute no místico Brasil sobre as relações entre igreja e Estado, religião e liberdades civis. Talvez porque se discuta pouco no Brasil temas que fujam dos jogos da rodada e dos telenovelixos globais.

De olho mais na doutrina católica do que na vida de seus fiéis, o papa Bento 16 tomou pouco conhecimento das sensibilidades locais em sua primeira visita ao Brasil.

Ratzinger e seu segundo escalão bateram duro na relativa liberalidade moral do país -virtude que nos torna tolerantes com diferentes crenças e comportamentos.

E pouco disse sobre a devassidão moral de grupos que impõem a corrupção quase completa aos poderes públicos nacionais -alguns de seus representantes, inclusive, estavam na primeira fila de convidados.

O papa veio doutrinar o rebanho e pedir regalias para a igreja. Fez bem o presidente Lula, num de seus intervalos de extrema lucidez, ao se opor publicamente e com algum vigor à investida papal. Pouco se discute no místico Brasil sobre as relações entre igreja e Estado, religião e liberdades civis. Talvez porque se discuta pouco no Brasil temas que fujam dos jogos da rodada e dos telenovelixos globais.

É uma discussão muito presente nos EUA -onde a força da fé tornou-se força política- e nas áreas de alguma predominância islâmica -onde o extremismo muçulmano quer retroagir o Estado moderno a um mero serviçal de Deus.

Esse retorno da fé religiosa à esfera política, como mostram os exemplos acima, assusta e deve ser combatido.

As religiões devem ser exercidas com total liberdade. Mas sempre respeitando o direito de delas discordarmos. No Brasil, de instituições ainda em consolidação, a luta pela liberdade em relação ao credo religioso alheio deve ser apoiada.

Um de seus maiores combates é o aborto, e a coragem do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, é admirável. Outro, menos evidente, está sendo travado no Supremo Tribunal Federal, sobre a constitucionalidade da Lei de Biossegurança de 2005, que autoriza a pesquisa com células-tronco extraídas de embriões produzidos “in vitro”.

O subprocurador-geral da República Cláudio Fonteles, autor da ação de inconstitucionalidade, disse da geneticista Mayana Zatz, uma das cientistas mais respeitadas do país e defensora da legislação no STF: “A doutora Mayana Zatz, que é o principal elemento de quem pensa diferentemente da gente, tem também uma ótica religiosa, na medida em que ela é judia e não nega o fato”.

Zatz foi precisa na resposta: “Estou triste, porque isso contraria a tradição de tolerância e de respeito à diversidade religiosa que caracterizam este país. Posso garantir que minha defesa da pesquisa com células-tronco embrionárias está longe de ser motivada por razões religiosas. É por meus pacientes, para minorar o sofrimento”.

É essa tolerância que precisa ser defendida, com máximo vigor.”

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Notícias, Sábado, 26 de maio de 2007 no JC e-mail 3263, de 15 de Maio de 2007

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Enviado ao JC/SBPC em comentário ao artigo “Resistir à Religião”, de Sérgio Malbergier

no JC e-mail 3263, de 15 de Maio de 2007:

Resistir ao Bem (por Soberba)

Por que não tomar “entendimento” no lugar de “tolerância”? Não negar-se ao conhecimento, ao bem do conhecimento, que é um ato de soberba com ou sem religiões. E uma vez que tolerar já tem um valor implícito que não se sabe onde está e, portanto, se desconhece seus princípios éticos e quem os guarda, que não os mostra de jeito nenhum.

Se defender “com máximo rigor” a tolerância representar tolerância à falta de discernimento entre o certo e o errado, recue-se um passo por precaução. Se isto for proposto como algum modo de doutrinação que faz às vezes de substituta da dialética moral ao modo de nonsense-comum cheio de cacoetes de linguagem pós-modernistas – estes sim, verdadeiramente os aspectos místicos deste infeliz país do futuro, que lá nunca chega porque lá já está –, assume-se todos os riscos de se divinizar a “tolerância” como apanágio de um admirável mundo novo como o mostrou Aldous Huxley. Que seja vista como grande virtude nossa, não pode ser confundido com a relativização de valores que levam, entre outras coisas bizarras, a que se tente, como fez uma jornalista aqui do sul recentemente, mudar, como lhe parecia melhor, “aliciar” por “cooptar”, querendo por este jogo de espelhos iludir o espectador contra os gritos da vítima que se declarou aliciada; que levou um apresentador de programa esportivo, também recentemente, a dizer que associa, sim, a notícia ao que vende, mesmo que processe colegas por lhe acusarem disto, e vê-se juízes aceitando a imputação por difamação; litigantes de má-fé de recursos intermináveis logrando êxito permanentemente; assinaturas à margem de somas de peculato que o autor nega quase no ato; que faz duvidar-se já mesmo do flagrante, por incertezas jurídicas que apontam o direito à privacidade; corrupção que o político diz que não viu nem ouviu ocorrendo oculto dentro das suas próprias gavetas, que pensava ser um rato e o deixou em paz; os direitos humanos do bandido contra um estado de coisas opressor, fazendo da sociedade de bem (sim, existe isso), por uma volta lógica curiosa, ré de toda desordem; desordem contra as minorias decentes, porque são só virtude, e a sociedade impessoal, que não é ninguém, é todo o mal; some-se a tudo isto – quantitativamente, já que a vida humana não vale nada mesmo quando não se sabe a diferença entre o certo e o errado –, os 50 mil brasileiros que morrem assassinados anualmente (número, aliás, por algumas evidências, subestimado), para se ter uma idéia do caos, que só promete ser contido quando a sociedade se transformar num sistema normatizado e legalista feito de lugares-comuns em vez de consciência e discernimento moral. Que, não é que não existe, mas não é dado por ninguém, senão conquistado com alguma coragem, honestidade e amor pelo conhecimento.

Todas estas coisas são fruto de virulenta chicana, que já é o modo mesmo como a população passa, aos poucos, a pensar por padrões mentais, enquanto a imprensa a reproduzí-las com a força de uma praga de dimensões epidêmicas.

Não ajuda nada que os “formadores de opinião” usem a propaganda do que vendem como opinião, também as próprias idéias, ausente o devido contraponto – que é uma reflexão que não se permitem habitualmente, e por quais motivos esteja ausente, quaisquer que sejam, é já fruto da mesma loucura.

Por tudo isto, a defesa à tolerância precisa de um recuo honesto, e por qualquer coisa maior que apenas conforto nosso, fazê-la mostrar-se contrafeita pela fé nos valores que se busca reconhecer ao longo da vida, que não são dados por nenhum manual de ética aplicada publicado pelo Estado laico, pois estão somente na transcendência, que é do que trata toda religião verdadeira. Contra e além de liberdades morais que não são outra coisa que a marca de homens ocos. E, neste sentido, a liberdade não passa de uma resistência errante e ressentida de todo o Bem, e, por isto, sobrevêm em desespero.


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