maio 11, 2007

O que é o que é: que tu tens na cabeça?


O que há neste pacote?

Vejamos as opções que me foram sugeridas, duas delas, pelo menos, literalmente; as demais ficaram subentendidas:
(a) pasta de coca;
(b) tijolo de erva;
(c) artigo de sex shop;
(d) artefato para construir uma bomba;
(e) um livro.
A curiosidade seguiu, com olhares oblíquos, o pacote que carregava enquanto cruzava o centro da cidade. Imagine que você só tem, como opção, a, b, c, e d e que não pode, por absurdo estranhamento ou incrível que pareça, ver senão estas quatro primeiras opções.
Se você chegou nesse nível – o que pode acontecer a uma comunidade inteira – e está portanto entre aquelas pessoas que não podem reconhecer a opção e como válida, o problema é meu, que é quem carregava o pacote. Se quiserem achar-me por estes dias, certamente estarei dando satisfações à Polícia Federal, se não sobre as opções ilícitas acima, talvez por “incitar pensamentos libidinosos na poupulação”, que por não poder ver nada além do que reconhece intimamente, seja obrigada a admitir o que suspeita.
Minha aparência não ajuda lá muito, é bem verdade, mas até então o único constrangimento real limitava-se a evitar usar gorro preto, no inverno, próximo de bancos e carros-forte.
Mas, sendo assim, fica-se na situação do sujeito que teve que explicar-se a uma conhecida sobre o seu convite para ir à feira do livro e se viu constrangido a ter que trocar, figurativamente, das prateleiras da feira legumes e verduras por livros. É como se fosse, diz você, mas há livros no lugar de verduras e legumes. Isto não o poupou de ouviu ainda um “Mas o que ir fazer lá mesmo”? Feito o esforço, desfazia assim, com duvidosa eficiência, a desconfiança de que aquilo fora, por meio oblíquo, qualquer assédio.
Pois ora, como se pode cobrar qualquer coisa melhor de um povo ou comunidade que, como por esta amostra, vê um mundo empacotado por preconceitos de leis vegetais e lugares-comuns, sendo aí só por onde ela se move?
*
Não poderia deixar de notar – mais uma vez nesta página – o que concorre em sincronia. No encontro com a juventude hoje em São Paulo, no estádio municipal do Pacaembu, o Papa Bento XVI, lá em certo momento de seu discurso, cita, à guisa de guia espiritual aos jovens, a passagem de Mateus 1916-22, aquela passagem conhecida pela parábola em que Jeus diz que mais fácil é um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino do céu. Antes disso, no entanto, a passagem diz o seguinte (pergunta um jovem rico):
16Bom Mestre, que obras boas devo eu fazer,
para alcançar a vida eterna?”
17Jesus lhe respondeu:
Por que me perguntas tu o que é bom?
Bom só Deus o é.”
Bento XVI dá atenção, nessa passagem, e ao que se segue a ela, tomando como que saído da boca de Jesus – interpretando –, o sentido da aspiração honesta do jovem que vem até o Mestre, pois assim o reconhece, em busca de sentido, como resposta ao que fazer da vida para vivê-la na plenitude. O Santo Padre transmuta a pergunta por Que devo fazer para que minha vida tenha sentido, para vivê-la inteira e plenamente?, aproximando o anseio do jovem de hoje da parábola. Em seguida, completa: Por que me dizes bom?, pergunta ele, parafraseando a passagem de Mateus 1617. Só Deus é bom, diz Jesus; o Papa diz, em resposa ao anseio do jovem: é Acolher Deus para ser bom.
Nesse ponto o discurso se fecha e emenda, diz ele: O jovem tinha uma experiência da bondade, e pôde ver o bem em Jesus. Ao buscar a Deus, buscava o seu bem; ao realizar o seu bem, conhecia-o por Deus (que como e onde é mistério). O jovem que se chega a Jesus seguia os princípios, tinha ele uma experiência da virtude, da busca pelo bem, e só Deus é o bem, é dizer – nas palavras do Papa – Acolher Deus para ser bom.
Platão teria escrito, onde já não me recordo: Quem diz que conhece o bem e não pratica o bem, não conhece o bem. Não há como conhecer sem uma aproximação íntima com o que se quer conhecer, sem desejar conhecer e sem aplicar-se na experiência e na buscar por conhecer. É o processo cognitivo que é central aqui, perante o que se busca. A frase carrega a forma do processo congnitivo, que retém o bem como um alvo na consciência, que, uma vez lá, se o persegue; e já não se pode agir, quando ele é um conhecimento positivo, senão por ele, uma vez que se o reconheceu como verdadeiro. Se atendes ao mandamento “Não matarás”, é porque não haverá, desde então, em ti nada menos que repulsa por matar. A repulsa é o sentimento visceral de ter compreendido o bem do mandamento.
Porque o jovem era bom, viu a bondade no Mestre e a buscava ao seu bem – enquanto aos pobres diabos é reservada a desconfiança que eles supõem por falta de opção.
*
Agora vou revelar o que havia no pacote. Era, por incrível que pareça, só um livro; e no livro, logo no início, esse apólogo que seu autor, o filósofo Mário Ferreira dos Santos, acrescentou-lhe para meditar:
“Certa vez, um jovem, ansioso de conhecimentos, procurou um sábio que vivia isolado dos homens.
Senhor, — disse o jovem — vim à vossa procura, porque só vós sereis capaz de resolver o problema que me aflige. O sábio olhou o jovem com simpatia, e disse-lhe:
Fala que eu te ouvirei.
Senhor, por mais que procure Deus, eu não o encontro. Estive nos templos que os homens construíram, atravessei países, conheci diversas crenças, interroguei o céu, as estrelas, as nuvens, essas mensageiras meigas e suaves, o vento que embala as folhas das árvores, e não o encontrei. Creio que só vós sois capaz de responder à minha pergunta...
Meu filho, não crês que Deus seja o Bem?
Naturalmente, senhor.
Admitirias que fosse ele mau?
Como admitir tal coisa?
Não é ele o Bem supremo de tudo?
Assim o creio; mas onde está?
O sábio fez um gesto para detê-lo, e continuou:
Vês aquela planta que se desenvolve sob aquele carvalho? Não estende ela as suas raízes no chão em busca da água e do alimento? E não é a água e o alimento da terra o seu bem?
É, senhor.
E quando ela estira os ramos em busca do sol, do ar, não procura ela o seu bem?
Procura, senhor.
E aquele pássaro que canta naquele carvalho... Olha, ele desce. Vem até o chão. Vês como bica, aqui e ali... Que busca ele? O seu mal?
Não, senhor, o seu bem.
E não busca tudo o seu bem?
Busca, senhor.
E tu, quando me vieste procurar, buscavas o Mal?
Não, senhor, eu procurava o Bem.
E saber onde está Deus, seria para ti um mal, ou um bem?
Um bem, senhor.
Então, ao achares Deus, acharias um bem, que é o teu bem, não é verdade?
Pois não é Deus um bem? E ao achá-lo não conhecerias um bem, por tua vez?
É verdade, senhor.
E achas que o teu bem seria um mal para Deus?
Não, senhor, pois ele, que ordenou o mundo, deu-me o anseio do bem.
O sábio sorriu satisfeito, e disse-lhe pausada e paternalmente:
Pois, meu filho, respondeste admiravelmente. Deus, que é o Bem, ordenou o universo. E é da lei do universo que todas as coisas busquem o seu bem. Mas o homem é livre, e pode procurar o próprio mal. Tu não queres o teu mal...
Nunca, senhor.
... queres o teu bem. E ao querê-lo, cumpres a lei de Deus, e ao buscá-lo, buscas Deus, porque Deus é o bem. Fez uma pausa, e prosseguiu:
Meu filho, olha para dentro de ti. Realiza o teu Bem. Ele não necessita do mal de teu semelhante. Ama o teu bem, respeita-o, como deves respeitar e amar o de teu semelhante. E à proporção que realizes em ti, e à tua volta, o Bem, Deus há-de aparecer cada vez mais nítido para ti, pois Deus é o bem, o supremo bem que todas as coisas anseiam.”
*
Porque o jovem era bom, viu a bondade no Mestre e a buscava ao seu bem – enquanto aos pobres diabos é reservada a desconfiança que eles supõem por falta de opção.
Responde por ti mesmo agora: O que há no pacote?
*
Por que razão as desconfianças da rua, o texto do livro e a pregação do Papa coincidiram com sincronia hoje talvez só o explique uma experiência direta de que Deus ordena o mundo e no-los faz ver quando seguimos o nosso anseio pelo bem, para como está no apólogo, “à proporção que realizes em ti, e à tua volta, o Bem, Deus há-de aparecer cada vez mais nítido para ti, pois Deus é o bem, o supremo bem que todas as coisas anseiam.

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