maio 01, 2007

Novos mundos, outros mundos

Algumas notícias concorrem em sincronia:

Descobertas:
  • planeta nos arredores de uma estrela anã vermelha, em uma órbita habitável (JC/SBPC em 25/04/07);
  • encontrado mineral semelhante à kriptonita (Jadeíta) da ficção do Super-Homem (JC/SBPC em 25/04/07);
  • continente do Mesolítico desaparecido sob a água de degelo interglacial revela civilização de caçadores-coletores-pescadores (JC/SBPC em 25/04/07).

Não estranha que um fragmento de kriptonita na localidade de Jadar, na Sérvia, não seja o pedaço de outro mundo, desconhecido, mas qualquer coisa ainda desconhecida deste mesmo mundinho já lá sem maiores mistérios. Ou, pelo menos, com homens menos afeitos a crer neles. Que seja assim, nem o pedaço de um mundo desconhecido, explica a falta do mistério.
Escapou que o mundinho próximo à Gliese 581, há 20,5 anos-luz da Terra, pode comportar ou ter comportado uma potencial civilização extinta depois do colapso de sua estrela, que atualmente é uma anã-vermelha com 1/3 da massa do nosso Sol. Ora, se sabe que as estrelas de pequena massa tem vida média maior que as estrelas de massa maior, isso significa que, se por um lado a estrela teve muito tempo para o aparecimento e desaparecimento da vida, e até de civilizações imagináveis, as melhor condições –-- para os nossos padrões, pelo menos --– teriam passado a existir apenas nas últimas fases do ciclo de vida deste sistema solar promissor. Lembrar a propósito, que a estrela de Kal-El era uma estrela vermelha (gigante) que passa por uma crise, o que condena a civilização de Krypton.
A kriptonita jadeíta é quase a mesma descrita na ficção, basicamente constituída de sódio, boro, lítio e hidróxido, faltando-lhe apenas o fluor para coincidir em tudo com o mineral extraterrestre que lembra ao Super-Homem que santo de casa não faz milagre. O novo planeta, ainda sem nome, que guarda possibilidades de vida, ainda tem sua massa não muito bem calculada e a composição da atmosfera precisa ainda de dados sobre a luz emitida pelo planeta para determinar do que é feita [atualização de Out 2010]. Simbolicamente, o nosso sol amarelo devolve aos kriptonianos toda a força de lembra a grandeza de que sua civilização era dotada antes da crise solar, enquanto o próprio planeta tornara-se, como que se lembrando seus habitantes, signo do seu maior mal.
É inegável que esse sincronismo é irônico, pois nas atuais condições, confirmada a crise ambiental [que em 2010 já parece ser só política] e o fracasso da espécie humana em se tornar no que é capaz, parece que somente um herói extraterrestre para tirar-nos do nosso gigantesco sarcófago de carbono. Na falta do humanóide superpoderoso, vale encontrar um novo planeta, como aquele que se achou em torno de Gliese 581. Não tem graça, por outro lado, que a kriptonita lembre que outro planeta habitável seja quase igual ao de sua origem, e, de volta, acerte em cheio as nossas esperanças, sob essa lembrança, de que o fragmento de outro mundo seja ao mesmo tempo o do fim deste mesmo mundo.
Como se não bastasse, “outro mundo” é encontrado no fundo do Mar do Norte, na costa leste da Inglaterra, ilhas Shetlands e Escandinávia. O nível do mar teria subido em 4.000 anos e ocupado 23 mil quiômetros quadrados, quando a população humana já ocupava ostensivamente regiões que teriam começado a desaparer sob as águas. O “paleo-continente” submerso não tem sobreviventes, que se saiba, mas se existisse um, pleo menos, talvez ele tivesse algum poder de nos convencer, por comoção, que é coisa que se atribui aos heróis da arte dramática, da unidade da experiência humana na Terra, que é de onde deveriam sair valores de convívio, pela autoconsciência da prórpia experiência individual como reflexo de aspectos universais da experiência.
Por mais que se jogue com as palavras, parece que a promessa de heróis e novos mundos devolvem-nos sempre para o nosso lugar de origem. Há sincronicidade simbólica entre o signo de um mundo extinto, aqui e agora, o próprio mundo extinto, e a promessa de um novo mundo. A falsa kriptonita lembra que o mundo que não existe é muito próximo deste mesmo mundo que existe ou pode deixar de existir logo depois, que é o símbolo doloroso do mundo decadente, que não é real, mas é possível.
E aí está tudo que um mundo sem mistérios sugere, de um novo mundo extinto possível, a já ele próprio, submerso no Mar do Norte ou perdido por 20 anos-luz, distante.

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