maio 20, 2007

Formadores de opinião vendida

O fascínio que as camisas dos clubes de futebol exercem sobre o torcedor cria uma mitologia moderna, digna de narrativas épicas já não possíveis em outras áreas. Feitos de guerra, por exemplo, somente são notáveis com a distância do horror dos milhares de civis mortos e abstraídos os dias que se passa sob esse horror. Não é incomum, no entanto, que estas imagens de poder sejam adotadas por governantes (oportunamente) que invocam a lembrança de heróis míticos como reflexo de valores pegos emprestados por quem os invoca. Mesmo o excelentíssimo chefe desta nação já o fez algumas vezes, quando se comparou a Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e ao próprio Cristo, que eu me lembre.

Outro uso que já não é incomum é, por certo viés da canalha nacional, a utilização da boa fé do torcedor por seus símbolos habituais, e o uso destes para dar lastro a símbolos outros, por empréstimo, como modo de auferir qualquer simpatia do torcedor a estes outros. Produz-se assim, artificialmente, uma ligação entre heráldica e marketing. Outro viés é dar valor não pelos feitos dentro do campo de batalha – ou, do campo de futebol –, mas por um trabalho de publicidade bem feito. Assim é que clubes brasileiros que nunca mostraram o valor de um campeão de título internacional são considerados, ainda assim, “grandes” e, por este indefectível imperativo, concluir-se que não podem perder, pois é da sua natureza habitar os mais altos píncaros da glória, que lhe é a essência mesma, quando não, eles próprios, a essência mesma do futebol. Foi aí que se criou o torpe futebol bem jogado só quando jogado pelo meu time. Chicanagem!

Mesclar notícia com propaganda, colocando-os no discurso em continuidade a ponto de não se saber quando terminou um e já começou o outro, é para perder a noção entre uma coisa e outra mesmo – mas o que, como se verá, tem lá a sua razão de ser.

Nossa fabulosa mídia televisiva, que tanto se inspira na fantasia para criar mitos, especialmente ilhas de embotamento, mostrou neste último dia 7/05/07, no programa Terceiro tempo, por ocasião da vitória gremista sobre o São Paulo em confronto pela taça Libertadores da Amétrica, o apresentador Milton Neves, que declarou “Torci para o São Paulo, Sim...”. Diz ele que pensou é em “ter assunto” para falar, que, para ele, é o que interessa. Isso não quer lá dizer muita coisa longe do contexto da chicanagem a que os jornalistas esportivos se dedicam mutuamente.

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Se os times daqui vão bem, tem assunto para falar e todo mundo ganha – e que se dane o jogo limpo. Fica bem mais fácil de entender por que o presidente do Corinthians, Alberto Dualibe, e o sr. Mário Celso Petraglia, do Atlético Paranaense, nunca foram punidos por terem sido pegos tentando acertar resultados com o chefe dos juízes. Curiosamente, o sr. Jorge Kajuru, que critica Milton Neves por ele vincular o jornalismo esportivo ao marketing e o reputa sardonicamente o “rei do jabá”, em referência à caixinha que ele fez dos seus programas na TV, é alvo freqüente de processos e, amiúde, réu condenado.

Com poderia ser diferente, se no congresso nacional, em escândalo recente, os caçados foram o arrogante e o alcagüete, os demais só foram condenados por um cálculo difícil que deve envolver uma menos-valia nos negócios que a eles lhes interessam.

Aí vejamos o que se passa mais de perto. - Segue esta declaração:

Eu não sou desprezível. Ele não é desprezível. Ninguém é desprezível. Precisamos nos respeitar porque somos formadores de opinião. Eu somente entro na Justiça em último caso”.

Bem curioso que ele se identifique com um formador de opinião, mas não ache estranho declarar que torce, de início, para um time, não por afinidade clubística, mas por negócio (!). Que torcida dele é propaganda! Que outra conclusão se pode tirar? E que, por efeito, tem o seu programa a função de uma máquina de propaganda dos clubes que lhe dão retorno financeiro (ou leia aqui no original).

Vejamos, então, como ele se encaixa nesse negócio de “formador de opinião”. Uma vez que ele se manifesta de modo a deixar claro que é “garoto propaganda”, mais que comentarista esportivo, é dizer, sem ter como concluir outra coisa, que ele forma opinião para quem paga mais. Ora, como pode ele pedir respeito mútuo justamente para aquele que o acusa de não ter opinião, ou tê-la, com o devido lastro em ouro?

Em vez de afirmar valores éticos – pois não é outra coisa que ele pede quando invoca o respeito mútuo entre “formadores de opinião” –, no exercício de sua profissão, o que faz é se transformar em um formador de opinião paga! Ele monstra que se puder formará a opinião dos espectadores de modo que eles vejam os times de São Paulo e do Rio com os melhores ou que, pelo menos, eles devam ser os melhores ou que haja injustiça quando eles não o são. Por aqui no sul, o locutor Pedro Ernesto declarou coisa parecida, quando admitiu que torcia para o time que representava a manutenção do trabalho dele, portanto, e não poderia haver, por isto, empatia por um ou outro time.

É também, para quem pede paz nos estádios, uma reflexão defeituosa, quando massas de torcedores, que vêem repetidamente seus clubes serem declarados os maiores e mais dignos das vitórias, por algum tipo de emulação dos céus, e quando não vencem, sentirem-se no direito de apontar uma arma na cara de alguns jogadores.

É evidente que é um caso em que a ética foi jogada no lixo ou, reciclada por uma ética postiça, que declara que o bom futebol é jogado pelos times que o escudo rende os melhores dividendos. É uma espécie de dinheirismo e clubismo que avilta o esporte e deseduca a população. A lógica é invertida: primeiro meu clube, a vitória dele, depois o meu gosto pelo futebol e pelo esporte, que tem lá, no entanto, as suas regras e a sua ética, que não podem ser quebradas sob o risco de se passar a admitir que o melhor futebol é quando o meu time vence.

(Continua em “Branca de Neves e os sete anões do orçamento”)


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