maio 07, 2007

A biblioteca esvaziada


Biblioteca nacional, Rio de Janeiro.

A rigor não deve haver livros que estupefazem, mas leitores com maus hábitos de leitura. Posto isto, pode-se perguntar qual o papel das bibliotecas em educar o leitor. Como se monta uma biblioteca do nada? Quem a idealiza? Quem pensa uma biblioteca ou quem deve pensar uma biblioteca, e quais as aptidões ou formação para se montar uma biblioteca? Quais os livros iniciais, por onde se começa? Pode uma comunidade partir do que sabe ou do que reconhece e do que lê habitualmente (quando lê) para montar uma biblioteca?

Em visita recente a uma biblioteca, observei algumas coisas preocupantes; hei-las:

1 – Atendentes e uma bibliotecária, mas nenhum cadastro de livros, nem autores, nem títulos.

2 – Uma maioria de livros atuais, de apelo popular e de vida curta, sendo que os espaços destinados às bibliotecas públicas é limitado.

3 – Mesas pequenas, cadeiras pequenas, mostram que o uso habitual está restrito a turmas de pequeninos, que freqüentam na maioria as primeiras séries do ensino fundamental.

4 – Insípido (se existe algum) conhecimento dos clássicos (e do papel deles numa biblioteca); há mesmo dúvida que uma coisa possa ser melhor que outra, que pessoas possam ser melhores que outras, que existam livros bons e livros ruins.

5 – Investimentos por encomenda – que os freqüentadores pedem.

Por um inviabiliza-se qualquer tentativa de leitura comparativa e por temas (leitura “sintópica”). O discernimento parece mesmo algo longe de ser reconhecido como desejável. Quatro e cinco são conseqüências disto. Por dois se nota que a biblioteca não difere, para quem a idealiza, em nada das bibliotecas escolares, quando as há. Não há idéia de que tal espaço possa e deva ser dirigido ao cidadão para formá-lo, e para isto, ocupe-o pessoa hábil na leitura, na organização e hierarquia de uma biblioteca, bem como – que não se pode esquecer – nos grandes autores e, se possível, grandes idéias. Como há cursos tantos por aí, uma biblioteca pública deveria poder ministrar cursos de leitura para a massa adulta.

Quanto bem poderia fazer como centro cultural, mas o que se vê é que elas se atrofiam aos poucos, salvo talvez nas capitais e nas cidades que têm heranças culturais fortes. De qualquer forma, mesmo nestas, esse papel não parece que é tão claro ou que não seja cada vez mais obscuro.

Biblioteca é coisa de criança por aqui, ou fizeram dela uma ambiente externo das escolas primárias. O terceiro item aqui pede que perguntemos O que ocorre com os adultos? Já devem ter se resolvido, já são donos da suas vidas; já não precisam de livros? Afinal de contas, não cultivar nada é também um tipo de cultura. Que tipo de crescimento superior alcançaram os adultos para que estejam fora das bibliotecas? E o quanto isso contribui para que os adultos de uma comunidade não sejam capazes de reconhecer nas leis a ordem comum dela própria, porque não sabem lê-las, ou quanto isso significa à inaptidão cognitiva para temas como meio-ambiente, ética, ciência e para as questões gerais da vida?

Mas mais curioso é que ainda se estimule a leitura, como se fosse um bem superior – e não se discute isto. Toda boa sorte está em aprender a ler. Nem nos lembramos mais por que uma biblioteca existe, é puro hábito mental, repetido desde a novela, passando pelo noticioso na TV, e papagaiado pelas professoras; a dizer, com saber superior, “leia mais”, “ler é um exercício” e outras coisas assim. Como se tivéssemos que equivaler a leitura de um clássico a uma quantidade comutável de abdominais. De tanto repetir-se estas coisas, ninguém as discute, mas também, já não paira dúvida, pouco sabem do que se trata. Isso se deve a um senso-comum fabricado pela inépcia. Aos poucos, vai-se perdendo qualquer sentido prático das bibliotecas, que vão paulatinamente se tornando coisas abstratas incompreensíveis, até que algum vereador irá propor um outro uso para os espaços das bibliotecas públicas, transferindo às escolas municipais os seus exemplares.

Em quatro vê-se que o conhecimento de hierarquia é coisa pra lá de estranha por aqui. Há preconceito mesmo em se dizer que há diferença entre uma coisa e outra, por qualquer critério, e, por ele, distinto mérito, que é como que um viés do politicamente correto, uma etiqueta perversa. O estulto político e o professor emérito são iguais – nenhum é melhor que o outro, cada um na sua área. Tempo de exposição torna qualquer um superior.

Há o entendimento que o caminho da leitura começa por qualquer parte e é um caminho único, independente de onde se parta, o que, se não parece falso, é coisa contra a qual se deve ter alguma cautela. Apenas uma única coleção de pocket books trazia títulos universais. Mas o que adianta, se o extrato deles permanece um verniz que as edições brasileiras se esmeram e que já até comemoram, quando ouço um dos seus representantes (se não me engano, da L&PM) dizer, com orgulho, que um livreiro francês mostrou-se impressionado com a qualidade das nossa edições (!). Vindo de um povo que cultua a prática da leitura, isso soa mais uma provocação, mas não para o livreiro daqui.

O filósofo e educador Mortimer Adler, morto em 2001 aos 98 anos, dá, com certo rigor, que 99% dos livros escritos no ocidente “não exigirão o bastante de você para melhorar as suas habilidades” ou contribuirão com mais que informação, em vez de desejável discernimento. Segundo Adler, somente alguns milhares serão realmente superiores, e talvez não chegue a cem aqueles que merecem que se diga deles que “não pode ser exaurido nem pela melhor leitura de que somos capazes”. Sobre este educador, por ocasião de sua morte, escreveu o filósofo Olavo de Carvalho:

O falecimento de Mortimer J. Adler, aos 98 anos, há cerca de um mês, não foi registrado pela imprensa nacional. Duvido que não haja pelo menos uns poucos brasileiros que devam a esse filósofo e educador o melhor do que aprenderam nesta vida – mil vezes melhor do que poderiam ter aprendido em qualquer curso universitário ou na leitura diária de todas as publicações culturais impressas nesta parte do mundo. Mas, no geral, a cultura nacional está hoje nas mãos de pessoas que ignoram Mortimer J. Adler. Se não o ignorassem, não seriam o que são, nem a cultura nacional a miséria que é” (Época, 21 de julho de 2001 e aqui).

E por ser desconhecido, se esclarece parte da ausência de dúvida sobre a natureza e a função de uma biblioteca pública – como meio de alavancar o discernimento de uma comunidade e de representar o que ela repete como um papagaio, sem saber dizer porque ou dizer, com o entendimento da fé, as palavras que repete.

Por cinco já se elimina qualquer chance de educa o leitor e melhorar a população de leitores, de levá-lo de uma condição de saber menos para a condição de saber mais, como escreveu aquele educador, e oferecer a este leitor livros que exijam dele mais para recompensá-lo melhor. Assim, desde que os próprios decidem, com aquela liberdade que um condenado tem de botar a corda na árvore, no pescoço, e pular dela. As próprias doações atulham a biblioteca de caricata “auto-ajuda”, que não ajudam o leitor a ser um leitor melhor, que muito pouco distinguem-se entre si, o que deve dar prova de que o leitor não pode esperar encontrar ajuda nessa área totalmente sozinho.


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