abril 18, 2007

A superfluidade melíflua de Amélia


(Por ocasião de oferta da governadora a aliados dissidentes)

Já se chamou isto de “tucanar” o vocabulário, de uso corrente na boca de libertinos liberais e da estratégia maliciosa de leguleios da corte política escorreita, cuja superfluidade alvissareira vislumbra um mundo novo que tem o seu fundamento na própria visão profética, e que, ao anunciá-lo para breve, o realiza desde então. A este fenômeno denominou-se “profecia que se auto-realiza”, porque carrega já na sua elocução a ocasião do início do que deve ser realizado.

Não é descuido, é construção de um mundo com tijolos que não são lá bem tijolos, que compõem uma casa que não é lá bem uma casa, que se sustentam sabe-se lá como, pela tinta da aparência de que a arquitetura é já algum tipo de cimento. A translação semântica de “aliciar” por “cooptar”, que a Sra. Ana Amélia Lemos sugeriu no Jornal do Almoço da RBS TV, do dia 15 de abril, é uma pérola excretada pelo doentio espírito de galhofa nacional.

Trocou-se o suborno malicioso e sedutor de “aliciar” pelo sentido jovial de uma dispensa das formalidade de praxe de “cooptar”, que agrega a dissidência no seio da Grande Vaca política:

“Palavra forte”, disse Ana, “melhor ficaria 'cooptar' [por aliciar]”.

Muito boa essa!

Como esperar mudanças éticas por aqui se na cabeça da gente da grande mídia esse “ajuste” de intenções se dá já e abertamente (!), mediando o que está dito de forma inequívoca pela gente aliciada: “Estão nos aliciando!...”. Mas não, Amélia preferiu corrigir quem estava sendo aliciado, segundo ele próprio, para “cooptá-lo” ao governo do Estado.

Como se favorecesse um estado de normalidade que se maquia na frente do espelho e só se aquieta quando a cara feia deformada, que ele via, está já coberta por uma face jurídica incólume, em cima do palco, a atuar, e receber de todos aplausos macaqueados e satisfação pelos esforços que o engodo exige. Há esse acordo com o auditório, que vê a aberração, mas concorda que, para que as coisas não sejam as piores, melhor acreditar na mentira. Mentira meticulosamente preparada para criar o efeito de verossimilhança que nos aquieta e permite que a discussão pública se mantenha esterilmente a mesma, por mais alguns anos.

Mas não é estranho que se tenha dito há pouco duas coisas que deveriam fazer pensar, que talvez isto não seja bom? Primeiro, a FEPAM, que sabia de trabalhos de 40 anos atrás, que o Rio dos Sinos estava morrendo: e morreu; e segundo, que o governo do Estado criava orçamentos ficcionais há anos, há inúmeros governos já, que empurraram o problema até que não deu mais. E'ste ano aprovou-se um orçamento que no mais supera o bilhão de reais e que não existe de fato... Não é, por acaso, acreditar na mentira, para ver algo melhor?

Mas ver Amélia traduzir a inconformidade por uma tentativa de acordo civilizado não pode deixar de levar a concluir que é questão de tempo para a defesa de outras coisas ignóbeis pelo mesmo modus tomarem forma:

“Fui estuprada pelo meu padrasto, Sra. Ana Amélia”, diz a menina.

“Não, não, minha filhinha; diga apenas, fui “seviciada por incontinência espermática”.

Coisa de família.


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