abril 06, 2007

Inaptidão para o futuro

Onde se demonstra que o Brasil não é o país do futuro – O incidente que ocorreu no rio dos Sinos e que, de modo geral, é a realidade de todo fluxo de consciência limpa, mostra a profunda miséria do povo brasileiro, isto é, do homem médio brasileiro, que na esperança de tempos melhores, colhe a infortuna do tempo em que ele ocorre. Senão vejamos: ou se levou aos governantes o vaticínio do desastre e interesses não convergiram a favor, ou se negligenciou a possibilidade e isso é um fracasso igual; porém, é bem verdade, menor, já que não se instaurou oficialmente fé no problema. Tê-lo feito e, ainda assim, negligenciá-lo, seria ainda pior, ou... o pior em qualquer caso. O que faz aparecer outro problema, o de que não houve “fé pública” no problema, o que é o mesmo que dizer que não se pôde ver o problema, mesmo sendo ele apresentado (do modo como foi apresentado), nada se viu.

A gigantesca inaptidão do brasileiro para o futuro, evidente por fatos como este, se mostra já na hipertrofia de sua esperança. Que não vê o futuro, no entanto, é bem evidente. A ironia esclarecedora é que “evidente” é signo do que é plenamente visível, então é plenamente visível que o brasileiro não vê o futuro. Esperança, esse sisal viçoso que se dilui com qualquer coisa sólida, é o substituto esquizofrênico da mínima aptidão para o futuro. A inaptidão do brasileiro para o futuro é paradoxal, já que quando surge um verdadeiro profeta, ele vê o que o futuro é e será: igual ao presente. Ele anuncia então que vê o futuro! Todos o cercam e ele lhes diz que se eles prestarem bem atenção, veriam o futuro. Nada mais difícil. Como o futuro é o presente indisfarçado, há-de se ter grande acuidade de visão para ver o óbvio ululante do que se mostra com toda força bem ali, ao alcance da mão: “Como vedes o mundo, eis como será no futuro”. É'vidente! O futuro é o presente evidente, já aqui e a gora. E óbvio que um profeta assim passa por charlatão. Pois não é exatamente esse o papel do profeta? O que é mais estranho para os olhos que o dom de ver o que parece incrível? – o incrível futuro, como ele nunca se mostra. E continua, daí, sem ser visto. Há que ser profeta para viver o futuro. Por definição, o futuro deveria ser um lugar só de profetas, uma terra onde todos fossem profetas, e em vez de o futuro ser um porvir, seria um estado de consciência, um estado de diferenciação da consciência.

Ora, estes estado de consciência que é o dos profetas, é o futuro; que não existe nem pode existir num mundo ou tempo onde existem os profetas no sentido vulgar da palavra, pois o profeta é justamente aquele esquisito efeito que o futuro produz sobre algumas consciências que o antecipam. O profeta fala do nascimento de um homem novo. No futuro, os profetas são homens como qualquer um de nós. No presente, o profeta é um visionário, é um estado de consciência indiferenciado, porque é ainda na maioria inconsciente. Mas tem aquela redundância essencial de viver segundo alguma coisa que ele vê constelado no horizonte que o cerca. Como pode viver no futuro quem não seja profeta (já sem sê-lo)? Como pode ver e atuar no futuro um homem comum, que vive emerso no tempo, embuçado no hábito, que não passa de um filho bastardo do passado? A progênie de um cadáver com uma donzela sempre virgem, a Necessidade. Mas o futuro já não está aqui, agora, já não se vive ele de pleno? Há-de se ter que esperar o futuro como se fosse algo que viesse naturalmente, apenas com o passar do tempo? Não há como ver o futuro sendo filho desse casal medonho.

Corolário:

Chama-se futuro a abertura das abrangentes possibilidades reveladas a uma consciência desperta e que ela vê projetadas sobre o agora... O profeta vê distâncias na brevidade. Tem o sentido da transcendência que orienta a ação presente. Preparar o futuro é preparar homens com consciência suficiente para ver o futuro, senão ele não se materializa e ninguém vive lá... O futuro é a própria transcendência, e, por força lógica, é um distanciamento do agora. Se porventura o profeta vive cá, no agora, ele é como um cego para o que há de mais óbvio, que é a evidência de que a transcendência está ausente. Então ele não passa de um contemplador de horizontes interiores, um esquizofrênico, como toda a população, a imaginar terras utópicas no além temporal; vivendo o agora sem vê-lo, como ele é, um horizonte tão próximo que pode bem ser apenas um vulgar papel de parede.


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