março 26, 2007

The mist of antiquity novel

Boneco fóssil emerso em uma matriz grossa, arenito é provável, cimentada a óxido de ferro, ao que parece, que está exposta na mostra Future Fossils do Museu Grant de Zoologia, Londres, e segundo o portal Terra “Ciência”, os organizadores querem levar os visitantes a uma reflexão sobre a “cultura de consumismo da atualidade”.


O que mais estranha é as peças da exposição estarem soterradas por sedimentos finos e puros, ao que parece, arenitos e siltitos, que lembram mais a matriz que consagrou alguns fósseis famosos pelo perfeito estado de preservação. Mas é assim que o contraste fica mais forte. A imaginação rigorosa teria ainda que instar ainda a que se colocasse as peças sob novos processos de fossilização. Alguns milhares de anos são o bastante para deixar em escombros uma cidade de pedra e o que ela possa conter feitos uma massa indiferenciada de madeira, cinzas, poeira, rocha decomposta, óxidos diversos, um infindável número de outras substâncias e compostos, etc., feitos aterros insuspeitos. O calor e a pressão de compactação atuando durante algum tempo pode sepultar uma infinidade de peças da nossa cultura de quinquilharias dos mais diversos modos. Já a imagem decadentes das nossas cidades modernas feitas de de aço, alumínio e vidro pode, por certo, assumir o mais lúgubre aspecto no futuro, enquanto durem, eretas e abandonadas.

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O que por fim causa estranhamento nesta exposição parece ser o fato de que a rocha onde fósseis consagrados foram descobertos contenham peças do nosso cotidiano. É o passado que contém o presente? É o passado, no presente, que contém o futuro? A forma lógica mais correta parece ser esta última, desde que o passado não pode conter o presente, pois o presente não é o contraste polêmico do passado, mas sim o futuro. Às vezes de escólio: Ao conter o presente, o passado contém o futuro; é dispensável e confuso querer ver o presente aprisionado. Mas o presente pode se ver aprisionado por reflexo de um futuro já passado. Curiosa armadilha encontramos aqui. Ao ver-se refletido como um “futuro passado”, o presente pode ver-se, daí sim, naquelas imagens. O estranhamento parece que não poderia surgir de outra forma, deve ser necessariamente uma mediação, nunca uma experiência direta.

Que o presente se torne passado tem o efeito normal do fluxo do tempo; não é isto que se vê nas relíquias da exposição. A forma lógica não é o distanciamento do presente tornando-se passado, mas o resgate do presente no passado, e este resgate não é e não pode ser outra coisa que o futuro, por contraste, surgindo de dentro do passado. É o contraditório que dá o contraste paradoxal dessa relação, que a torna digna de reflexão atenta.

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A vida ou o que se reconhece por ela, presa como um inseto no âmbar, no esquecimento de pedra. Tem de equivalente à simplicidade serena das pedras de Stonehange mergulhadas in the mist of antiquity – que é o estranhamento d'o outro preternatural. E lembrar, bem... só com método.

Talvez se explique a sensação de estranhamento mais pela disfunção que se experimenta: por aqueles objetos, estendemos as mãos, mas o movimento está congelado. A'bstração do ato, do desejo, da vontade, taxidermizados pelo tempo, mergulhados no esquecimento pela distância, mas sob o sol da existência, ainda existimos, esta é a contradição pressentida. Desafia-nos um amor fóssil, um desejo fóssil, um arrebatamento embalsamado na argila, uma alegria de mármore, o riso preso num silêncio translúcido de gelo.

Coisas familiares emergem de um passado que aqui aparece como estranhamento do cotidiano. Estranha sensação de finitude, que o presente acabou, que já não havemos mais. Silencia a balbúrdia, somente coisas fundamentais restam; o sagrado amoral, a presença primitiva que há, sem interpretações e sem opiniões. Testemunhas evidentes do próprio desparecimento.


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