março 03, 2007

A liberdade que eu te ofereço, é perdê-la: Pega!

Chama atenção o comercial em que, na Rede Globo, uma criança tem os olhos cobertos por uma série de mãos de adultos, que retiram-se uma a uma, para ilustrar a mensagem “Os limites é você quem dá”. O anúncio, que está sob a “etiqueta” do engajamento “Cidadania, a gente vê por aqui”, veiculado estrategicamente, segundo a jornalista Leila Reis (de artigo original do caderno “TV&Lazer” d'O Estado de São Paulo), antecipando a publicação da portaria do Ministério da Justiça com o texto do Manual da Nova Classificação Indicativa para a Programação da TV. A relação que a autora faz é o de que o segmento “Cidadão” da Rede Globo não é gratuito, mas vêm de encontro a interesses que pretendem manter a frouxidão da programação da TV.
Segundo o artigo, que pode ser lido aqui, saiu um documento pela Associação dos Roteiristas, cujo presidente é Marcílio Moraes, autor da novela “Vidas Opostas”, da Record, que declara seu “repúdio ao ressurgimento da censura e, em nome dos autores e roteiristas de TV, clama por liberdade de expressão”. Ambas as coisas são constrangedoras, tanto o “oportunismo” dos profissionais remunerados por produzirem proteína de fácil digestão e nenhum valor nutritivo, oferecidas ao telespectador estupefato, quanto este abjeto “controle social da televisão”, que deve dar de viés vez a outros interesses. O livro-texto e o currículo na escola, lugares-comuns (vulgares) do “politicamente correto”, padrões de saúde doentios, licenças de todo tipo para as coisas mais banais, sob o critério único da burocracia com fim arrecadatório, impostos sobre impostos, já chegam para constituir o estelionato de Estado, de modo que não é preciso se aceitar mais um mecanismo de controle “social”. Concessão sempre foi coisa de interesse do Estado, mas não por motivos de interesse social, mas por regalos a amigos da melhor oportunidade.
O que deveria ser regulamentação crítica passa a controle ideológico ou a afinidades outras facilmente. Senão, vejamos: o “horário nobre” da TV é o das 6:00 às 9:00, quando termina o período comercial e a maioria da gente volta para casa, e justamente neste horário ocupam a programação séries de telenovelas alcunhadas de “teledramaturgia” as quais variam pouco os padrões dramáticos, ainda assim, não variam em diversidade, isto já há anos, mas ciclicamente se repetem e se imiscuem apresentando um novo reciclado. Desconheço que se tenha feito uma análise crítica sistemática desse tipo de entretenimento empulhador, de acordo apenas com aquela regra grosseira dos supermercados que reza que os produtos essenciais devem ficar no fundo para que se tenha que passar pelos dispensáveis antes de chegar àqueles, o que os torna “visíveis” quando, na maioria das vezes, se passaria por eles ignorando sequer onde se encontram.
Sendo concessão é óbvio que algum interesse do estado deve existir. Dizer que a telenovela forma uma “unidade nacional”, que acontece desde os seus assuntos, é a imagem do supermercado circular, cujo essencial é percorrer um oco central, como o buraco de uma rosquinha, pela força que ele tem de sugerir uma unidade. Que há uma identificação nacional pelas telenovelas é evidente, desde que se possa discutir temas abordados por este produto desde o norte até o extremo sul, é uma unidade de consciência comum, uma medida de consciência coletiva. No entanto, esta identificação está longe de ser unidade de consciência, porque, por baixo, dá uma unidade pérfida, vazia de conteúdo e cheia de bizarrices.
A classificação deveria “notar” que novela não é programação para passar às 6:00, 7:00 e 8:00, que são o horário nobre ou o início do fim do horário comercial, quando as pessoas podem voltar para casa e sentarem-se na frente da TV, já empurradas pelo cansaço, e facilmente ficar um pouco mais e outro tanto, por inércia. O que aconteceria se neste horário a TV estivesse passando apenas notícias, que parece que é a melhor opção para o fim da tarde de quem fica na frente da TV? Senão, porquanto seja o conteúdo do noticiário pesadíssimo, dê-se então informação culta e artes em lugar. Nenhuma classificação de conteúdo seria necessário mudar, desde que se reorganizassem os horários dos conteúdos. Sugira-se isto e veja-se se aceitam.
São os pais responsáveis pelo que as crianças assistem na TV? E quem é responsável pelo que os pais assistem na TV? Quem educa quem educa? E assim, alardeia-se a liberdade de escolha, declarando em alto e bom som a liberdade universalmente um direito de quem a reivindique para si. “Toma-a, é tua” diz o ser impessoal. É estranho que não se veja por aí que o direito à liberdade é um conceito contraditório, que não faz o menor sentido declarar algo como a “liberdade universal” sem atentar para os meios de exercê-la. É mera liberdade de “ir e vir” do modo que está. A propaganda pela liberdade de escolha é falsa, como de resto é falsa a declaração constitucional da liberdade inviolável (Art. 5º) ao modo da “liberdade de consciência” (VI). Na liberdade de consciência diz-se: “És livre para ser inconsciente” em vez de “Nada de embotamento”. É preciso declarar a liberdade de consciência? Ela é algo que pode ser-nos tolhido? Está a dizer-nos da liberdade de sentirmos a nossa própria dor e de termos os nossos próprios pensamentos confusos? É possível a liberdade inviolável sem consciência? Liberdade de consciência é liberdade de estado de consciência, daí também liberdade para ser inconsciente? Pode um país formar-se com cidadãos inconscientes? Não se chega aí, de volta, aos meios que facultam a consciência individual? Pode, destarte, existir a liberdade inviolável sem que se promova a consciência individual, sendo a liberdade universal inviolável totalmente dependente desta?
Mas quem vai dizer que atentar maliciosamente contra a consciência ou o quadro das coisas que a tornam possível seja privar-nos dela? E não está já evidente isto? Não é verdade que a liberdade de consciência e a liberdade de escolha são complementares? Que nada adianta-nos escolha sem alternativa, ou alternativa sem o poder de escolha? Assim é que a liberdade pode existir em um mundo de quase nenhuma alternativa e em meio à consciência frágil. Talvez seja esta a idéia de unidade nacional pela TV, ver o que todo mundo vê, e chamar a isto consciência, uma consciência coletiva – a massa obesa que secreta o muco da unidade orgânica que carregam os sinais químicos vitais da nova sociedade, como se fossem mesmo os mais fortes laços de família.

Nota técnica:
Oportunismo disfarçado”, artigo de Leila Reis (sobre mensagem da Rede Globo). Quarta-Feira, 07 de fevereiro de 2007. JC e-mail 3198, de 05 de Fevereiro de 2007. Leila Reis (leilareis@terra.com.br) é jornalista e crítica de TV, e publicou este texto no caderno “TV&Lazer” de “O Estado de SP”.

Nenhum comentário: